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Impeachment do presidente Lugo e esdrúxula reação “bolivariana”

Em face do ocorrido no Paraguai, curiosa norma de ação do Mercosul, sob a influência de Chávez: “Quando não é de esquerda, democracia é golpe; quando é de esquerda, golpe é democracia”… 
Luis Dufaur (*)

De início, no Paraguai, um episódio de invasão de fazenda no estilo das praticadas pelo MST no Brasil, seguido de uma ordem judicial de despejo. Os oficiais da polícia tentaram dialogar com os invasores para dar desfecho pacífico à ocorrência. Mas foram surpreendidos por atiradores de tocaia, que assassinaram seis deles com certeiros tiros na cabeça. A tropa policial reagiu e 12 invasores acabaram mortos.

A inaudita violência dos agitadores agrários causou surpresa e indignação no Paraguai. Porém, o então presidente Lugo, tristemente conhecido pelo número de filhos ilegítimos que teve enquanto era bispo, manifestou desinteresse e insensibilidade. Pior: destituiu o ministro do Interior e chefe da Polícia, substituindo-o por uma pessoa de sua confiança e constrangendo à renúncia os oficiais mais antigos.

Sabia-se havia muito que o pequeno grupo guerrilheiro denominado Exército Paraguaio Popular (EPP) agia com a conivência de Lugo. Era público e notório que ele apoiava por debaixo do pano os agitadores camponeses, muitos dos quais foram seus discípulos quando era bispo na zona de conflito.

Porém, Lugo teve a habilidade de não impulsionar um esquerdismo sanhudo. Ele favorecia a subversão sem demonstrar cumplicidade. Dessa maneira, como seus símiles sul-americanos, soube tornar-se “suportável”, embora o país não concordasse com sua prepotência, hipocrisia e imoralidade. Muitos paraguaios estavam arrependidos de ter votado nele, mas o suportavam em virtude de estranha paralisia.

Num instante, Lugo perde anos de “progresso” 
A assustadora chacina, porém, eriçou o país e produziu o efeito de faísca lançada sobre um monte de palha. Subitamente, a opinião pública começou a clamar contra o então presidente. Até mesmo simples balconistas de supermercado não conseguiam deixar de externar espanto e indignação.

Desfizeram-se completamente, em um só instante, anos de avanço astucioso da esquerda. Sinal sintomático entre todos: até os bispos, que o apoiavam, pediram-lhe que renunciasse antes mesmo de qualquer procedimento parlamentar. E, logo que foi destituído, qualificaram sua saída como “página virada”. 

O novo Presidente do Paraguai, Federico Franco, se reúne com o Núncio Apostólico Eliseo Ariotti no palácio presidencial em Assunção

Nesse ambiente, a permanência de Lugo tornara-se insustentável. A Câmara dos Deputados solicitou a abertura do processo de impeachment. Nas ruas do Paraguai bradava-se pela saída do presidente. Apenas um parlamentar votou a favor da manutenção de Lugo, enquanto 73 votaram pela abertura do processo. Feito este, o Senado o destituiu por 39 votos contra 4, com dois ausentes, e empossou o vice-presidente Federico Franco. Tudo de acordo com a Constituição paraguaia.

Uma tentativa frustrada de protesto de rua não atraiu manifestantes. O Exército não precisou intervir e respaldou as decisões do Legislativo. Lugo ficou plenamente livre. Impotente e sem apoio, até formou um “governo fantasma” do qual quase nada se sabe, a não ser que foi inexpressivo. A opinião pública paraguaia externou largo apoio ao impeachment do ex-bispo e elogiou seu discurso de renúncia como o melhor que fez em quatro anos de governo.

O novo presidente prometeu evitar toda violência, respeitar a propriedade privada em matéria de Reforma Agrária e dar mão forte à Justiça para não mais tolerar os grupos terroristas. A opinião pública não queria ouvir outra coisa.

A substituição constituiu um episódio tranquilo na plena vigência da ordem legal e do sistema democrático. 

Dupla linguagem das esquerdas 
“Golpe”! — clamaram em uníssono as esquerdas sul-americanas. Samuel Pinheiro Guimarães Neto, até então alto representante brasileiro no Mercosul, denunciou que as “classes tradicionais hegemônicas promovem um neogolpismo na América do Sul e a democracia está em risco na região”.(1) A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, apressou-se em declarar algo mais sonoramente esquerdista enquanto o caudilho Hugo Chávez enviava seu chanceler Nicolás Maduro para tentar sublevar os comandantes militares paraguaios, poucas horas antes da destituição de Lugo. O encontro foi agendado pelo chefe do gabinete militar de Lugo, general Ángel Vallovera, e ocorreu no Palácio de Governo da capital, sendo filmado pelas câmaras de segurança. A ministra de Defesa do Paraguai, María Liz García, entregou o vídeo à imprensa.

Temendo talvez algum fenômeno análogo de opinião pública em seus países, presidentes membros do Mercosul reunidos em Mendoza (Argentina) [foto acima] suspenderam o Paraguai da aliança e decidiram receber a Venezuela de Hugo Chávez como novo membro. O parlamento do Paraguai opunha-se há anos a esse ingresso, e agora presidentes “populistas” aproveitaram-se daquela suspensão para abrir as portas ao líder “bolivariano”. O ato foi claramente ilegal, violando numerosos tratados assinados pelo Brasil, como demonstrou o ex-chanceler brasileiro Celso Lafer. Para ele, o ato de Mendoza “carece de boa-fé […] lealdade e honestidade […]. Trata-se, em síntese, de uma ilegalidade”.(2) 

Para “O Estado de S. Paulo” tratou-se de um “golpe contra o Mercosul”, fruto de “mais uma decisão desastrada e vergonhosa para a diplomacia brasileira”. O jornal constatou que “os presidentes e diplomatas envolvidos na condenação do Paraguai foram incapazes de sustentar sua decisão em um claro fundamento jurídico”.(3)

Segundo a “Folha de S. Paulo”, o “rigor do Mercosul vale para o Paraguai, mas não para a Venezuela […]. Dois pesos, duas medidas”.(4)

Para “O Globo” “o Mercosul [ficou] sob influência chavista”.(5)

O conhecido constitucionalista Ives Gandra da Silva Martins deplorou “o apoio de Dilma a essa ‘rebelião de aspirantes a ditadores’, pisoteando a democracia e a Lei Suprema paraguaia”.(6)

Bastou o chanceler e o vice-presidente do Uruguai apontarem a presidente brasileira Dilma Rousseff como promotora dessa ‘rebelião de aspirantes a ditadores’ para começar uma corrida — que percorreu as chancelarias do Mercosul — em que uns punham a culpa nos outros.

O Direito internacional, os acordos assinados, a reputação das diplomacias nacionais e dos governos, a própria racionalidade dos atos humanos, tudo foi descartado na precipitação e no pânico do esquerdismo continental.

Enquanto escrevemos este artigo, o caso não teve ainda seu desfecho. Entretanto, vem se destacando a atitude de serenidade e dignidade do novo governo de Assunção diante do alvoroço contraditório e agressivo de países vizinhos influenciados pela mentalidade “bolivariana”. Ademais, a missão ao Paraguai liderada pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, concluiu que “o julgamento político foi feito estritamente conforme o procedimento constitucional” e que as instituições democráticas estão preservadas.

O que responderão a “rebelião de aspirantes a ditadores” e seu comparsa caribenho?

Notas: 
1. “Folha de S. Paulo”, 29-6-12. 
2. “FSP”, 4-7-12. 3. “O Estado de S. Paulo”, 3-7-12. 
4. “Folha de S. Paulo”, 1-7-12. 
5. “O Globo”, Rio, 29-6-12. 
6. “Folha de S. Paulo”, 5-7-12. 


________  
(*) Luis Dufaur é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

*          *          *
A respeito da questão paraguaia, que levou ao Impeachment do ex-presidente esquerdista Fernando Lugo, leia também o manifesto da TFP do Paraguai, publicado no diário “ABC Color”, de Assunção, em 13-7-2012. Abaixo a versão original desse documento [click na imagem para ampliá-la]. A tradução de tal manifesto encontra-se no seguinte link:

Aliança internacional dispara contra o Paraguai: Mercosul e Unasul abrem as portas da América Latina para um neo-totalitarismo de esquerda

Mais abaixo, fotos da campanha da TFP paraguaia, divulgando o documento nas ruas de Assunção, onde obteve excelente acolhida do público.

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