Nazismo e comunismo, movimentos confluentes

Sob o quadro de Lenin e do olhar de Stalin, a Rússia e a Alemanha firmaram em 23 de agosto uma aliança, o pacto Ribbentrop-Molotov, que só terminou dois anos depois, em 22 de junho de 1941, com a invasão da Rússia pela Alemanha.
  • Péricles Capanema

Comunismo e socialismo, movimentos de esquerda, não há o que discutir. Nazismo? Em geral, tem sido considerado de direita. Vamos devagar. Ao longo de décadas, autores muito sérios negaram essa dicotomia, lembrando sua afinidade ideológica e que confluem para o mesmo ponto; deles lembro dois.

Antes da Segunda Guerra Mundial, quando o nazismo estava no auge, foi publicada em agosto de 1938 esta afirmação: “[Houve] o reatamento das relações diplomáticas entre a Alemanha e a Rússia, que vinham sendo muito regulares, e que se tornaram normais. […] A verdade é esta: se bem que Hitler pregue contra o comunismo e se apresente como defensor da civilização europeia contra esse mal, sua atitude em relação ao governo soviético difere fundamentalmente dessa propaganda”.

Em 1º de janeiro de 1939, notava o mesmo autor crescente confluência doutrinária entre nazismo e comunismo: Efetivamente, enquanto todos os campos se definem, um movimento cada vez mais nítido se processa. É a fusão doutrinária do nazismo com o comunismo. A nosso ver, 1939 assistirá à consumação dessa fusão”.

Em maio de 1939: “A nota mais curiosa do noticiário da semana passada foi fornecida, sem dúvida, pelos rumores insistentes sobre uma aproximação teuto-russa. À primeira vista esta versão tem contra si fortes possibilidades. […] Dada a campanha espetacular que o nazismo e o comunismo dirigem um contra o outro, seria deveras surpreendente que ambos se reconciliassem. Os observadores menos superficiais, entretanto, não consideram tão inverossímil essa hipótese. Em primeiro lugar, nenhuma pessoa medianamente culta poderá negar a inteira afinidade ideológica existente entre o totalitarismo e o comunismo. […] A Alemanha é nacional-socialista. A Rússia está ficando nacionalista sem deixar de ser comunista”.

Stalin e Ribbentrop na assinatura do pacto

O autor destacava crescente confluência doutrinária entre os dois movimentos, em especial totalitarismo e nacionalismo, e que tais afinidades ideológicas levariam naturalmente a acordos políticos e diplomáticos, à reconciliação. À véspera da 2ª Guerra Mundial, 1º de setembro de 1939, a Rússia e a Alemanha firmaram em 23 de agosto uma aliança, o pacto Ribbentrop-Molotov, que só terminou dois anos depois, em 22 de junho de 1941, com a invasão da Rússia pela Alemanha.

Em fevereiro de 1940, já em plena guerra, foi assinado o acordo de comércio germano-soviético. Sobre a entrada da Itália (leia-se fascismo) na guerra ao lado da Alemanha, em junho de 1940, escreveu o mesmo autor: “Segundo as previsões desta folha [que já sustentava a inconsistência da luta entre o totalitarismo de direita e de esquerda], dia viria em que os fatos demonstrariam esta tese, e o mundo ainda assistiria à aliança de uma e outra ideologia. Veio finalmente o pacto Ribbentrop-Stalin, e de lá para cá nosso ponto de vista tem recebido da realidade a sua mais plena confirmação”.

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Caricatura no jornal semanal “Mucha”, de Varsóvia (8-9-1939), já com a invasão Nazista em andamento. Ribbentrop faz reverência a Stalin.

Em 1944 já se pressentia a derrota da Alemanha, atacada a oeste pelos Estados Unidos e aliados; e a leste, pela Rússia. Havia, portanto, um inimigo comum, por isso era grande no Ocidente a propaganda favorável aos soviéticos e às doutrinas socialistas. Na Inglaterra aumentava o prestígio das teses socialistas, com provável repercussão eleitoral. As doutrinas e os movimentos que geraram o nazismo (nacional-socialismo) eram ali também fortes, podendo dar origem a uma situação política socialista ou de feições nazistas. Os dois movimentos tinham inspiração doutrinária comum — estatismo, planejamento totalitário, culto do coletivo, menosprezo da pessoa humana.

