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Recusa de qualquer pacto com a heresia

Natal

Adoração dos Reis Magos – Anônimo, séc. XV. Städel Museum, Frankfurt (Alemanha)

Transcrito da Revista Catolicismo, Nº 804, Dezembro/2017

Com os votos de um santo, abençoado e feliz Natal, oferecemos aos nossos leitores um memorável artigo de Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador e principal colaborador durante várias décadas da revista Catolicismo, o qual foi publicado em dezembro de 1946 no jornal “O Legionário”.

Poder-se-ia afirmar que várias das definições contidas neste seu antológico texto definem também o ideal de todos os colaboradores de Catolicismo. Por exemplo, nesta afirmação: “Os que amamos como o mais precioso dos tesouros a pureza imaculada da ortodoxia, e que recusamos qualquer pacto com a heresia, suas obras e infiltrações”.

Quase meio século depois da publicação das referidas definições em “O Legionário”, complementou-as o autor com as seguintes declarações, por ocasião de duas conferências:

“Quem somos nós? Na tormenta, na aparente desordem, na aparente aflição, na quebra aparente de tudo aquilo que para nós seria a vitória, nós somos aqueles que confiaram, que jamais duvidaram, mesmo quando o mal parecera ter vencido para sempre” (9-8-1995).

“Quem somos nós? Somos filhos e seremos heróis da confiança, os paladinos desta virtude! Quanto mais os acontecimentos parecerem desmentir a voz da graça que nos diz — ‘vencereis’ —, tanto mais acreditaremos na vitória de Maria!” (20-12-1991).

Aos pés do Santo Presepe, suplicamos à Virgem Santíssima, a seu Divino Filho e a São José que intercedam por nós e por todos os nossos leitores, concedendo-nos essa confiança que é uma certeza inabalável na vitória da Santa Igreja Católica Apostólica Romana sobre o neopaganismo contemporâneo, cujo próprio auge de impiedade pressagia o seu desmoronamento no mundo inteiro.

A Direção de Catolicismo

Natal

Junto ao Presepe

  • Plinio Corrêa de Oliveira

Aproxima-se mais uma vez, Senhor, a festa de vosso Santo Natal. Mais uma vez, a Cristandade se apresta a Vos venerar na manjedoura de Belém, sob a cintilação da estrela, ou sob a luz ainda mais clara e fulgente, dos olhos maternais e doces de Maria. A vosso lado está São José, tão absorto em Vos contemplar, que parece nem sequer perceber os animais que Vos rodeiam, e os coros de Anjos que rasgaram as nuvens, e cantam, bem visíveis, no mais alto dos Céus.

Daqui a pouco, se ouvirá o tropel dos Magos que chegam trazendo presentes de ouro, incenso e mirra no dorso de extensas caravanas guardadas por uma famulagem sem conta.

No decurso dos séculos, outros virão venerar vosso presepe: da Índia, da Núbia, da Macedônia, de Roma, de Cartago, da Espanha, gauleses, francos, germanos, anglos, saxões, normandos. Aí estão os peregrinos e os Cruzados que vieram do Ocidente para beijar o solo da gruta em que nascestes.

 

A estrela de Belém a brilhar em todo o mundo

Iluminura dos Reis Magos, 120. Manuscrito que se encontra na Badische Landesbibliothek, Karisruhe, Alemanha.

Iluminura dos Reis Magos, 120. Manuscrito que se encontra na Badische Landesbibliothek, Karisruhe, Alemanha.

Vosso presepe encontra-se agora em toda a face da Terra. Nas grandes catedrais góticas ou românicas, nas mesquitas conquistadas ao mouro e consagradas ao culto verdadeiro, multidões imensas se acumulam em torno de Vós, e Vos trazem presentes: ouro, prata, incenso, e, sobretudo, a piedade e a sinceridade de seus corações.

Abre-se o ciclo da expansão ocidental. Os benefícios de vossa Redenção jorram abundantes sobre terras novas. Incas, astecas, tupis, guaranis, negros de Angola, do Cabo ou da Mina, hindus bronzeados, chins esguios e pensativos, ágeis e pequenos nipões, todos estão em torno de vosso presepe e Vos adoram. A estrela brilha agora sobre o mundo inteiro.

