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CRUZADAS EM TORNO DE PATMOS

Jacinto Flecha

Jacinto Flecha

         O apóstolo São João na ilha de Patmos, por Jacopo Vignali.Na época longínqua em que me sobrava tempo para passatempos, transitei muito pelos labirintos de palavras cruzadas, enquanto meus colegas discutiam futebol. Melhor dizendo, perdiam o tempo nessas discussões, tão intermináveis quanto inúteis e insuportáveis. Eram passatempos, tanto o deles quanto o meu, mas qual dos dois proporciona maior progresso cultural? Fazendo uma avaliação retrospectiva lá e cá, devo concluir que o resultado pesa largamente em favor das minhas opções. Não me refiro a desproporções tipo gigante versus pigmeus, estou apenas aludindo à qualidade da cultura que uns e outros adquirimos. Com um pequeno exemplo, estou certo de remover também as suas dúvidas.

Apenas para assegurar que você e eu estamos percorrendo os mesmos caminhos, lembro-lhe que em palavras cruzadas você anota primeiro as palavras “fáceis”, ou seja, as que você conhece bem e cabem no espaço correspondente. Concluída esta primeira fase nas horizontais, depois nas verticais (estas já ficaram facilitadas), sobram palavras incompletas, com porcentagem maior ou menor de letras preenchidas. Você reexamina então os enunciados das palavras incompletas, e tenta completá-las. Para a terceira fase sobram geralmente poucas palavras, às quais você dedicará maior esforço. Algumas são palavras desconhecidas, ou os dados conhecidos não permitem arriscar. Vamos a um exemplo, com o qual já entro no meu tema de hoje.

Para a última fase, sobrou a palavra correspondente ao enunciado ilha grega, na situação seguinte: PA_ _OS. Se você desconhece nomes das milhares de ilhas gregas, nem se ocupou com a palavra na primeira fase. Já na situação atual, as duas letras faltantes podem estar entre 529 duplas possíveis com as 23 letras do alfabeto. Se você sabe, por exemplo, que São João Evangelista escreveu o Apocalipse na ilha de PATMOS, estará resolvido o seu passatempo do dia, embora seja sempre possível outra ilha desconhecida (para mim, pelo menos) com letras diferentes de TM.

O grau de facilidade para alcançar a solução pode variar muito, em função da cultura adquirida. Quando o esforço cultural se limitou a assuntos importantíssimos – por exemplo, os dribles e gols futebolísticos do momento, as celebridades musicais fabricadas pela mídia, os profundos temas filosóficos de botequins e novelas, as piadas de pocilga – o tempo para resolver as cruzadas terá proporção com o que não foi dedicado à verdadeira cultura.

Esse confinamento “cultural” me faz lembrar um conto de Malba Tahan sobre o sábio da efelogia. Era um ex-prisioneiro político que encontrara na cela um único volume de enciclopédia, correspondente à letra F. Sobrava-lhe tempo, e dedicou grande parte dele a ler e reler esse volume. Depois de cumprir a pena e refazer amigos, exibia sua cultura “vastíssima”, no entanto limitada a palavras raras sobre as quais dissertava; e cuja inicial era sempre F. Há sumidades assim, limitadas ao F de futebol; e ao silêncio forçado e envergonhado, quando o assunto é outro.

O apóstolo São João na ilha de Patmos, por Jacopo Vignali.

O apóstolo São João na ilha de Patmos, por Jacopo Vignali

Patmos é uma ilha pequena do Mar Egeu, de pouca importância cultural e econômica. Sua importância resulta de ter vivido lá São João Evangelista, exilado após sair milagrosamente vivo e ileso de uma caldeira com óleo fervente. Na ilha, dedicou parte do seu tempo livre para redigir o Apocalipse. Só este fato já me basta para venerar Patmos à distância. Não falta importância histórica e cultural em ilhas gregas maiores ou menores. Por exemplo, nosso vocabulário é abundante em referências a algumas dessas ilhas ou suas cidades: Lacônico (Lacônia), espartano (Esparta), beócio (Beócia), arcádia (Arcádia), lesbianismo (Lesbos), cretino (Creta), sibarita (Síbaris), Rodes (Colosso), coríntio, Corinto (Corinthians, viu!?). Uma cidade lá se chama Jacinto, mas é melhor você e eu não nos preocuparmos com ela…

Não vou insistir nas minhas avaliações sobre discussões futebolísticas, já bem definidas e definitivas, mas quero avaliar o grau de influência das palavras cruzadas na formação cultural de uma pessoa. Esse passatempo sempre me foi indicado como instrutivo. Mas se eu tomo um exemplo como esse de Patmos, devo rebaixar alguns graus nessa propalada utilidade. De fato eu consigo completar a palavra, quando ela aparece nas cruzadas. Mas terá havido algum acréscimo de conhecimento valioso à minha cultura, depois que consegui formá-la com segurança? Basta eu saber que existe uma ilha grega com esse nome? É claro que serviu-me para rememorar uma palavra meio perdida nos labirintos da memória, mas eu já conhecia a palavra e algo mais sobre ela, tanto que pude incluir com segurança as duas letras faltantes. O conhecimento veio antes de resolver o problema, não veio por tê-lo resolvido.

Mais um detalhe importante. Quando completo todas as palavras, limito-me a declarar vitória. Salvo em casos muito excepcionais, não procuro esclarecimento adicional sobre palavras desconhecidas que surgiram, e o próprio passatempo não me fornece mais dados. Basta isso para dizer que aprendi mais algumas palavras? Não me parece, pois a verdadeira cultura vai muito além disso. É evidente para mim, no entanto, a superioridade deste passatempo quando o comparo à discussão sobre futebol. Meus passatempos incluíram boa quota de cruzadas, e ainda transito por elas esporadicamente. Mas não incluo entre as minhas culpas a de ter perdido sequer um minuto da vida discutindo futebol.

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