O príncipe guerreiro ante a suavidade do Natal

  • Paulo Henrique Américo de Araújo
Jesus cura o paralítico na piscina de Bethesda – Bartolomé Esteban Murillo (1667-70). The National Gallery, Londres

A Santa Igreja de Deus forjou durante os séculos admiráveis exemplos de santidade e heroísmo, suscitando nas almas harmonias de virtudes aparentemente contraditórias.

À primeira vista, nada parece mais conflitante do que, por exemplo, a vida de oração constante de um monge e sua dedicação às atividades apostólicas. Ou entre o incentivo que, de um lado, a Igreja sempre deu à castidade, à virgindade das freiras e dos sacerdotes; e de outro lado o favorecimento da fecundidade das famílias numerosas. Ou ainda ao ensinar, ao mesmo tempo, o amor à pobreza, o desapego dos bens materiais e as esplêndidas manifestações do belo nos trajes da nobreza, nos paramentos litúrgicos, nos palácios, nas catedrais, e mesmo na dignificação e elevação do povo.

Tais contrastes harmônicos, sejam a título individual, sejam nas múltiplas instituições surgidas da civilização cristã, têm sua origem na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele demonstrava, em todo o seu proceder, uma concórdia admirável de virtudes aparentemente contraditórias. Há uma oposição magnífica, e ao mesmo tempo harmônica, entre as expressões “Cordeiro de Deus” e “Leão da Tribo de Judá”, aplicadas a Nosso Senhor.

Paulo I, Príncipe Esterházy de Galantha. Abaixo, a comenda da Ordem do Tosão de Ouro.

Lembremos que o Divino Salvador se mostrava manso e humilde de coração, sempre pronto a perdoar e curar; mas em outras ocasiões manifestava uma imensa severidade contra os fariseus, e até com relação aos apóstolos, quando estes agiam mal. Jesus, misericordioso, perdoou a mulher adúltera e lhe disse: “Vai e não peques mais”. O mesmo Jesus, tomado de santa cólera, entrou no Templo de chicote em punho e expulsou os vendilhões, com força e firmeza incomparáveis.

Sem essas harmonias do Filho de Deus, nunca compreenderíamos como os cavaleiros cristãos de todo o mundo conhecido rezavam com piedade serena nas capelas, e logo depois lutavam como leões nas batalhas contra os muçulmanos, que marcaram páginas épicas na história das Cruzadas.

Essas considerações nos fazem refletir no evidente contraste entre as doçuras inefáveis do Natal e as tragédias de uma guerra. Poderia alguém se dedicar a esses dois extremos harmonicamente? Haveria, neste caso, concórdia entre os dois estados? Ou estaríamos diante de uma oposição, ou pelo menos certo afastamento? Bem entendido, não nos referimos a uma pessoa que, por exemplo, cansada da luta e dos combates militares, volta-se sofregamente à paz e à suavidade da época do Natal. Temos em mente a possibilidade de uma pessoa dedicar-se, com o mesmo ardor e empenho, às amenidades do Natal e às inevitáveis brutalidades da guerra. Será isso possível?

Encontramos um exemplo sublime dessas harmonias na vida de Paulo I, Príncipe Esterházy de Galantha.1 Nascido de nobre família húngara em 1635, recebeu esmerada formação católica, numa atmosfera profundamente religiosa. Estudou com os jesuítas, e desde muito cedo apresentou talentos artísticos. Aos 17 anos herdou de seu pai o título de conde, após a morte do irmão mais velho.

Palácio Esterházy, em Fertod, Hungria

A partir dos 28 anos, dedicou-se a uma carreira militar repleta de perigos e glórias. Combateu pela Hungria cristã e pelo Império Austríaco contra os insistentes ataques dos turcos no leste europeu, participando ativamente de pelo menos 16 grandes campanhas militares, durante quase 40 anos. Destacam-se suas decisivas atuações na conquista da cidade Buda, em 1686, e na famosa vitória liderada por João Sobieski contra os otomanos no cerco de Viena, em 1683.

Some-se ainda seu papel imprescindível na recatolicização da Hungria contra a heresia protestante. Os Esterházy, dentre as famílias aristocráticas húngaras, lideraram a consolidação da Fé Católica no país.2

Suas inúmeras demonstrações de liderança, heroísmo e dedicação à Casa de Habsburgo levaram o Imperador a agraciá-lo com os títulos de Palatino do Reino da Hungria e Marechal de Campo. Recebeu depois o Tosão de Ouro, a mais prestigiosa condecoração das ordens de cavalaria europeias. Também foi elevado à condição de Príncipe do Sacro Império Romano Alemão.

Já no fim da vida, em 1703, esse incansável Príncipe ainda lutou em favor da Áustria na guerra contra os húngaros rebeldes chamados kurucs.

Simultaneamente com todos esses grandes feitos, Paulo Esterházy dedicou-se também à arte, à renovação de castelos, e também à música. Tornou-se um talentoso compositor de peças sacras, das quais se destaca um conjunto de 55 cantatas conhecidas por “Harmonia cœlestis”. Muitas delas são em honra de Nossa Senhora. Suas composições são até hoje executadas por grupos musicais, sobretudo na Hungria.

No conjunto de sua obra, a pequena canção de Natal intitulada “Dormi Jesu Dulcissime” revela a profunda meditação do Príncipe Esterházy sobre o nascimento do Divino Salvador. Isso nos traz a prova cabal de que esse bravo combatente tinha na alma expansões de serenidade e devoções próprias a um monge de clausura. A melodia é simples— como normalmente o são as músicas tradicionais natalinas —, mas inundada de candura e inocência. A letra da canção, em latim, chega ao ponto de chamar Nosso Senhor de “Jesule”, isto é, Pequeno Jesus ou “Jesuzinho”!

O desenrolar melodioso dessa singela composição está impregnado de toda a suavidade do Natal. Seus acordes, além disso, nos proporcionam razões a mais para amarmos a Santa Igreja Católica. Só a religião verdadeira poderia forjar, no íntimo de uma única alma, tão ativo guerreiro e tão sereno compositor musical.

A seguir transcrevemos duas estrofes da música, com a correspondente tradução em português.3

Dormi Jesu dulcissime,                   Dorme, Jesus, docemente.

Quiesce nate suavissime.               Descansa, ó Menino, suavemente.

Plus milies gratissime                      Mais de mil vezes, gratamente.

Te volo nunc diligere,                                    Quero agora te amar,

O Parvule. O Parvule.                      Ó Pequenino. Ó Pequenino.

Cœli cives occurrite,                         Vinde, habitantes do Céu,

Portas vestras attollite,                     Abri-lhe as portas,

Triumphatori dicite:                           Dizei ao Triunfador:

Ave mi dulcis Jesule,                       Ave, meu doce Pequeno Jesus,

Infantule. Infantule.                           Criancinha. Criancinha.

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Notas

  1. Cfr. https://web.archive.org/web/20090918134350/http://www.esterhazy.at/hu/kultur/FurstPaulI.htm
  2. Cfr. http://www.tradicio.org/kvintesszencia/trad98esterhazy.htm
  3. Ótima execução da música foi realizada pela Liszt Ferenc Chamber Orchestra de Budapeste, e pode ser ouvida em: https://www.youtube.com/watch?v=722F4GwmsX8