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A sala do capitão pirata

Leo Daniele

Agencia Boa ImprensaCom a rapidez das comunicações, a globalização, a Internet, cada um se vê subitamente diante do universo. A humanidade é hoje como que uma imensa sociedade anônima. E, quanto maior esta, maior o seu anonimato…

Alguém dirá: hoje temos a Internet. Por meio dela pode-se escapar facilmente do anonimato, da solidão.

É o contrário que ocorre! O Instituto para Estudos Quantitativos da Universidade de Stanford (EUA) realizou uma pesquisa, divulgada no ano 2000, a qual conclui que a Internet está formando uma legião de solitários. O estudo consultou 4.114 adultos em 2.689 lares. Pesquisadores da Carnegie Mellon University chegaram a sugerir que o advento da Internet pode ter consequências sociais negativas, aumentando os níveis de depressão e solidão.(1)

Segundo o cientista político Norman Nie, a Internet está criando uma onda de isolamento social, levantando o espectro de um mundo fragmentado, sem contato humano nem emoções”.(2)

Em artigo intitulado Geração Virtual, observa Valéria Propato: O planeta agora cabe num computador e a palavra-chave para relacionamentos de todo tipo dentro dessa nova ordem é cada vez menos hierarquia e mais interatividade […] O maravilhoso e irreversível mundo digital trouxe também a solidão”.(3)

Por sua vez, afirma Edgar Morin: No limite extremo, o homem televisual seria um ser abstrato num universo abstrato […] As telecomunicações empobrecem as comunicações concretas do homem com seu meio”.(4)

Mas os hiper-modernos veem nessa alteração do conceito de proximidade um fenômeno positivo. Assim, F. Jameson afirma que essa última mutação do espaço — o hiper-espaço pós-modernista — finalmente conseguiu ultrapassar a capacidade do corpo humano de se localizar, de organizar perceptivamente o espaço circundante e mapear cognitivamente sua posição em um mundo exterior mapeável […] um símbolo e um análogo daquele dilema ainda mais agudo, que é o da incapacidade de nossas mentes, pelo menos no presente, de mapear a enorme rede global e multinacional de comunicação descentrada, em que nos encontramos presos como sujeitos individuais”.(5)

Flutuar nesse hiperespaço facilita o desenvolvimento das personalidades? Faz bem aos nervos?

Outro aspecto do mesmo fenômeno é a decadência da ideia de Pátria. Estará ela com os dias contados, como apregoam alguns adeptos da globalização?

Agencia Boa ImprensaO homem perde seu ambiente próprio. Os objetos que o cercam não têm nenhuma relação de raiz com ele. O que suporta uma comparação com a cabine de um corsário: Na sala do capitão-pirata, a baixela de jantar é em prata de lei, com as armas de Castela e Leão gravadas. Os pratos de serviço são de porcelana Sung. Nas paredes, com painéis em carvalho inglês, veem-se uma delicada pintura holandesa, um par de pistolas de duelo cruzadas, que pertenceram antes a um conde francês, um kris malaio e uma couraça inca em ouro puro e flexível”.(6)

Até que o pirata imaginado é chique, o que não acontece com o internauta comum. Mas, tratando-se de um pirata, uma sala assim pode chegar a ser pitoresca, pois ela no fundo homenageia a diversidade entre os povos. O corsário de ontem fazia questão de certo luxo, ao passo que o de hoje — que é melhor chamar de internauta — detesta a pompa, e nem sempre detesta a feiura.

Com ou sem luxo, vale a pena habitar num ambiente sem nada de próprio, decorado com balangandãs “do mundo inteiro”? É o que a Internet geralmente nos oferece.

__________________

Notas:

1. John Markoff,  “The New York Times”,  16-2-2000.

2. “Isto é”, 9-4-2000.

3. Idem, ibid.

4. Idem, p. 71.

5. Idem, p. 70.

6. Stanley Edgar Hyman, A Sala do Capitão Pirata (in Carpenter, Edmund, e McLuhan, Marshall. org., p. 126)

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