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Roraima: nova perseguição a produtores rurais — Parte III

Revista Catolicismo, Nº 777, setembro/2015

Segue a Parte III da importante entrevista, 
que veio a lume na edição deste mês da Revista Catolicismo.
Para ler a Parte I e II, click aqui.

Entrevista com a Dra. Cristiane Horta Thomé, 37 anos, veterinária, filha do Sr. Alceu, no dia 30 de julho de 2015, em Boa Vista (RR)

 

Catolicismo — A Dra. Cristiane [foto abaixo] poderia nos falar sobre este processo de criação do Parque Nacional do Lavrado na Serra da Lua, justamente nesta região que conta com mais de 150 proprietários dedicando-se à pecuária e em franca atividade?


RoraimaDra. Cristiane Este acontecimento nos pegou de surpresa. Nós sempre vivemos aqui, moramos aqui, meu antepassados são todos daqui, eles estão aqui há mais de 100 anos. Na verdade, desde que Roraima deixou de ser território para se tornar Estado em 1988, a questão fundiária nunca foi definida, o que vem motivando muitos conflitos e mesmo traumas, como ocorreu há pouco tempo com a expulsão não apenas de seis arrozeiros, mas de cerca de 400 proprietários estabelecidos na Raposa/Serra do Sol, para a criação de mais uma reserva indígena. Quando achávamos que as pretensões dos protagonistas do engessamento de nosso estado haviam cessado, eis que nos deparamos com a nova pretensão do Governo Federal, através de seus órgãos como a FUNAI e o IBAMA, de transformar esta região produtiva num reserva ecológica, o Parque Nacional do Lavrado.


 


Catolicismo — Isso surgiu por meio de um decreto?


Dra. Cristiane Foi isso. Veio através de um de um decreto que pretende apoiar-se num estudo não condizente com a nossa realidade. Os moradores tomaram conhecimento deste decreto através de jornais daqui, que já foram noticiando que os produtores da região da Serra da Lua teriam de deixar suas terras para a criação do tal parque. Sequer fomos avisados de que as nossas propriedades estavam sendo objeto de estudos para fins de desapropriação. Com efeito, recebemos visitas de pessoas em nossas casas que se diziam interessadas em conhecer a região, a gente as tratava bem, e quando nos demos conta, eles estavam fazendo laudos para nos retirar daqui, laudos estes não condizentes com a realidade.


 


Catolicismo — Existe uma cláusula do decreto que trata da obrigatoriedade de se consultar antes o Estado. Na única audiência pública votou-se pela rejeição. E os proprietários não foram consultados?


Dra. Cristiane Nós, como produtores, em momento algum desse levantamento fomos consultados. Nem tínhamos ideia sobre a criação deste Parque Nacional do Lavrado. E o que mais nos deixa inconformados é que eles utilizaram a máquina do Governo Federal e da Prefeitura de Boa Vista. O decreto indica ser necessário consultar o Estado e vê-se que este laudo, este estudo não está de acordo com o que diz o decreto.


 


Catolicismo — Teria sido feito de encomenda?


Dra. Cristiane Creio que sim. E com o apoio de ONGs, com apoios de funcionários públicos que mais parecem atender a interesses internacionais e não aos nossos; nós trabalhamos aqui, pagamos imposto para depois se tornar salário desses funcionários que vêm aqui ganhando bons salários, sendo acolhidos em nossas casas, comendo em nossas mesas e colhendo informações nossas a fim de nos prejudicar, de nos deixar preocupados. De um tempo a esta parte, ninguém daqui sabe o que acontecerá no dia seguinte. Temos de gastar nosso tempo e dinheiro para tentar nos defender em detrimento de nossas atividades rotineiras aqui nas fazendas.


 


RoraimaCatolicismo — Pelo que sabemos, a maior área de lavrado de Roraima não fica exatamente nas reservas indígenas já demarcadas?


Dra. Cristiane Quando foi demarcada a região da Raposa/Serra do Sol para reserva indígena, um dos pretextos que deram à época foi o da necessidade de conservação da área, já que o índio conservaria a natureza. Conservação ambiental, pois as savanas, os lavrados, como dizemos aqui em Roraima, propriamente ditos, ficam dentro das reservas indígenas.


 


Catolicismo — Aqui na região nunca houve floresta amazônica?


Dra. Cristiane Não. 17% do Estado são constituídos de lavrado, que é constituído de savana, uma vegetação rala que serve de pastagem natural dentro do bioma amazônico. Na região do lavrado nunca houve matas.


 


Catolicismo — E nesses mais de 100 anos de ocupação, a região vem sendo conservada?


Dra. Cristiane Eu posso garantir que dentro da Serra da Lua, a prova concreta de que nós sabemos lidar com a pecuária e sustentar nossas famílias, dar empregos, gerar renda, a prova concreta está lá, não há capim plantado, pois as pastagens são todas de capim natural de lá, portanto o meio-ambiente está totalmente preservado.


 


Catolicismo — A produção da área atende que mercado? Apenas o de Roraima?


Dra. Cristiane Nosso gado abastece tanto a capital, Boa Vista, como atende o Estado do Amazonas, sobretudo Manaus, que já conta com mais de dois milhões de habitantes.


 


Catolicismo — Que atitude vocês têm tomado em relação a este decreto, da época do presidente Lula?


Dra. Cristiane Desde quando a gente soube dessa trapaça contra nós, dessa injustiça, eu chamo assim, a gente criou uma Associação dos produtores da região. Fizemos o levantamento de todas as propriedades existentes ali na Serra da Lua, promovemos reuniões, já ouvimos opiniões de vários políticos, do Senador Romero Jucá, sempre na esperança de que eles resolvam este problema criado contra nós e contra o estado de Roraima. Tudo o que a gente espera da classe política é que ela atenda os habitantes de Roraima. Eles são deputados, senadores, governadores, fomos nós que os colocamos lá, então eles têm obrigação de defender os interesses do povo daqui; do povo que trabalha, do povo que construiu este estado, do povo que tem uma história aqui dentro.


