IMPERIALISMO CHINÊS MUNDIAL

  • Péricles Capanema

Imperialismo e colonialismo. Característica importante das potências colonizadoras e ainda das imperialistas, tantas vezes decisiva, têm créditos enormes a receber dos países sob seu domínio. Melhorando, créditos a receber de empréstimos normais ou subsidiados, bem como a agradecer donativos; são várias as formas de retribuição. Essa teia amarra e subjuga. Quem pede dinheiro emprestado e tem dificuldades de pagar, torna-se facilmente vítima de chantagem, perde pelo menos parte da liberdade. Devedor acaba ficando na mão do credor. É real entre indivíduos, é real entre países. Uns, os credores, tendem a agir como potências colonizadoras (ou imperialistas); os mutuários, os devedores, sobretudo quando não estão conseguindo pagar, como colônias, protetorados, satélites, estados clientes, confessados ou não, pouco importa, a realidade é o que conta. De alguma maneira, a situação se repete e até se agrava com créditos subsidiados e doações.

Créditos para 165 países. Grupo internacional de pesquisadores, (Aid Data), mais de 135 pessoas altamente qualificadas, ligado ao Global Research Institute (William &Mary’s), antiga e prestigiada instituição dos Estados Unidos, publicou em setembro último pesquisa iniciada “grosso modo” em 2013 sobre o intenso financiamento de projetos de várias naturezas realizado nos últimos anos pelo governo chinês, em especial por meio de bancos estatais e de empresas estatais do país. Em resumo, assevera a pesquisa, até o presente momento foram ou estão sendo financiados 13.427 projetos em 165 países, em especial de baixa e média renda per capita. No Brasil, apenas como exemplo, estão em curso vários projetos bancados com dinheiro chinês, de modo particular destaco por sua influência na cultura a instalação de numerosos “Instituto Confúcio” em universidades e grandes cidades.A instituição estatal chinesa oferece de modo sobressalente cursos de chinês e intercâmbios.Por exemplo, em São Paulo, o mencionado instituto está presente em 13 cidades. É trabalho contínuo, anos e décadas a fio, de derrubada de barreiras ideológicas. No Brasil, no conjunto, estão financiados pelos chineses 134 projetos, totalizando 39 bilhões de dólares — empréstimos normais e empréstimos subsidiados. O total de financiamento chineses hoje no mundo está por volta de 843 bilhões de dólares (os dados estão na rede, relatório de 166 páginas, arquivo PDF, título “Banking on the Belt and Road: insight from a new global data setof 13,427 Chinese development projects”). Desses 165 países, 42 têm dívidas com a China que excedem 10% de seu Produto Nacional Bruto. 334 instituições chinesas estão envolvidas na concessão dos empréstimos, dentre as quais se sobressaem ministérios, gigantes estatais e dois bancos estatais: CDB (China Development Bank) e China Exim bank, o banco destinado ao financiamento das exportações. De outra fonte (Refinitiv) vem a informação, existem 2.600 projetos vinculados à iniciativa Belt and Road, para os quais seriam necessários 3,7 trilhões de dólares em financiamentos.

US$385 bilhões de dívidas com a China desconhecidas de organismos internacionais. Do total das dívidas, cerca de US$385 bilhões de dólares não estão sendo contabilizados ou aparecem subcontabilizados nos órgãos de controle internacionais. A maior parte dos financiamentos envolve países que estão incluídos na implantação da chamada BRI (The Belt and Road Initiative – um cinturão, uma rota, em tradução livre), política do governo chinês iniciada em 2013, comportando gigantescas aplicações de capital para construção em particular de obras de infraestrutura (estradas, portos, hidrelétricas, aeroportos), com término previsto para 2049. Estabelecerá mastodôntica malha comercial centrada na China. Oficialmente, envolve 142 países, aqui incluídos países da América Latina e do Caribe. A China, concluída a presente iniciativa em curso, passará a ter papel semelhante à Inglaterra no século XIX e aos Estados Unidos no século XX. Seria uma nova Rota da Seda, malha comercial de intenso comércio entre 206 a. C e 220 d. C. De outro modo, tendo a China como centro, uma nova era de imperialismo comercial.

Contra-ataque ocidental. De momento, a China está aplicando aproximadamente 85 bilhões de dólares por ano em tais projetos, mais que o dobro das verbas destinadas a iniciativas semelhantes pelos Estados Unidos, por volta de 37 bilhões de dólares anuais. Contudo, com estímulo bipartidário e ainda apoio dos aliados mais importantes (Canadá, Reino Unido, Alemanha, Itália, França e Japão), a Casa Branca começou a pôr em prática o programa “Build Back Better World – B3W” (Construa de volta (ou de novo) um mundo melhor, em tradução livre), anunciado em junho de 2021 na reunião do G-7. O presidente Biden colocou como meta, até 2035, aplicar até 40 trilhões de dólares em tal iniciativa, de modo geral, obras de infraestrutura em países pobres ou de renda média. Óbvio, a execução ainda depende de numerosos fatores. Alternativa ao BRI chinês, será antídoto poderoso contra o retrocesso representado pelo expansionismo comunista, veneno mortal. Poderá significar a permanência da liberdade e da prosperidade para dezenas de países, talvez mais de cem. Esperemos que a recente decisão política, ainda sujeita a muitas chuvas e trovoadas, tenha eficácia, de outro modo, que barre o neocolonialismo chinês. Seria grande avanço civilizatório. Todas essas iniciativas de contenção do expansionismo chinês dependerão da vivacidade da reação do público. Reatividade popular, aqui deve estar nossa maior atenção.