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Madame Elisabeth de França

Princesa, mártir e santa, uma das mais ilustres vítimas da cruel e sinistra Revolução Francesa

  • Renato William Murta de Vasconcelos

Paris, Praça da Revolução, 18 horas, 10 de maio de 1794 — Diante do pedestal onde outrora se erguia dominadora a estátua equestre de Luís XV, surge agora a silhueta sinistra da guilhotina. Em pleno regime do terror, a terrível máquina de matar trabalha sem cessar. Entre os 24 condenados, 18 nobres, um bispo, um cônego, um ex-ministro da Guerra. Figura de destaque entre todos, uma princesa da Casa Real francesa — Madame Elisabeth, irmã de Luís XVI, o último rei da França do Ancien Régime.

Trazidas da Conciergerie em duas carroças, as vítimas são acomodadas em dois bancos, de costas para a guilhotina. No centro, Mme. Elisabeth, vestida de branco, com um xale sobre os ombros.

Busto de Madame Elisabeth – Alexandre-Augustin Dumont, 1843. Palácio de Versailles.
Busto de Madame Elisabeth

A marquesa de Crussol d’Amboise é a primeira a ser chamada. Aproxima-se de Mme. Elisabeth e pede-lhe permissão para lhe dar um abraço de despedida. A princesa aquiesce, oscula a nobre dama e anima-a com palavras de fé. Outra senhora é chamada, e outra, e mais outra. Enquanto isso Mme. Elisabeth, calma, serena, reza o De profundis. Chega então a vez dos homens, e cada um se inclina diante da princesa numa profunda reverência, como nos bons tempos da corte de Versailles.

Mme. Elisabeth é a última, e sobe as escadas do cadafalso recusando ajuda do carrasco Sanson. Mas ao ser colocada na prancha, seu xale cai, deixando descoberta parte de seu peito, e ela se volta suplicante para o carrasco: “Monsieur, em nome de sua mãe, cubra-me”. São suas últimas palavras. A lâmina fatídica caiu sem o rufar dos tambores, pois o funcionário municipal encarregado de dar a ordem desabara ao solo, desmaiado. Um silêncio plúmbeo e o estupor geral dominam a cena, mas todos os relatos são unânimes em constatar que um suave perfume de rosas se espalhara por toda a praça.1

Assim morreu, há exatos 225 anos, Elisabeth Philipina Maria Helena de Bourbon, neta de Luís XV, tia de Luís XVII e irmã de Luís XVI, de Luís XVIII e de Carlos X, uma das figuras mais fascinantes e arrebatadoras da Casa Real francesa. Por sua exuberante personalidade, suas altas virtudes, seus inúmeros talentos, sua bondade incomparável. Madame Elisabeth foi, ombreando com seu irmão Luís XVI e sua cunhada Maria Antonieta, uma das vítimas mais ilustres da Revolução Francesa.

Modelando o temperamento de princesas

Mme. Elisabeth – Joseph Ducreux, 1768.
Mme. Elisabeth – Joseph Ducreux, 1768.

Quem foi, mais exatamente, essa princesa cuja mentalidade e estatura moral representava o oposto, per diametrum, do espírito que movia os revolucionários franceses, e que sacrificou tudo, inclusive a própria vida, para não se separar do infeliz monarca seu irmão, de sua cunhada e de seus sobrinhos?

No dia 3 de maio de 1764 nascia no Castelo de Versailles a segunda filha do Delfim (filho de Luís XV) e de sua esposa Maria-Josepha de Saxe. Agora os filhos do casal são o Duque de Berry (Luís XVI), o Conde de Provença (Luís XVIII), o Conde de Artois (Carlos X), a princesa Maria-Clotilde e a recém-nascida princesa Elisabeth, que recebeu no mesmo dia o Batismo das mãos do Cardeal de La Roche-Aymon, Arcebispo-Duque de Reims, Par e Grande Esmoler de França, tendo como padrinhos o Duque de Parma e o futuro Luís XVI, que portava em seus braços sua pequena irmã. Trinta anos mais tarde ela lhe servirá de apoio na prisão do Templo.

