O papel da ascese na doutrina católica

Moisés com as tábuas de pedra com os 10 Mandamentos gravados (Óleo sobre tela do pintor holandês Rembrandt Van Rijn (1659). Staatliche Museen, Berlim).

“Se, com o espírito, mortificares a carne, vivereis”.

  • Plinio Maria Solimeo

Com a queda dos nossos primeiros pais e antes da vinda do Salvador, era muito difícil ao povo eleito praticar a virtude. Ele não tinha, como nós, a Santa Igreja para o guiar e orientar no caminho da santidade com sua doutrina e o auxílio dos Sacramentos.

Apiedando-se dele, Deus lhe deu os Dez Mandamentos, código de conduta que devia orientá-lo e conduzi-lo ao Céu.

A ascese no Antigo Testamento

Entretanto, o cumprimento desses Mandamentos exigia muito esforço, constância, força de vontade e, sobretudo, espírito sobrenatural.

Pois alguns de seus preceitos requeriam uma estrita obediência. Por exemplo, “não matarás”, “não cometerás adultério” etc. O que implicava uma constante repressão dos apetites inferiores por meio da penitência e da mortificação.

Essa repressão, contudo, levava a pessoa a cultivar as virtudes contrárias às coisas proibidas, isto é, a mansidão, a gentileza, o autodomínio, a paciência, a continência, a castidade, a justiça, a honestidade, o amor fraterno, a magnanimidade, a liberalidade etc., todo o necessário para uma vida virtuosa.

         Por outro lado, os três primeiros Mandamentos, que têm um caráter positivo, “adorarás o Senhor teu Deus” etc., levavam ao exercício vigoroso e constante das virtudes da fé, esperança, caridade, religião, reverência e oração. Seguindo-os fielmente, os israelitas podiam chegar à plena santificação, como foi o caso de muitos deles.

Papel da ascese no Novo Testamento

Com a vinda de Nosso Senhor, a Redenção, a fundação da Igreja, os Sacramentos e todos os benefícios que com Ela vieram, pareceria que tudo estava resolvido para nós no Novo Testamento. Mas não é assim. Para chegarmos ao Céu, ainda é necessária a nossa cooperação, pois continuamos a sofrer os efeitos do Pecado Original, que nos torna presas fáceis do demônio, do mundo e da carne, e nos dificulta a prática da virtude.

Por isso é preciso lutar contra nossos apetites desregrados, contrários aos ditames da razão e da Lei de Deus, por meio de uma vida de contínua ascese.

“Ascese” vem do grego askesis e significa prática, exercício corporal, e mais especialmente, treinamento atlético. Por analogia, os primeiros cristãos passaram a utilizar essa palavra para significar o esforço que temos que fazer para vencer as nossas más tendências e adquirir hábitos de virtude.

Em sua epístola aos Romanos (8, 13), São Paulo nos alerta: “Se viveres segundo a carne [ou seja, “o demônio, o mundo e a carne”], morrereis; mas se, com o espírito, mortificardesas obras da carne, vivereis.

Uma das principais e mais eficientes formas de ascese é a “mortificação”, empregada pelo ascetismo católico.

O ilustre teólogo Pe. Adolfo Tanquerey adefine como sendo “a luta contra as más inclinações para submetê-las à vontade, e esta a Deus”.

É por isso que diz o Apóstolo das Gentes: “Subjugo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ser reprovado” (I Cr 9, 27). Desse modo, “completo em mim o que falta à paixão de Cristo” (Cl 1, 24).

Quer dizer, nosso Divino Redentor deixou-nos uma parte, para que a preenchamos.

A mortificação consiste em exercícios que visam nos ajudar a vencer, na medida do possível, a rebelião da carne contra o espírito, que nos induz ao pecado.

Ela pode ser interior ou corporal. A interior consiste em sacrifícios feitos no âmbito da inteligência e da vontade. A corporal se refere aos sacrifícios dos sentidos.

A mortificação, seja interior, seja exterior, proporciona muitos benefícios à alma que a pratica, como a expiação pelos pecados, auxílio para submeter a carne ao espírito, desprendendo-a das coisas da Terra; sobretudo, aproxima-a de Deus, tornando-a semelhante a Ele.

