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A modernidade reverenciando a Idade Média

Evangelho da corte de Carlos Magno
  • Paulo Henrique Américo de Araújo

A Idade Média exerce uma atração inegável sobre a mentalidade moderna, por mais que isso pareça estranho… aos modernistas. A todo momento, livros, filmes, seriados, novelas, desenhos animados, histórias em quadrinhos se voltam para aqueles tempos, aludindo a um mundo que já não existe, um ideal ou sonho fascinante.

Uma ressalva necessária é que a indústria do entretenimento apresenta castelos, reis, príncipes, princesas e cavaleiros medievais sempre carregados de deturpações, como bruxaria, esoterismo, degradações morais, exagerado romantismo e incontáveis outros desvios, muito distantes da Idade Média real; mas relegam a um seletivo esquecimento os aspectos reais mais atraentes, sobretudo o fato de que a civilização medieval nasceu do Sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo derramado na Cruz e da ação benemérita da Santa Igreja Católica. Não obstante, é forçoso constatar que vez por outra o mundo contemporâneo se inclina diante dos verdadeiros legados medievais, e em certas ocasiões o faz sem perceber.

São Alcuíno de Iorque apresenta um manuscrito a Carlos Magno (afresco) – Victor Schnetz, séc. XIX. Museu do Louvre, Paris.

Para demonstrar esta afirmação, recorro a um artigo de Antônio Prata na “Folha de S. Paulo”, em 21-4-19.1 O autor relata como desde jovem havia se acostumado a escrever seus trabalhos usando no computador a fonte Arial, mas em certa ocasião um problema técnico o obrigou a usar a fonte Times New Roman. Após o desagrado inicial com esses caracteres que lhe pareciam antiquados, confessa que passou a simpatizar com as serifas (pequenos traços e prolongamentos ornamentais acrescentados nas extremidades das letras), pois constatou a firmeza e solidez que o estilo Times transmitia. Consequentemente, a fonte Arial começou a lhe parecer um amontoado de “palitos de fósforo”, e reconheceu que suas crônicas, escritas ao longo de muitos anos, teriam ganhado em qualidade e beleza utilizando o Times New Roman.

Remontando aos tempos de Carlos Magno

Os milagres de Notre-Dame – Jean Miélot, séc. XV. Coleção Philippe “le Bon”, Biblioteca Nacional da França, Paris.

Qual a origem desse estilo de escrita? A resposta envolve uma curiosa descoberta e uma reverência que a modernidade presta à Idade Média, sem o perceber. Não se engane o leitor, a denominação Times New Roman não quer dizer “novos tempos romanos” ou “tempos do novo romano”. Nada mais equivocado. Primeiramente, o termo “Times” se refere ao jornal “Times” de Londres, que na década de 1930 estabeleceu como padrão de impressão a tão conhecida fonte.

Até aqui, portanto, nada parece haver de medieval. Mas de onde vem o termo New Roman? Na realidade, o padrão adotado pelo jornal “Times” fizera pequenas alterações em um padrão tipográfico existente há mais de 500 anos; o qual, por sua vez, remonta a uma época ainda mais distante, levando-nos aos tempos de Carlos Magno. Quem nos relata as origens da tipologia New Roman (“novo romano”) é o Prof. Thomas F. Madden,2 da Universidade de Saint Louis, nos Estados Unidos.

Em fins do século VIII, Carlos Magno chamou a si a restauração do antigo Império Romano, e o projeto se consolidou no ano 800, quando de sua coroação como Imperador pelo Papa São Leão III, em Roma. Carlos Magno estabeleceu sua capital em Aix-la-Chapelle, também chamada “New Rome”, ou seja, “Nova Roma”.

Tornava-se necessário preservar a cultura romana, que ia definhando após tantos anos de decadência. O Renascimento Carolíngio foi propulsionado por um grupo de intelectuais, tendo como líder o famoso monge Alcuíno de Iorque. Além de muitos outros legados, ele nos deixou a escrita dita “romana”. Vem dessa época também a “minúscula carolíngia”, isto é, a diferenciação que nos parece hoje tão banal entre as letras maiúsculas e minúsculas, até então desconhecida.

Representação de Gutenberg revisando as primeiras provas da impressão da Bíblia

Com Alcuíno à frente, iniciou-se um árduo trabalho de pesquisa e cópia dos antigos escritos e documentos romanos. Nessa época já se conhecia na Cristandade a importância dos monges copistas na reprodução e conservação de escritos religiosos e litúrgicos dos séculos passados. Mas esse trabalho não abrangia os manuscritos sobre assuntos temporais, que eram simplesmente ignorados pelos copistas em geral. Carlos Magno e Alcuíno notaram essa lacuna, e contrataram copistas para esses importantes documentos, pagando-os com rendas do próprio Reino.