 


Catolicismo — Hoje haverá em Brasília uma reunião de governadores com a presidente Dilma. A governadora Suely Campos já tratou ou vai tratar dessa questão de vocês com a presidente?


Dra. Cristiane A governadora vem se posicionando para que não se faça o Parque da Reserva do Lavrado em área produtiva, portanto não concorda com a nossa saída da região da Serra da Lua. Estamos lá 111 anos, temos toda documentação, e trabalhando. Os senhores viram e puderam constatar que estamos na 6ª geração da mesma família, trabalhando no mesmo lugar e seguindo a mesma tradição de nossos antepassados. Estamos a pique de não aguentar mais este estado de tensão, de sermos despejados de nossas casas, de nossos lares, de perdermos todas as raízes que a nossa família foi deitando nesta terra ao longo das décadas enfrentando muitas adversidades. Não faz muito tempo, o único meio de transporte que havia para se ir a Boa Vista era o carro de boi. Gastava-se de três a quatro dias para chegar lá… A vida rural no norte do Brasil é diferente do sul e do sudeste. Aqui a única fonte de renda é a que provém da propriedade rural. É o nosso sustento, pois não existe indústria, não há fábrica. Nosso sustento vem todo da propriedade rural. A gente precisa dessa terra, precisa trabalhar, precisa pagar os impostos e colaborar com o governo. Ou o governo não quer desenvolvimento? Estamos aqui para ajudar, mas precisamos ter as condições mínimas para isso.


 


Catolicismo — O que aconteceu no estado depois da demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, que também expulsou mais de 300 famílias lá radicadas havia décadas?


Dra. Cristiane Isso foi horrível! Muitos produtores rurais que dependiam da sua terra, do seu alimento, ficaram sem aquilo e tiveram que se readaptar em outro local. Tiveram de abandonar tudo, aquela tradição que eles tinham herdado que era a criação do gado, seu berço agrário. Alguns que saíram de lá se estabeleceram aqui na região da Serra da Lua para dar continuidade às suas atividades primárias. E agora, a Serra da Lua é ameaçada com a criação deste Parque Ecológico do Lavrado. Suponho que isso não vai parar aqui na Serra da Lua. Qualquer área de Roraima estará sujeita a desapropriações desse tipo para mais e mais reservas. E olhe que Roraima possui área que corresponde quase à do estado de São Paulo. São 22.429.898 hectares. Sabe quanto resta de terras aqui que podem ser exploradas para a agricultura e pecuária? Não atingem 900.000 hectares… Ou seja, o estado está completamente engessado, sem nenhuma chance de se desenvolver.


 


Catolicismo — Qual teria sido a causa da demarcação desse Parque Nacional da Reserva do Lavrado aqui na Serra da Lua?


Dra. Cristiane Nós já cogitamos muito sobre isto. Por que se pega um estado da Federação e o compromete todo com área indígena ou área ambiental? O Estado brasileiro não pode ficar com 100% de reservas! Sobretudo, no caso da Federação, um Estado como o nosso, com pouco acesso aos centros mais desenvolvidos do Brasil em razão de nossa posição geográfica. Seus habitantes vão ser eternamente tutelados pela União? Como já disse, aqui não temos indústrias, o comércio é limitado, não há senão terras a serem racionalmente cultivadas. O estado de Roraima nunca poderá contar com a força de seus habitantes? Seremos eternamente parasitas vivendo na capital, do dinheiro dos impostos dos brasileiros do sul e do sudeste? Roraima possui reservas de ouro, reservas de nióbio, a Bacia do Tacutu está aqui dentro.


 


Catolicismo — Portanto, o seu subsolo é muito rico?


Dra. Cristiane Uma coisa que gostaria de deixar claro é que, quando saiu este decreto para a criação do Parque do Lavrado, muitos proprietários daqui viram aviões sobrevoando, realizando rasantes; aquilo só poderia ser para pesquisas. Apenas nós, moradores aqui, não ficamos sabendo do que se tratava. E quando vamos procurar informações sobre isso, elas nos são negadas. Para nós é claro que existe muita riqueza aqui no subsolo, muito minério. Alguma coisa está despertando interesse por aqui. Não é possível os índios vão ficar com quase todo o estado de Roraima; e o que eles não usarem se torne ambiental! E eu? Por acaso não sou humana? Não tenho um espaço sob o sol neste mundo?


 


Catolicismo — Costumamos sugerir às pessoas em situação semelhante à de vocês, a reagirem em três frentes: no campo jurídico, no político e na opinião pública.


 


Dra. Cristiane Sim. E existe outro, que julgo mais importante ainda: é ter fé em Deus e nas orações. Foi Deus quem me fez conhecer o Príncipe Dom Bertrand, a razão de os senhores estarem aqui.


 


Catolicismo — Então vamos suplicar a Nossa Senhora Aparecida, para que Ela os proteja especialmente e livre o Brasil dessas leis iníquas e do regime comunista. 


____________

Amanhã, dia 4 de agosto de 2015, publicaremos a continuação (a Parte IV), 
trata-se de um complemento final, 
que confirma a problemática tratada na entrevista. 

1 comentário para Roraima: nova perseguição a produtores rurais — Parte III

  1. Leonarda Responder

    7 de setembro de 2015 à 17:46

    Muito interessante o site . Quando tive uma crise de

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