Por que a Epístola de São Tiago Menor tem tanta importância?

  • Plinio Maria Solimeo

O apóstolo São Tiago escreveu a primeira das “Epístolas Católicas” (assim se chamam para distingui-las das de São Paulo) que, apesar de sua relativa brevidade traz, no entanto, entre outras coisas muito importantes, duas que muito contribuíram para a formulação da doutrina da Igreja: a afirmação de que a fé deve se provar pelas obras, e a definição que serviria para a formulação do Sacramento da Unção dos Enfermos ou Extrema Unção.

Quem foi São Tiago

O Apóstolo São Tiago, chamado “O Menor” para distingui-lo de São Tiago Maior, irmão de São João Evangelista, era filho de Alfeu ou Cleofas e de Maria, que tanto São João quanto São Paulo afirmam que era irmã da Santíssima Virgem. O que o torna primo-irmão de Nosso Senhor Jesus Cristo e, pelo costume então vigente entre os hebreus, “irmão” do Senhor.

São Paulo diz em sua Epistola ao Gálatas (2, 9) que, quando depois de sua conversão ele foi àquela cidade para “conferir os Evangelhos”, lá se encontrou só com “Tiago, Pedro e João, considerados colunas da Igreja” (Gl 2,9).

São Tiago desempenhou papel crucial no cristianismo primitivo, presidindo o Concílio de Jerusalém, que decidiu que os gentios convertidos não precisariam ser circuncidados nem cumprir a lei mosaica para se tornarem cristãos. 

Frei João José Pedreira de Castro, O.F.M., nos apêndices que traz na sua edição do Novo Testamento, faz judiciosos comentários sobre a Epístola de São Tiago, que nos serviram de base neste trabalho[i].

Diz ele: São Tiago, “pela rigorosa observância da Lei gozava de grande estima entre os próprios judeus incrédulos, e como irmão do Senhor tinha uma autoridade especial entre os cristãos. Ele foi o homem providencial que pode permanecer em Jerusalém como bispo da Igreja-Mãe enquanto os outros Apóstolos se espalharam pela Palestina e o mundo. Nos tempos tumultuosos que precederam à guerra judaica também ele sucumbiu como mártir (ano 62) ao fanatismo do sinédrio”.

Como bispo de Jerusalém São Tiago escreveu, provavelmente antes do Concílio dos Apóstolos, sua epístola, dirigida “às doze tribos da dispersão”. É evidente que aqui não se deve tratar dos judeus incrédulos, mas dos convertidos, que formavam a Igreja de Deus. Pois isto se dava antes de São Paulo ter feito as notáveis conquistas entre os gentios, introduzindo-os à verdadeira Igreja.

São Tiago teve que enfrentar um problema como diz o Frei Pedreira de Castro:

“para o grande número ‘dos piedosos’, em Israel a religião consistira no conhecimento teórico mais perfeito possível da lei e na observância correta do sábado, das purificações rituais e do pagamento do dízimo. A recompensa era terrestre. Sobretudo a riqueza se considerava como prêmio merecido pela fidelidade à lei. Pobreza era um castigo de Deus. Uma tal mentalidade profundamente arraigada no povo pela influência farisaica não se vencia tão rapidamente. Assim como São Paulo deve lutar contra os resíduos do espírito pagão entre os seus neófitos, também Tiago continuamente deve insistir na penetração da vida pelo fermento do Sermão da Montanha. É este o fim de sua carta encíclica aos fiéis do seu rebanho judeu-cristão”.

O ilustre exegeta continua:

“Podemos concluir das observações de 2, 5-7, que os leitores na maior parte pertenciam à classe humilde, aos pobres e oprimidos. Mas, em lugar de viverem o espírito das bem-aventuranças do santo Evangelho, se deixavam contagiar pelo espírito do mundo (4, 4-6), apreciando mais os valores efêmeros da terra do que a coroa da vida (1, 9-12), deixando-se impressionar pelo luxo dos ricos (2, 1-4) e até sucumbindo aos sentimentos de ambição, cobiça e inveja (4, 1-3) […]. Tiago mostra como deve ser, pensar e agir o cristão. A verdadeira religião não consiste apenas em admitir as doutrinas da fé e assistir às reuniões do culto. Ela deve mostrar-se na prática das virtudes da paciência, pureza e mansidão, da caridade e justiça, pelas obras de misericórdia”.

