A Virgem do Apocalipse e os “Anjos Arcabuzeiros”

Na festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael (29 de setembro), conhecidos na América Hispânica também como “Arcanjos Arcabuzeiros”, algumas considerações sobre o vínculo deles com a vocação do “Continente da Esperança”

  • Luis Dufaur

Há um séquito magnífico aos pés do trono de Deus, invisível aos nossos olhos. Nele, a hierarquia suprema dos anjos toma assento no mais alto da corte celestial. Não os vemos, mas conhecemos pela Fé que são seres puramente espirituais compondo coros e legiões de uma beleza insondável e de um poder indescritível.

Por sua vez, eles partem daquela corte para cumprir missões e, por assim dizer, voarem entre nós para exercer imensas, mas misteriosas influências benéficas, especialmente protetoras contra os demônios e todas as formas de mal.

Deus se serve deles como enviados, guerreiros e governadores das vastidões siderais e, portanto, da natureza terrena, pelo poder que lhes outorgou no momento de sua criação. A aristocracia espiritual angélica executa assim as disposições do governo monárquico-aristocrático de Deus sobre a Criação. O conjunto constitui o modelo supremo de ordem e harmonia num conjunto hierárquico cheio de autoridade que deve inspirar a ordem humana.

Essa hierarquia envolve anjos muito mais numerosos que os homens. Sua diversidade é toda feita de unidade na variedade, e de proporcionada mas insondável desigualdade instituída pelos arcanos da sabedoria criadora divina. Essa desigualdade inspirou a ordem feudal nos tempos da Cristandade em que os nobres, ao lado da ordem eclesiástica, procuravam se organizar em afinidade com a ordem angélica.

Em sentido contrário estão os anjos decaídos pela revolta, ou seja, os demônios, espíritos precipitados no inferno, de uma feiura e de uma maldade também insondáveis, contorcendo-se numa cacofonia que podemos imaginar vendo a desordem na qual a organização humana se afunda cada vez mais.

Modelo de harmonia salvadora

Virgem do Apocalipse – Matthias Gerung (1500-1570). Bíblia de Ottheinrich, Biblioteca Estatal da Baviera, Alemanha

Hoje, contudo, custa conjecturar essa fabulosa ordem devido ao caos universal em que caímos. Não é de estranhar que se pergunte como a ordenação social terrena pode se assemelhar à ordem ideal dos anjos no Céu. Essa perplexidade nos leva a indagar se na harmonia angelical não reside a esperança e solução do torvelinho em que o mundo se debate.

Convém a Deus, Rei do Universo, ter muitos ministros, pois não é próprio a Ele executar pormenores de seus planos de governo. Para as coisas pequenas manda seus enviados — significado da palavra “anjo” segundo São Tomás de Aquino —, reservando para Si apenas as coisas de tal grandeza que só Ele poderia realizar. E os homens nesta Terra precisam dos anjos portadores da graça de Deus para garantir a ordem universal.

O Criador em seu trono tem ao lado sua Mãe Santíssima, imperando sobre um exército imenso de anjos e santos. Bem perto de Nossa Senhora encontram-se os mais poderosos, sempre prestes a atender suas ordens. São os “Sete Espíritos que estão diante do trono de Deus” (Ap 1, 4).

Na festa dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael é oportuno considerar essa sapiencial ordenação angélica e impetrar especialmente o seu auxílio, conforme as palavras de São João Evangelista:

“Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João. […] Feliz o leitor e os ouvintes se observarem as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo. João às sete igrejas que estão na Ásia: a vós, graça e paz da parte daquele que é, que era e que vem da parte dos sete Espíritos que estão diante do seu trono” (Ap 1, 1-5).

Como são e como agem os anjos?

Sabemos o que nos ensina o Magistério tradicional da Igreja sobre os anjos. Mas, se pudéssemos vê-los, o que veríamos? As escolas artísticas aprovadas pela Igreja produziram representações que nos auxiliam a imaginá-los.

