O MENINO E O BONDE

O misterioso “Adamastor” não pode ser visto ainda, as brumas cobrem-no todo. Alguns clarões denunciam o trajeto do “monstro”, e o rapaz pensa: “Está vindo por cima de mim”. Então, a poucos metros de distância, o gigante se revela: era o bonde de passageiros, meio de transporte bastante comum naqueles tempos.
  • Paulo Henrique Américo de Araújo

Há certo tempo ouvi a seguinte narração, a qual me serve de imagem para compreender melhor a chamada “onda conservadora” no Brasil e, em boa medida, as tendências similares no restante do mundo.

Trata-se da história de um menino que costumava sair de casa bem cedinho para ir à escola. Nos meses de clima frio, o nevoeiro da manhã cobria as ruas da “São Paulinho”. Assim era apelidada a atual megalópole brasileira no início dos anos de 1920. Alto e magro, o menino se “retesava” ao deixar o aconchego do lar para enfrentar a baixa temperatura lá fora. Tal atitude de “retesamento” — pensava ele — diminuía a sensação do frio. Eis o primeiro “embate” do dia: caminhar sob a neblina, vencendo o desconforto do clima. Porém, o mais difícil estava por vir…

A poucos quarteirões de casa, o mocinho chega ao ponto de parada do transporte público. O nevoeiro permanece intenso e o frio, o mesmo tanto… De repente, ao longe, ele ouve os ruídos e estalos de uma espécie de monstro que se aproxima. O misterioso “Adamastor” não pode ser visto ainda, as brumas cobrem-no todo. Alguns clarões denunciam o trajeto do “monstro”, e o rapaz pensa: “Está vindo por cima de mim”. Então, a poucos metros de distância, o gigante se revela: era o bonde de passageiros, meio de transporte bastante comum naqueles tempos.

Bonde, símbolo do progresso que devora a tradição

O enorme bonde de metal parecia ao menino uma imagem das próprias dificuldades e problemas da vida com as quais tinha que lidar apesar de sua pouca idade. Tudo aquilo se lhe vinha encima para destruí-lo, esmagá-lo! Além disso, o bonde simbolizava para ele um opositor terrível contra as convicções que já havia formulado e a partir das quais havia definido os rumos de seu futuro. Aquela máquina representava o mundo moderno que, em sua aparente invencibilidade, rugia e procurava devorar, como uma fera, os valores tradicionais, a religião, o requinte, a educação, o maravilhoso, o civilizado, enfim, tudo aquilo que o menino tanto amava.

Havia duas opções: deixar-se esmagar pelo bonde, levado pelo turbilhão de sua força, ou enfrentá-lo, pará-lo, destruí-lo! A primeira opção, a capitulação, se lhe afigurava vergonhosa, repugnante. A segunda parecia ridícula, irracional. Como poderá um débil menino de escola derrotar tal colosso? Contra Golias não adianta a força bruta. Faz-se necessário encontrar outro meio de vencê-lo.

Combate à Revolução anticristã

Curiosamente, muitos dos passageiros não percebiam que o bonde os conduzia para o abismo da decadência. Aí o menino definiu sua estratégia de batalha: apontar o destino fatal daquele trajeto. Anos depois, deu nome ao horrendo bonde, chamando-o Revolução1. E agora se revela ao leitor de Catolicismo o protagonista da história: Plinio Corrêa de Oliveira. Aliás, ele mesmo contou tal episódio de sua juventude. Apenas adaptei um tanto o relato para os propósitos deste artigo.

Aquele líder católico percebeu, desde tenra idade, que a Revolução anticristã avançava para destruir a civilização católica e todo o legado da doutrina tradicional da Santa Igreja arraigado no Brasil e em todo o Ocidente. Também se lhe tornou evidente que a forma de deter a “Revolução-bonde” não consistia em atacá-la com canhões ou metralhadoras. Esses meios não estavam a seu dispor. Sua estratégia apoiava-se na perspicácia e na inteligência, na utilização de todos os meios lícitos, com o concurso de todos os filhos da luz, para denunciar e apontar o destino trágico para onde o bonde se dirigia.

Movimento conservador nas Américas

Plinio Corrêa de Oliveira percebeu, desde tenra idade, que a Revolução anticristã avançava para destruir a civilização católica e todo o legado da doutrina tradicional da Santa Igreja arraigado no Brasil e em todo o Ocidente.

A eficácia da luta de Plinio Corrêa de Oliveira contra a Revolução pode ser compreendida e comprovada no recente artigo de André Pagliarini, “Religiosos e reacionários”, publicado na “Folha de S. Paulo” em 25-7-21. O articulista faz a análise do livro Moral Majorities Across the Americas: Brazil, the United States, and the Creation of the Religious Right (Maiorias morais nas Américas: Brasil, Estados Unidos e a criação da direita religiosa), escrito por Benjamin Cowan, professor da Universidade da Califórnia em San Diego (Estados Unidos).

Em sua obra, Cowan “revela as articulações de um movimento ultraconservador hemisférico que, desde os anos 1930, vem impulsionando o poder político da direita nas Américas”.