A promessa angélica já se fez ouvir a todos os povos, e sobre toda a Terra os corações de boa vontade encontraram o tesouro inapreciável de vossa paz. Superando todos os obstáculos, a palavra evangélica se fez ouvir por fim aos povos do mundo inteiro. No meio da desolação contemporânea, esta grande afluência de homens, raças e nações em torno de Vós é, Senhor, a única consolação, a esperança que resta.

E no meio de tantos, eis-nos aqui também. Estamos de joelhos, e Vos olhamos. Vede-nos, Senhor, e considerai-nos com compaixão. Aqui estamos, e Vos queremos falar.

 

Nós? Quem somos nós?

Adoração dos Reis Magos (detalhe) - Hendrick Brugghen, Amsterdã, Países Baixos.

Adoração dos Reis Magos (detalhe) – Hendrick Brugghen, Amsterdã, Países Baixos.

Os que não dobram os dois joelhos, e nem sequer um só, diante de Baal.1 Os que temos a vossa Lei escrita no bronze de nossa alma, e não permitimos que as doutrinas deste século gravem seus erros sobre este bronze, que sagrado que vossa Redenção tornou. Os que amamos como o mais precioso dos tesouros a pureza imaculada da ortodoxia, e que recusamos qualquer pacto com a heresia, suas obras e infiltrações. Os que temos misericórdia para com o pecador arrependido, e que para nós mesmos, tantas vezes indignos e infiéis, imploramos vossa misericórdia. Mas que não poupamos a impiedade insolente e orgulhosa de si mesma, nem o vício que se estadeia com ufania, e escarnece a virtude.

Os que temos pena de todos os homens, mas particularmente dos bem-aventurados que sofrem perseguição por amor à vossa Igreja, que são oprimidos em toda a Terra por sua fome e sede de virtude, que são abandonados, escarnecidos, traídos e vilipendiados porque se conservam fiéis à vossa Lei.

Nossa Senhora, os Anjos e a Santíssima Trindade - Cornelis de Baellieur "o velho", séc. XVII. Coleção Particular.

Nossa Senhora, os Anjos e a Santíssima Trindade – Cornelis de Baellieur “o velho”, séc. XVII. Coleção Particular.

Aqueles que sofrem sem que a literatura contemporânea se lembre de exaltar a beleza de seus sofrimentos: a mãe cristã que reza hoje sozinha diante de seu presepe, no lar abandonado pelos filhos que profanam em orgias o dia de vosso Natal; o esposo austero e forte que pela fidelidade a vosso Espírito se tornou incompreendido e antipático aos seus; a esposa fiel que suporta as agruras da solidão da alma e do coração, enquanto a leviandade dos costumes arrastou ao adultério aquele que devera ser para ela a coluna de seu lar, a metade de sua alma, “um outro eu mesmo”; o filho ou a filha piedosa, que durante o Natal, enquanto os lares cristãos estão em festa, sente mais do que nunca o gelo com que o egoísmo, a sede dos prazeres, o mundanismo paralisou e matou em seu próprio lar a vida de família. O aluno abandonado e vilipendiado pelos seus colegas, porque permanece fiel a Vós. O mestre detestado por seus discípulos, porque não pactua com seus erros. O Pároco, o Bispo, que sente erguer-se em torno de si a muralha sombria da incompreensão ou da indiferença, porque se recusa a consentir na deterioração do depósito de doutrina que lhe foi confiado. O homem honesto que ficou reduzido à penúria porque não roubou.

 

Prece, antes de tudo, pela Igreja santa e imaculada

Adoração dos Reis Magos (detalhe) - Benvenuto Tisi da Garofalo, séc. XVI. Rijksmuseum, em Amsterdã, Países Baisos.

Adoração dos Reis Magos (detalhe) – Benvenuto Tisi da Garofalo, séc. XVI. Rijksmuseum, em Amsterdã, Países Baisos.

