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Roraima: nova perseguição a produtores rurais — Parte II

Revista Catolicismo, Nº 777, setembro/2015

Segue a Parte II da importante entrevista, 
que veio a lume na edição deste mês da Revista Catolicismo.
Para ler a Parte I, click aqui.


RoraimaCatolicismo O senhor nasceu aqui mesmo?


Sr. Alceu Nasci num lugar vizinho a este. A terra era dividida em 12 glebas e essa aqui era uma parte. O lugar onde eu nasci era outra parte. O total eram 97 mil hectares com título de 1904, do estado do Amazonas.


 


CatolicismoO senhor foi educado aqui ao lado?


Sr. Alceu Quando criança, com os meus pais, morava com o meu avô que era vaqueiro do Cel. Pinto, proprietário da área. Depois de ele trabalhar muitos anos, adquiriu alguma coisa, requereu uma terra lá do outro lado do rio Urubu. Meu pai me criou lá trabalhando. Aos nove anos perdi a minha mãe. Eu tinha mais três irmãos pequenos. Como já havia aqui uns meninos órfãos de mãe, duas de minhas tias que eram solteiras passaram a cuidar de nós até certa idade.


 


CatolicismoO seu avô era o Joaquim Thomé?


Sr. Alceu Era o Joaquim Thomé. Fui criado dentro dessa casa com eles. Mas aqui eu percorria a região toda, trabalhava com todos os meus tios; com meu pai, onde fosse preciso, a gente trabalhava, era tudo junto, pois a família era muito unida. Conheço tudo por aqui. Depois que me casei, meu pai comprou um terreno e me colocou para trabalhar como vaqueiro dele. Aí eu trabalhei para ir ganhando alguma coisa. Mais tarde comprei esta área onde eu moro.


 


CatolicismoE como foi a sua criação aqui nessas terras?


Sr. Alceu Fui criado como filho de peão e nunca me sentei em banco de escola, porque naquele tempo não existia escola por aqui. Também não existia malandro como existe hoje, o povo trabalhava com vontade de vencer na vida. Aos oito anos eu montava a cavalo, saindo de manhã e voltando à tarde, à noite ou à hora que fosse preciso. Eu pegava no machado, na enxada, tudo isso eu sei fazer. Montava em cavalo bravo, enfrentava boi bravo, tudo o que fosse preciso aqui na terra. Para eu adquirir alguma coisa não foi fácil. Suei muito, sofri muito, e sofro até hoje. Ainda agora, no final da semana passada, eu e um filho saímos a cavalo às 10 horas da manhã, aguentamos o sol do meio dia, para revistar e olhar o gado. Só regressamos às quatro da tarde. Nessas ocasiões, enfrentamos sol quente, noite, chuva, o que for preciso. Olhem meu rosto, minha pele é queimada pelo sol, e não é de Copacabana não. É o sol dos lavrados de Roraima.


 


CatolicismoO senhor começou com quantos hectares?


Sr. Alceu Eu comprei esse terreno com 3.102 hectares.


 


CatolicismoQuantos filhos e netos o senhor tem?


Sr. Alceu Meus filhos, graças a Deus, estão todos vivos e são 12. O que eu tenho para deixar para eles é esta propriedade. Netos são 16 ou 17.


 


CatolicismoA terra do seu pai ficou para quem?


Sr. Alceu Nós éramos oito irmãos e a terra foi dividida para os filhos e tocou um pedacinho para mim.


 


CatolicismoE os senhores tiveram alguma assistência do Estado?


Sr. Alceu Ajuda que a gente teve e tem são essas estradas que vocês passaram… [Estradas de chão esburacadas e com travessias em valas e riachos sem pontes]. Nada mais.


 


CatolicismoQue gado o senhor cria lá?


Sr. Alceu Eu crio o mestição. Gado de cria, pois no lavrado não temos condições de engorda, é para criar; os bezerros vão crescendo e eu vou vendendo.


 


CatolicismoO senhor vende com que idade?


Sr. Alceu Com dois anos aproximadamente, depende da necessidade. Na hora que a necessidade aperta, então tenho que vender na idade que estiver. Eu vou segurando, mas quando a necessidade me obriga, eu vendo.


 


RoraimaCatolicismoAs pastagens do lavrado são naturais?   


Sr. Alceu Até hoje é tudo campo natural. Desde o tempo do Cel. Pinto. A gente vinha para a cidade só quando tinha muita necessidade. Mandávamos boi para o Amazonas. O gado ia tocado.


 


Catolicismo Quem preparava a comida?


Sr. Alceu Ia um peão para isso. Não dava tempo de fazer a paçoca; assava a carne na brasa, cortava bem miúdo, punha num saquinho que a gente carregava na garupa do cavalo, e na hora da fome ia comendo carne com farinha e bebendo água.


 


Catolicismo — Conte um pouco como o senhor educou os seus filhos.


