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O pé da Luísa Carneiro e os 100 mil cristãos mortos a cada ano

Leo Daniele

Católicos nigerianos mortos pela sua Fé em dezembro de 2011

 

Bem se vê a genialidade de um dos maiores literatos da língua portuguesa — Eça de Queiroz — pela maneira como ele nos introduz no cenário de um tema bizarro: o pé da Luísa Carneiro. Primeiramente, ele descreve o cenário.

Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, um jornal da tarde. Em torno da mesa outras senhoras costuravam. Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de maio. 

Catástrofes em pontos longínquos do planeta enunciados pela senhora causavam indiferença ou sono. Até que se passou o seguinte:

A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno… E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça: 
— Santo Deus!…Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando: 
— Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista… Esta manhã! Torceu um pé! 
Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto. As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!… A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia. 
Dois mil javaneses sepultados no terremoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações… Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume. 

Foi a essa altura que Eça de Queiroz chegou aonde queria chegar, o papel da distância em nossos sentimentos: um carro esmagando a pata de um cão, em frente à nossa janela, é um caso infinitamente mais aflitivo do que a heroica e adorável Joana d’Arc queimada na praça de Rouen!

Esta constatação feita, voltemos ao Terceiro Milênio, e veremos algo do mesmo gênero. Segundo levantamento consignado à ONU pelo embaixador do Vaticano, D. Silvano Maria Tomasi, mais de 100 mil cristãos – repetindo, cem mil cristãos – são mortos a cada ano em razão do fanatismo anticristão.[1] Ou seja, o massacre de 273 vítimas por dia – repetindo: por dia.

Será que alguém julgará que isto é menos digno de atenção que o pé machucado de uma menina? Talvez seja a explicação da pouca atenção que a mídia dá a esses números impressionantes!

Vejamos o julgamento de Plinio Corrêa de Oliveira a quem assim procede: É um homem de horizontes estreitos, de vontade acanhada, medíocre em toda a força do termo. Um egoísta que julga que está no centro do universo e acha legítimo que para ele as coisas só interessem enquanto forem próximas a si.[2]

Da mesma forma, uma pessoa ouve, por exemplo, que vai haver uma novena na própria paróquia e se interessa muito. Mas se lhe dizem que Nossa Senhora apareceu em Fátima. a pessoa se move menos, porque Fátima é longe e é um outro continente. Assim, ela não julga das coisas nem de acordo com a razão, nem de acordo com o espírito de fé. 

Não se trata de estremecer no sentido sensível, nervoso, da palavra. Não é isto! Mas é fazer um juízo a respeito da gravidade desse acontecimento, à vista das razões sobrenaturais e às vezes também materiais, que levam a conferir a ele toda sua gravidade. 
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[1] “O Estado de S. Paulo, 8-6-13
[2] Tudo o que está em itálico foi extraído de conferência pronunciada por Plinio Corrêa de Oliveira, em 27-8-71.

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Leo Daniele é colaborador da Agência Boa Imprensa (ABIM)

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