A saúde frágil da princesa inspirou cuidados nos primeiros meses, mas acabou se firmando. O mesmo não aconteceu com seus pais. Elisabeth os perdeu em idade ainda muito tenra: um ano e meio para o Delfim, e pouco menos de três anos para a mãe. Ambos possuíam fé viva e piedade sólida, e antes de morrer deixaram as filhas aos cuidados de Maria-Luísa de Rohan, Condessa de Marsan e governanta dos “Enfants de France”, como eram chamadas as crianças principescas da Casa Real.

Coube portanto à Condessa de Marsan educar as duas princesas órfãs. Maria Clotilde, quase cinco anos mais velha que Elisabeth, era de temperamento doce e obediente, contrastando com a grande vitalidade e temperamento exuberante da irmã, cujas cóleras espantavam os servidores: berra quando não obtém imediatamente o que deseja; bate em seu cãozinho quando este lhe desobedece; e declara que não vai aprender a ler, com a justificativa de que já possui damas de companhia que podem ler para ela. Mme. de Marsan não sabia o que fazer.

Entrementes Elisabeth adoece, e Clotilde chama a si cuidar de sua pequena irmã. Com bondade, paciência e doçura, conquista o seu coração. Aproveitando as boas disposições da doente, ensina-lhe a ler. Com a idade da razão e as leituras, e sobretudo com o bom exemplo da irmã, o temperamento vivaz de Elisabeth irá paulatinamente se arrefecendo. Ainda assim, Mme. de Marsan necessita de ajuda, e para tal escolhe como sub-governantas a Condessa d’Aumale e a Baronesa de Mackau, ambas educadas na famosa Escola de Saint-Cyr, fundada por Mme. de Maintenon para a formação moral e intelectual de moças da nobreza.

Em 1770, Mme. Elisabeth ganha duas das três grandes amigas de sua vida. A primeira, sua cunhada Maria Antonieta, então jovem de 15 anos, que chegara a Versailles para desposar o Delfim, futuro Luís XVI. A segunda, Angélica de Mackau,2 dois anos mais velha, filha da Baronesa de Mackau. A terceira, Luísa de Causans,3 virá mais tarde.

Mme. de Mackau aliava à benevolência a severidade. Mme. d’Aumale era mais espirituosa, embora jamais transigindo em matéria de princípios. Sua missão essencial consistia em ensinar às duas princesas os modos e maneiras de seu estado e a arte da conversa, além de lhes dirigir os estudos de francês, latim, italiano, inglês, história, geografia, física, matemática e noções de filosofia. Mestres? Os melhores especialistas em cada matéria. Por exemplo, Mauduit, professor no Collège de France, matemático célebre. Mme. Elisabeth tinha espírito científico e grande capacidade de raciocínio lógico, e se tornará uma grande matemática, chegando mesmo a compor uma tábua de logaritmos a pedido de um oficial da Marinha. Como as demais damas do tempo, aprendeu a bordar e a pintar eximiamente.

Mme. Elisabeth, “o raio de sol da família”

Luís XVI, rei de França, irmão de Mme. Elisabeth
Luís XVI, irmão de Mme. Elisabeth

Luís XV, doente e percebendo a morte aproximar-se, em 7 de maio de 1774 pediu o santo viático. A procissão solene do Santíssimo Sacramento, da capela aos aposentos reais, foi acompanhada por toda a família real, inclusive Mme. Elisabeth. Um ano mais tarde, em 15 de junho de 1775, ela acompanhará da tribuna da Rainha a sagração de seu irmão Luís XVI. Neste mesmo ano uma grande tristeza lhe era reservada: Clotilde casou-se com o príncipe herdeiro do Piemonte no dia 21 de agosto, e uma semana mais tarde a princesa recém-casada se despediu de sua família e partiu para Turim. Jamais voltará à França e nunca mais se encontrará com a irmã, para quem havia sido um verdadeiro anjo da guarda.4 Mme. Elisabeth ficou de tal modo transtornada com a partida de Clotilde, que “teve um fortíssimo ataque de nervos”, conforme relata Maria Antonieta.

A ausência de Mme. de Marsan será menos sentida. A governanta pediu demissão de seu cargo para acompanhar Mme. Clotilde a Turim, e foi substituída por sua sobrinha, a princesa de Guéméné, uma senhora mundana que deixou às duas sub-governantas os cuidados da educação de Mme. Elisabeth.

