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COLCHA DE RETALHOS COM A ROUPA DO REI

Jacinto Flecha

Rodin1º retalho – Os americanos precisavam instalar uma antena retransmissora numa ilha do Pacífico, inacessível pelo ar e pelo mar. Decidiram então jogar de paraquedas as peças da antena, para ser montada e instalada pelos nativos. Não podiam enviar instruções escritas, pois ninguém sabia a língua deles. Comunicólogos especializados pintaram nas peças as instruções, por meio de sinais primitivos e combinações de cores, fáceis de entender e executar. Lançaram o paraquedas, e três horas depois a antena estava montada e funcionando. Peças idênticas às dessa antena, contendo apenas aquelas mesmas instruções, foram entregues a um grupo de cientistas altamente qualificados, todos com PhD e outros títulos. Eles só conseguiram montar a antena depois de uma semana discutindo e se desentendendo.

Avaliando o 1º retalho – Muita ciência reunida nem sempre significa grande capacidade para entender a realidade. Pode mesmo ser um fator negativo e atrapalhar.

2º retalho – Um caminhão com carga além da altura permitida ficou entalado debaixo de um viaduto e paralisou o tráfego na pista única. Não ia para frente nem para trás, atraindo todo tipo de eruditos, guardas de trânsito, impacientes, palpiteiros. Propostas se multiplicavam e eram descartadas. Depois que todos começaram a coçar a cabeça, um menino da vizinhança encontrou uma brecha para propor:

— Pru quê qui cêis num disvazêia um pôco os penêu?

Avaliando o 2º retalho – Quando muitas pessoas estão interessadas em uma solução rápida e eficiente, geralmente esquecem uma solução simples.

3º retalho – Falamos de viaduto, passemos agora a uma ponte. Do interior, daquelas que costumam ir água abaixo com chuva forte e enchente. Os engenheiros receberam a incumbência de reconstruí-la, mas numa altura que a água do rio não atingisse. E toca a procurar o lugar mais adequado. Sobem o rio, descem o rio, atravessam o rio, medem a largura, analisam a resistência do solo. Tudo com aparelhagem apropriada e conhecimentos técnicos específicos. Exaustos, sem terem chegado a uma conclusão, deram uma parada para o cafezinho. Aí o empregado contratado para carregar os instrumentos, e que também cuidava do cafezinho, aproveitou o momento distensivo e perguntou:

— Cêis tão vendo um nim de passarim pindurado naquela arve?

— Estamos. Muito feio aquilo.

— Óia, êssis passarim é muito sabido, só faiz nim adonde a água num vai. Dali pra riba pode fazê ponte, qui a água nem num chêga inté lá.

Avaliando o 3º retalho – Muita aparelhagem e conhecimento técnico podem ser insuficientes, quando não se tem ou não se leva em conta a experiência viva.

4º retalho – Numa escola de primeiro grau, a professora tinha qualificações profissionais bastante duvidosas, mas uma indisfarçável mentalidade socialista. Mais por influência do ouvi dizer do que por convicção. Durante a aula, depois de lamentar a situação dos pobres coitados sem-terra, assentados em vinte milhões de hectares (era só isso, na época) que o governo distribuiu, ela afirmou que essas terras já produzem dois por cento dos alimentos. E quarenta milhões de hectares que pertencem a um pinguinho de latifundiários produzem o resto. Sentenciou que é preciso dar essas terras produtivas para os assentados, não podem ficar com esses exploradores do povo.

Aí o Joãozinho (as histórias escolares sempre têm um Joãozinho) perguntou:

— Vinte milhões de hectares é um latifúndio, não é, professora?

— É sim, Joãozinho, e dos grandes.

— Se produz só dois por cento, é improdutivo, não é, professora?

— É verdade, Joãozinho.

— Então, por que é que deixam esse pessoal assentado lá, e produzindo tão pouco? É melhor entregar a terra pra gente que sabe administrar, e eles vão dar jeito nesse pessoal que só sabe ficar assentado. Não é, professora?

Avaliando o 4º retalho – Preconceitos ideológicos, movidos por teorias que ignoram a natureza humana, conduzem ao fracasso qualquer empreendimento.

Costurando os retalhos – Uma realidade pode não ser entendida por pessoas com alto grau de cultura. Pior ainda quando ela é falseada com o objetivo de aplicar conceitos ou preconceitos ideológicos. A consequência é que geralmente os planos cerebrinos dão errado na prática. De modo geral, os trabalhadores rurais sabem trabalhar, mas raríssimos dentre eles têm condições para decidir e administrar. São talhados para a condição de empregados, que podem trabalhar e executar ordens corretamente. Entregar uma terra para estes não resolve, pode até atrapalhar, pois o que procuram é um bom emprego. Como na fábula A roupa nova do rei, só o menino inocente “não viu”, e denunciou que o rei estava nu. Palmas para o Joãozinho!

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(Para receber novas crônicas, inscreva-se no blog: www.jacintoflecha.blog.br)Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente

 

1 comentário para COLCHA DE RETALHOS COM A ROUPA DO REI

  1. José Luis Responder

    2 de julho de 2015 à 1:48

    Muito boa parábola. Pena que existem aqueles que, mesmo desenhando, não entenderão.

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