Naquele momento, plena guerra, temendo a vitória socialista nas urnas (o que se deu) um pensador advertiu: “É o destino da Alemanha que estamos em perigo de seguir. Há mais do que uma semelhança superficial entre o rumo do pensamento na Alemanha durante e após a Primeira Guerra Mundial. Poucos estão prontos a reconhecer que a ascensão do nazismo e do fascismo não foi uma reação contra as tendências socialistas do período precedente, mas o resultado necessário dessas mesmas tendências”.

Constatava que, assim como na Alemanha de quinze anos atrás, o socialismo havia dominado as mentalidades na Inglaterra: “Se considerarmos as pessoas cujas opiniões influem nos acontecimentos neste país, todas elas são em certo sentido socialistas. Porque todos o desejam estamos marchando na direção do socialismo”.

Para o autor, importavam pouco os rótulos, tinha em vista o conteúdo comum, o coletivismo e o menosprezo da pessoa. Ao tratar das raízes socialistas do nazismo, afirmou: “É um engano considerar o nacional-socialismo uma simples revolta contra a razão, um movimento irracional sem antecedentes intelectuais. As doutrinas do nacional-socialismo representam o ponto culminante de uma longa evolução de ideias. O sistema se desenvolveu com coerência implacável. Uma vez aceitas suas premissas, não se pode fugir à sua lógica. Trata-se simplesmente do coletivismo. No início as ideias nazistas eram aceitas apenas por uma minoria, mas em seguida passaram a conquistar o apoio da maioria do povo. O apoio a elas veio exatamente dos socialistas, e não de uma burguesia. Os mais ilustres precursores do nacional-socialismo são reconhecidos, ao mesmo tempo, como fundadores do socialismo”.

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Antes de passarmos à consideração de acontecimentos da realidade atual sobre o assunto, duas palavras sobre os autores dos textos transcritos acima. Todos os comentários publicados durante a ascensão do nazismo e nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial são do prof. Plinio Corrêa de Oliveira [foto à esq.], e foram divulgados no semanário “Legionário”, da diocese de São Paulo, do qual era diretor. Já nessa época ele tinha posição contrária ao socialismo, nazismo, fascismo e comunismo, o que deixou marcado em numerosos lances de sua vida.

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Em 1944, próximo ao final da guerra, foi publicado na Inglaterra o livro “O Caminho da Servidão”, de Friedrich August von Hayek (1902-1992) [foto à dir.], do qual extraímos os outros textos. Hayek já era na época pensador respeitado na Inglaterra (onde vivia) e no mundo alemão (de onde provinha). Em especial era notado por causa de suas polêmicas com John Maynard Keynes (1883-1946); Margareth Thatcher o considerava “o mais importante crítico do planejamento socialista e do Estado socialista”. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1974.

Ambos os autores sabiam muito bem do que falaram e escreveram. E expressaram suas ideias contra um nazismo poderoso e ameaçador, não de um gabinete tranquilo, depois da Segunda Guerra Guerra Mundial.

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O chanceler Ernesto Araújo [foto] meses atrás afirmou que o nazismo era um movimento de esquerda, repetindo o que divulgara em seu blog em 2017. A esquerda nacional, com aplausos da esquerda mundial, desencadeou contra ele uma tempestade midiática. Para os fomentadores de tal campanha de desprestígio, o titular do Itamaraty teria dito asneira, absurdo científico, disparate. Uma saraivada de impropérios procurou denegrir a figura do ministro. Análise profunda dos conceitos, nenhuma. Apenas gritaria intimidatória da patrulha ideológica, useira e vezeira deste tipo de “operação mordaça”.

Fez bem o ministro em levantar o tema. Ele e qualquer outro que queira; precisamos arejar o ambiente. O totalitarismo não morreu, viceja nos países comunistas e fora deles. Por exemplo, a mentalidade totalitária continua atuante entre nós, entre outros locais, nas redações dos órgãos de divulgação, na academia, nos seminários e sacristias do clero “progressista”. Manifestou-se nítida nos ataques furibundos a ele.