A jovem princesa caminha para os seus 12 anos, e já não é mais aquela menina colérica e cheia de soberba. Mme. d’Aumale exerce grande influência sobre ela, aconselhando-a em suas leituras e incentivando-a a ser bem-humorada. Era “vivaz, alegre, amável”, como dirá dela Goldoni, seu professor de italiano; e Mme. de Mackau declara que “é impossível ter mais espírito e ser mais amável”; seu irmão, o Conde de Artois, refere-se a ela como “o raio de sol da família”.

Submissão, regularidade, prudência

Noblesse oblige — É chegado o momento de aparecer em público. Assim, em 8 de outubro de 1776, Mme. Elisabeth acompanha sua cunhada, a Rainha Maria Antonieta, ao teatro da Ópera. A plateia, conquistada pelo charme das duas princesas, lhes dispensa caloroso aplauso. E já se faziam também projetos de casamento para essa jovem de deslumbrante beleza. Em 1775, o ministro Vergennes, das Relações Exteriores, iniciou tratativas para uni-la com o herdeiro do trono de Portugal, o futuro Dom João VI, pai de nosso Imperador Dom Pedro I, mas o projeto não prosperou. No ano seguinte falou-se de uma provável aliança com José II, Imperador da Áustria e irmão de Maria Antonieta. Porém o viúvo Imperador excluiu a possibilidade de contrair segundas núpcias.

Em 1778, tendo Mme. Elisabeth atingido a maioridade dos Enfants de France, Luís XVI declarou concluída sua educação, e ela assumiu por inteiro as funções de princesa. Embora não se tenha formado em Saint-Cyr, possuía o espírito da instituição, que frequentemente visitava. Esse espírito é feito de submissão, regularidade e prudência: submissão significa cumprir os deveres de estado; regularidade, o emprego ordenado do tempo; prudência, o respeito ao próximo e a contemplação de Deus.

Admirável comportamento na vida de corte

Em maio de 1783, Luís XVI deu a Mme. Elisabeth a residência de Montreuil
Luís XVI deu a Mme. Elisabeth a residência de Montreuil

Por indicação de suas tias, a princesa adotou como confessor o Pe. Joseph Madier, sacerdote jesuíta que tentou instaurar em Paris, na Paróquia de Saint-Severin, o culto ao Sagrado Coração de Jesus, e lhe abriu as portas dessa devoção eminentemente contra-revolucionária. Incentivou a jovem princesa à confissão e comunhão frequentes, ensinou-lhe as três práticas do aperfeiçoamento espiritual — a meditação, a oração mental e o exame de consciência — preparando-a para uma vida santa através do ascetismo inaciano.

Luís XVI concedeu autonomia à sua irmã de 14 anos e lhe constituiu uma “maison”. Tratava-se de uma pequena corte dentro da grande, que todo príncipe de sangue tinha. Era o seu círculo pessoal, desde o capelão e confessor às damas de honra, os escudeiros, os criados, as arrumadeiras e os médicos. A autonomia era limitada, pois na época a maioridade legal na França se atingia somente aos 25 anos. Apesar das limitações, ela podia dispor livremente de seu tempo e dar ordens à sua entourage, mas permanecendo na estrita dependência do Rei, e adaptou-se rapidamente à sua nova condição. De há muito desejava aprender a montar a cavalo, apaixonou-se pela equitação e cavalgava diariamente com maestria durante várias horas. Mme. de Mackau via nisso um exagero, mas comentava que sua pupila “se porte à merveille”.

Consagrada a Deus numa vida palaciana

No segundo ano de sua independência, em 1779, Mme. Elisabeth tomou uma das mais importantes decisões de sua vida, consagrando-se a Deus. Mme. Royale, sua sobrinha e confidente na prisão do Templo, relata que “ela se consagrou a Deus desde a idade dos 15 anos, e a partir daí só se preocupou com a salvação de sua alma”. Certamente Luís XVI tomou conhecimento do voto de celibato de sua irmã, pois nunca mais arquitetou projetos de casamento para ela.

