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Falsos amigos

Franco Muralha

O relacionamento amigável e mutuamente respeitoso dos fazendeiros com seus empregados ou colonos — rotulado pelo estrabismo comunista como exploração do homem pelo homem — gerou na minha longínqua infância uma situação peculiar. A linguagem que eu aprendia em casa era constantemente agredida por outra com muitas semelhanças e diferenças, revelando remota origem comum, como a que teve a última flor do Lácio ao desvincular-se do espanhol.

Minha irremovível ojeriza à contrafação que eu ouvia fora de casa me fez erguer entre as duas linguagens uma barreira, exigindo contínua tradução alimentada por consultas frequentes aos dois dicionários mentais que eu ia formulando. Era um trabalho árduo, mas bastante divertido, que me fez tomar gosto pela origem das palavras, mais tarde identificada como etimologia. O verniz adquirido no curso secundário incluiu nesse gosto as diferenças linguísticas e culturais entre os povos, o que me rendeu depois o 3º lugar num vestibular com mais de oitocentos candidatos, graças a notas muito altas em português e inglês.

Após as muitas voltas que o mundo deu, vejo-me agora com ampla base, além de tempo disponível, para enveredar pelos meandros ardilosos e muito interessantes do trabalho de tradução. Você utilizará proveitosamente o seu tempo, lendo a seguir uns poucos exemplos de semelhanças e diferenças linguísticas, colhidos em vasto acervo que meu atual trabalho me permite acumular.

Vejamos inicialmente algumas palavras morfologicamente semelhantes em duas línguas, porém com significados diferentes.

• Prejudice, em inglês, é muito parecida com prejuízo, mas significa preconceito (juízo prévio).

• Blanco, em espanhol, pode ser traduzida por branco, mas é também muito usada para designar qualquer objeto em que se atira ou se pratica tiro ao alvo. Alvo e branco, na nossa língua, são similares apenas no que se refere à cor.

• Sueño pode significar sonho ou sono, em espanhol, língua que não dispõe de palavras distintas para designar essas duas realidades.

Em francês, subir não tem nada a ver com escalar montanha ou galgar degraus de uma escada. Trata-se de sofrer, suportar.

Se você ouvir um espanhol afirmar que é surdo, continue conversando normalmente com ele, pois essa “deficiência” (zurdo, que se pronuncia surdo) não o impede de ouvir. Trata-se apenas de canhoto. O espanhol que não consegue ouvir é sordo.

Palavras como essas, muito adequadamente os tradutores as denominam falsos amigos.

Sendo a língua uma realidade viva, em constante mutação, pode-se afirmar que não existe dicionário inteiramente atualizado. A toda hora se criam expressões novas, passa-se a usar palavras antigas com significados novos, inventam-se palavras. Li recentemente num jornal o qualificativo riponga, que eu não conhecia. Depois de inútil consulta aos meus dicionários, recorri ao onisciente Google e encontrei um site que pode ser útil também para você. Forneço o link, onde lhe será fácil encontrar o que eu procurava, além de outras informações sobre palavras e conceitos recentes, anotados pelos frequentadores do site: http://www.dicionarioinformal.com.br/

As situações em que se estabelece o uso de uma palavra ou expressão em sentido específico são muito variáveis, e nem sempre isso pode ser transferido do mesmo modo para outra língua. Vejamos alguns exemplos.

Diante de um grupo de americanos, precisei explicar a maravilha política que conhecemos como trem da alegria. Depois de inútil esforço didático, notei que eles não haviam entendido. Recorri então a um amigo brasileiro que reside lá há vários anos, e logo obtive a expressão equivalente: pork barrel (barril de carne de porco). Esqueci-me de indagar a origem da expressão, mas suponho que designe costume local antigo, de distribuir nos comícios a carne de porco contida em barris.

• Watergate tornou-se em todo o mundo um sinônimo de crime político, e existem até derivados híbridos como Mogigate. Se um tradutor não sabe disso, poderá brindar o leitor com a tradução desnecessária e inadequada de comporta (portão da água).

• Mensalão é outro crime político que dificilmente se traduzirá para outra língua.

Se você costuma ver filmes legendados, já deve ter deparado com a referência a fita vermelha, e provavelmente não entendeu a que fita o personagem se referia. Acontece que red tape é uma expressão americana correspondente a burocracia, talvez pelo costume de arquivar o papelório amarrado com fita dessa cor. Como as legendas têm de ser concluídas às pressas, economiza-se tempo aplicando uma tradução literal, desvinculada da cena, sem recorrer a um dicionário que esclareça o sentido correto.