Estes são, Senhor, os que no momento presente, dispersos, isolados, ignorando-se uns aos outros, entretanto, agora, se acercam de Vós para oferecer o seu dom, e apresentar a sua prece.

Dom tão esplendido na verdade, que se eles Vos pudessem dar o sol e todas as estrelas, o mar e todas as suas riquezas, a Terra e todo o seu esplendor, não Vos dariam dom igual.

É o dom de si, íntegro e feito com fidelidade. Quando eles preferem a ortodoxia completa às palmas dos fariseus; quando preferem a pureza à popularidade entre os ímpios; quando escolhem a honestidade de preferência ao ouro; quando permanecem na vossa Lei ainda que por isto percam cargos e glória, praticam o amor de Deus sobre todas as coisas, e atingem a perfeição da vida espiritual, rija e verdadeira dileção. Não, por certo, do amor como o entende o século, amor todo feito de sensibilidade esparramada e ilógica, de afetos nebulosos e sem base na razão, de obscuras condescendências consigo mesmo, e escusas acomodações de consciência. Mas o amor verdadeiro, iluminado pela Fé, justificado na razão, sério, casto, reto, perseverante, em uma palavra o amor de Deus.

E eles Vos formulam uma prece. Prece, antes de tudo, por aquilo que mais amam no mundo, que é a vossa Igreja santa e imaculada. Pelos pastores e pelo rebanho. Sobretudo pelo Pastor dos Pastores e do rebanho. Isto é, por Pedro que hoje se chama Pio. [NB: artigo redigido em 1946, portanto o autor refere-se ao Papa Pio XII].

 

Prece pelos bons e pelos pecadores

Nossa Senhora, São José e os Anjos em adoração - Atribuído a Cornelis de Baellieur "o velho", séc. XVII. Coleção particular.

Nossa Senhora, São José e os Anjos em adoração – Atribuído a Cornelis de Baellieur “o velho”, séc. XVII. Coleção particular.

Que vossa Igreja, que geme cativa nas masmorras desta civilização anticristã, triunfe por fim deste século de pecado, e plasme para vossa maior glória uma nova civilização. Pelos santos, para que sejam mais santos. Pelos bons, para que se santifiquem. Pelos pecadores, para que se tornem bons, pelos ímpios, para que se convertam. Que os impenitentes, refratários à graça e nocivos às almas, sejam dispersos, humilhados e aniquilados por vossa punição. Que as almas do Purgatório quanto antes subam ao Céu.

Prece, depois, por si mesmos. Que os façais mais exigentes na ortodoxia, mais severos na pureza, mais fiéis na adversidade, mais altivos nas humilhações, mais enérgicos nos combates, mais terríveis para com os ímpios, mais compassivos para com os que, envergonhando-se de seus pecados, louvam de público a virtude e se esforçam seriamente por a conquistar.

Prece, por fim, para que vossa Graça, sem a qual nenhuma vontade persevera duravelmente no bem e nenhuma alma se salva, seja para eles tanto mais abundante quanto mais numerosas forem suas misérias e infidelidades.2

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Notas:

  1. Ídolo do povo cananeu que segundo o Antigo Testamento era cultuado com frequência pelos israelitas quando estes abandonavam o culto verdadeiro de Jeová e se entregavam à idolatria. Em vista disso, “dobrar os joelhos diante de Baal” significa hodiemamente a apostasia da verdadeira Religião — a católica, apostólica, romana — e o resvalamento no neopaganismo.
  2. Fonte: “O Legionário”, nº 750, 22 de dezembro de 1946.

1 comentário para Recusa de qualquer pacto com a heresia

  1. MARIO HECKSHER Responder

    21 de dezembro de 2017 à 13:20

    Bom dia bravos camaradas! Agradeço a todos os amigos da ABIM os úteis artigos que me enviaram neste difícil ano de 2017. Que a Santíssima Virgem, nossa protetora e Nosso Salvador, Jesus Cristo, tenham piedade de nós e nos protejam dos nossos inimigos nesta Terra e no além. BOAS FESTAS para todos!

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