Nicarágua: onde a Teologia da Libertação tomou o poder… e agora sofre as consequências

entre Daniel Ortega e sua mulher Rosario Murillo
Consejo de Comunicación y Ciudadanía del Gobierno de Nicaragua / César Pérez
- Julio Loredo
“Que se esqueçam! Não haverá mais eleições aqui!” — decretou o mandatário da Nicarágua Daniel Ortega.
Ele o fez durante os atos pelo 47º aniversário da Revolução Sandinista, em 19 de julho passado. E anunciou oficialmente o que todos já sabiam: a democracia no país acabou. A Nicarágua oficialmente se tornou uma ditadura ad personam, com o poder dividido entre Ortega e sua mulher Rosario Murillo.
Como se chegou a este ponto? A resposta é muito importante, até pelo fato de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, ter sido sempre um ferrenho defensor do regime sandinista. Continuará sendo mesmo depois deste recente passo de Ortega?
Nicarágua, pequeno país da América Central, entrará para a História como um caso clássico em que o movimento da Teologia da Libertação conseguiu de fato tomar o poder, em aliança com as forças comunistas da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), para depois sofrer as consequências quando o regime começou a perseguir a Igreja.
Teologia da Libertação toma o poder junto com os comunistas

o Pe. Ernesto Cardenal, de joelhos, durante a visita
do Papa a Nicarágua em 1983.
Em janeiro de 1966, Fidel Castro sediou em Havana a chamada Conferência Tricontinental — uma reunião de organizações revolucionárias de todo o mundo, com o objetivo de criar um movimento subversivo global. Foi nessa ocasião que o guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara lançou sua famosa proclamação “Dois, três… muitos Vietnãs!”.(1)
A conferência deu forte impulso aos movimentos de guerrilha na América Latina, entre os quais a Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua. Nascida como insurgência nacionalista contra a presença norte-americana, a FSLN tornou-se pouco a pouco marxista-leninista. Seus combatentes foram treinados em campos do Oriente Médio pela OLP de Yasser Arafat, então em conluio com a URSS.(2)
Tratava-se de aplicar o clássico esquema comunista: minorias bem adestradas que aproveitassem as situações de tensão nos campos e nas cidades para criar um crescente descontentamento que resultasse em uma revolução popular, a clássica “luta de classes”. A ditadura de Anastasio Somoza Debayle (1925-1980) parecia oferecer o clima ideal. No entanto, alguns anos depois, desprovida de apoio popular, a ofensiva Sandinista encalhou. Firmemente católica, as massas se mostravam refratárias à pregação marxista.
Neste ponto, porém, ocorre um fator novo: as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Inspiradas pela Teologia da Libertação e utilizando técnicas de “conscientização”, elas conseguiram transformar muitos católicos em revolucionários, direcionando-os depois para a FSLN. Explica o sociólogo Johannes Van Vugt:
“A revolução nicaraguense foi bem sucedida devido às comunidades eclesiais de base. Essas comunidades formaram uma rede de mobilização favorável à insurreição, utilizando métodos de conscientização para politizar as massas, a fim de lançá-las contra o regime [de Somoza]. [As CEBs] ofereciam uma justificativa para a revolução compatível com a fé católica. As CEBs forneceram militantes e líderes revolucionários à Frente Sandinista de Libertação Nacional”.(3) O resultado foi a vitória militar da FSLN, em julho 1979.(4)
O triunfo sandinista na Nicarágua foi fortemente apoiado pela Igreja, quase totalmente alinhada com a Teologia da Libertação, em particular pelo arcebispo de Manágua, a capital, Dom Miguel Obando y Bravo. Este apoio se manifestou, por exemplo, na presença de quatro eclesiásticos no governo Sandinista: Pe. Miguel d’Escoto, ministro do Exterior; Pe. Ernesto Cardenal, ministro da Cultura; Pe. Fernando Cardenal, ministro da Educação; e Pe. Edgar Parrales, ministro do Bem-Estar Social. Era propriamente um governo comuno-clerical.
Tentativas para exportar a Revolução
Como havia acontecido com a revolução cubana em 1960, e com o triunfo de Allende no Chile em 1970, a vitória Sandinista galvanizou a esquerda latino-americana, especialmente no Brasil, onde a Teologia da Libertação tinha se desenvolvido muito, juntamente com as CEBs. Em 28 de fevereiro de 1980, sob o patrocínio do Cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, realizou-se no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a “Noite sandinista”. Esta fazia parte do IV Congresso Internacional de Teologia Ecumênica, assistida por 160 bispos, sacerdotes, freiras e leigos engajados no movimento da Teologia da Libertação na América Latina.
Entre os convidados de honra do evento encontravam-se guerrilheiros sandinistas, liderados pelo presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, acompanhados do franciscano Uriel Molina, apresentado como “capelão da guerrilha”, e David Chavarría, um “guerrilheiro cristão”. Dirigia a sessão Frei Beto, também ferrenho defensor do Sandinismo.
Os sandinistas pretendiam ensinar aos católicos brasileiros a fórmula para o sucesso, para que eles pudessem replicá-lo aqui. Foi um aberto incitamento à luta armada. O falecido bispo de São Félix do Araguaia, D. Pedro Casaldáliga, vestiu na ocasião o uniforme de guerrilheiro sandinista, e disse que se sentia como se estivesse paramentado. Lembremos que o Brasil vivia ainda sob o regime militar. Todos os intentos da guerrilha comunista para desestabilizar o governo tinham fracassado. Será que as CEBs o conseguiriam? Era o que muitos líderes da esquerda almejavam.
No dia seguinte à “Noite sandinista” na PUC, o jornal da Arquidiocese saía com a manchete: “A Nicarágua é apenas o começo.” Em uma entrevista, o Cardeal Arns revelou que, sob os auspícios da Cúria, sucessivas levas de militantes das CEBs estavam viajando para a Nicarágua a fim de receber treinamento na luta revolucionária. “Este é apenas o começo!”, exclamou com entusiasmo Sua Eminência.(5)