Enganar-se-ia quem pensasse que o voto de entrega completa a Deus levaria Mme. Elisabeth ao convento, a exemplo de sua tia Mme. Luísa, que se tornou carmelita. Em 1786 ela recusou a dignidade de abadessa de Remiremont5 — cargo prestigioso, ocupado apenas por princesas de sangue real — pois desejava permanecer em Versailles. Além de cumprir todos os deveres da corte, nutria um verdadeiro culto à família e à amizade. Todas as noites a família real inteira se reunia para jantar nos aposentos da Condessa de Provença, e Mme. Elisabeth nunca faltava a esses saraus.

A jovem princesa ama os amigos como ama sua família, com um coração alegre e de modo exuberante. Disso ela mesma se dá conta, quando termina suas cartas assinando “Elisabeth, a louca”. Não obstante, Mme. de Mackau escreve que ela é “cheia de tacto e exata no cumprimento de todos os seus deveres”. O que ela não domina muito bem é o dinheiro, gastando sem contar em presentes para as amigas e esmolas para os pobres, que vêm de todas as partes implorar-lhe socorro.

Num palácio, vida à maneira de um convento secular

Queda da Bastilha, 14 de julho de 1789
Queda da Bastilha, 14 de julho de 1789

Em maio de 1783, Luís XVI lhe deu a residência de Montreuil, antiga propriedade da princesa de Guéméné. Por uma delicada atenção, deixou à esposa a incumbência de transmitir a notícia à sua irmã. Assim, num dia em que as duas visitavam essa residência, Maria Antonieta disse à cunhada: “Minha irmã, esta é agora a sua casa, será o seu Trianon. O Rei, que tem o prazer de lhe oferecer este presente, deixou-me a satisfação de lho comunicar”.

Montreuil, situada junto à grande avenida de Versailles, a pouco mais de um quilômetro de distância do Castelo, não é um grande palácio, como os dos irmãos, mas uma residência confortável e charmosa, de dois andares, num terreno de sete hectares. Atento à menoridade da irmã, Luís XVI só a autorizaria a pernoitar fora de Versailles depois de atingir os 25 anos de idade.

A partir de 1784, Montreuil torna-se o refúgio de Mme. Elisabeth, onde passa vários dias da semana. Com suas damas de companhia, cujo número cresce de ano para ano, leva uma vida regrada e de oração. Entre sua chegada por volta das 9 horas da manhã, e sua partida às 6 horas da tarde, o emprego do tempo é metodicamente ordenado, sucedendo-se as horas de trabalho de agulha, de leitura, de conversa, de oração e de distração. Jean de Viguerie comenta que Montreuil “é uma espécie de convento secular, cuja priora é Mme. Elisabeth”.

Alegria, piedade, caridade, gentileza, amizade

Além de seu gosto entusiasmado pela equitação, pelas caçadas a cavalo e pela pesca, ela se mostra incomparável nos trabalhos de agulha, bem mais preferidos por suas damas de companhia. Seus bordados rivalizam com os das melhores artesãs do Reino. Pinta com rara arte paisagens agrestes e marinhas, ela que nunca viu o mar. Dedica-se também à música, tocando harpa e cravo. No afã de tudo aprender, inicia-se na arte da modelagem, podendo assim oferecer às amigas imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e dos santos, feitas por suas mãos.

Mme. Elisabeth tinha três padrões de vida bastante distintos: uma, a da corte, pois sua condição de princesa de sangue a obriga a receber em audiência personalidades de passagem por Versailles; a segunda, em Montreuil, na companhia de suas damas; a terceira, sua vida privada, comporta longos momentos de solidão, como escreve a Mme. de Blangy em setembro de 1784: “Estou no Trianon, onde levo uma vida muito solitária”.

Nota-se em suas cartas um raro discernimento. Diagnosticava com notável lucidez a frivolidade de sua época e da vida de corte. Embora a solidão lhe pesasse, temia muito mais a “vida de dissipação”. Sua piedade lhe dava forças para enfrentar um ambiente que lhe era hostil, sendo o único membro da família real que assistia diariamente à Santa Missa. No tempo da Quaresma observava rigorosamente o jejum prescrito pela Igreja. Contudo, sua vida não era a de um asceta. Gostava da boa mesa, mas sabia se conter. Nisso seu estrito regulamento de vida a ajudava.

