Ilha de Flores, na Indonésia pepineira de vocações sacerdotais

  • Plinio Maria Solimeo

É fato sobejamente conhecido no Ocidente que o número de vocações sacerdotais na Igreja Católica está em célere declínio. Os padres vão envelhecendo e quase não há outros mais novos para os substituir. Por isso alguns sacerdotes dos que restam têm que arcar com o ônus de mais de uma paróquia e a se restringir, em algumas delas, a celebrar Missa uma só vez por mês.

Somente os seminários mais conservadores, sobretudo os de congregações religiosas que seguem o rito tradicional, não têm problemas de vocações.

Paradoxalmente é o que acontece na longínqua Ilha de Flores, na Indonésia, onde os seminários, apesar de não termos dados de que seguem a liturgia tradicional, são muito conservadores, e por isso têm tantas vocações que exportam missionários para mais de 70 países do Ocidente. É o que veremos[i].

A Ilha de Flores

Praticamente desconhecida do público ocidental com exceção de Portugal e Holanda, de que foram colônia, a Ilha de Flores, na remota Indonésia, com pouco mais de 13,5 mil k2 e uma população de cerca de 1 milhão de habitantes, por ser majoritariamente católica há várias gerações, ainda hoje se faz notar pela firmeza de sua Fé.

Isso não é de admirar sabendo-se que ela foi colonizada por portugueses já no século XVI e foi colônia de Portugal até 1856. Nesse ano, pela ação canhestra de um governador geral, foi praticamente entregue de bandeja à Holanda. Com efeito, o novo governador geral de Timor, Solon e Flores vendeu nesse ano essas colônias à Holanda pela irrisória quantia de 200 mil florins, sem consultar Lisboa. Naturalmente foi demitido irrevogavelmente.

Flores, na Insulíndia, fazendo parte das Pequenas Ilhas de Sonda, tem a sudeste a Ilha de Timor em que, em sua parte oriental, se situa Timor Leste. Também antiga colônia portuguesa depois anexada à força pela Indonésia, tornou-se independente em 2002, sendo por isso uma das mais jovens nações do mundo.

Prática da Religião Católica em Flores

Em finais do século XVI comerciantes e missionários portugueses chegaram à ilha de Flores. Como os lusos eram, antes de tudo, um povo missionário, logo os dominicanos que os acompanhavam em suas expedições fundaram as primeiras missões abertas daquela nação. Com as bênçãos de Deus estas frutificaram, pelo que desde cedo surgiu ali uma comunidade católica pujante, principalmente nas regiões de Larantuca e Sica, na qual ainda hoje é discernível a influência lusa no falar e na cultura.

Essa influência é notada em toda a Ilha na celebração da Semana Santa que conserva a terminologia e muitos dos costumes específicos dessa cerimônia em Portugal. Ela ainda persiste também no fato de que grande parte da população católica de Flores sabe rezar em português antigo, se bem que não conseguem mais falar corretamente essa língua.

A Ilha das Flores não tem uma capital propriamente dita, mas Labuan Bajo é amplamente considerada a porta de entrada turística e o principal centro da ilha, enquanto Maumere é a maior cidade. Ende e Larantuka também são importantes centros regionais.

O catolicismo em Flores é ainda hoje muito ativo, pelo que muitas Congregações religiosas alitêm seus seminários e casas de formação. Entre elas a Sociedade do Verbo Divino, os Padres Somascos, os Rogacionistas, os Vocacionistas, os Camilianos e os Carmelitas.

Praticamente todos eles têm muitas vocações ainda nos dias de hoje como se vê num despacho da Vatican News de 4 de junho de 2024 citando declaração do Pe Luigi Galvani, pioneiro na Diocese de Maumere, na Indonésia:

“Em junho e julho estão programadas várias ordenações diaconais entre os vários institutos missionários. No domingo, 2 de junho, 48 foram ordenados diáconos Verbitas, que serão seguidos por outros 8 diáconos Carmelitas no dia 7 de junho, e 27 interdiocesanos (Dioceses de Maumere, Ende, Ruteng, Larantuka e Denpasar) no domingo, 9 de junho. A esses se seguirão as ordenações de cinco diáconos Camilianos no próximo dia 14 de julho, na festa de nosso fundador, São Camilo de Lellis”, conta Pe. Galvani acrescentando que: “Nos próximos meses, haverá também as profissões religiosas de numerosos noviços e noviças dos vários institutos masculinos e femininos presentes na Diocese de Maumere que, no momento, atingiram o número de 62 comunidades religiosas”.