Os Sandinistas se convertem em ditadura

A folia, porém, não durou muito. Rejeitado pelo povo, o governo sandinista caiu em 1990, sendo eleita presidente a centrista Violeta Chamorro. Seguiram-se alguns governos democráticos, até que em 2006 os Sandinistas conseguiram reconquistar o governo, apoiados por uma coalizão de forças que incluía o arcebispo de Manágua. E desta vez, não mais o soltaram… Tinham o exemplo da Venezuela, que junto com Cuba se converteu no mentor deste pequeno país centro-americano.
Seguindo o exemplo venezuelano, os Sandinistas começaram a ocupar todos os espaços do poder, esmagando qualquer oposição, enquanto o país se empobrecia sempre mais.(6) Um primeiro passo foi o controle dos serviços de segurança, infiltrados por agentes cubanos e venezuelanos. Depois vieram as Forças Armadas, depuradas de qualquer elemento contrário, ou não suficientemente entusiasta, do regime comunista. Seguiu-se o controle do Parlamento, com a abolição de qualquer lei contrária às aspirações do presidente Ortega, a começar pela lei que limitava os períodos presidenciais.
Qualquer oposição era severamente castigada. Em 2018, Ortega esmagou um protesto de estudantes, matando 300 jovens. Todos os possíveis candidatos da oposição, como Cristina Chamorro, filha de Violeta, foram postos na cadeia. Em 2024, Ortega mandou prender seu próprio irmão, Humberto, acusado de fazer comentários sobre a sucessão presidencial. Ele morreu pouco depois de uma doença estranha.
Começa a perseguição à Igreja

