GUERRA ENTRE REVOLUÇÕES

Alanna Smith, jovem velocista americana, fala durante ato de protesto pedindo vetar atletas “trans” nos EUA
  • Paulo Henrique Américo de Araújo

Desenrola-se há anos uma espécie de conflito velado entre duas correntes revolucionárias, ambas com vinculações evidentes por seu ódio à civilização cristã. Propugnadores da ideologia de gênero, tida como “avançada”, consideram agora “ultrapassada” a vetusta onda feminista. A recente ascensão de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos trouxe notoriedade ao entrechoque das duas posições, e não há mais como escondê-lo do público.

O caso, como veremos, traz à luz uma das constatações mais sagazes de Plinio Corrêa de Oliveira, na sua obra mestra Revolução e Contra-Revolução: No processo de decadência do Ocidente cristão, iniciado nos fins da Idade Média, as revoluções de ontem vão sendo inevitavelmente devoradas pelas revoluções de hoje.

Controvérsia por direitos iguais

Alanna Smith, jovem velocista americana, tinha pela frente uma carreira promissora nas pistas de corrida de seu país. Tal oportunidade lhe surgiu, entre outros motivos, porque o movimento feminista havia reivindicado, durante muitas décadas, o direito das mulheres à prática de esportes geralmente restritos antes aos homens. A partir de meados do século passado, com o avanço da dita “igualdade entre os sexos”, as mais variadas formas de competição foram abertas às mulheres: natação, atletismo, esportes coletivos, e até mesmo um inimaginável pugilismo feminino.

Seus esforços foram paulatinamente reconhecidos no mundo das atletas, exatamente como ocorria com os homens. O pressuposto óbvio era que entre as mulheres esportistas vigoraria o chamado “fair play”, ou jogo justo. Em outras palavras, homens disputariam com homens, e mulheres disputariam com mulheres. Seria um disparate imaginar mulheres competindo com homens, por exemplo, em uma disputa de boxe…

Entretanto, quando a mãe de Alanna lhe perguntou sobre sua estratégia para vencer uma competição juvenil em 2019, a resposta foi taxativa: “Nada vai adiantar, mãe! Não tenho como vencer, porque hoje vou competir contra rapazes!”.1

Como!? Então cessou de valer o “fair play”!? Mulheres vão ser obrigadas a competir com homens, em tão flagrante desigualdade de condições??!! Era bem isso, mas também não era bem isso… Acontece que a revolução de hoje decidiu dar um grande passo, tão grande como outras loucas violações da natureza, para cuja vitória ela tem de ‘devorar’ a revolução de ontem. Expliquemo-nos.

O feminismo batalhou com todas as suas armas pela “igualdade de direitos” das mulheres. Avançaram, avançaram, avançaram, e hoje quase não há atividade que seja proibida às mulheres. Mas recentemente interessou à revolução dar impulso a outra “igualdade”, antinatural e insensata como tantas outras: “igualdade de gênero”. Ocorre, no entanto, que essa “igualdade” entra em contradição com a “igualdade de direitos” das mulheres. A consequência prevista por Alanna se concretizou, e ela ficou bem atrás dos dois “transgêneros” (homens identificados como mulheres) que disputavam a corrida naquele dia.

Outro caso emblemático ocorreu com Selina Soule.2 Em 2018 ela havia galgado o mais alto posto das velocistas juvenis em Connecticut. Contudo, numa corrida pelo campeonato estadual no mesmo ano, ela cruzou a linha de chegada muito, mas muito depois de “outras duas competidoras”. Tratava-se na realidade de dois competidores, que biologicamente falando eram rapazes, mas correndo na mesma pista com as moças. Terminando em terceiro lugar, Selina perdeu uma vaga na universidade, a classificação para futuros campeonatos e outras vantagens advindas da carreira de esportista.

O mais intrigante no caso de Selina é que os dois vencedores não teriam chance numa disputa contra homens, pois seus tempos de corrida estavam bem abaixo de outros competidores do sexo masculino na mesma categoria. Aliás, os dois “transgêneros” não teriam condições nem sequer para disputar o campeonato estadual com outros rapazes, apesar de terem vencido mulheres de verdade. Sua classificação era simplesmente muito aquém da média das competições masculinas. Alegando serem “mulheres”, venceram a competição contra mulheres em nome da “igualdade de gênero”!

Não temos a menor simpatia pela “igualdade de direitos” das mulheres (a revolução de ontem), mas devemos ressaltar que agora está sendo cometida de fato uma flagrante injustiça contra mulheres (consequência nefasta da revolução de hoje).

Feministas e transgêneros em batalha judicial

Em 2019, Selina, Alanna e duas outras atletas juvenis, apoiadas pela associação Aliança em Defesa da Liberdade, entraram com ação judicial no estado de Connecticut.3 A demanda intenta proteger o direito ao clássico “jogo justo”, excluindo das competições femininas os “atletas transgêneros”, isto é, homens biologicamente falando, que preferem ser tidos como mulheres. Até o fechamento desta edição, a decisão judicial ainda não havia sido proferida. De qualquer forma, note-se que o Departamento de Educação dos Estados Unidos, durante o governo Trump, vinha tomando uma atitude favorável às jovens esportistas. Sob o novo governo, porém, tal apoio foi retirado.

