
Tendo sobrevivido à destruição das duas Guerras Mundiais e do regime soviético, o santuário de Nossa Senhora de Zarvanytsia, o maior centro espiritual da Ucrânia, conhecido como a “Lourdes ucraniana” devido às peregrinações e curas associadas ao local, é profundamente venerado pelo povo ucraniano, embora o título oficial de padroeira do país envolva outras tradições como Nossa Senhora de Hrushiv ou São Josafá.
Plinio Maria Solimeo
A devoção a Nossa Senhora de Zarvanytsia começou na Idade Média, propriamente no ano de 1240. Um monge cujo nome não foi registrado na História, fugindo de Kiev atacada por mongóis, ferido e exausto após uma jornada de cerca de 500 quilômetros, parou para se refrescar junto a uma nascente perto do rio Strypa, que fica no Leste da Ucrânia.
Tendo se recostado perto da nascente para descansar, adormeceu e, no sono, a Virgem Maria lhe apareceu e ele despertou. Viu então, ao seu lado, um ícone representando Maria Santíssima com o Menino Jesus nos braços.
Ora, não havia ninguém na região que pudesse ter posto o ícone lá. Portanto, ele considerou sua aparição como milagrosa.
Movido por uma inspiração sobrenatural, o monge foi se lavar nas águas da nascente. Viu que, subitamente, todas suas feridas haviam cicatrizado. Cheio de gratidão, tomou providências para construir uma capela de madeira com a ajuda de moradores da redondeza, e nela colocou o ícone tão misteriosamente aparecido.
Com o tempo a notícia daquele milagroso ícone foi se espalhando pela população da vizinhança, e começaram vir peregrinos de várias partes para venerá-lo. Ocorria muitas vezes que, após rezarem diante da imagem e beberem a água da nascente, ficavam curados.
Logo se construiu um poço para a água da nascente, de onde as pessoas pudessem coletar água milagrosa para levar para casa.
Uma cura extraordinária

Com o correr do tempo, a notícia de milagres operados por aquele ícone chegou aos ouvidos do duque de Terebovlia, Vasilko Rostislavich, primeiro Príncipe daquele ducado a partir de 1092. Este, em 1097, naquelas regiões ainda um pouco bárbaras, por litígios por causa de terras entre herdeiros, o príncipe Vasilko caiu numa emboscada preparada por seus primos, que pagaram cúmplices para arrancarem-lhe violentamente seus olhos.
O pobre Duque cego pediu que lhe enviassem o ícone ao seu palácio para se, por meio dele, obteria sua cura.
Naturalmente o monge, zeloso guardião do ícone, se recusou a isso. Diante da recusa, o Duque pediu para ser levado a Zarvanytsia. Lá rezando, foi milagrosamente curado. Em gratidão, fundou ali uma igreja e um mosteiro.
Zarvanytsia: sua conturbada história até nossos dias
A primeira menção escrita da vila data de 1458, e ruínas de fortificações daquela época ainda podem ser vistas hoje em Zarvanytsia.
Entre os anos 1662 e 1688, os turcos invadiram a vila e queimaram a igreja. O ícone, entretanto, foi salvo e depois posto numa nova igreja de madeira, recém-construída. Nessa igreja foi colocado também em 1740 um ícone de Cristo Crucificado, que se tornou uma das relíquias históricas mais importantes do santuário. Apenas dois anos depois, em 1742, esse ícone com a imagem de Jesus Crucificado foi coroado oficialmente pelo Metropolita Athanasius Sheptytsky devido aos relatos de milagres e graças alcançadas por fiéis que rezavam diante dela.
Em 1754 a igreja de madeira foi substituída por outra de pedra dedicada à Santíssima Trindade. Esta existe ainda em nossos dias. Contudo para conservar a lembrança dos anos de bênçãos e milagres ocorridos na igreja de madeira, marcaram o local onde esta estivera com uma cruz de pedra.
Nessa nova igreja o ícone de Jesus Crucificado continuou a ser venerado e a conceder graças aos inúmeros peregrinos.
No ano de 1867, o Beato Pio IX concedeu à igreja de Zarvanytsia o status de santuário, sendo o ícone da Mãe de Deus coroado, graças aos esforços do Padre Porfiriy Mandyczewsky.

Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, a aldeia e o mosteiro foram gravemente danificados. Porém, foram reconstruídos seis anos depois com a ajuda do Metropolita André Sheptytsky, que visitou pessoalmente Zarvanytsia. O Cardeal Joseph Slipyj [foto], futuro líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, também visitava o santuário com frequência.
Com relação ao ícone de Jesus Crucificado ocorreu que, durante o período de perseguição religiosa promovido pelo regime soviético no século XX — que tentou apagar a fé católica e destruir as estruturas do santuário —, o ícone original de 1728/1740 acabou sendo perdido ou destruído.
Em meados da década de 1990, constatando-se oficialmente o seu desaparecimento, a comunidade e líderes da Igreja Greco-Católica Ucraniana iniciaram um esforço para recriá-lo.
Com base em fotografias antigas coletadas com descendentes de clérigos locais, o iconógrafo Andriy Kharyna trabalhou meticulosamente para pintar uma cópia fiel. Esta foi apresentada publicamente aos peregrinos em 2012, devolvendo ao santuário um pedaço essencial de sua identidade litúrgica
Sob o domínio dos sem-Deus
A Ucrânia é um país muito sofrido. Primeiro, a maior porção do seu território esteve sob o jugo do Império russo, e a parte ocidental do país sob o controle do Império Austro-Húngaro.
Com a queda desses dois Impérios durante a Primeira Grande Guerra, o país gozou de um período breve de independência entre 1917 e 1921, ficando conhecida como República Popular da Ucrânia.
Os ucranianos tentaram então estabelecer Estados independentes (como a República Popular da Ucrânia Ocidental), mas foram derrotados.
Com o fim da Guerra Poloneso-Soviética e a assinatura do Tratado de Riga (1921), a Polônia assumiu oficialmente o controle da Ucrânia Ocidental. O santuário de Zarvanytsia passou então a fazer parte do território da Polônia durante o período entre guerras.
Porém, em agosto de 1939, a Alemanha Nazista e a União Soviética assinaram o infame Pacto Molotov-Ribbentrop que, em seus protocolos secretos, dividiram a Polônia e a Europa Oriental em esferas de influência. A região da Ucrânia Ocidental foi anexada à República Socialista Soviética da Ucrânia.
“O período de domínio soviético — que foi temporariamente interrompido pela ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial e retomado em 1944 — trouxe consequências devastadoras para a localidade Zarvanytsia. O mosteiro foi incendiado, a tradicional Igreja da Santíssima Trindade foi fechada e transformada em armazém, e a fonte de água considerada milagrosa pelos fiéis foi cercada com arame farpado e convertida em um lixão. O local só foi devolvido à comunidade religiosa e totalmente reconstruído após a independência da Ucrânia, em 1991”[i].
Em 1946 a Igreja Greco-Católica Ucraniana foi oficialmente proibida pelos comunistas e subordinada ao Patriarcado de Moscou. Apesar disso, a Igreja das Catacumbas continuou a viver, com os ícones guardados em segurança, sendo a Divina Liturgia celebrada em casas particulares ou nas florestas circundantes. Foi mesmo inaugurado um seminário secreto em 1975.
Em 1988, quando a Igreja Greco-Católica Ucraniana saiu da clandestinidade, moradores locais levaram o ícone milagroso, há muito escondido, para a Igreja da Santíssima Trindade. Nesse ano mais de 10.000 fiéis se reuniram em Zarvanytsia para comemorar o milênio do cristianismo na Ucrânia, celebrado pelo Bispo Pavlo Vasylyk.
Em 1991 — ano em que a Ucrânia reconquistou a independência — a igreja foi restaurada e a capela junto à nascente foi reconstruída, assim como o mosteiro dos Irmãos Estuditas, com a sua igreja da Natividade da Mãe de Deus. O padre Semeniuk e outros sacerdotes celebraram a Divina Liturgia abertamente na igreja local de Zarvanytsia pela primeira vez em 50 anos. A capela perto da nascente, que havia sido destruída, foi reconstruída, muito maior, e agora é utilizada para celebrações litúrgicas de grandes peregrinações.
Juntamente com o Mosteiro da Dormição em Univ e o Mosteiro dos Padres Basilianos em Krekhiv, Zarvanytsia se tornou um dos mais importantes locais de peregrinação da Ucrânia. É o destino de uma peregrinação anual de jovens, e de inúmeras peregrinações eparquiais dos cantos mais remotos da Ucrânia, de paróquias ucranianas no exterior e até mesmo de alguns fiéis do rito latino de países vizinhos, como Polônia e Eslováquia.
A Igreja da Mãe de Deus em Zarvanytsia, reconstruída em 2000, foi elevada à categoria de basílica menor em 30 de junho de 2019, um testemunho da única coisa que permaneceu ininterrupta: a fé que guia os ucranianos há mais de 1.000 anos.
Durante sua viagem apostólica à Ucrânia em 2001, o Papa João Paulo II rezou diante de Nossa Senhora de Zarvanytsia e confiou o país à Ela.
Em 22 de fevereiro de 2022, Moscou, por ordem do ditador comunista Putin, iniciou a invasão da Ucrânia. A resistência dessa nação, como as notícias têm constantemente demonstrado, tem sido heroica.

“Um conforto vindo do céu…”
As Sociedades para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade, muito conhecidas pela sigla TFP, as maiores associações civis anticomunistas do globo, se uniram para enviar à nação ucraniana um auxílio espiritual, consistindo no envio um milhão de medalhas religiosas para os seus combatentes e civis.
Estas trazem de um lado a imagem de Nossa Senhora de Zarvanytsia, e no outro de São Miguel Arcanjo.
Em carta dirigida a Dr. Caio Xavier da Silveira, chefe da Federação Cristã Pró-Europa, uma das entidades unidas nesse esforço, o Bispo Mikhaylo Koltun, chefe dos capelães militares da Ucrânia, agradecendo-lhe por organizar a doação das medalhas religiosas, descreveu-as como “um conforto vindo do Céu e um incentivo para renovarmos constantemente nossa confiança na proteção de nossos santos padroeiros”.