Deus criou um anjo da guarda destinado a cada um de nós, para nos amparar desde o primeiro instante de nossa existência. Outros corrigem o andamento dos eventos coletivos das nações, independentemente de qualquer mutação dos humores populares difusos, afastando os espíritos infernais, como o anjo de espada erguida no topo da agulha do Monte Saint-Michel. Outros presidem a imensidade do universo celeste, confirmando as leis que Deus lhe impôs e impedindo os desastres cósmicos que poderiam advir, caso as constelações e galáxias ficassem sem controle.

Os bons artistas os representaram segundo a inspiração e a cultura a que pertenceram. Entre essas representações encontramos uma escola inteiramente original da América Hispânica, que nos apresenta “Arcanjos Arcabuzeiros”, um modo surpreendente e reconhecidamente exclusivo.

Os Sete Arcanjos de Palermo – Anônimo, séc. XVII. Museu Pedro de Osma, Lima (Peru).

Visão artística de grande vocação

Onde nasceu essa escola artística? Ela aparece na região peruana de Cuzco e tira sua inspiração do livro em que São João profetiza com imagens misteriosas o Fim do Mundo e fala da Virgem do Apocalipse, a Rainha suprema que esmaga a besta de sete cabeças e voa, dotada de asas maravilhosas.

Esses e outros textos bíblicos e evangélicos eram lidos aos indígenas — aliás, aquinhoados de muito senso artístico —, continuadores do império incaico convertido, cujas qualidades a Igreja quis preservar e desenvolver. Os quadros que pintaram, como todas suas obras de arte, nos ensinam algo das características culturais de alma e até a vocação dos grupos humanos a que pertenciam os autores, alguns deles anônimos.

Por isso, pelos “Arcanjos Arcabuzeiros” que eles conceberam podemos intuir a vocação da América Hispânica, apesar das tempestades diabólicas e de correntes comuno-tribalistas que desejam nos impor o contrário.

A Profa. Escardiel González Estévez, da Universidade de Sevilha,[1] elaborou um riquíssimo trabalho histórico-artístico no qual nos basearemos para tentar compreender o porquê desses personagens angélicos pintados como guerreiros. Eles eclipsaram as outras representações angélicas latino-americanas, em geral inspiradas nas europeias, e exerceram um fascínio cheio de mistérios bons, que falam da vocação do nosso continente.

Essas representações dos arcanjos têm peculiaridades únicas: carregam armas de fogo, numa época em que as mais eficazes eram os arcabuzes, hoje nos museus, chamados de espingardas nas crônicas portuguesas. Por que colocar essa e outras armas nas mãos desses arcanjos? E por que essa arte se desenvolveu exclusivamente na América Hispânica?

Personagens do livro do Apocalipse

No ano de 1516, numa esquecida igreja à sombra da catedral de Palermo, na Sicília (Itália), alguém achou milagrosamente uma primitiva imagem representando os Sete Arcanjos colocados aos pés do trono de Deus (Ap 4, 5). Quando a vetusta igrejinha desabou, no final do século XVI, aquela imagem desapareceu, não sem antes ter sido reproduzida em livrinhos de piedade.

Cada um desses Arcanjos é identificado pelos seus atributos: São Miguel esmaga o demônio e leva a palma do vitorioso e um estandarte. São Gabriel leva um farol e um espelho; e, na Anunciação, apresenta-se como aquele que está diante de Deus (Lc 1, 19). São Rafael leva um peixe na mão e se identifica ante Tobias como “um dos sete anjos que estão sempre presentes e têm entrada à Glória do Senhor” (Tb 12, 15). A esses três sublimes espíritos angélicos a Igreja consagra a festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael no dia 29 deste mês.

Ao lado deles aparecem mais quatro Arcanjos aos quais, numa visão, o beato Amadeo de Portugal (1420-1482), nobre taumaturgo reformador dos franciscanos, atribuiu nomes que a Igreja não recomenda, pois não se encontram na Bíblia, embora sua existência e seu papel no mundo angélico sejam dogmáticos. Um brande a espada; outro permanece com as mãos juntas em oração, o terceiro porta coroa e cetro, e o quarto leva rosas no regaço.

Os Sete Príncipes rodeiam Nossa Senhora que, como Rainha do Universo, sustenta o Trono de Deus. Na igreja de São Francisco de Totimehuacán (México), São Gabriel anuncia a Encarnação do Verbo, acompanhado pelos demais Anjos. E na igreja de la Merced, de Puebla de los Ángeles, os Sete Príncipes veneram a Virgem recém-nascida nos braços de Santa Ana e na presença de São Joaquim.