Alegria casta, piedade profunda, caridade sem limites, gentileza perfeita, amizade inquebrantável, tudo isso se encontra em Mme. Elisabeth. Um tal conjunto de qualidades morais não é comum na corte, por isso ela gozava de alta reputação em toda a França. Em 26 de agosto de 1786, Mons. de Bausset, bispo de Alais, quando foi recebido pelo Rei, pediu e lhe foi concedido que lhe apresentassem Mme. Elisabeth. Dirigiu a ela um pequeno discurso, em que elogiou sua candura, inocência, indiferença às honras e aos prazeres mundanos. E terminou lamentando que suas palavras não estavam no nível condizente com a realidade. E ela replicou: “É bem verdade, estão bem acima dela”.

O palácio das Tulherias foi invadido e a guarda suíça massacrada
O palácio das Tulherias foi invadido e a guarda suíça massacrada

Revolução francesa: “monstros saídos dos infernos”

No dia 3 de maio de 1789 ela atingiu a maioridade legal, sendo autorizada a pernoitar em Montreuil e presidir “círculos” aos quais homens são admitidos. Uma pequena festa comemorou o aniversário, mas o clima político abafou a alegria. Dois dias depois o Rei abriu os Estados Gerais, mas o Terceiro Estado (representantes do povo) entrou em rebelião na sessão seguinte, recusando-se a realizar reuniões como corpo distinto dos dois outros (clero e nobreza). O clero e a nobreza deram-lhe apoio, e os três Estados se transformaram em Assembleia Constituinte. Era o início da Revolução.

Mme. Elisabeth assistiu a tudo da loggia real. Sua propriedade de Montreuil situava-se quase em frente ao salão dos Menus Plaisirs, onde se congregava a Assembleia. Em 29 de maio, escreveu: “Tudo vai pior do que nunca. […] A monarquia só conseguirá retomar seu brilho por meio de um golpe de força; meu irmão não o dará”.

No dia 12 de julho houve uma insurreição em Paris, e dois dias depois a Bastilha caiu. O Rei ordenou que seu irmão, o Conde de Artois, tomasse o caminho do exílio. Era o primeiro abalo na união familiar, repercutindo também nas famílias amigas. Pressentindo o perigo, Mme. Elisabeth quis salvar suas duas melhores amigas, e ordenou a Angélica de Bombelles e Luísa de Raigecourt partirem para o estrangeiro.

Na noite de 5 para 6 de outubro o castelo de Versailles foi invadido por uma turba de agitadores vindos de Paris, que forçaram as portas e massacraram os guardas. A família real foi arrastada no dia 6 para Paris, numa marcha lenta precedida pelos bandidos, que brandiam chuços com as cabeças dos guardas neles espetadas. Mme. Elisabeth relatou em carta ao Pe. de Lubersac o suplício dessa jornada em companhia de “monstros saídos dos infernos”.

O palácio das Tulherias tornou-se para a família real uma mal disfarçada prisão. Das damas de companhia só lhe restavam duas. Houve defecções vergonhosas, como a do Conde de Coigny, seu “cavaleiro de honra”, que partiu para Veneza sob o pretexto de acompanhar a filha, e não retornaria mais à França.

Mme. Elisabeth assistia à Missa e comungava diariamente, numa época em que ainda era raríssima a comunhão frequente. Incitava suas amigas a imitá-la, como em carta a Mme. Raigecourt em 16 de outubro de 1790: “Não te deixes privar do alimento divino. Nada de escrúpulos que afetam o bom senso”. Discerniu na Assembleia Nacional, e na revolução por ela promovida, o grande inimigo a enfrentar. Em 18 de março de 1791, informa a Mme. de Raigecourt: “A França está a ponto de perecer. Só Deus pode salvá-la”. Pouco depois, em outra carta, lamenta que a França talvez não mereça ser salva, por causa dos bispos e padres juramentados, uma tremenda ofensa à Majestade Divina.

Símbolo de fidelidade à Fé católica

Maria Antonieta saindo da Conciergerie para a guilhotina
Maria Antonieta saindo da Conciergerie para a guilhotina

A devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria ocupava lugar eminente em sua vida de piedade, praticada em espírito de reparação pelas ofensas que Lhes são dirigidas todos os dias. Com esse objetivo, fundou em julho de 1789 uma associação consagrada aos dois Corações. Em julho de 1790, quando da sanção real à Constituição Civil do Clero, ela fez um voto ao Coração Imaculado de Maria para obter a conservação da Religião Católica na França, consistindo em três promessas: a) dar um donativo para uma boa obra; b) pagar a educação de um rapaz e de uma moça pobres; c) erigir um altar ao Coração Imaculado de Maria, diante do qual deverá ser celebrada mensalmente uma Missa em ação de graças.