Tradutores deparam às vezes com dificuldades insuperáveis, como aconteceu com um grupo de missionários enviados para catequizar os esquimós. Ao explicar-lhes o pecado original descrito no Gênesis, perceberam que não haviam sido entendidos. Só depois de muita conversa, ficaram sabendo que lá não existem cobras. Não sei como se saíram da enrascada, mas é certo que não puderam substituir cobra por foca, um animal benfazejo para os esquimós.

Traduzir tem algo de dramático. Momentos de indecisão, angústia e desafio. Você se divide entre os papéis de destruidor e de criador. Intenções, sons, matizes, características, cacoetes, jargões, metáforas e aliterações do texto se perderão, e outro tanto será criado, procurando compensar a perda. É como fazer uma feijoada na Holanda: vai faltar metáfora.

Não que as línguas em si não tenham recursos. Têm. Mas serão sempre substituições, só eventualmente equivalentes. Quando um autor escreve lindo em vez de belo ou bonito, tem intenções que vão mais longe do que graduar a beleza que descreve. Há entre as palavras relações de som, de oposição, de acomodação, de fricção ou de regionalidade que é difícil traduzir. Isso quando se percebe a intenção. E quando não se percebe?

Se dentro de uma mesma língua as palavras adquirem um matiz diferente quando se associam a outras, que dirá na tumultuada viagem de uma língua para outra? Se as palavras não fossem assim tão ricas, um clássico moderno como o americano Raymond Carver não escreveria um conto com o título What we really say when we say love – O que dizemos de fato quando dizemos amor. Palavras muitas vezes são armadilhas. Pasta, em português, pode ser macarrão, posto de ministro, bolsa, dentifrício, substância pastosa. Pena pode ser de ave, caneta, dó, sofrimento, condenação.

Até mesmo corriqueiras expressões do dia a dia oferecem dificuldades, e nem sempre as soluções satisfazem. Por exemplo, um personagem de nome Omar de Moura, que um bajulador chama de doutor Omar. Nos Estados Unidos esse “doutor Omar” vai virar “Mr. De Moura”. Ganha-se formalidade, perde-se a bajulação. Uma tradutora me perguntava: O que é que eu faço com “mãe de santo”, “quebrei a cara”, “dar tempo ao tempo”, “é o fim da picada”? Empacou no nome de uma antiga revista de cinema – A Cena Muda – e me perguntava: “A cena é silent ou changing, silenciosa ou que muda, que se move?”. Expliquei que era as duas coisas. E aí, para traduzir?

Se você presta atenção em estilos de escritores, terá notado que os quatro parágrafos anteriores não são meus. Foram transcritos de coluna mantida em Veja-São Paulo (Vejinha) por Ivan Angelo, um dos muitíssimos espécimes de mineiros ilustres refugiados em São Paulo. Não perderei o ensejo dessa extemporânea alusão irônica a mim mesmo, para inseri-la no contexto indagando se um eventual tradutor a detectaria. E se detectasse, como transmitiria esta informação ao leitor, sem importuná-lo com uma sempre incômoda nota explicativa?

Para finalizar, aproveito a deixa do Ivan Angelo e concluo com três exemplos em que as traduções possíveis perdem alguma coisa.

Mark Twain, escritor que se esmerava com a precisão nos seus escritos, afirma que “a diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma que há entre relâmpago e vagalume”. Mas há um detalhe importante. No inglês, relâmpago é lightning, e vagalume é lightning bug (inseto relâmpago). Pode-se traduzir por pisca-pisca, ou algo assim, mas de qualquer forma perde-se o trocadilho.

O provérbio francês à quelque chose malheur est bon é habitualmente traduzido como há males que vêm para bem. No entanto, o francês é muito mais abrangente, pois refere-se a qualquer mal, ao passo que a nossa tradução se restringe a alguns males.

Uma definição jocosa de embaixador qualifica esse profissional de relações internacionais como “um homem com credenciais to lie abroad pelo seu país”. O verbo to lie significa indiferentemente mentir ou permanecer, estabelecer-se. Portanto a atuação do embaixador pode ser entendida na frase como mentir no exterior ou estabelecer-se no exterior. Alguém pode me ensinar como traduzir isso sem perder essa ambiguidade?

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Franco Muralha é colaborar da Agência Boa Imprensa (ABIM)

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