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UNIVERSIDADE CANINA

Jacinto Flecha

Jacinto Flecha

         Cachorro 1Depois de longa resistência temperamental e filosófica, acabei decidindo, muito a contragosto, poupar flechas destinadas a transeuntes que falam sozinhos, com um tapa-ouvido na mão. Disseram-me que o tapa-ouvido tem um irmão gêmeo (siamês, sei lá) com o qual se fala à distância no ouvido de outro, por meio de um fio transmissor invisível. Agora vejo muitos transeuntes falando sozinhos, mas sem o tapa-ouvido. O fio reapareceu com modificações, e também se materializou o usuário do tal irmão siamês, depois de uma involução na escala biológica. Já lhe explico, mas primeiro você precisa saber o que tenho ouvido nesses solilóquios:

— Não, benzinho, isso não é coisa de gente educada.

— Você precisa dar mais umas voltinhas, o doutor recomendou.

— Deixa de ser preguiçoso, meu filho, caminhar faz bem à saúde.

— Espere um pouco, não pode atravessar a rua com sinal fechado.

— Filhinho, você está precisando de uma árvore ou poste, não é?

Eis uma linguagem que se pode considerar adequada para filhos, mas você já deve ter entendido, especialmente por esta última frase, qual é o ouvinte, qual o fio preso ao pescoço dele, qual o motivo da preferência por árvores e postes. Em resumo, o interlocutor — mudo por motivos genéticos — não passa de um cachorro, ao qual se dirige desse modo carinhoso seu dono, dona ou babá. Babá de cachorro, claro, pois essa categoria profissional já existe na prática, informalmente.

Veja esta curiosa contradição. Certos casais alegam falta de recursos financeiros para educar filhos, mas tratam cachorrinhos como filhos, com alimentos e cuidados especiais, e até contratam babás (ou bobós) para eles. Se têm dinheiro para isso, parece bastante hipócrita atribuir à falta de dinheiro a escassez ou falta de filhos.

Andei pensando em um modo de as famílias aderirem às múltiplas vantagens de ter muitos filhos, e parece-me que o caminho vai por aí: se o custo de educar filhos é grande, e o de educar cachorrinhos é menor, uma solução sensata é inverter isso e tornar proibitivo o custo dos cachorrinhos. A tal relação custo/benefício fará o resto. Vamos então avaliar algumas medidas para atingir esse objetivo.

Há muitas coisas nesse campo precisando de regulamentação. Se os totós adquiriram status humanoide, devem pagar impostos sobre tudo o que fazem ou deixam de fazer, como todos nós. A profissão de babá de cachorros, por exemplo, sendo oficializada, daria direito a férias e décimo terceiro salário, seria taxável, impostável, previdenciável, onerando os totófilos empenhados em manter filhinhos de quatro patas. Cuja alimentação, aliás, merece também taxação especial, extorsiva como a dos cigarros. Tudo fiscalizado por uma espécie de Ibama canino (Ibama-c).

Outra medida coercitiva é a escolarização canina, para evitar os riscos da presença de totós deseducados em domicílio, especialmente apartamentos. O curso completo se estenderia do primeiro grau à universidade. Não haveria um vestibular canino, já que o ensino seria particular, com tarifas baseadas na oferta e procura. Isto evita o complicativo das cotas raciais, pois as raças caninas têm variedades quase infinitas, não cabem no padrão preto-branco-mestiço. Sendo curta a vida dos totós, bastariam dois anos para todo o curso. Assim eles teriam de aprender muita coisa em pouco tempo, justificando cobrar em dois anos o preço equivalente a uns dez anos. Ao governo caberia apenas regulamentar, exigir, fiscalizar. E cobrar impostos, multas, propinas, especialidade cuja eficiência ninguém desconhece. Medidas impostantes assim poderiam até ajudar na recuperação das finanças nacionais.

Minhas sugestões parecem estapafúrdias, mas estou na mais completa sanidade mental. As consequências da minha proposta são também salutares, já que o aumento previsível das despesas caninas torna vantajoso o custo/benefício de educar filhos. É provável que muitos pais e mães caiam na realidade e voltem a ter famílias de número normal — ou seja, famílias grandes — para evitar o desequilíbrio mental frequente em filhos únicos e solitários.

Muitas mães são assediadas com pedidos assim:

— Mamãe, eu queria ganhar um irmãozinho.

Ao ouvirem esse pedido, não me estranha que muitas mães tenham a infeliz ideia de atendê-lo, porém substituindo o irmãozinho por um totó. Será que mães com esse procedimento desalmado dedicam a um cachorro o mesmo apreço que têm pelo filho? Se assim é, de duas uma: ou desvalorizam o filho a um ponto inimaginável, ou valorizam o cachorro a um ponto também inimaginável. Não seria melhor atender o pedido do filho integralmente, com algo que valha tanto quanto ele?

Será que os casais modernos — imediatistas, argentários, egoístas — entendem esta linguagem? Duvido muito. Mas o mundo poderia ser muito melhor se a entendessem. Eu me prontificaria até a elogiar a totolândia, se houvesse filhos numerosos para brincar com os totós.

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Esta crônica semanal pode ser reproduzida e divulgada livremente

 

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