Para comemorar esse voto, Mme. Elisabeth ofereceu à Catedral de Chartres dois Corações unidos, de Jesus e Maria, confeccionados com “o mais puro ouro”. Em 1791, determinou que a “boa obra” seja a assistência pecuniária aos padres não-juramentados sem recursos, posto que a coragem do clero fiel lhe é motivo de consolação.

Em março de 1791, o Pe. Madier, seu confessor desde a idade dos nove anos, acompanhou ao exílio suas três tias. Essas queriam levar consigo a querida sobrinha, que no entanto se recusou. Seu dever, dizia ela, era permanecer junto ao Rei.

Para substituir seu confessor, dirigiu-se ao superior do Seminário das Missões Estrangeiras, que lhe indicou o Pe. Edgeworth de Firmont, sacerdote de origem irlandesa, zeloso em visitar os pobres e ouvir confissões.6

Diante da feroz perseguição desencadeada contra os padres não-juramentados, ela considerava a possibilidade do martírio, mas declarou: “Não tenho propensão ao martírio, mas espero que Deus me dará a força necessária, caso esteja destinada a ele”.

Aos olhos de toda a França, Mme. Elisabeth se destaca como símbolo de fidelidade à Fé católica. Todos conheciam sua recusa inabalável de assistir a missas celebradas por padres constitucionais, tornando-se por isso alvo dos escritores revolucionários. O pasquim “Père Duchesne”, publicado pelo padre apóstata Hébert, insulta-a como “a gorda Babet, essa mulherzinha tão má como bonita, […] essa carniça má, que gostaria de ver a nação lançada aos diabos”.

Aspectos mais sangrentos da Revolução Francesa

Nuvens negras se adensavam no horizonte, enquanto ela sofria com a inércia do Rei, pois havia momentos em que a crise ainda podia ser debelada: “Ah, se o Rei se decidisse a mandar cortar três ou quatro cabeças, tudo se resolveria” — exclama com tristeza. Depois do fracasso da fuga de Varennes, em junho de 1791, ela prevê as piores convulsões para a França e se prepara espiritualmente para a tragédia.

Os acontecimentos se precipitavam. À Assembleia Legislativa sucedeu a Constituinte em setembro, e havia insatisfação em todo o país. O recurso à guerra era a solução para abafar os descontentamentos. Enquanto isso a esquerda radical da Assembleia preparava a deposição do Rei e o fim da monarquia. Atingiu seu objetivo com os levantes sangrentos de 20 de julho e 10 de agosto de 1792, quando o palácio das Tulherias foi invadido e a guarda suíça massacrada, com centenas de nobres fiéis.

A família real se refugiou na Convenção, e três dias depois foi levada prisioneira para a torre do Templo, antigo palácio da Ordem de Malta. A Convenção aboliu a monarquia e proclamou a república no dia 21 de setembro. No início de dezembro abriu processo contra o Rei, condenado sem sursis em 19 de janeiro de 1793 e executado dois dias depois.

         Na manhã do dia 21, ao ouvir o troar dos canhões, Maria Antonieta compreendeu que ficara viúva. Ajoelhou-se então diante do filho de nove anos, e o reconheceu como novo Rei de França.

O ódio revolucionário contra a família real não diminuiu. O jovem rei foi separado dos seus e colocado sob o jugo do sapateiro Simon, que o torturou até a morte. Em setembro, transportaram a Rainha Maria Antonieta para a Conciergerie, onde foi “julgada”, e executada no dia 16 de outubro.

Martirizada a princesa de sangue real, heroica e inocente

Estátua de Mme. Elisabeth, no Castelo de Chambord
Estátua de Mme. Elisabeth, no Castelo de Chambord

Na prisão do Templo ficaram juntas Mme. Elisabeth e Mme. Royale, sua sobrinha de 14 anos. Depois da execução da Rainha, os municipais lhes retiraram a baixela de prata, as porcelanas, os candelabros. Os jacobinos radicais queriam agora o sangue de Mme. Elisabeth, e Hébert não se cansava de reclamá-lo em seu pasquim. Fracassaram duas tentativas de levar a princesa ao Tribunal Revolucionário, mas a terceira prosperou com a cumplicidade de Robespierre.

