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NOMES PITORESCOS, SEM CARRANCA COMUNISTA

Jacinto Flecha

Jacinto Flecha

Jacinto FlechaNa crônica O sabor da língua, o cronista mineiro Ivan Angelo, exilado como eu na metrópole paulista, trata de assunto semelhante ao que abordei nas crônicas Os nomes que as ruas têm e Nomes que as ruas não têm. Ressalta alguns aspectos pitorescos dos nomes de ruas e outros, que ele encontrou em Portugal. Como grande parte dos meus leitores é de Minas, mas a “Veja São Paulo” (Vejinha) não circula por lá, tomo a liberdade de transcrever a excelente crônica do meu conterrâneo:

Um dos encantos de Portugal, para um brasileiro que tem a língua portuguesa como instrumento de trabalho, é o uso que se faz dela no nome dos lugares, nos cardápios, nas conversas, nas ruas. Não pensem que me refiro a sotaques, prosódias, vocabulário diferente para itens comuns de cá e de lá. O encanto de que falo é o modo conceitual de nomear, de pôr nos nomes ideias e maneiras de ser, combinando humor e informação, e conservá-los ao longo dos anos. É uma qualidade que perdemos quando abandonamos a sensibilidade de chamar uma via de Estrada das Lágrimas, uma praça de Largo da Batata, um largo de Praça da Árvore, uma rua de Alegria ou Sinceridade, uma comida de vaca atolada.

Jacinto FlechaDenominações de sabor antigo vão desaparecendo, com o que se perde um pouco de história. Enquanto isso, em Portugal… Lisboa. Passo por uma Rua da Achada. Sigo por um Caminho das Necessidades, que vai dar no Largo das Necessidades, que fica em frente ao Palácio das Necessidades. E olhe que isso não está muito longe da Rua do Alívio. No bairro do Chiado há a Rua Fresca; perto, na Travessa da Espera, fica o concorrido restaurante Farta Brutos [fotos acima], a desafiar os glutões que transpõem o dístico “Aqui, mastiga-se”.

Do outro lado da cidade, distraio-me em suposições diante de uma placa: quem terá originado este nome, Rua da Bempostinha? Bem-posta, sabe-se bem o que é: elegante, alinhada, bem-vestida; mas assim, com esse diminutivo, essa intimidade? Alguma queridinha do bairro, uma lindinha, uma menina? Há uma Rua do Cotovelo, em forma mesmo de cotovelo, que cruza com a Rua Arco das Águas Livres. A Rua Dois cruza com a Três. Perto do aeroporto fica a Rua Junto aos Eucaliptos.

No Porto, descendo a ladeira da Sé para a Ribeira, chego à Travessa das Verdades e almoço no Postigo do Carvão. Por aqui, o bilhete recarregável do metrô chama-se Andante, pois sem ele não se anda: a multa é de 800 euros. Na belíssima Livraria Lello, do século XIX, encontro o livro didático Sebenta de Matemáticas Gerais. Sebenta tem a mesma raiz de sebo, denominação que usamos para casa de livros usados, e carrega o sentido de anotações de classe, matéria passada e repassada, “sebenta”.

Nas comidas, esbalda-se. Tanto pela qualidade e quantidade quanto — eis o assunto desta crônica — pelos nomes. Arroz malandrinho é um com mais caldo ou molho, não vem seco e soltinho como aqui. Arroz de afogado é para aproveitar os miúdos do cabrito, com caldo, claro. Súplicas são umas bolachas de farinha e ovos, 500 gramas para oito ovos. Batatas bêbadas são cozidas no vinho, junto com carne previamente frita.

Batatas ao murro levam um soco mesmo, e voltam ao forno para ser finalizadas. Esquecidos são biscoitos cuja massa se coloca em pelotas no tabuleiro e, depois, deixa-se a fôrma cair sobre a mesa para achatar a massa. Gargantas de freira são uns canudos de massa fina, chamada hóstia, recheados com fios de ovos. Barriga de freira é um tipo de pudim de pão e ovos, lisinho.

Comer e chorar por mais, é um doce de amêndoas e ovos, muitos ovos, como é o costume. Percebes são um tipo de marisco. Há bons nomes para todo lado, como o de um vinho do Alentejo, o Inevitável, ou o de uma cozinheira da televisão, Filipa Vacondeus, que morreu em janeiro, ou o de uma cidade do norte, Freixo de Espada à Cinta (freixo é uma árvore poderosa), batizada bem antes dos descobrimentos. Pouco depois, polêmicas à parte, por causa de um pau de tinta vermelha como brasa, inventaram o Brasil. Não está mal.

Até aqui o Ivan Angelo. E agora eu pergunto aos meus prezados leitores se gostaram da maneira peculiar, divertida, ligada à afetividade, aos sentimentos, ao coração, que os portugueses d’antanho usavam para denominar as coisas.

Não lhe parece interessante e agradável convidar um amigo para visitá-lo em sua residência na Ladeira Vai-quem-quer, na Praça do Pôr do Sol, na Rua da Felicidade ou na Praça das Princesas? Compare esses nomes, inclusive os de Portugal, com este tijolo petulante que poderia constar em algum endereço de Brasília: SIHS – QL 14 – CJ 5 – C 8. Gostou? Achou engraçado? Memorizou? Pretende ir lá?

Eis aí, caro leitor, um endereço impessoal, igualitário, comunista. Uma espécie de tijolão burocrático pesado, sem graça, sem personalidade. Quem viu um, viu todos, e este é um aspecto desolador do igualitarismo comunista. Importante, mas pequeno em relação a inúmeros outros aspectos bem mais detestáveis.

Podemos fazer piadas sobre qualquer assunto onde entram os portugueses, inclusive em nomes como esses. Mas duvido que eles consigam retribuir-nos com gracejos a propósito desses tijolões comunistas de Brasília. Como não têm graça, não servem nem para fazer piadas.

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 Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente

 

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