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O respeito à mulher na Índia

Plinio Maria Solimeo

Casamento na India

De vez em quando saem notícias de violações em série de trato ofensivo de mulheres na Índia. Descontando-se o exagero de certa imprensa sensacionalista, por experiência própria posso afirmar que esses casos que existem, são minoritários no conjunto da população e se devem sobretudo ao primitivismo em que ainda vivem algumas camadas mais baixas da população, saídas há pouco do tribalismo. É fato público e notório que o grosso da população indiana é bem conservador, ainda mais se considerado em relação ao Ocidente.

Com efeito, durante minha permanência de quase quatro anos na Índia, em meados dos anos 90, impressionava-me o modo de proceder dos jovens, tanto em relação às pessoas do outro sexo quanto entre si.

Era comum, por exemplo, ver-se grupos de rapazes passeando aos domingos no parque do palácio do antigo marajá, em Trivandrum, capital do Estado de Kerala, no sudoeste indiano. Eles o faziam como amigos, conversando sobre tudo e sobre nada, sem descambar para assuntos inconvenientes ou brincadeiras de mau gosto, como ocorre frequentemente no Ocidente. Às vezes alguns iam conversar na casa dos outros, e essas conversas eram tão animadas, que duravam horas. Outras ocasiões os rapazes iam juntos ao cinema, ou a algum passeio. Mas, sobretudo, intrigava-me não ver namoros nas ruas.

Observei, rapazes saindo de escolas masculinas, quando no mesmo momento em que saíam moças de escolas femininas, todos se comportando de modo correto, raramente havendo troca de olhares, indiretas ou provocações de parte a parte.

Entretanto, intrigava-me igualmente o fato de não ver nenhuma manifestação de afeto em público, nem mesmo entre esposos, o que era muito diferente das cenas imorais que estava acostumado a ver nas ruas e logradouros públicos de nosso Brasil tão decadente.

Lendo o livro do missionário francês Pe. J. A. Dubois, que viveu quase 50 anos na Índia, no início do século XIX, constatei que isso vinha de muito longe, pois, escrevendo por volta de 1815, ele afirma: “Entre os indianos a pessoa da mulher é sagrada. Ela não pode ser tocada em público por um homem nem mesmo com os dedos. […] Nunca ela é tratada em público, sem excetuar sequer as pessoas da mais alta classe, senão pelo respeitoso nome de ‘umma’ (mãe). Uma morada onde se encontrem somente mulheres, mesmo a cabana da mais pobre viúva, é um asilo inviolável, no qual nem o mais empedernido libertino ousaria penetrar; se o fizer, sua audácia não ficará sem punição. Uma mulher pode frequentar os locais de maior aglomeração de pessoas sem ser exposta ao menor insulto. Um homem que parasse meramente para prestar atenção numa mulher que estivesse passando como muitos estão acostumados a fazê-lo na Europa seria considerado por todos como insolente e sem educação. Um só olhar lançado de modo insultante a uma mulher seria sentido e vingado. Em suma, o menor insulto, por palavras ou outro modo, a menor falta de respeito em relação a uma mulher, feita em público, é imediatamente sentida e vingada pelo marido, filhos ou irmãos, que se exporão a todos os perigos a deixar passar uma ofensa a suas esposas, mães ou irmãs, ou vê-las tratadas em público com desrespeito[i]. Que bons tempos!

Isso eu pude constatar ainda na década de 1990, andando no fim das tardes pelas principais avenidas de Trivandrum. Sendo a hora do rush, havia multidões esperando condução. Mas, coisa inusitada para nós, as mulheres de um lado, os homens de outro; portanto separados em dois grupos. Não apenas não se via qualquer rapaz fazer o menor gracejo a uma moça, nem mesmo indiretamente, como também as moças deixavam passar despercebida a proximidade de rapazes.

Um dia ocorreu-me abordar duas jovens estudantes, para perguntar onde se situava determinada rua. Em vez de responder, elas começaram a rir encabuladas. Um senhor que estava por perto aproximou-se e respondeu-me o que eu desejava.

Outra vez viajei num trem e sentei-me no lado oposto aos bancos onde estava um casal de bom nível social, de uns 35 anos de idade. Os bancos estavam voltados um para o outro e eles, sentados frente a frente, conversavam animadamente, sem demonstrar a menor intimidade. De modo que só descobri que eram marido e mulher quando foram descer, pois vi o homem pegar a mala maior e sair na frente, sendo seguido pela mulher, com os volumes menores. Pensei então com meus botões: esse casal provavelmente se conhece há bem pouco tempo. Segundo o sistema de casamento arrumado pelos pais. No entanto, parece tão unido, que encontra matéria para entreter-se durante horas!