A empreitada não era simples. O Imperador e Alcuíno exigiram que as cópias fossem feitas usando um tipo de letra de fácil leitura, para favorecer estudos das gerações futuras; e os espaços entre as letras, principalmente entre as palavras, deveriam ser bem definidos, para melhor legibilidade; tudo isso sem esquecer o ornato — as serifas, mencionadas acima.

Geralmente se usava para documentos escritos, naquela época, o pergaminho (pele de animais), material caro e de confecção difícil. Mas as novas exigências traziam como consequência o pouco aproveitamento dos espaços nos pergaminhos. E também contrariavam a tendência da época, que por motivo de economia e melhor utilização dos pergaminhos forçava os copistas a escrever letras muito próximas umas das outras e com estilo verticalizado, dificultando em boa medida a leitura e o entendimento.3

Carlos Magno proporcionou a verba para que todos esses obstáculos fossem superados. O projeto rendeu frutos incontestáveis, pois mais de cem mil documentos não religiosos da Antiguidade foram copiados, dos quais sete mil chegaram até os nossos dias.4

A tipologia “clássica” passou a dominar

Infelizmente, com a morte do grande Carlos e o período caótico que se seguiu, o método de cópia criado por Alcuíno foi deixado de lado; e as letras nítidas embelezadas com serifas, da época carolíngia, ficaram esquecidas por 600 anos. Então algo surpreendente aconteceu, fazendo-as voltar à luz. Que surpresa foi essa?

Em 1450, Gutenberg apresentou ao mundo uma das mais importantes invenções da História: a imprensa de tipos móveis, uma máquina para reprodução de documentos escritos. O difícil trabalho dos copistas tornou-se assim desnecessário, mas os homens envolvidos na utilização do invento se depararam com um problema: encontrar um padrão tipográfico ideal para a máquina de imprensa.5

Não nos esqueçamos de que esses eram homens da Renascença, por isso rejeitavam tudo o que dizia respeito àquela “época de trevas” medieval. Queriam desencravar um tipo de letra proveniente da Antiguidade clássica, romana, pois aí estava a “verdadeira civilização”, segundo eles.

Iniciaram-se as pesquisas. Foram evitados solertemente documentos sobre temas religiosos ou litúrgicos dos monges copistas, facilmente reconhecíveis, pois eram registrados com caracteres comprimidos, apertados, “grotescos” até.

Mais pesquisas, e finalmente encontraram manuscritos com grafia diferenciada, não relacionados com o cristianismo ou a Igreja Católica. Eram mais recentes, inspirados em antigos escritos clássicos “profanos”. Além disso traziam letras espaçadas, bem legíveis – uma padronização distante daquela “época de trevas” e perfeitamente adequada ao desejo dos pesquisadores.

Satisfeitos, aqueles renascentistas implementaram na máquina de imprensa a tal tipologia “romana clássica”. Não suspeitavam que fosse justamente o estilo de letras desenvolvido por Alcuíno e promovido por Carlos Magno, dois homens símbolos da mesma Idade Média que tais renascentistas tanto menosprezavam.

A partir das rudimentares máquinas do século XV, a tipologia “clássica” passou a dominar todas as formas de imprensa e publicações escritas. Mais recentemente foi incorporada aos sistemas de informática, e até nos métodos chamados virtuais os caracteres medievais reinam incontestes.

Os mesmos homens que desprezaram ou desprezam a herança medieval acabaram agindo, sem o saberem, no sentido contrário aos seus próprios preconceitos, uma espécie de revide histórico às avessas!

 “E Deus zombará de seus inimigos”, diz a Escritura (Salmos 2-4). Também assim a Idade Média se vingou de seus críticos.

*   *   *

Como vimos no início, o cronista Antônio Prata, ao destacar a solidez e beleza da fonte Times New Roman, na realidade se curvou ante o gênio medieval. O mundo moderno faz o mesmo a todo momento, sem o saber. Apesar de representarem uma rejeição aos ornatos medievais, mesmo as fontes sem serifas, como a Arial, têm sua origem no estilo dos tempos de Carlos Magno. O leitor que tem diante dos olhos este texto, seja na versão impressa ou eletrônica, o lê no mesmo padrão proveniente da Idade Média. Não há, portanto, como fugir da reverência a essa época histórica. Todos lhe prestam homenagem, mesmo os seus adversários.

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Notas

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 824, Agosto/2019.

1. Cf. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2019/04/minha-ultima-cronica.shtml

2. The Modern Scholar: The Medieval World, Part II: Society, Economy, and Culture (The Modern Scholar) Audio CD – 2009, Thomas F. Madden, Universidade de Saint Louis.

3. Geralmente designa-se como gótico esse estilo de escrita.

4. Nesse conjunto encontram-se obras de Cícero, Marcial, Estácio, Lucrécio, Terêncio, Júlio César, Boécio, dentre outros.

5. Na Alemanha, as primeiras impressões utilizaram tipos góticos, como a famosa Bíblia de Gutenberg. Na Itália, o mesmo não ocorreu, como se vê mais adiante no mesmo artigo.

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