No livro Apocalipses Nova o beato Amadeo de Portugal relata a guerra entre os anjos e a queda de Lúcifer, o significado de seus nomes, a vida de Cristo e Maria, bem como acontecimentos futuros referentes ao governo da Igreja e a vinda de um Papa angélico. Esses Sete Anjos têm uma posição de destaque fulgurante que nos descreve o Apocalipse:

“Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete espíritos de Deus” (Ap, 4, 5). Eles “ocupam o cimo da hierarquia angélica. As suas formas evocam o que há de mais nobre, de mais robusto, de mais sábio e de mais rápido. Imersos no seio da divindade e lançando os seus olhares sempre despertos ao mundo”, escreve a já citada Profa. Estévez.

Corte católica espelho da divina

Os indígenas da região andina pintavam com um talento comovedor o que ouviam sobre esses Sete Arcanjos como se os desejassem governando a Terra. Representavam-nos com um zelo ardente como tocha, olhando como hierarcas supremos do mundo angélico, altamente interessados no que estamos fazendo da Igreja e da Cristandade.

Os numerosos pintores anônimos logo entenderam que deles dependem os raios, os relâmpagos, os trovões e as vozes supremas dos profetas que interpretam os máximos eventos celestes. O arcabuz, arma que expele fogo, faz barulho e solta muita fumaça, passou a ser então o símbolo preferido para ilustrar esses poderes.

Sua alta posição na Corte celeste está naturalmente associada à dos grandes personagens, arquiduques e príncipes, que assistiam os imperadores Habsburgo, e depois aos Bourbons, que no trono da Espanha governavam então a América defendendo os interesses da Igreja e da Cristandade.

As imagens dos “Arcanjos Arcabuzeiros” foram encomendadas pelos mosteiros americanos especialmente consagrados a rezar e a se sacrificar pelos monarcas católicos. Da cidade de Cuzco, as imagens dos “Sete Arcanjos Arcabuzeiros” chegaram rapidamente até os mais remotos povoados andinos, à Argentina e ao Paraguai, vinculados à evangelização feita pela Companhia de Jesus.

Logo se estabeleceu a sublime ideia da interdependência entre o labor missionário dos padres jesuítas, como São José de Anchieta ou os mártires riograndenses, e o dos Sete Arcanjos. Os missionários jesuítas encarnavam o anjo-pregador,e para os indígenas anjos e missionários se pareciam mais do que irmãos.

Pois os jesuítas andavam pelo mundo dilatando a glória de Deus entre os selvagens, enquanto os Sete Príncipes Angélicos tiravam os gentios de sua torpe superstição, quebravam seus cultos idolátricos, entravam por vezes nas batalhas contra os pagãos e os conduziam à verdadeira Fé em Deus.

Os Sete Espíritos foram vistos como enviados pela Providência de Deus para remédio do mundo degradado e de costumes perversos, e para conversão dos diabólicos impérios incaico e asteca, num contexto de batalha final contra o reinado de Lúcifer. Estavam a anos luz do pervertido comuno-missionarismo ‘pachamamesco’ de hoje, que tenta precipitar os pobres indígenas em seu miserável estado anterior à pregação do Evangelho e desfazer o apostolado dos missionários associados aos Sete Príncipes Angélicos.

Batalhão de índios Cañaris vestidos com o uniforme militar usado pelos anjos arcabuzeiros (detalhe) – Série Corpus Christi (1675-1680) da Igreja de Santa Ana, Cuzco

“Arcanjos Arcabuzeiros” e conversão dos índios

A presença dos Sete Arcanjos na conversão da América Hispânica foi qualificada pelos especialistas de desconcertante, pois influiu de um modo que não se vê em outros continentes, sobretudo quando associada à Virgem Apocalíptica dotada de asas.

A hierarquia eclesiástica de então, toda penetrada do espírito da Contra-Reforma, promoveu a devoção aos Sete Arcanjos, conferindo um tom único à evangelização na América Hispânica. Na catedral mexicana de Puebla, o Septenário Angélico se exibia em local proeminente para facilitar sua veneração pelos fiéis. E a magnífica cidade de Puebla foi fundada com o nome de Ciudad de los Ángeles.

Os Sete Arcanjos personificam as virtudes do anjo guerreiro por inspirarem a virtude autêntica, a qual só pode ser combativa e por não haver virtude sem o espírito deles. Eles têm, nesta visualização, uma posição na Corte Celeste comparável à dos Grandes de Espanha, sendo por isso representados pelos artistas locais vestidos como tais, frequentemente com a ‘farda’ do Tercio de Flandres —unidade de guerra que combatia os protestantes nos Países Baixos.

O Apocalipse confirma a catolicidade da imitação desses Anjos, pela pluma de São João Evangelista: “Ouvi também, ao redor do trono, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz: ‘Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor’” (Apocalipse, 5, 11 e 12).

Na raiz da evangelização das Américas não houve muitos santos nem santuários comparáveis aos da Europa, como São Bento na Itália, São Martim de Tours na França, Santiago de Compostela na Espanha, São Patrício na Irlanda, São Bonifácio na Alemanha etc. Seus lugares foram ocupados por Nossa Senhora em pessoa e pelos Sete Príncipes dos Anjos, que foram fazendo emergir na América Hispânica um povo escolhido para cultuar essa suprema hierarquia.

Anjos, monarquia e Imaculada Conceição

O Prof. Sergi Doménech García, da Universidade Nacional Autônoma do México, sublinha que a devoção dos Sete Arcanjos se desenvolveu estreitamente ligada à monarquia ibérica, defensora universal da fé católica e da evangelização, protetora dos missionários — jesuítas e franciscanos especialmente —, que se internaram no continente virgem e pagão ao preço de inúmeros martírios para a fundação do Reino de Deus na América.

A vassalagem dos Sete Príncipes a Nossa Senhora é fundamental na difusão da devoção à Imaculada Conceição na América Hispânica. O amor de Maria a esses excelentíssimos espíritos procede do agradecimento e da nobreza dessa grande Senhora, por terem sido eles os sete que A serviram com maiores demonstrações de fineza e amor desde o primeiro instante de sua Conceição Imaculada.

Campeões nas pelejas bíblicas

O mesmo Prof. Sergi Doménech García,[2] da Universidade de Valencia, explica que os “Arcanjos Arcabuzeiros” eram cultuados agindo como chefes das milícias angélicas, e, portanto, como altos mandatários bélicos. Eles são também alabardeiros e porta-estandartes, verdadeiros espíritos militares que combateram nas mais difíceis lutas narradas na Bíblia.

Nas pinturas, eles defendem de arma em punho a Igreja assediada pelos males soprados pelo demônio, e protegem nossas almas contra os asseclas humanos dos abismos da perdição.

A imagem beligerante e triunfal dos seres angélicos é de hostes encarregadas de vencer as tropas demoníacas, sublinha a Prof. Doménech. E, em Patmos, São João contempla dois episódios chaves do Apocalipse: o triunfo de São Miguel contra a besta de sete cabeças (Ap 12, 7­ 9) e o acorrentamento do demônio por mil anos (Ap 20, 1­ 2).

Por isso a alma admirativa dos pintores via os “Arcanjos Arcabuzeiros”, armados para batalhas contra seres demoníacos, fazerem sua a luta da Igreja militante para a salvaguarda da fé e das verdades do Evangelho, ao lado dos religiosos fervorosos e dos mártires. E o fazem valorosamente nos atribulados dias em que vivemos, usando dos poderes que seus arcabuzes representam.

A terminologia bélica habitual nos Doutores da Igreja sublinha a combatividade das legiões angélicas na salvaguarda da Fé. E, assim como Deus dispôs no Céu um reino com seu próprio exército, na Terra os santos e próceres da Igreja, com paralelismos, metáforas e símbolos, estimulavam as cruzadas contra os mouros.

Nas Américas, enquanto os homens de armas católicos protegiam a difusão do Evangelho — hostilizada por adoradores de ídolos demoníacos e promotores de vícios canibais e supersticiosos —, os evangelizadores pregavam contra o protestantismo que cobiçava conquistar nossas terras, defendiam o dogma eucarístico, a autoridade pontifícia, o culto aos santos e a Nossa Senhora, a veneração das relíquias e das imagens sagradas, com o apoio de reis e nobres à testa dos católicos.

Essa luta participa da oposição escatológica que o Apocalipse descreve nos combates extremos do Bem e da iniquidade. Os “Anjos Arcabuzeiros” forneciam exemplos e estímulos.

Aristocratas alados

A ideia de que a Virgem dispunha de uma guarda pessoal de Anjos desde o seu nascimento generalizou-se com a publicação da Mística Cidade de Deus, da religiosa concepcionista soror Maria de Agreda, publicada em 1670. Nesta guarda de honra, os anjos Miguel, Gabriel e Rafael reluzem como aristocratas alados.

São Miguel tem o primado dos exércitos celestiais e é o “príncipe dos príncipes”, o “preposto ou prefeito do Paraíso”, “arquiduque e general supremo do Senhor dos exércitos”. O Pe. Cornélio a Lapide S.J. em seu célebre Comentário do Apocalipse, os chama “Príncipes dos Anjos que têm o primeiro lugar na Corte do Céu”.

São Gabriel é o superministro encarregado da diplomacia celeste. Quem, por acaso, cumpriu missão diplomática de tão alta transcendência quanto a dele anunciando à Santíssima Virgem a Encarnação do Verbo? São Gabriel se destaca pelo seu perfil aristocrático enquanto embaixador de Deus.

São Rafael também tem um perfil guerreiro e o Pe. Rafael de Bonafé S.J.[3] diz que foi ele quem numa noite “feriu de morte cento oitenta e cinco mil soldados de Senaquerib, rei da Síria”, como está escrito no II Livro dos Reis (II Reis, 19). O Pe. Bonafé acrescenta que “seu triunfo foi uma prefigura daquele que alcançará Cristo contra Lúcifer, amarrando-o nas profundezas do abismo na batalha do Fim do Mundo”[4].

São Rafael também aparece com atavios militares e uma alabarda, arma medieval própria das tropas de infantaria, muito prezada nos corpos de elite, como mostra a guarda privada de alabardeiros do rei Fernando o Católico. Os “Arcanjos Arcabuzeiros” também levam diversas armas e instrumentos de guerra, como albardas, lábaros, trombetas ou tambores. As roupas militares — do fim do século XVII e da corte francesa — foram trazidas às Américas pela dinastia dos Bourbons e são próprias de altos aristocratas espanhóis.

O uso e o porte das armas não são arbitrários e se encontram explicados no manual O exercício das Armas, de Jacob de Gheyn, publicado nos Países Baixos em 1607. O livro ensina as distintas posturas, os modos de levar a arma e instrui seu uso. Foram também representados empunhando o sabre, portando o escudo e a vara de mando com a inscrição Timor Dei (“Temor de Deus”), e rufando o tambor como durante as ofensivas da infantaria.

São Miguel Arcanjo, detalhe do quadro “Virgem do Carmo Apocalíptica”. Museu da Basílica de Guadalupe, Cidade do México.

“Comandante supremo das hostes aladas”

A chefia do “Septenário” cabe ao Arcanjo São Miguel, que a liturgia grega define como o archiestratega ou “comandante supremo das hostes aladas”. Ele se distingue entre os arcabuzeiros por atavios militares como a loriga, a couraça ou a clâmide grega. Nessa posição ele porta o estandarte da Imaculada, inspirado nos brasões militares que precediam a tropa, o qual se tornou um símbolo religioso das confrarias nos atos litúrgicos.

São Miguel é o máximo protetor angélico da Igreja. Pois assim como Deus concede a cada homem um anjo da guarda, Lúcifer envia um anjo mau para que o tente. E para cada povo ou país Deus designa um anjo protetor, enquanto Lúcifer encarrega um diabo para que o perturbe e transtorne. Foi o caso do diabo príncipe dos persas, que por ódio a Deus se opunha a que os judeus fossem libertados do cativeiro, como interpreta o grande exegeta Pe. Cornélio A Lapide.

São Miguel aparece nominalmente cinco vezes na Bíblia, conta o Prof. Salvador Daniel Escobedo, da Universidade de Guadalajara, México. Padres e autores antigos pensam que este anjo interveio ainda muitas outras vezes através dos séculos.

O primeiro dos “Sete Arcanjos” entra na História esmagando a revolta de Lúcifer no primeiro embate havido na Criação e por isso seu nome em hebreu significa “Quem como Deus?”. Mas sua guerra ao inferno não tem fim enquanto a História continuar, até chegar à última batalha do Fim do Mundo. No Apocalipse, o archiestratega defende a mulher — mulier amicta sole — da besta de sete cabeças porque ele é o grande defensor da Imaculada e o patrono do império cristão.

Santo Tomás e outros ensinam que na batalha final São Miguel matará o Anticristo por ordem do Senhor (“o sopro de sua boca”), interpretando a II carta de São Paulo aos Tessalonicenses (II Tes. II, 8). Cornélio acrescenta: “São Miguel será seu matador no Monte das Oliveiras, onde Cristo ascendeu ao Céu”. Portanto, São Miguel será o executor derradeiro da justiça divina.

Na era cristã houve muitas aparições de São Miguel reconhecidas pela Igreja. Cornélio a Lapide refere que Constantino Magno construiu duas igrejas em sua honra, após ele lhe aparecer em sonho e lhe dizer: “Eu sou Miguel, grande general do Senhor dos exércitos, protetor da Fé dos cristãos, que pelejo por ti contra os ímpios tiranos”. E Lescum, príncipe da Polônia, perseguido por muitos soldados lituanos, foi assistido por São Miguel, que o fez regressar certo da vitória, após a qual construiu em Lubin um templo ao Arcanjo.

Segundo Jean Croisset, o fato de não haver aparições aprovadas de São Gabriel e de São Rafael posteriores à vinda de Cristo se deve ao privilégio de São Miguel ser o protetor da Igreja, que quis “consagrar sua memória com uma festa especial sobre a eminência da mole ou sepulcro de Adriano, que hoje é o castelo Sant’Angelo”.

São Pedro Damião conta que o imperador Otão III, arrependido de suas culpas, jogou-se aos pés de São Romualdo, que lhe ordenou ir descalço de Roma até o monte Gargano. “O imperador executou a penitência com grande edificação da Cristandade e admirável testemunho da veneração por aquele prodigioso santuário”. Em 25 de julho de 1960 o Papa João XXIII suprimiu essa festa do calendário romano, por julgá-la incompatível com o espírito “dialogante” pós-conciliar…

Outra aparição famosa aconteceu no mosteiro do Monte Saint-Michel. O Arcanjo é invocado especialmente no exorcismo breve que no rito extraordinário da Missa se reza ao pé do altar após a celebração e que resume o grande exorcismo contra o demônio publicado pelo Papa Leão XIII.

Tal é o arquiestratega que os artistas indígenas imaginavam para comandar o catolicismo latino-americano nas batalhas finais dos últimos tempos. Impossível imaginar algo mais contrário ao Sínodo da Amazônia…

São Miguel nos Últimos Tempos

A missão dos “Sete Espíritos que estão diante do trono” de Deus, entrevistos nos “Anjos Arcabuzeiros” ainda está incompleta. Segundo o Apocalipse eles devem se engajar na batalha decisiva contra os dragões infernais para completar a guerra iniciada no Céu e derrotar para sempre a Satanás.

Cornélio a Lapide explica essa vitória: “Esta batalha significa simbolicamente a guerra que Lúcifer trava nos nossos dias contra os fiéis da Igreja e seus anjos da guarda. Mais profética e genuinamente literal, significa a batalha que Ele mesmo travará pela última vez no fim do mundo contra os santos. Pois isso é uma profecia contínua do fim do mundo. […] São Gregório Magno nos ensina que: ‘o cair das estrelas do Céu é o abandono da esperança celestial de muitos que com aquele líder [Satanás], passam a cobiçar a glória do século’. Porém, São Miguel lutará com seus anjos contra Lúcifer e seus demônios, ajudando, confortando e encorajando os cristãos mais fortes e constantes, para que com Elias e Enoque se oponham aberta e generosamente ao Anticristo, com quem e por quem Lúcifer lutará por meio de seduções, astúcias, fraudes, falsos milagres, hipocrisia, dinheiro, tormentos e outras armas e artes”.

Em suma, no fim dos tempos, à testa dos “Sete Espíritos que estão diante do trono de Deus”, São Miguel virá para comandar os Apóstolos dos Últimos Tempos, Santo Elias e Santo Enoque, e como protetor dos últimos fiéis diminuídos mas combativos, fará sua última guerra contra o demônio, será propiciador da conversão do povo judeu, e erguerá a Igreja em triunfo sobre Lúcifer e o Anticristo; pois, como diz Fillion: “O arcanjo se levantará como defensor de Israel e intervirá vitoriosamente para pôr fim à perseguição do Anticristo”.

Guardas da Mulher do Apocalipse

São Miguel Arcanjo, detalhe do quadro “Virgem do Carmo Apocalíptica”. Museu da Basílica de Guadalupe, Cidade do México.

Os “Sete Arcanjos” formam a guarda de elite em torno da “Virgem Apocalíptica” que São João viu em Patmos, escreveu a Profa. Adriana Pacheco Bustillos, da Universidade de Granada (Espanha). Eles glorificam especialmente o atributo da Imaculada Conceição. Na cidade de Quito, capital do Equador, os artistas locais reproduziram o triunfo da Imaculada mostrando a Virgem em pé sobre a lua, inclinando-se com delicadeza para esmagar o dragão infernal, com uma evidente inspiração no Apocalipse.

A Imaculada Apocalíptica de Bernardo de Legarda [Imagem acima] é a mais acabada imagem da mulher descrita por São João. Enquanto com o pé direito Ela pisa o crescente e com o esquerdo esmaga a cabeça da serpente — que segura entre seus dentes a maçã do pecado —, com a mão direita puxa uma corrente de prata que jugula o réptil pela cabeça, num gesto que emula uma dança. A Mulher Apocalíptica é dotada de asas e de uma auréola solar radiante, em cujas extremidades se veem as doze estrelas alusivas ao Colégio Apostólico e evocando os versos apocalípticos numa época em que em alguns lugares a Imaculada era representada sem ornatos.

Os professores poloneses Ewa Joanna Kubiak, da Universidade de Lodz, e Pawel Drabarczyk Grabarczyk, da Academia Polonesa de Ciências de Varsóvia, identificam a ‘Virgen alada’ nas cenas do triunfo da Igreja como no quadro “Virgen del Carmen Apocalíptica” no Museu da Basílica de Guadalupe, no México. Nele, o profeta Elias contempla a ‘Virgen alada’ pairando sobre o globo, símbolo do Universo, esmagando o crescente e atravessando uma das sete cabeças da besta que luta contra São Miguel sob seus pés.

Na parte de baixo vê-se o Monte Carmelo com o Profeta Elias e seu discípulo São Simão Stock, que aponta para Virgem, de quem recebeu o escapulário. Eles representam a ‘estirpe dos filhos da Virgem” contra os quais a serpente infernal e sua descendência têm empreendido uma luta sem quartel ao longo de toda a História e que só concluirá na batalha suprema do Fim do Mundo.

No convento franciscano de Cochabamba (Bolívia), os santos que aparecem também têm asas. Mas Maria se ergue sobre a lua crescente e crava sua lança na Serpente, “que pretende derrubá-la, posto que enroscou sua longa cauda num dos extremos da lua”. A lua crescente é o símbolo por excelência do Islã, no qual o Doutor e Padre da Igreja São João Damasceno via “o precursor do Anticristo”[5].

Vocação da América Hispânica

Enquanto “Mulher do Apocalipse” escoltada pelos “Anjos Arcabuzeiros”, Nossa Senhora se deu a conhecer de modo explícito e praticamente exclusivo na América Hispânica, como se Ela tivesse reservado para esse continente uma missão especial nesses últimos tempos da História e nessa batalha final entre o Bem o Mal.

Como se nossas terras fossem predestinadas a serem o palco de episódios heroicos do triunfo da Igreja Católica que encerrará a aventura humana, desta guerra universal que se desenvolve desde o Inimicitias ponam e se efetivará nos termos prenunciados por Davi em seus salmos quando diz “à sombra de tuas asas” (Sal. 36, 8; Sal. 57, 2; Sal. 63, 8).

A perspicácia indígena pareceu intuir esse grandioso futuro e o reproduziu com admirável, misteriosa e insuperável arte. Os anônimos autores de pinturas e estátuas parecem ter compreendido “à sombra” das asas angelicais o matrimônio indissolúvel entre trono e altar, a união do sagrado com o poder temporal, que só poderia ser séria, solene, rígida e frontal, segundo os professores citados.

Os “Sete Arcanjos” apareceram então como na ideia da Ecclesia Triumphans (“Igreja Triunfante) ou Ecclesia Militans (“Igreja Militante”), que inspirou a Contra-Reforma após o Concilio de Trento, a qual deveria se instaurar estavelmente em nosso continente numa era histórica que só poderia terminar no Juízo Final.

Mulher do Apocalipse, Arcabuzeiros e Apóstolos dos Últimos Tempos

Até santos com vocações comparáveis aos “arcabuzeiros” são representados com asas. É o caso, por exemplo, de São Vicente Ferrer, que anunciou a iminente chegada do Anticristo e o fim do mundo, e foi chamado “Anjo do Apocalipse”. A iconografia o representa com asas, segurando uma trombeta apocalíptica, enquanto uma chama de fogo se eleva em sua testa.

Por vezes acrescenta-se o versículo: “Temei a Deus e dai-lhe gloria, porque chegou a hora de Seu Juízo” (Ap. 14,7), e ainda: “Eu sou o anjo do Apocalipse”. O próprio São Tomás de Aquino, “Doutor da Humanidade”, “Doutor Comum” e “Doutor Angélico”, é representado com asas. Se fôssemos representar os Apóstolos dos Últimos Tempos, como eles são profetizados por São Luís Maria Grignion de Montfort e outros santos, as asas, as armas e o fogo lhes caberiam apropriadamente.

A Profa. Inmaculada Rodríguez Moya[6], da Universidade Jaume I, de Castellón (Espanha), observou que a mulher com asas de águia do Apocalipse, as virgens aladas das Américas — com destaque para a Virgem de Guadalupe calcando o crescente — falavam da vocação do império ibero-americano que nascia católico e com imenso poder. A seguir, nos vice-reinados americanos encarnou um universo simbólico místico-escatológico que com sua grande potência salvífica extirpava os cultos diabólicos primitivos, fortalecia a Fé e protegia maternalmente seus filhos em tempos procelosos.

Que pífia figura fazem as tentativas comuno-missionárias que em nossos dias tentam com feroz insistência destruir essa vocação! Mas Nossa Senhora do Apocalipse, escoltada em suas várias imagens pela aristocracia angélica, se prepara para suscitar os Apóstolos dos Últimos Tempos e consolidar seu magnífico reinado, até que Deus encerre a história humana.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 873, Setembro/2023


[1]) “Los Siete Arcángeles, ¿un culto identitario de la Nueva España?”, https://www.academia.edu/17168536/Los_Siete_Arc%C3%A1ngeles_un_culto_identitario_de_la_Nueva_Espa%C3%B1a

[2]) “Aristocracia alada, adalides del Rey del Cielo. Ángeles militares en la pintura barroca americana”, h29/07/2023 15:37:02ttps://www.academia.edu/36593407/Aristocracia_alada_adalides_del_rey_del_Cielo_Angeles_militares_en_la_pintura_barroca_americana

[3]) Rafael de Bonafé, “Títulos de Excelencia y oficios de piedad del arcángel S. Rafael uno de los siete asistentes de Dios”, Francisco Nieto y Salcedo, Madrid, 1659, p. 3.

[4]) Rafael de Bonafé, id.ibid.

[5]) São João Damasceno: Doutor da Igreja explica erros do Islã, https://ascruzadas.blogspot.com.br/p/toda-verdade-sobre-o-isla.html#15031918

[6]) “The eagle-woman and the queen image in the latin american viceroyalties”, Quiroga nº 4, julho-dezembro 2013, págs. 48-57.

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