Casamento na IndiaUm amigo indiano católico, com quem conversei muito a respeito, deu-me algumas indicações muito elucidativas sobre o sistema indiano de casamento.

Disse-me que na Índia praticamente todos os casamentos eram planejados pelos pais dos cônjuges. Estes combinavam entre si o dote da moça e todos os detalhes da futura união. Isto feito, o rapaz era convidado a ir à casa da moça escolhida para um chá. Este era servido pela pretendente, estando na sala todos os seus parentes mais próximos, além dos pais do possível futuro marido.

Em geral, depois do chá o rapaz pedia para falar em particular com a pretendida, quando então ambos manifestavam seus gostos e expectativas com vistas a um possível enlace. Se a conversa fosse satisfatória para ambos, os pais fixavam o noivado e o casamento, quase sempre muito próximos um do outro. A cerimônia nupcial era então realizada com toda a pompa, os católicos casando-se na igreja paroquial, os muçulmanos em alguma mesquita, e os hindus em salões de festa que se alugam para o evento.

E se o rapaz não gostasse da noiva? Embora não com todo o rigor, alguma coisa ainda restava do que há cem anos o Pe. Dubois constatava que era costume: “As inclinações das pessoas que estão por casar, nunca são consultadas. […] A escolha é inteiramente dos pais. O que principalmente concerne à família do jovem, é a pureza da casta de sua futura esposa. [Como hoje praticamente não existem mais castas, dir-se-ia do “nível social”]. A beleza e os atrativos pessoais de qualquer tipo não contam para nada a seus olhos. Os pais da moça olham mais particularmente para a fortuna de seu futuro genro, e o caráter de sua mãe que, depois do casamento, tornar-se-á senhora absoluta da jovem esposa[ii]. Isso porque, tradicionalmente, tratando-se do filho mais velho, este deverá continuar a morar na casa dos pais.

Evidentemente, da época em que o bom Pe. Dubois escreveu até a década de 90, a situação mudou bastante, e já não era tão rígida. Mas, em linhas gerais, ainda se conservavam muitos desses costumes.

Perguntei a meu interlocutor o que ocorria no caso de, na conversa entre os dois pretendentes, o rapaz não tivesse tido boa impressão de sua possível futura esposa. Ele me deu como exemplo o que ocorreu consigo mesmo: quando foi à casa da pretendida para o chá. Esta era tão tímida, que praticamente ocultava o rosto entre as mãos. Na conversa a sós que se seguiu, não mudou de atitude, mantendo-se praticamente calada. Pelo que o frustrado noivo disse aos pais que não queria casar-se com ela. Os pais concordaram, e procuraram então outra pretendente para meu interlocutor.

Por isso, com esse sistema, era apenas por volta dos 30 anos que os rapazes pensavam em casamento. Procuravam antes formar-se ou adquirir uma profissão e começar a exercê-la. Queriam ter um emprego fixo que lhes desse uma estabilidade futura. Então sentiam-se aptos para o matrimônio. Não ficavam à procura de alguma Cinderela, porque, realistas, sabiam que o casamento seria arranjado e que eles não precisavam se preocupar com o matrimonio. Com isso, o sonho de olhos abertos não entrava no esquema mental deles. O que explica o fato de não se ver namoricos na rua.

Ocorria assim, na Índia, o que disse um filósofo francês do século XIX: “O homem estulto casa com a mulher de quem gosta; o sábio gosta da mulher com quem casa”.

Da década dos anos 90 até hoje muita coisa mudou no mundo. Desse modo, também na Índia. Para melhor? Para pior? Consultando dados mais recentes, eles mostram que ainda alguma coisa resta de tudo isso, pois “uma impressionante maioria dos indianos, com seu consentimento, tem seus casamentos arranjados pelos pais ou outras pessoas mais velhas da família. O casamento é por toda a vida, e a taxa de divórcio é extremamente baixa. Em 2010 apenas 1,6% das mulheres indianas estavam divorciadas; mas esse número estava em crescimento devido à sua educação e independência econômica[iii].

Como tudo isso está longe dos fiapos a que se reduziu hoje em dia o casamento, com o crescente número de divórcios, de mães solteiras, e, sobretudo, das uniões informais que grassam no Ocidente e muito acentuadamente em nosso Brasil!

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[i] Hindu Manners, Customs and Ceremonies, Rupa & Company, New Delhi, 1994, p. 265.

[ii] Id. p. 241.

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