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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL / 1914 – 2014

Paulo Roberto Campos

Primeira Guerra MundialMuito se tem falado sobre os 100 anos da Primeira Guerra Mundial, mas pouco de suas reais consequências. Iniciada em 28 de junho de 1914, com o assassinato do herdeiro do Império Áustro-Húngaro, o Arquiduque Francisco Ferdinando (Sarajevo), a hecatombe só encerrou-se em 1918, acarretando no mundo inteiro sérias consequências, profundo desmoronamento de valores morais, graves cicatrizes na Civilização Cristã.

Naqueles primórdios do século passado, num clima saturado de otimismo, dançavam-se as valsas vienenses nos faustosos salões iluminados pelas recém-inventadas lâmpadas elétricas e exalavam-se os melhores perfumes da Belle Époque.

Na Paris de 1900, a capital da “douceur de vivre” [doçura de viver], realizou-se a primeira grande Primeira Guerra Mundialexposição universal. Visitantes de todos os quadrantes da Terra lá estiveram, prestando admirados suas homenagens aos surpreendentes progressos que a técnica acabara de descobrir.

Nascia a era apoteótica da máquina. Despontava a civilização industrial e o mundo mecanizado, nos quais os homens esperavam poder viver plenamente felizes — a tecnologia resolveria todos as dificuldades, a ciência eliminaria as doenças e, quiçá, até a morte.

Essa concepção de vida é denunciada por Plinio Corrêa de Oliveira em sua magna obra Revolução e Contra-Revolução:

“Auto-suficiente pela ciência e pela técnica, [o homem] pode ele resolver todos os seus problemas, eliminar a dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo a que chamamos efeito do pecado original ou atual. […] Nesse mundo, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo nada tem a fazer. Pois o homem terá superado o mal pela ciência e terá transformado a terra em um ‘céu’ tecnicamente delicioso. E pelo prolongamento indefinido da vida esperará vencer um dia a morte” (Parte I, Cap. XI, 3).

Com tal mentalidade entrava a humanidade nessa nova era, que prometia “um paraíso na Terra”. E entrava eufórica, como eufórica ingressara no Titanic — o fabuloso e gigantesco palácio flutuante — os futuros náufragos daquele colosso “insubmergível” que hoje jaz no fundo do oceano.

Como um raio céu sereno, o assassinato do herdeiro do Império Áustro-Húngaro, executado por um anarquista sérvio, foi a centelha da Primeira Guerra Mundial. Teria sido um castigo da Providência? Por quê? Não teria sido pelo fato de a humanidade ter posto mais fé na ciência e na tecnologia do que no Criador de todas as coisas?

Pior que a própria guerra foram as suas consequências: o continente europeu foi profundamente Primeira Guerra Mundialabalado por um psy-terremoto que fez tremer o magnífico edifício da Civilização Cristã e revolucionar os costumes. Apesar de seu “epicentro” ter ocorrido no Velho Mundo, seus efeitos fizeram-se sentir em todo o orbe. No Brasil, por exemplo — que vivia até então tranquilo, tendo como polo de atração a Europa, particularmente Paris —, uma profunda modificação transformou as mentalidades e os modos de ser. Novos “valores” emergiram, os costumes mais tradicionais foram abalados, tudo em nome da modernidade lançada pelos Estados Unidos — a American way of life —, especialmente do cinema, a grande novidade da época. Hollywood passou a ser o novo polo de atração mundial.

O mundo saído das trincheiras da guerra de 1914-1918 era completamente outro. A Europa católica foi a grande prejudicada, de modo especial o glorioso Império Áustro-Húngaro. As suaves melodias das valsas vienenses foram abafadas pelos grunhidos do fox trot e os ruídos da jazz band, oriundos da América do Norte. Usando linguagem metafórica, em artigo publicado no “O Legionário” (13-5-1945), Plinio Corrêa de Oliveira assim descreve os efeitos do pós-Guerra:

“É preciso ter vivido em 1920, ou 1925, para compreender o tremendo caos ideológico em que se debatia a humanidade. A Cristandade parecia um imenso prédio em trabalhos finais de demolição. Não havia o que não se fizesse para a destruir. Aqui, especialistas silenciosos e metódicos arrancavam uma a uma as pedras, desconjuntavam as traves, tiravam as portas a seus batentes, e as janelas a suas esquadrias. Essa faina, que faziam com o mutismo, a solércia e a agilidade de conspiradores, progredia com frieza inexorável, sem perda de um instante, sem desperdício de um segundo. […] Procuravam com o material roubado à Casa de Deus, construir em suas linhas extravagantes e sensuais, a orgulhosa Cidade do Demônio. Tudo isto não é senão alegoria. E não há alegoria, nem imagem, nem descrição que possa retratar a confusão daqueles dias de pós-Guerra”.

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