Tentando explicar a crise sobre a Groenlândia

  • John Horvat

As ameaças do governo Trump de tomar posse da Groenlândia não fazem sentido. Seja por pressão ou invasão, a aquisição da ilha (território da Dinamarca) pouco povoada seria um ato brutal de agressão, moralmente injustificável.

É verdade que a região do Ártico é um local de crescente importância estratégica. No entanto, não se trata de uma emergência de segurança nacional. Não há motivo para invadir ou forçar uma venda.

Os benefícios de não invadir

O que torna a insistência em possuir a Groenlândia ainda mais intrigante é o fato de o governo da ilha estar mais disposto do nunca a trabalhar da melhor maneira possívelpara promover os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.

Essa cooperação livre e de boa vontade permitiria aos Estados Unidos utilizar diversas bases militares sem conflitos. A ilha, do tamanho do Meio-Oeste americano, já possui excelentes órgãos governamentais e uma boaestrutura, embora limitada. A população é muito receptiva a negócios estrangeiros, o que poderia facilitar oportunidades de mineração.

O arcabouço legal para a expansão dos laços já existe em tratados anteriores. Se necessário, a adesão da dependência dinamarquesa à OTAN poderia mobilizar os recursos da aliança para ajudar a garantir a segurança da região.

Trabalhar com a boa vontade da Groenlândia e da Dinamarca é uma situação vantajosa para ambos os lados. Tudo favorece a cooperação, não o confronto. Para um governo que gosta de fazer acordos com todos, certamente há um acordo a ser feito aqui que seria mutuamente benéfico.

Doutrina Donroe

No entanto, o governo americano insiste em nada menos do que a propriedade. A questão está longe de ser resolvida. Mesmo depois de assegurar ao mundo que não usaria a força, o presidente Trump ainda busca o controle total, embora possa aceitar a soberania sobre as bases.

Uma explicação para a crise é que a anexação da Groenlândia se encaixa na recém-criada Doutrina Donroe — um corolário Donald Trump à clássica Doutrina Monroe (de 1823), numa releitura marcada por forte nacionalismo —, segundo a qual os Estados Unidos afirmariam domínio e influência sobre a América do Norte e do Sul como parte de seu perímetro de segurança nacional.

Tal perspectiva, embora moralmente indefensável, parece mais provável do que um mero capricho do presidente de possuir a enorme ilha. No entanto, essa visão é falha e ilógica.

A aquisição da Groenlândia desmentiria o ‘modelo venezuelano’ atualmente em vigor, que em breve poderá ser aplicado em Cuba, Nicarágua e outros países americanos. O modelo Donroe não exige aquisição e assunção de responsabilidade, mas sim o uso do poder como alavanca.

De fato, a Doutrina Donroe faz todo o possível para evitar responsabilidades onerosas. Assim, os Estados Unidos não ocuparam a hostil Venezuela comunista e, infelizmente, estão dispostos a cooperar com seu regime corrupto e criminoso, respaldados pela ameaça de ataques cirúrgicos caso a situação saia do controle.

Dessa forma, segundo tal lógica, os Estados Unidos economizaram o custo da ocupação e a instabilidade de uma mudança de regime. O governo não envia tropas para o terreno e permite que os antigos regimes implementem a política americana e promovam seus interesses.

         A anexação da Groenlândia contrariaria a Doutrina Donroe. Os Estados Unidos seriam seus donos e ocupariam um território aliado. Assumiriam todas as despesas, necessidades financeiras, riscos e políticas associadas à posse, incluindo tropas terrestres.

Ao depor Nicolás Maduro e manter Delcy Rodríguez e os demais chavistas no poder, o governo americano dá sinais de que está disposto a confiar em um governo comunista internacionalmente reconhecido. No entanto, estranhamente, se mostra relutante em negociar com um aliado comprovado como a Dinamarca, que tem cooperado com os Estados Unidos por décadas.

Um último ponto de contradição reside na justificativa apresentada para o desejo de anexar a Groenlândia: contrabalançar as ações da Rússia e da China. Contudo, a recente Declaração de Estratégia Nacional não cita essas nações como inimigas. Os Estados Unidos estão vendendo chips de computador estratégicos para a China e buscando um acordo vantajoso com a Rússia em detrimento da Ucrânia.

Essas contradições são gritantes e incompreensíveis. A política do governo está, na prática, tratando inimigos como amigos e amigos como inimigos.

Um mundo multipolar

Há outra interpretação, ainda mais assustadora, em torno do caso da Groenlândia, que merece atenção especial. Ela envolve uma nova compreensão da ordem mundial.

Essa pode muito bem ser a justificativa mais plausível por trás do caso da Groenlândia. O objetivo declarado de muitos movimentos populistas e nacionalistas em todo o mundo é formar um mundo “multipolar”, no qual nações-chave se tornem polos de influência para as nações ao seu redor. De fato, o secretário de Estado, Marco Rubio, mencionou esse desenvolvimento como um fator que norteia a política externa do governo.

A estrutura é muito bem delineada pelo ideólogo político russo Alexander Dugin, que imagina uma reconfiguração geopolítica do mundo moderno pós-guerra.

Não será mais um mundo liberal global baseado no Estado de Direito e na unidade comercial, mas um mundo multipolar no qual as principais potências civilizacionais reunirão nações semelhantes próximas a si e promoverão seus próprios valores. Sob essa lógica, a Rússia pode reivindicar a Ucrânia, os países bálticos, partes da Geórgia, Moldávia, Finlândia e outros ainda; a China, Taiwan; e os Estados Unidos… a Groenlândia.

Desmantelando o Ocidente

O principal obstáculo a essa visão de mundo multipolar é o Ocidente, passado e presente. Esse modelo liberal globalista do pós-guerra (com todos os seus defeitos) está consagrado em todos os lugares. É uma barreira formidável, já que o sistema super-racional está inextricavelmente ligado a leis, tratados, instituições e cadeias de suprimentos econômicos. O sistema é ainda sustentado pelo cânone ocidental do pensamento filosófico, moral e religioso.

A única maneira de desmantelar a velha ordem mundial é embaralhar os laços e as relações que a mantêm unida.

A crise da Groenlândia pode ser compreendida à luz desse desejo de reconfigurar o mundo. Ao insistir na aquisição da Groenlândia, o presidente Trump rompe todos os protocolos, suspende tratados e reorganiza o mundo. A continuidade de ações como essa provavelmente levará ao fim da OTAN e ao fechamento das bases americanas na Europa. Poderia até mesmo derrubar o dólar como moeda de reserva mundial.

A Rússia rompeu seus laços com a ordem liberal quando rompeu drasticamente com o Ocidente ao invadir injustamente a Ucrânia, que reivindica como parte de sua esfera de influência. Políticas como a crise da Groenlândia desencadeariam uma ruptura semelhante entre os Estados Unidos e o Ocidente.

Há muito o que criticar na ordem liberal e globalizada. No entanto, os elementos legítimos que a mantêm devem ser defendidos. A destruição dos últimos vestígios da civilização cristã no Ocidente apenas fortalece a China comunista, o islamismo radical e a Rússia. Isso dará origem a uma nova desordem mundial, o sonho realizado de ideólogos pós-marxistas como Dugin. Acabará com os princípios universais, o Estado de Direito, as normas estabelecidas, a moral cristã e muito mais. É uma receita para o caos e a ruína.