Segundo o famoso teólogo e moralista espanhol, Pe. Royo Marin, O.P., a “aceitação voluntária das cruzes que Deus nos envia” é uma das formas mais excelentes de mortificação, pois representa “um grau muito estimável de amor à Cruz”. Contudo, diz ele, isso supõe uma certa passividade por parte da alma. Portanto, “o mais perfeito é ainda tomar a iniciativa e, apesar da repugnância que a natureza experimenta, sair de encontro à dor, praticando voluntariamente a mortificação cristã em todas suas formas”.

Se a mortificação é obrigatória para todos que atingiram a idade da razão, o é mais especialmente para aqueles que desejam chegar à perfeição no serviço de Cristo, diz o renomado teólogo.

Daí as mortificações espantosas e excepcionais que fizeram alguns santos, como São Pedro de Alcântara e Santa Teresa d’Ávila.

Aqueles que aspiram à perfeição, “segundo suas forças e disposições atuais, têm que praticá-las [essas mortificações excepcionais]. Não há outro caminho para chegar a ela senão aquele que nos deixou traçado Jesus Cristo com suas pegadas ensanguentadas até o Calvário”. Por isso é que “todos os santos, em maior ou menor escala [recorreram] ao cilício, às disciplinas, às ‘cadeinhas’, aos jejuns e abstinências, à escassez de sono e a outras austeridades deste estilo”[i].

Foi o que recomendou nosso Divino Redentor: “Aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me (Mt. 16,24). Ao que acrescenta o grande místico São João da Cruz: “Jamais, se quiseres possuir a Cristo, busque-O sem a sua cruz”[ii].

Os que tiveram tido a infelicidade de levar uma vida pecaminosa ou mundana, esquecidos de Deus e de seus Mandamentos, têm necessidade de expiar seus pecados por meio de uma severa mortificação. Foi o que fizeram vários pecadores que, por meio de rigorosas penitências e mortificações, repararam de tal maneira suas faltas passadas, que chegaram à honra dos altares, como Santa Margarida de Cortona e Santa Maria Egipcíaca.

Necessidade do jejum

Uma das formas mais comuns e eficientes de mortificação é o jejum. Juntamente com a oração e a esmola, a Igreja o chama de “remédio contra o pecado”.

O termo latino jejunium referia-se a um intestino de animal que estava sempre vazio. O jejum pode comportar a abstinência temporária de todos os tipos de alimentos ou bebidas. Tal é o jejum requerido para se receber a Sagrada Comunhão. Ou a abstenção parcial deles, como em algumas festas da Igreja, ou ainda o jejum a pão e água, feito por devoção.

A mortificação nos ajuda também a combater nossa inclinação ao pecado, seja de orgulho, seja de impureza, pois aplaca as tentações da carne e nos torna mais humildes diante de Deus. Nosso Divino Mestre nos alertou que certos espíritos malignos, principalmente os da impureza, só saem com jejum e oração (cfr. Mc 9, 29).

Assim exortou Deus, pela voz do Profeta Joel, o povo judeu para uma batalha: “Agora, pois, diz o Senhor: convertei-vos a mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e gemidos (Joel 2, 12).

Os moralistas sustentam que a lei natural inculca a necessidade do jejum para subjugar a concupiscência e que toda criatura racional deve trabalhar diligentemente nesse sentido.

O jejum tem também o efeito salutar de beneficiar não só o corpo, levando-nos à sobriedade, mas também a mente e o espírito. E nos ajuda a pôr em ordem nossos apetites básicos desordenados. Quem se excede na comida tem em geral mais dificuldade e menos propensão para pensar nas coisas mais elevadas.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu um grande exemplo, jejuando 40 dias no deserto antes de iniciar sua vida pública

São Pedro Crisólogo afirma que “o jejum é a paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas”. E que é ainda “o leme da vida humana,que governa todo o navio do nosso corpo”[iii].


[i]https://pt.wikipedia.org/wiki/Mortifica%C3%A7%C3%A3o

[ii]Carta ao P. João de Santa Ana (n. 23 na 2a. ed. da B.A.C., p.1322), in wikipedia, op.cit.

[iii] Baseamos este trabalho nos artigos da Catholic Encyclopedia (https://www.newadvent.org/cathen/05789c.htm) sobre a ascese, a mortificação e o jejum.