Analistas preveem4 outras querelas judiciais do mesmo tipo no país, em razão da ordem executiva baixada pelo presidente americano Joe Biden no início de seu mandato, em janeiro deste ano. A “Ordem executiva para a prevenção e combate à discriminação baseada em identidade de gênero e orientação sexual” declara, em sua 1ª seção: “As crianças devem ser inseridas no aprendizado, sem a preocupação de terem o acesso negado a banheiros, vestiários ou esportes escolares.

No Brasil, a problemática ainda não veio à tona como na América do Norte. Mas a guerra já desponta no horizonte com a tramitação, na Assembleia Legislativa de São Paulo, de um Projeto de Lei de 2019 para a proibição de “transgêneros” nos esportes.

Em 2019, Alanna, Chelsea e Selina (de esq. à dir.) atletas juvenis, apoiadas pela associação Aliança em Defesa da Liberdade, entraram com ação judicial no estado de Connecticut. A demanda intenta proteger o direito ao clássico “jogo justo”, excluindo das competições femininas os “atletas transgêneros”.

A lei natural esmagada por contradições

Os argumentos a favor e contra mergulham num mar de contradições e conclusões tortuosas. Os defensores dos “transgêneros” nos esportes femininos argumentam que é possível diminuir ou até neutralizar a natural disparidade biológica entre os sexos. Tratamentos para inibição de hormônios masculinos passaram a ser apresentados como prova de “igualdade de condições” nas competições internacionais e olímpicas. Isto significa, na realidade, tentar consertar um erro com outro erro.

Por outro lado, especialistas afirmam que certas características masculinas não podem ser minimizadas, mesmo com tratamentos hormonais.5 Dentre as naturais vantagens físicas dos homens sobre as mulheres figuram: ombros mais largos, algo que proporciona maior capacidade pulmonar e respiratória; maior massa muscular; maior densidade óssea nos braços.

Eis uma comparação. Se a velocista norte-americana Allysson Felix — ganhadora de seis medalhas de ouro olímpicas e tida como uma das mulheres mais rápidas do mundo — disputasse os 400 metros rasos, fazendo o melhor tempo de sua carreira (49.26 segundos), ela perderia a corrida para aproximadamente 300 rapazes, atletas não profissionais, estudantes do ensino médio, apenas considerando os participantes dos Estados Unidos.6

Não quero desmerecer a famosa atleta, desejo apenas apontar o óbvio: há diferenças biológicas entre os sexos que influenciam os resultados esportivos. Mas as sentinelas da ideologia de gênero não querem enxergar a questão assim. Para elas, retirar o direito de “homens transgêneros” à participação em competições femininas traduz-se por “discriminação de gênero”. Chegam até a qualificar as jovens esportistas acima citadas como “más perdedoras” e “preconceituosas”.

Contradições que fazem a Revolução avançar

Em 2019, Alanna, Chelsea e Selina (de esq. à dir.) atletas juvenis, apoiadas pela associação Aliança em Defesa da Liberdade, entraram com ação judicial no estado de Connecticut. A demanda intenta proteger o direito ao clássico “jogo justo”, excluindo das competições femininas os “atletas transgêneros”.

Não consta que qualquer movimento feminista tenha levantado a voz contra tão flagrante violação dos “direitos das mulheres”. Por quê? Ao que tudo indica, porque a onda revolucionária do “gênero” vai ‘pondo para escanteio’ a revolução feminista, suscitando querelas e contradições nas suas próprias fileiras. Por exemplo, o ativismo feminista usa geralmente a expressão “igualdade de gênero” como um conceito favorável aos direitos das mulheres.7 No entanto, diante da controvérsia dos “transgêneros” nos esportes femininos, a mesma expressão vai sendo utilizada em sentido oposto.

Tantas são as contradições, tão antinaturais todos esses aspectos impensáveis até bem pouco tempo atrás, que não conseguimos imaginar como poderia um juiz sensato prolatar sentença justa nessa situação paradoxal de “Revolução dos bichos”, na qual todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Quanto aos legisladores, como elaborar leis sensatas num mundo em que a insensatez disputa corrida com os que fogem à “lanterna de Diógenes”?

Na realidade, a Revolução anticristã vive de contradições e lutas internas. O que importa para ela é a destruição dos restos de Cristandade em nossos dias, mesmo que para isso seja necessário desprezar e derrubar suas bandeiras do passado; ou seja, devorar aquilo que foi ultrapassado pelo próprio processo revolucionário.

Apenas na civilização nutrida pela doutrina milenar da Santa Igreja Católica pode haver bases firmes e equilibradas para os legítimos papéis do homem e da mulher na sociedade, cada qual com sua dignidade, importância e particularidades próprias. E longe, muito longe dos disparates igualitários deste nosso mundo paganizado.

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Notas

1. Cfr. <https://www.youtube.com/watch?v=SrMem2TiAqQ>

2. Cfr. <https://www.youtube.com/watch?v=navQkMFvmDc>

3. Cfr. <https://www.ctpost.com/sports/article/Lawsuit-against-allowing-transgender-athletes-to-15982666.php>

4. Cfr.<https://www.uol.com.br/esporte/colunas/lei-em-campo/2021/02/02/decisao-de-biden-aumenta-sobre-transgeneros-afeta-o-esporte.htm>

5. Segundo o Journal of Applied Physiology, citado aos 4m e 45s do vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=b–cafK5mxY>

6. Cfr. aos 2m e 32s do vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=navQkMFvmDc>

7. Cfr. o penúltimo parágrafo do artigo: https://atletasnow.com/mulheres-no-esporte-conheca-suas-trajetorias-e-conquistas/