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A gorjeta

Leo Daniele

Quem não sabe apreciar as pequenas coisas da vida, está fechado para as grandes. Talvez por isso, que eu saiba, até hoje não surgiu uma sociologia da gorjeta.

Vem à mente uma cadeira um pouco alta sobre um estrado, em que o cliente sobe com um pequeno esforço, para que a posição das mãos dos engraxates, sentados sob a altura de seus pés, esteja na posição adequada. “Quer um jornal?” O servidor oferece-o para ser lido durante a singela ação que vai executar.

São homens que geralmente se esmeram em ser atenciosos. Um socialista diria que a cena é uma imagem da desigualdade social que existe no Brasil. Mas os rapazes nem sabem o que é isso, e se soubessem não se incomodariam. Bah! Os intelectuais!

Se o engraxate é um velho profissional, depois de uma limpeza rápida e de algumas providências prévias, ele toma duas escovas, uma em cada mão. E numa fúria frenética, mas ao mesmo calma (um paradoxo), bem humorada e pacífica, dá lustro aos dois calçados. As escovas sobem e descem simultaneamente, em alta velocidade.

Depois, com uma flanela, e a mesma celeridade, vem a hora de dar brilho: os sapatos estão reluzentes e luzidios. Ele finalmente começa a retirar os anteparos que tinha colocado nos lados dos calçados, para preservar as meias do freguês. É sinal de que a “engraxagem” terminou, e chegou a hora de pagar.

— Quanto é? O freguês paga justo e deixa um pouco mais. É a gorjeta. Até logo! Até a próxima! Felicidades, doutor (é sempre presumido que é doutor).

Vejo com simpatia esta cena certamente do passado mas estritamente contemporânea nossa; de hoje, mas que lembra coisas de antanho. Deveria ser objeto de uma sociologia dos fatos pequenos mas palpitantes da vida, pois a gorjeta não é um pagamento, mas uma concessão. Enquanto concessão, ela exprime confiança, gratidão e reconhecimento de quem concede e de quem recebe. Nela reside um sentimento de ordem social, segundo o qual cada um se afeiçoa às desigualdades, que não esmagam, mas se auxiliam e se completam. É o Brasil real, o Brasil brasileiro que no silêncio da mídia e na ausência das atenções, vai dando lições de uma felicidade sem prazer, pouco planejada, nada planificada, nunca inteiramente impessoal, mas autêntica, tranquila, despretensiosa, que passa quase desapercebida. Episódios como este hoje em poucos países se veem.

Há meninos que, como primeira obra de carpintaria da vida, fazem uma tosca caixa para lustrar sapatos e ganhar uns trocadinhos. Tempos atrás havia um número bem maior desses simpáticos adolescentes, nas ruas e praças do Brasil, mas ainda existem.

Dentro de uma “engraxagem”, a gorjeta é uma nota harmônica ou cacofônica? Diria alguém que é uma estridência pois, onde entra o “vil metal”, as coisas desafinam. Mas numa cena quase familiar como a descrita, a gorjeta cabe naturalmente. Ela acentua a nota de desigualdade gentil, respeitosa e, como diz Plinio Corrêa de Oliveira, musical. Uma maneira honesta de ganhar a vida. A gorjeta aproxima as classes sociais. Não quer dizer que não possa haver abusos de parte a parte, mas isso é bem outro assunto. O abuso não exclui o uso, e este uso de si é aperfeiçoante dos trabalhos.

Há muitos tipos de serviço que postulam uma gratificação: hotéis, taxis, postos de gasolina, etc. Num restaurante, as gorjetas, são de duas modalidades: as espontâneas e as compulsórias, sendo estas incluídas na nota. Falemos das espontâneas, as dadas diretamente pelos clientes aos garçons. Se o serviço não agradou, não há por que gratificar largamente. Mas se a gorjeta foi boa, é um elogio ao serviçal. É um estímulo à perfeição. Há uma discreta relação de personalidades entre ambos.

As gratificações “azeitam” as desigualdades, e nesse sentido, pode-se até falar em “função social da gorjeta”. É um fator pequeno, minúsculo, insignificante até, mas, que dizer? Não é em torno de minúcias não planificadas, orgânicas, familiares, honestas, cristãs como esta, que se pode consumar ou não, o bem estar da civilização?

A essas atividades se aplica, à merveille, um magnífico comentário de Dr. Plinio: “Cada pessoa deve ser ela mesma. Cada um deve respeitar a personalidade do outro, sentir as afinidades e sentir as diferenças […] a cortesia é o laço cheio de respeito, de distinção, de afeto, que prende pessoas diferentes, e as coloca numa relação como as notas de uma música entre si”.[*]
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[*] À Procura de Almas com Alma, excertos do pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1998, p. 201.

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