Vatican News, despacho de 4 de junho de 2024

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-06/indonesia-ilha-de-flores-terra-prometida-vocacoes-camilianos.html

Seminário Maior Diocesano de São Pedro de Ritapiret

Além dos seminários de Ordens Religiosas na Ilha, destaca-se por sua importância o Seminário Diocesano de São Pedro de Ritapiret, em Ende, onde fica a sede da arquidiocese. Este, situado em no meio da selva nos arredores da cidade, é considerado o maior seminário do mundo pelo número de seminaristas. Em seus 70 anos de história já nele se graduaram 13 futuros bispos e mais de 580 sacerdotes e 23 diáconos. E isso não parou. No curso de 2023-2024 passaram por suas classes um total de 904 futuros sacerdotes. E, no final de curso desse ano, mais 27 seminaristas receberam a ordenação para o diaconato segundo o despacho do Vatican News acima citado,

Seminário Maior de São Paulo: 320 Seminaristas

Entre os seminários de Ordens Religiosas se destaca o Seminário Maior de São Paulo do Verbo Divino [foto ao lado], em Ledalero, considerado o maior seminário teológico e filosófico da Ásia. Fundado em 1937 com noviços verbitas, logo acolheu estudantes de outras ordens religiosas. É dele que temos mais dados, pelo que nele nos estenderemos mais longamente.

Até recentemente tinham se formado nesse seminário por volta de 1500 missionários verbitas, dos quais uns 500 servem atualmente em mais de 70 países do mundo. E surpreende que, agora em 2025, o número de seus seminaristas seja ainda de mil estudantes.

Como é costume, seus seminaristas estudam filosofia por 4 anos e teologia por 2. Viria então a ordenação sacerdotal, mas nesse seminário, antes dela e para adquirir experiência no serviço pastoral, durante um ano ou dois os seminaristas se dedicam ao serviço pastoral. Os que então julgam que não têm vocação, podem abandonar o seminário e obter uma licenciatura na Escola Católica de Filosofia de Ledalero.

Segundo o padre verbita Sefrianus Juhani, professor desse seminário, o número de vocações para o sacerdócio que há depois do noviciado, nunca é menor de 50. Ele comenta que isso é prova de que a ânsia vocacional segue viva ainda hoje na Indonésia, apesar dos desafios do tempo presente.

Nesse seminário, muito conservador, o Pe. Juhani diz que, para proteger a vocação dos seminaristas, há limites estritos para o uso de dispositivos eletrônicos, com wifi disponível só durante certas horas. “Alguns tentam saltar as regras, mas nós consideramos isso parte de sua formação de caráter e responsabilidade pessoal”.

Como manter 320 seminaristas?

Uma pergunta se impõe: Como é que o Seminário consegue manter materialmente mais de 320 seminaristas? De um lado, por terem voto de pobreza, os religiosos do Verbo Divino na Ilha, sacerdotes e irmãos leigos, contribuem para o Seminário com tudo o que ganham tanto no ensino, quanto nos pequenos projetos agrícolas. As famílias dos seminaristas, sobretudo as mais abastadas, também apoiam o seminário como seu óbulo.

Como é natural, os seminaristas recebem um pequeno estipêndio para sua manutenção. Mas, se necessitam ainda mais, podem obter o extra trabalhando nas horas vagas no campo ganhando com isso o de que necessitam.

Além disso não gastam com comida, pois a comunidade conta, para alimentar os seminaristas, com a colheita de suas hortas e da criação de porcos e galinhas. Como isso requer cuidados especiais, eles podem também se candidatar para fazê-los para ganhar um pouco de dinheiro a mais.

Assim, os estudantes de São Paulo nunca estão ociosos. Pois, além disso, nos fins de semana visitam os citadinos assessorando os jovens, visitando presos e doentes no hospital e, quando preciso, pernoitam em casas de famílias da aldeia para lhes dar maior assistência. E estão prontos para o que der e vier. Por exemplo, quando o vulcão do Monte Lewotobi entrou em erupção em julho e outubro, os seminaristas em peso ajudaram nos trabalhos de evacuação e socorro dos atingidos.

         O atual arcebispo de Ende, o missionário da Congregação do Verbo Divino Paulus Budi Klenden, afirma que muitos dos ex-alunos destes seminários trabalham fora do país. E que há uma rede de seminários menores que preparam para o Maior, e que atualmente conta com 650 estudantes matriculados nos níveis secundário e preparatório.

         Tudo isso hoje praticamente desapareceu no Ocidente, mesmo no Brasil, que foi outrora uma das nações mais católicas do Planeta. O que explica que o número de candidatos ao sacerdócio seja tão baixo.


[i] Fontes consultadas:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Flores_(Indon%C3%A9sia)

https://www.religionenlibertad.com/mundo/251202/flores-isla-remota-indonesia-convertida-granero-vocaciones_115295.html

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