Na noite de 9 de maio de 1794, esbirros levaram Mme. Elisabeth para a Conciergerie. Seu processo com os de mais 23 acusados, iniciado às 9 horas da manhã,7 terminou ao meio-dia com a condenação sumária de todos. Chauveau-Lagarde, o advogado de Mme. Elisabeth, foi ardilosamente impedido de intervir no simulacro de processo, presidido pelo ex-seminarista apóstata Dumas.

Os condenados foram imediatamente conduzidos à sala fúnebre, onde Sanson e seus auxiliares lhes cortaram os cabelos. Mme. Elisabeth aproveitou esses derradeiros momentos para preparar todos para a morte, animando-os a ter confiança na misericórdia divina e lhes acenando para a radiosa perspectiva do Céu, a alcançar dentro em pouco.

A sequência trágica, já a conhecemos.

O assassinato de Mme. Elisabeth, movido pelo ódio jacobino a tudo que ela representava — isto é, a sociedade sacral, hierárquica, anti-igualitária e embebida do espírito da Igreja — constitui um verdadeiro martírio, no sentido etimológico do termo; um autêntico testemunho da Fé católica e dos valores da civilização cristã, deixando patente para todas as gerações futuras a carantonha cruel, ímpia e infernal da Revolução.8

Os restos ensanguentados de Mme. Elisabeth, sepultados numa vala comum junto com os demais corpos, jamais foram encontrados. A ela não estavam reservados nem sepultura, nem epitáfio, nem monumento. Mas permanece viva na França a lembrança dessa princesa de sangue real, heroica e inocente, arrojada e pura, brilhante e humilde, em tudo uma grande Dama e modelo ilibado de todas as perfeições morais.9

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Notas:

  1. É o que afirma textualmente Mame. de Genlis. Cfr. Mémoires de Madame de Genlis, Ladvocat, Paris, 1825, t. VI, p. 117.
  2. Angélica de Mackau casou-se em 19 de maio de 1778 com o Marquês Marc-Marie de Bombelles, diplomata e embaixador em várias cortes europeias. As cartas de Mme. Elisabeth à sua amiga refletem a profundidade e a solidez dessa amizade, expressa tão bem no dito de Cícero: verae amicitiae sempiternae sunt. Foram publicadas por Feuillet de Conches em meados do século XVIII. Em 1794, quando da execução de Mme. Elisabeth, Angélica encontrava-se no exterior com o marido. Quase enlouqueceu ao saber da infausta notícia. Morreu em 1800. Viúvo, o Marquês de Bombelles tornou-se sacerdote e exerceu seu ministério em Oberglogau, na Prússia oriental. Retornando à França, a Santa Sé nomeou-o Bispo de Amiens.
  3. Luísa, filha da Mme. de Causans, dama de companhia de Mme. Elisabeth, desfrutou de modo especial de sua amizade e proteção. Quando estava para contrair matrimônio com o Marquês de Raigecourt, faltavam-lhe para o dote 150.000 escudos. Mme. Elisabeth solicitou ao Rei que lhe adiantasse essa quantia, descontando-a de sua dotação anual de 30.000 escudos para presentes. O casamento foi celebrado no dia 29 de junho de 1784. Na alegria geral das duas famílias, comenta Mme. Elisabeth: “Não possuo mais dinheiro para presentes, mas tenho a minha Raigecourt”.
  4. Mme. Clotilde (1759-1802) não deixou descendência. Notável pela grande virtude e eminente piedade, o povo de Turim dizia dela, ainda em vida, que era uma santa. A exemplo de seus irmãos, sofreu as consequências nefastas da Revolução Francesa. Faleceu em Nápoles, onde está enterrada na Igreja de Santa Catarina a Chiaia. Pio VII, que a conheceu pessoalmente, declarou-a Venerável em 1808 e introduziu seu processo de beatificação. Em 11 de fevereiro de 1982, João Paulo II assinou o decreto proclamando a heroicidade de suas virtudes. Seu esposo, o rei Carlos Emanuel IV da Sardenha-Piemonte, após ser derrubado do trono em 1798 pelas tropas francesas do Diretório, passou por toda sorte de privações no exílio.
  5. “Não quero ficar atada a um voto. Não desejo adotar um modo de vida que me torne independente do Rei e da Rainha”, afirmou Mme. Elisabeth a Angélica de Mackau. O único vínculo que aceitou é o que a liga à família real.
  6. Foi este sacerdote quem acompanhou Luís XVI ao cadafalso e acompanhou a família de Luís XVIII ao exílio. Morreu no castelo que o Duque da Curlândia pôs à disposição da família real francesa em Jelgava, onde está enterrado.
  7. De manhã, preparando-se para comparecer diante do tribunal que a condenaria à morte, foi vista rezando a oração ao Sagrado Coração de Jesus, um belo ato de inteira conformidade com os desígnios divinos, que ficou famosa por lhe ter sido atribuída:

