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Reconciliação impossível

Jesus com os Apóstolos. Obra de Duccio di Buoninsegna (1255-1319)
Jesus com os Apóstolos. Obra de Duccio di Buoninsegna (1255-1319)

Padre David Francisquini*

São Tomás de Aquino ensina que nada chega à inteligência humana sem antes passar pelos sentidos. Com efeito, a criação reflete as infinitas perfeições de Deus. Pela contemplação devemos procurar compreender as perfeições postas em cada coisa criada. No artigo anterior eu havia dado o exemplo do que uma águia, por tudo aquilo que simboliza, é capaz de nos ensinar.

Hoje, com mais um texto das Escrituras, cuja linguagem vem sempre revestida de múltiplos e ricos significados e com as luzes do Espírito Santo, espero retirar alguns ensinamentos ao mesmo tempo nobres e benfazejos que possam ser úteis a todos nós. Nobres, pelo fato de saírem dos lábios divinos do Salvador; benfazejos, porque trazem expressiva lição para a vida dos homens.

O texto escolhido é o que segue:

“Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem”. (Mt 7, 6).

Se Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, não há outro meio senão imitar os seus divinos exemplos e pôr os nossos pés nas suas pegadas cheias de luz e beleza. Se somos verdadeiramente cristãos, devemos ser imitadores e seguidores de Cristo.

O sacerdote tem uma vocação sublime neste Vale de Lágrimas, não podendo subtrair — e muito menos ocultar — a missão salvadora de Cristo, o ideal a ser seguido. Quando Jesus nos ensina o mandamento de amar os inimigos — perseguidores e caluniadores — não nos aconselha a lhes comunicar os bens espirituais indistintamente no que se refere à fé, pois eles são indignos.

Na verdade, Deus concede aos justos e aos injustos os benefícios materiais, mas não graças espirituais aos ímpios, a não ser que se arrependam e se ponham em disposição para isso. Ademais, Nosso Senhor ensinou também que não se deve colocar vinho novo em odres velhos. Logo, enganam-se aqueles que querem a todo custo aproximar da mesa eucarística os divorciados e recasados sem exigir deles mudança de vida.

Encontram-se na verdade revelada, portanto com fonte nas Escrituras Sagradas, ensinamentos que contrariam cabalmente a posição de certas autoridades eclesiásticas no sentido de deixar aproximar da mesa eucarística pessoas que não se encontram em estado de graça e na amizade com Deus.

O Apóstolo São Paulo, em carta aos Coríntios, aconselha cada um a examinar-se a si mesmo antes de se aproximar dessa mesa, pois se o fizer indignamente tornar-se-á réu do Corpo e do Sangue do Senhor.

Sobre o texto bíblico referido acima, costuma-se indagar o significado das palavras santos, cães, pérolas e porcos. Santo é aquilo que não pode ser corrompido e aquele que tentar corromper se torna ímpio. Pérolas são todos os bens espirituais de maior estima. Ainda que possa parecer uma mesma coisa, chama-se de santo o que não se deve corromper, e de pérola aquilo que não se deve desprezar, segundo Santo Agostinho.

As verdades são ministradas para aqueles que têm reta intenção, entendimento e percebem que os ensinamentos revelados são nobres. No hino da festa de Corpus Christi, afirma o Doutor Angélico: “Eis o pão que os anjos comem, transformado em pão do homem; os filhos O consomem: não seja lançado aos cães”.

Os cães são aqueles que voltam ao vômito, isto é, que ensinando erros condenados pelo ensinamento revelado, aconselham, permitem e por vezes fazem questão de introduzir pessoas indignas na mesa eucarística e na frequência dos outros sacramentos. Os porcos são os que ainda não se voltaram para a verdade revelada, mas estão habituados à lama dos vícios, dos prazeres, da ganância. Ao dizer pérolas, algo de muito sublime e nobre, são aqueles que, por falta de retidão, não acatam nem apreciam o seu valor e nobreza, pois não têm fé e não seguem a retidão natural.

Tanto os cães quanto os porcos não têm fé, e desejam continuar na vida avessa à Lei divina, procurando justificá-la. Não podemos conciliar a verdade e o erro, a virtude e o vício, a luz e as trevas. Santo Agostinho afirma “que se alguém não pode compreender por causa da sua condição sórdida, devemos limpá-lo na medida do possível, seja por palavras, seja por obras”.

Ao panorama político, religioso, social e econômico do cenário brasileiro pode se aplicar a parábola dos cães e dos porcos. Do mesmo modo, pela malícia e perversidade com que a esquerda católica vem disseminando ideias de um suposto bem-estar socialista, tentando apagar na mentalidade dos fiéis a noção de erro e de verdade por meio de um relativismo religioso.

O plano puramente social tomou lugar preeminente no que diz respeito à fé e à religião. O endurecimento dos corações dos católicos esquerdistas persiste em querer levar o Brasil a renegar as tradições hauridas de seus missionários e colonizadores. Muitas pessoas se negam a abrir seus corações para as verdades sobrenaturais e preferem não ouvir. Por sua ingratidão e insensibilidade, repugna-lhes ouvir palavras de verdade, tornando-se ávidas de ouvir fábulas engenhosas e mentiras propostas pelo ideário comuno-socialista.

Tal insensibilidade ao ouvir os apelos de Fátima — a Mãe de Deus alertando que a Rússia espalharia os seus erros pelo mundo — é proveniente da malícia da vontade, da culpa do próprio arbítrio, pois os homens fecharam os ouvidos ao apelo celestial para a oração e a penitência.

         Ao comentar a dureza de coração dos homens, São João Crisóstomo afirma que eles seriam imediatamente curados, caso se convertessem. Não são outras as palavras de Nossa Senhora em Fátima ao pedir oração, penitência e emenda de vida. Não devem aproximar-se da mesa eucarística aqueles que não têm condições de receber dignamente os sacramentos.

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

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