Sr. Alceu Na medida em que fui trabalhando, comprei uma casa em Boa Vista, trouxe a mãe deles para cá com eles, botei-os aqui pra estudar. Aquilo que eu não tive eu dei para os meus filhos, e assim criei e eduquei meus filhos com o que adquiri trabalhando.


 


Catolicismo — Pelo visto o senhor continua trabalhando?


Sr. Alceu Sim. Com meus 79 anos, eu amanheço e anoiteço agarrado no que é meu, lutando para conservar o que eu adquiri na minha vida e que foi muito sofrido para mim. Fiz e faço o que aprendi com meu pai. Estou passando para os meus filhos. Eles, por sua vez, estão passando para os netos. E já tenho bisnetos. Aquele garotinho ali é bisneto. E ele já bota sela no cavalo e sai trotando comigo para ajuntar o gado no sol quente.


 


RoraimaCatolicismo — Então o senhor toda a vida se dedicou à criação de gado?


Sr. Alceu Trabalhei a vida toda com criação de gado. Conto a história que os velhos me contaram. Quem chegou primeiro aqui foi o Sebastião Diniz. Ele requereu essas terras, demarcou e pôs 18 mil cabeças de gado, fez a sede da fazenda, onde ainda hoje mora um primo meu que está com noventa e tantos anos. Foi ele quem trouxe meu avô, que era português, para cá. Meu avô era quem cuidava de tudo. Quando o meu avô conseguiu alguma coisa, requereu umas terras e as entregou ao meu pai. Foi então que eu passei a trabalhar com meu pai como vaqueiro, e, mais tarde, comprei este lugar aqui.


 


Catolicismo — Foram feitas benfeitorias aqui ao longo das gerações?


Sr. Alceu Escolas, posto de saúde, nunca houve por aqui. Tanto que eu fui criado desse jeito. Costumo dizer às pessoas que vão a minha casa que desejaria recebê-las com educação, mas nem educado eu sou! Certa vez fui repreendido por uma senhora. — Que é isso Alceu? O senhor tem educação para conversar com qualquer pessoa! Respondi a ela que eu não frequentei escola. Estudo mesmo eu não tive. O que eu aprendi foi com as minhas tias, que nos acolheram quando eu e meus irmãos perdemos a mãe. Elas também sabiam muito pouco, mas o que sabiam, elas me ensinaram.


 


Catolicismo — O senhor nem chegou a fazer o curso primário?


Sr. Alceu Só aprendi a ler e escrever e fazer contas com minhas tias. Acabou que aqui virou uma espécie de creche, pois além de mim e mais três irmãos, havia mais quatro primos, também órfãos de mãe, filhos do meu tio Olavo. Depois outra tia acabou morrendo e deixando mais cinco filhos, que também vieram para cá. Então virou uma creche. Todos nós ajudávamos o Pedro Lima, que trabalhava aqui no campo e no curral, e assim a gente ia aprendendo. Quando meu pai achou que eu estava maduro para a vida, ele entregou tudo para eu cuidar e tomar conta para ele. Fui criado naquele movimento junto com ele, aprendi a fazer tudo aquilo que eles faziam.


 


Catolicismo — O senhor já é da terceira geração que passou para a quarta, quinta, e agora está surgindo a sexta geração, não é verdade?


Sr. Alceu Já chegamos à sexta geração com os meus bisnetos.


 


Catolicismo — Em meio a tanta dificuldade naqueles tempos, não havia algumas festas?


Sr. Alceu Ah! De vez em quando a gente se reunia numa fazenda por aqui. Reunia o povo daqui, vinha a cavalo, de carro de boi, de bicicleta. Um ia avisando o outro e no dia da festa todos se reuniam, assava-se carne, fazia-se o churrasco, muita cachaça e dança de forró. Tinha muito sanfoneiro por aqui, até eu fui sanfoneiro. Tinha uma sanfoninha de oito baixos, mas cheguei a tocar numa de 80 baixos. Eu ainda tenho uma lá em casa, está guardadinha. O povo sabia se divertir. Naquele tempo não existiam essas leis de tomar as terras da gente não, por isso que as pessoas trabalhavam alegres e com gosto. Hoje ninguém tem mais gosto de fazer nada, as pessoas não têm mais segurança e ficam desanimadas, desesperadas, nem investem mais.


 


Catolicismo — Nessas condições, ou seja, nascido e criado aqui, formando sua família passando toda a vida aqui, como o senhor se sente diante desta ameaça de sua iminente saída? O senhor vai fazer o quê?


Sr. Alceu Claro que eu não fico nem um pouco satisfeito. Eu fico pensando que eu trabalhei a minha vida toda. Eu tenho 12 filhos, estou no fim da minha vida, mas o que eu tenho para deixar para eles é isso aí. Então o cidadão vem aí, toma tudo, eu vou embora e meus filhos ficam aí sem nada. Tudo o que eu construí vai tudo para as nuvens. Em vez de ficar para os meus filhos, outros é que vão levar. Isso não é justo. Deus sabe que isso não é justo.

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Amanhã, dia 3 de agosto de 2015, publicaremos a continuação (a Parte III)


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