Mais cedo ou mais tarde, tal perseguição tinha que atingir a própria Igreja. Cumpriu-se o clássico dito: Cria corvos e eles te arrancarão os olhos. As autoridades eclesiásticas defensoras da Teologia da Libertação criaram um governo socialista, que começou a persegui-las. Impossível fazer em poucas linhas a história desta perseguição. Ela se intensificou a partir de 2018 quando, mostrando um mínimo de coerência, as autoridades eclesiásticas começaram a denunciar as contínuas violações dos direitos humanos. Até abriram algumas igrejas para os estudantes feridos nas manifestações das quais falamos acima. Isso bastou para que Ortega acusasse a Igreja de “terrorista”.
Muitos sacerdotes, incluindo bispos, enfrentaram longas penas de prisão ou exílio forçado. Dom Rolando Álvarez, bispo de Matagalpa, foi posto na cadeia e depois expulso do país por ter feito uma procissão com o Santíssimo Sacramento. Várias ordens religiosas foram fechadas e centenas de padres, freiras e seminaristas tiveram sua cidadania cassada e foram obrigados a deixar o país.
As autoridades sandinistas proibiram milhares de procissões religiosas públicas e celebrações de fé ao ar livre, restringindo o culto estritamente ao interior das igrejas. As procissões da Semana Santa e de Corpus Christi foram proibidas. O conteúdo dos sermões foi controlado. Agentes estatais rotineiramente gravavam e fotografavam cultos religiosos, e as dioceses locais enfrentavam extrema pressão, incluindo a suspensão de ordenações sacerdotais.
O governo confiscou estações de rádio católicas, escolas, fundações de caridade e importantes instituições de ensino superior, como a Universidade Centro-Americana, administrada pelos jesuítas, a qual fora um dos focos da Teologia da Libertação e das CEBs. Agora está provando os resultados do veneno que ajudou a preparar…
O ‘mea culpa’ que não vem…
“Errare humanum est, perseverare autem diabolicum”. Acho que não preciso traduzir este velho aforismo latino. A Igreja católica na Nicarágua está sendo violentamente perseguida pelo monstro que ela mesma ajudou a criar. Seria o momento de reconhecer que errou, pedir perdão a Deus e ao povo nicaraguense, e empenhar-se a doravante fazer o contrário. E eis o fato espantoso: nenhum teólogo ou ativista da libertação, nenhuma autoridade eclesiástica de relevo tem mostrado o mínimo arrependimento pelo seu compromisso ideológico e político — e às vezes até militar — com a revolução sandinista.
Este misterioso silêncio se estende ao nosso Brasil. Com a exceção de Frei Clodovis Boff, nenhum teólogo ou ativista da libertação tem feito em público o mea culpa por ter errado o caminho. Nem o inefável Frei Beto que, como vimos, dirigiu a “Noite sandinista” em São Paulo em 1980. Ele tem criticado os excessos da perseguição, mas nunca criticou a ideologia que os originou. Já suas críticas ao fato de que Ortega esteja se perpetuando no poder soam vazias, visto que ele sempre defendeu a ditadura castrista em Cuba, a mais longeva do continente.
Virá ou não esse mea culpa? O que acham os leitores?
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Notas:
1. Ernesto GUEVARA, Crear dos, tres, muchos Vietnam. Mensaje a los pueblos del mundo a través de la Tricontinental, in “Tricontinental”, La Habana, 16 de abril de 1967.
2. U.S. DEPARTMENT OF STATE, The Sandinistas and Middle Eastern Radicals, Washington DC, agosto de 1985.
3. Johannes VAN VUGT, Christian Base Communities, in “The Ecumenist”, Ottawa, vol. 24, n. 1, novembro/dezembro de 1985, p. 1.
4. Ver Carlos Alberto LIBÂNIO CHRISTO, Nicarágua livre: O primeiro passo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1980; Juan HERNÁNDEZ PICO, Convergencia entre iglesia popular y organización popular en Centroamérica. Contribuiu muito para a vitória sandinista a política do então presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter que, sob o pretexto dos direitos humanos, retirou o apoio a Anastasio Somoza. Ele foi assassinado em 1980 por um comando terrorista em Assunção, Paraguai.
5. Nicarágua é apenas o começo, in “O São Paulo”, 1º de março de 1980. Para um relato completo da noite sandinista, ver Plinio CORRÊA DE OLIVEIRA, Na “Noite sandinista”, incitamento à guerrilha dirigido por sandinistas “cristãos” à esquerda católica no Brasil e na América espanhola.
6. Sobre a atual pobreza na Nicarágua, ver Mateo Jarquín, The Sandinista Revolution: A Global Latin American History, University of North Carolina Press, 2024.