“Ó meu Deus, ignoro o que o dia de hoje me reserva. Tudo o que sei é que não me acontecerá nada que não tenha sido previsto por Vós desde toda a eternidade. Isso me basta, ó meu Deus, para estar tranquila. Adoro vossos desígnios eternos, a eles me submeto de todo o coração. Quero tudo, aceito tudo. Sacrifico tudo e uno esse sacrifício ao de vosso dileto Filho, meu Salvador, pedindo-vos, por intermédio do Sagrado Coração de Jesus e de seus méritos infinitos, paciência em meus males e a perfeita submissão que vos é devida em tudo o que Vós quereis e permitais”.

  • No prefácio à biografia de Madame Elisabeth por Beauchesne, Dom Dupanloup, bispo de Orleans, comenta o legado moral da Princesa: “Assim caiu ceifado pela morte o belo lírio da estirpe dos Bourbons. O perfume de suas virtudes encanta o mundo inteiro. Sua bela figura brilha na noite dos séculos. Sua fidelidade na amizade, sua prontidão ao sacrifício, sua paciência no sofrimento, seus elevados sentimentos, sua coragem na morte, suscitarão sempre admiração, inflamarão os corações nobres e deixarão transparecer a sublimidade da virtude. Sua morte deu à Casa de Bourbon uma glória eterna, à República uma censura constante, e à Igreja uma santa” (Apud Johann Baptist Weiss, Die französische Revolution, Graz, T. 4, pp. 302-303).
  • O Papa Pio VII, hospedando-se nas Tulherias nos quartos outrora utilizados por Mme. Elisabeth, afirmou ao Pe. Proyart, que lhe foi oferecer uma biografia de Madame Luísa, filha de Luís XV e carmelita: “Estou morando nos aposentos de uma santa”.

Outras obras consultadas:

Goncourt, Histoire de la société française pendant la Révolution, Charpentier, Paris, 1895.

Jean Joseph Gaume, Mgr, La Révolution – Recherches Historiques, Gaume Frères, Paris, 1856.

Johann Baptist Weiss, Die französische Revolution, Styria Verlag, Graz.

Jules Mazé, Louis XVI et Marie-Antoinette – La famille royale et la Révolution, Hachette, Paris, 1943.

Madeleine Louise de S., Madame Elisabeth inconnue, Beauchesne, Paris, 1955.

Noelle Destremeau, Une soeur de Louis XVI – Madame Elisabeth, Nouvelles Editions Latines, Paris, 1983.

Jean de Viguerie, Le sacrifice du soir – Vie et mort de Madame Elisabeth soeur de Louis XVI, Cerf, Paris, 2011.

Conseil General de Yvelines, Madame Elisabeth – Une princesse au destin tragique (1764-1794), Sylvana Editoriale, 2013.

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 821, Maio/2019.

1 comentário para Madame Elisabeth de França

  1. Eduardo Araújo Responder

    4 de junho de 2019 à 19:55

    Muito bom texto da biografia dessa notável mulher.

    Lendo-o, percebi os pontos comuns que os odientos revolucionários, com seu senso deformado de justiça, sua inclemência com os diferentes deles, seu cinismo, sua hipocrisia, sua intolerãncia, seu ódio à religião cristã e à família … Todos muito comuns com a esquerda hodierna.

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