Note-se que a década de 1930, a que se refere o autor, marca o início da atuação pública de Plinio Corrêa de Oliveira, quando este entrou para as Congregações Marianas, tornando-se, mais tarde, deputado para a Constituinte de 1934 e assumindo a direção de O Legionário, semanário que passou a ter repercussão nacional.

O articulista da “Folha de S. Paulo”, a partir do estudo indicado, assinala que a ação do líder católico brasileiro se expandiu com a fundação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), no ano de 1960: “Grupos como a TFP […] formularam uma visão conservadora, conspiratória [sic!] e de escopo civilizacional. […] essa abordagem ajudou a fazer do país um elo central no caldo ideológico do qual surgiu a nova direita como fenômeno transnacional”.

As esquerdistas “ligas camponesas” ameaçavam incendiar o Brasil nos anos 60. O livro Reforma Agrária – Questão de Consciência teve um papel muito importante bloqueando a implantação do comunismo no País

Conclamação a uma renovação católica

Nesse sentido, o historiador norte-americano aponta a relevância do “trabalho de brasileiros tradicionalistas que também se organizaram para influenciar os rumos do catolicismo”, apesar de “raramente”receberem “a devida atenção de estudiosos”.

Plinio Corrêa de Oliveira contou com o apoio de dois bispos: D. Antônio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud, como bem anota o artigo mencionado: “Em 1960, Sigaud, Mayer e Oliveira lançaram ‘Reforma Agrária: Questão de Consciência’, um livro intensamente anticomunista que conclamava uma renovação católica e denunciava propostas de redistribuição de renda. O prefácio do livro de Sigaud, Mayer e Oliveira anunciava um viés ‘radicalmente contra a avalanche neopagã do socialismo, minando nosso patrimônio espiritual luso-cristão’”.

Reconhecendo a importância dos autores de Reforma Agrária: Questão de Consciência, o articulista enfatiza: “Os três [autores] se tornariam figuras relevantes na história do conservadorismo mundial. Esse manifesto repercutiu bastante no início dos anos 1960 […] Com isso, juntaram uma polêmica de direita com a legitimidade austera da religiosidade e chegaram às manchetes como representantes do conservadorismo social e político baseado no tradicionalismo católico. […] suas atividades tiveram repercussão internacional significativa, ajudando a moldar a reação cristã global à modernização”.

A ação de Plinio Corrêa de Oliveira para denunciar e deter a reforma agrária socialista e confiscatória acabou bloqueando a implantação do comunismo no País. Consequentemente, a Rússia comunista de então perdeu o apoio necessário para avançar seus planos de conquista ideológica mundial.2

Nas décadas seguintes, a luta contra a reforma agrária e a defesa do direito de propriedade não arrefeceu. O Prof. Plinio promoveu inúmeras campanhas públicas, manifestos e abaixo-assinados, denunciando as insistentes manobras comunistas — pretensas defensoras dos pobres e oprimidos — para solapar as instituições cristãs no Brasil.

Tanto a esquerda política quanto a religiosa, em vista do fracasso em implantar a luta de classes, não só no Brasil, mas em toda América Latina, foram obrigadas a se revestir da roupagem ecológico-indigenista como “nova” bandeira.

Mais recentemente, tais manobras revolucionárias assumiram a roupagem de proteção ao meio-ambiente ou ecologismo, bem como o dito “tribalismo indigenista”. Ainda aqui, a ação do líder católico brasileiro continua por meio de seus discípulos: o livro Psicose Ambientalista, de D. Bertrand de Orleans e Bragança, é um best-seller com oito edições e dezenas de milhares de exemplares vendidos em todo o País.

Em resumo, o artigo da “Folha de S. Paulo” reconhece que a atuação de Plinio Corrêa de Oliveira — concomitantemente àquela de outros sadios movimentos em todo o mundo — se desdobrou até influenciar as tendências mais recentes da opinião pública: “A verdade é que, longe dos holofotes, forças ultraconservadoras vêm trilhando há muito tempo o caminho exitoso da chamada nova direita, que conquistou o Brasil três anos atrás”.

O temível bonde da Revolução continua avançando, mas encontra cada vez mais dificuldades no seu trajeto. Para utilizar a imagem da história narrada acima, o menino parece ter subido no bonde, não como os demais passageiros, mas como um combatente sagaz que estuda o momento de dar cabo à máquina de guerra agressora, aproveitando de seu próprio dinamismo. Num dado momento, o rapaz cortou o cabo elétrico do bonde da Revolução, para que perdesse suas energias e fosse diminuindo de velocidade. A máquina há de parar e, quando isso acontecer, ninguém mais será levado por ela.

No enfrentamento do débil menino contra o monstro de metal, um inesperado, mas conhecido desfecho, se repete: Davi vence Golias!

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Notas

  1. Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 2008, edição comemorativa dos 50 anos.
  2. Cfr. Minha vida pública, Artpress, São Paulo, 2015, compilação de relatos autobiográficos de Plinio Corrêa de Oliveira.