Widgetized Section

Go to Admin » Appearance » Widgets » and move Gabfire Widget: Social into that MastheadOverlay zone

TODOS DIZEM $IM $ENHOR

Jacinto Flecha

Jacinto Flecha

Num regime democrático de quase dois séculos e meio, os dois grandes partidos norte-americanos (democrata e republicano) têm posições que podem ser entendidas de acordo com estas parelhas: situação/oposição; liberais/conservadores; sim/não; a favor/contra. Fugindo a essa rigidez e escassa criatividade, nosso regime democrático de duas décadas e meia, bem mais atual e sofisticado, dança ao ritmo de três dezenas de partidos, além de outros em fase de elucubração e conchavos.

Em tempos relativamente recentes, já fomos quase tão simplórios quanto os americanos, quando nossa concertina demagógico-eleitoral alternava apenas entre PSD/UDN, Arena/MDB. Os americanos ironizavam deste modo a atuação dos dois partidos engendrados pelo regime militar: um diz sim; o outro diz sim senhor.

Como o leitor sabe, piada de americano é mesmo sem graça. Talvez por isso, nosso plantel político julgou conveniente propiciar uma piada mais elaborada, e nos tornamos multipartidários. Agora os americanos podem dedicar gargalhadas bem mais ruidosas às nossas instituições partidárias, cujo número invejável nos dá direito a destaque no Guinness Book. Uma instituição das mais recentes prefere não partir, embora se denomine partido – quer a união, começando por desunir os que já existiam. Outro julgou válido chamar-se Novo, pelo simples fato de ser… novo; e ninguém garante que viverá até tornar-se adulto.

Outra deficiência imperdoável dos americanos é serem muito egoístas. Egoísta, de acordo com a definição de um erudito, é um sujeito que se interessa mais por ele mesmo do que por mim. Os americanos agem exatamente assim conosco, daí ainda não saberem que temos essa diversidade formidável de odores partidários, à espera de algumas piadas. Seria bom alguém avisá-los.

Na falta de americanos atentos aos nossos atuais costumes políticos, não custa nada nós mesmos dedicarmos a isso um pouco do nosso ócio criativo. Vou contribuir com minha parte, sem a pretensão de dar a última palavra, nem de esgotar assunto tão vasto. Tanto mais que nossa recém-nascida democracia ainda tem grande espaço para cometer enormes surpresas.

Aquilo que entre nós se convencionou denominar oposição tem atuado como um ens rationis, ou seja, inexistente na realidade. Basta ver como ela age nos quesitos adesão e transparência, fazendo inveja à mais radical fita isolante. Daí justificar-se um partido dedicado especificamente à oposição. Poderia chamar-se Partido da Oposição Geral (POG). Aglutinaria todos os outros extrínsecos ao plantel governamental, formando uma oposição única, condizente com o Geral do seu nome.

Você não acha magnífica esta proposta?

Eu também, mas aí surge um probleminha. Logo vão se apresentar outros criadores de partidos, enfeitando o poleiro partidário com coisas assim: Partido da Oposição Popular (POP); ao qual se seguirá o Partido da Oposição Libertadora (POL); que será contestado pelo Partido da Oposição Redentora (POR). Não poderá faltar o Partido da Oposição Comprável (POC); depois o Partido da Oposição Alugável (POA); e o radical Partido da Oposição Emprestável (POE. Ou seria POI?…). Haverá tentativas de perenizar costumes político-fisiológicos recentes, como o Partido da Oposição Mensal (POM); logo conduzido a escanteio pelo Partido da Oposição Quinzenal (POQ); e o Partido da Oposição Semanal (POS). Todos ferrenhamente oposicionistas, enquanto disputam a tapas o ace$$o à bol$a ade$ão.

Muda apenas a última palavra do nome, e a sopinha de letras dá 26 opções, já incluídos K-W-Y – esses incômodos mortos-vivos, ressuscitados pela reforminha da reforma ortográfica. Por exemplo, Partido da Oposição Kareta (POK). E se algum grupo resolver dispensar o P inicial, aí vai uma boa sugestão: Venerável Democracia, cuja sigla pode definir o programa de qualquer partido: VENDE ou VENDEM.

As denominações partidárias até parecem coisa dessas igrejolas evangélicas. Brotam do asfalto aos milhares, e os nomes grandiloquentes ostentam abrangência para qualquer gosto – de local ou regional a cósmica, passando por nacional, americana, mundial, universal, telúrica, galáxica…

Voltando aos partidos – não por acaso, mas pela semelhança de objetivo$ – haverá destaque merecido para esta preciosidade inspirada nos americanos: Partido do $im $enhor (P$$). Sem dúvida, este terá uma colo$$al capacidade de aglutina$$ão.

 _______

(Para receber novas crônicas, inscreva-se no blog: www.jacintoflecha.blog.br)

 Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente

 

1 comentário para TODOS DIZEM $IM $ENHOR

  1. Alexandre Leão Responder

    10 de janeiro de 2016 à 13:38

    Sugiro ao Autor incluir as siglas POS ou POG (Partido da Oposição Situacionista ou da Oposição Governista), para os que “jogam em parede” com o Governo, como o FHC, Serra, PSDB etc.

Deixe uma resposta para Alexandre Leão Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *