CRISMA: Sacramento obsoleto?

  • Plinio Maria Solimeo

A partir do controvertido Concílio Vaticano II, a noção da necessidade dos Sacramentos foi infelizmente perdendo força na Igreja Católica. Basta falar do matrimônio religioso, hoje tão raro. Ou ainda da Unção dos Enfermos, ou Extrema Unção. Poucas famílias católicas têm a preocupação de providenciar esse indispensável Sacramento para seus parentes em grave risco de vida, comprometendo a sua eterna salvação.

Outro Sacramento do qual hoje pouco se fala é o da Crisma ou Confirmação, caído em profundo olvido pela ignorância de seu valor e das vantagens espirituais que ele traz consigo, e também pela descristianização geral.

Visando preencher de certo modo essa lacuna, damos aqui alguns subsídios para saná-la, baseando-nos em fontes fidedignas.

Começamos com o Catecismo da Igreja Católica, edição do Vaticano:

“O Batismo, a Eucaristia e o sacramento da Confirmação constituem juntos, os ‘sacramentos da iniciação cristã’, cuja unidade deve ser salvaguardada. Deve ser explicado aos fiéis que a recepção do sacramento da Confirmação é necessária para a realização da graça batismal. Pois por esse sacramento [os batizados] estão mais perfeitamente ligados à Igreja, e são enriquecidos com uma especial força do Espírito Santo. Portanto eles se tornam verdadeiras testemunhas de Cristo, mais estritamente obrigadas a difundir e defender a fé por palavra e ação”.

O que quer dizer que, por esse Sacramento, nos tornamos verdadeiros soldados de Cristo como diz o Concílio de Florença: o crisma “nos dá uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé por palavra e ação como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar seu nome com ousadia, e nunca ter vergonha da Cruz”. Nesse sentido, explica o erudito teólogo Mons. Dr. M. Teixeira Penido em seu substancioso livro “O Ministério dos Sacramentos” que, na crisma recebemos a própria força de Cristo Nosso Senhor: “Aquela ‘força’ com que o Espírito ungiu Jesus (At 1,8; Lc 24,49) o senso cristão interpretou-a principalmente como coragem, varonilidade, energia, espírito de conquista, de sorte que o Sacramento da Confirmação se nos afigura o Sacramento do valor cristão”.

Pelo que diz o papa Pio XII na encíclica Mediator Dei: “Com a Crisma se infunde nova força aos fiéis para conservarem e defenderem corajosamente a Santa Madre Igreja e a fé que dela receberam”. Isso repete com ênfase o que já fora dito no citado Concílio Florentino: “O efeito desse Sacramento consiste em que nele é dado o Espírito Santo para nos fortalecer, como foi dado aos Apóstolos no dia de Pentecostes, de sorte que o cristão confesse audaciosamente o nome de Cristo”.

O citado Catecismo enumera os dons que se recebe no Sacramento da Crisma:

1. aumento e aprofundamento da graça batismal;

2. Nos enraíza mais profundamente na filiação divina que nos faz clamar: “Aba! Pai!”;

3. Une-nos mais firmemente a Cristo;

4. aumenta os dons do Espírito Santo em nós;

5. torna mais perfeito o nosso vínculo com a Igreja, e finalmente nos dá uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé por palavra e ação como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar o nome de Cristo com ousadia e nunca ter vergonha da Cruz”.

            Daí a importância tão esquecida de nós católicos, de se receber o sacramento da Crisma ou Confirmação.

            O teólogo T.B. Scannell, falando dessa importância na The Catholic Encyclopedia, afirma que “Lutero, levado por sua rejeição a tudo que não pudesse ser claramente provado nas Escrituras e por sua doutrina da justificação só pela fé, se recusou a admitir que a confirmação seja um sacramento. Segundo a Confissão de Augsburg, [a Confirmação] foi instituída pela Igreja [católica] e não tem a promessa da graça de Deus”. Como consequência Melanchthon, discípulo perfeito do heresiarca, aos seus seguidores “ensinou que [a Crisma] era uma cerimônia vã, e que antigamente nada mais era do que um catecismo no qual aqueles que se aproximavam da adolescência prestavam contas de sua fé perante a Igreja; e que o ministro não era apenas um bispo, mas qualquer sacerdote. Esses quatro pontos foram condenados pelo Concílio de Trento. No entanto, as igrejas luteranas mantêm algum tipo de confirmação até os dias atuais”.

Uma vez vista a importância do Sacramento, trataremos agora no que se baseou a Santa Igreja para considerá-lo como tal.

Narram os Atos dos Apóstolos que tendo Felipe, não o Apóstolo mas o diácono, feito muitas conversões na Samaria, os Apóstolos enviaram para lá Pedro e João “os quais, descendo, oraram sobre eles para que recebessem o Espírito Santo, pois este ainda não descera sobre nenhum deles, só tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então, impunham-lhes as mãos, e recebiam o Espírito Santo” (At 8, 14-17).

Isso mesmo ocorreu com São Paulo. Tendo chegado a Éfeso, lá batizou alguns discípulos que só tinham recebido o batismo de São João. Depois, “impondo-lhes Paulo as mãos, desceu sobre eles o Espírito Santo”. (At 19, 1-6).

Comenta o mencionado Mons. Penido que “Aparece aqui [nesses fatos] um rito religioso bem distinto do Batismo, consistindo na imposição das mãos pelos Apóstolos, e cujo efeito é o dom do Espírito Santo. Diferente do Batismo, porém normalmente seguia-se a este como complemento. […] Temos aqui um rito sagrado, distinto do Batismo, cujos efeitos são de ordem sobrenatural, pois comunica o Espírito Santo, e que Felipe, embora cheio desse mesmo Espírito, não podia ministrar. Era privilégio apostólico”. Por isso mesmo o ministro ordinário da Confirmação é o Bispo. Atualmente este pode delegá-la a um de seus sacerdotes.

Desfazendo a objeção dos protestantes de que a Crisma é apenas uma cerimônia e não um sacramento, ele acrescenta: “Quando a Igreja nos apresenta um rito como sacramental, veículo da graça, meio de salvação, é impossível, absolutamente impossível que ela se engane e portanto nos engane. Impossível, absolutamente impossível que nos proponha como instituição de Cristo uma mera invenção humana”. Isso “decorre com férrea lógica das promessas de Cristo à sua Igreja”.

Isso já fora ratificado por São Jerônimo no início do século V: “Ignoras, porventura, ser costume das Igrejas que aos batizados se lhes imponham em seguida as mãos, e assim se invoque o Espírito Santo? Inquiris onde está escrito? Nos Atos dos Apóstolos. Mas, ainda que não sufragasse a autoridade das Escrituras, teria força de lei o consenso do orbe inteiro sobre esse ponto. Pois que muitas outras coisas que são tradicionalmente observadas nas Igrejas, conquistaram a autoridade da lei escrita”.

Segundo ainda o Catecismo da Igreja Católica: “Desde então os apóstolos, em cumprimento da vontade de Cristo, comunicam aos novos batizados pela imposição das mãos o dom do Espírito que completa a graça do Batismo. Por isso, na Carta aos Hebreus, a doutrina relativa ao batismo e a imposição das mãos figuram entre os primeiros elementos da instrução cristã. A imposição das mãos é justamente reconhecida pela tradição católica como a origem do sacramento da Confirmação, que de certo modo perpetua a graça do Pentecostes na Igreja”.

Entretanto, quase desde o início, à imposição das mãos, somou-se também a unção com o azeite consagrado [foto ao lado], como explica o Catecismo: “Muito cedo, para melhor significar o dom do Espírito Santo, uma unção com óleo perfumado (crisma) foi acrescentada à imposição das mãos. Essa unção destaca o nome ‘cristão’ [de crisma], que significa ‘ungido’, e deriva do próprio Cristo a quem Deus ‘ungiu com o Espírito Santo’. Esse rito de unção continuou desde então, tanto no Oriente como no Ocidente. Por esta razão as Igrejas Orientais chamam este sacramento de Crisma, unção com crisma, ou miron que significa ‘crisma’”.

Essa unção é feita com azeite de oliva ao qual se misturou algum bálsamo. Segundo ainda o Catecismo, isso porque “A unção, no simbolismo bíblico e em outros simbolismos antigos, é rica em significado: o óleo é um sinal de abundância e alegria; ele limpa (unção antes e depois do banho) e unta (a unção de atletas e lutadores); o óleo é um sinal de cura, pois é calmante para hematomas e feridas; e torna radiante de beleza, saúde e força”.

Esse óleo é consagrado pelo bispo na Quinta Feira Santa e distribuído a seus sacerdotes. E, enquanto qualquer água pode, em caso de emergência, servir para batizar, qualquer óleo não basta para confirmar. É indispensável a “matéria”, isto é o azeite consagrado.

Para a administração da crisma, o bispo impõe as mãos sobre o confirmando e reza:

“Deus onipotente e sempiterno, que vos dignastes regenerar, pela água e o Espírito Santo, os vossos servos aqui presentes, e lhes concedestes a remissão de todos os pecados, enviai-lhes dos Céus o Autor dos sete dons, vosso Espírito Santo Paráclito, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e de força, Espírito de ciência e de piedade. Enchei-os do Espírito de vosso temor, marcai-os com o sinal da cruz de Cristo para a vida eterna”.

Depois o unge dizendo as palavras:

“Eu te marco com o sinal da Cruz, e te confirmo com a crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

Finalmente, o prelado dá uma pequena palmada na face do confirmando dizendo: “A paz seja contigo”.

O azeite consagrado é utilizado também em outros Sacramentos como unção dos enfermos e ordenação de sacerdotes. Explica o Catecismo que: “A unção com óleo tem todos esses significados na vida sacramental. A unção pré-batismal com óleo de catecúmenos significa purificação e fortalecimento; a unção dos enfermos expressa cura e conforto. A unção pós-batismal com o sagrado crisma na Confirmação e na ordenação é o sinal da consagração. Pela Confirmação, os cristãos, isto é, aqueles que são ungidos, participam mais plenamente da missão de Jesus Cristo e da plenitude do Espírito Santo da qual ele está cheio, para que suas vidas exalem ‘o aroma de Cristo’”.

Quando a Confirmação é celebrada separadamente do Batismo, como no rito romano, sua liturgia começa com a renovação das promessas batismais e profissão de fé pelos confirmados. Quando os adultos são batizados, imediatamente recebem a Confirmação e participam do Santo Sacrifício e da Sagrada Comunhão.

Como o Batismo, que completa, a Confirmação é dada apenas uma vez, pois também imprime na alma uma marca espiritual indelével, ou “caráter”, que é o sinal de que Jesus Cristo marcou um cristão com o selo de seu Espírito, revestindo-o com poder do alto para que ele seja sua testemunha.

A Igreja prescreve também, sob pena de grave pecado, que um padrinho ou madrinha esteja presente junto à pessoa confirmada. Deve ter pelo menos 14 anos, ser do mesmo sexo do candidato à Confirmação e ele próprio ter sido confirmado, devendo ser bem instruído na fé católica. O padrinho de batismo não pode ser o mesmo para a Confirmação.

Concluindo, citamos como Santa Teresinha do Menino Jesus narra, em sua insuperável “História de uma Alma”, sua preparação para esse augusto sacramento:

“Pouco tempo após minha primeira Comunhão, entrei novamente em retiro para a Confirmação. Preparei-me com cuidado para receber a visita do Espírito Santo; não compreendia que se não desse toda a atenção à recepção deste Sacramento de Amor. […] Ah! como minha alma estava alegre! Como os apóstolos, eu esperava com júbilo a visita do Espírito Santo […]. Alegrava-me o pensamento de ser logo cristã perfeita, e sobretudo o de ter eternamente, sobre a fronte, a cruz misteriosa que o Bispo faz, impondo o Sacramento[…]. Enfim, chegou o feliz momento! Não senti um vento impetuoso no momento da descida do Espírito Santo, mas antes esta leve brisa, cujo murmúrio ouviu o profeta Elias no Monte Horeb[…]. Recebi neste dia a força de sofrer pois, logo depois devia começar o martírio de minha alma[…]. Foi minha querida Leoniazinha [sua irmã] que me serviu de madrinha. [Ela] estava tão emocionada que, durante todo o tempo da cerimônia, não pode impedir as lágrimas. Recebeu comigo a Santa Comunhão, pois tive ainda a felicidade de me unir a Jesus neste belo dia”.

Se nós católicos tivéssemos esse estado de espírito ao receber não só este, mas todos os Sacramentos, o mundo seria outro.