Fé sem necessidade de obras

Um dos pontos mais importantes da Epístola de São Tiago é sobre a necessidade das obras para a salvação.

Aqui é preciso um esclarecimento: uma das teses principais do heresiarca Lutero é a de que só a fé, sem necessidade de obras, salva. Ora ele, que pelas suas lutas interiores antes se desesperava de sua salvação, viu nessa afirmação a grande mensagem que justificaria a sua pseudo-reforma.

         Por isso interpretou unilateralmente, como lhe convinha, a afirmação de São Paulo em Gálatas e Romanos que  “o homem não se justifica pelas obras da lei, mas antes pela fé”, para reafirmar: “Basta crer, e não há necessidade nenhuma boa obra para a salvação. Mesmo não importa se continuarmos a pecar, porque pela fé em Jesus Cristo, o Redentor, nos é imputada a justiça de Cristo”.

         Essa tese, que na prática dá lugar a excessos tão absurdos, é rejeitada hoje mesmo pela maioria dos protestantes modernos.

         Então, como interpretar corretamente o pensamento do Apóstolo dos Gentios ao fazer essa afirmação de que só a fé salva?                                                                                                                                                                                                                                                                                   

         Responde Frei João José: Para São Paulo,

“a justificação de que trata não é a salvação final que se possa alcançar sem obras, mas é a primeira graça comunicada no Batismo, gratuitamente, sem mérito algum. A fé, segundo o conceito de São Paulo, não é apenas a confiança do pecador nos méritos de Cristo, mas a submissão integral do homem a Deus e ao novo reino messiânico, a obediência à doutrina do Evangelho com todas as suas exigências de santidade. Depois de ter recebido gratuitamente a justificação, o que salva é a fé que opera pela caridade”. E esta se manifesta nas boas obras.

         Do mesmo modo o Pe. Matos Soares, em sua edição da Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, 1976, citando o Concílio de Trento, também afirma:

“Tiago não é contra São Paulo, pois este fala da confiança depositada nas obras da Lei mosaica, como se elas, por si mesmas, pudessem merecer a salvação, a qual, pelo contrário, nos foi merecida e é aplicada somente por Cristo, ao qual nos unimos pela fé. O próprio São Paulo diz com frequência que a fé sem as obras é morta, que para nos salvar, a fé deve ser vivificada pela caridade (Cr 13,2). Por outra parte, todas as recomendações relativas à vida e às virtudes espalhadas ao longo de suas cartas, nos explicam aquilo que tinha em vista na prática. São Tiago completa e explica a doutrina de São Paulo: este nos fala de fé como raiz das boas obras, que ela supõe. Tiago fala das obras enquanto frutos da fé. Destarte Paulo (Rm 3, 28; 4, 2), reportando-se a Gênesis 15, 6, nos fala das obras da Lei mosaica. Tiago fala das obras que seguem à justificação e procedem da fé e da graça” (Conc. Trento, ses. VI, cap. 8-10).

E acrescenta a isso Matos Soares:

“Do que nos dizem São Paulo e São Tiago resulta que, para os adultos, são necessárias a fé e as obras para se salvarem, e que em primeiro lugar está a fé, depois as obras, por conseguinte, primeiro o merecimento, finalmente a salvação eterna” (p. 1324, notas).

         Como São Tiago em sua Epistola refuta sobejamente a tese de Lutero de que só a fé salva, o heresiarca simplesmente a declarou não canônica, excluindo-a de sua Bíblia. Como fez o mesmo com outros livros que contradiziam suas teses, o resultado é que atualmente, enquanto a Bíblica Católica possui 73 livros, a Protestante tem só 66…

Necessidade das boas obras em São Tiago

         Em sua Epístola São Tiago diz, por exemplo:

“Que aproveita, meus irmãos, dizer alguém: ‘Tenho fé’, se não tem obras? Poderá a fé salva-lo? Se o irmão ou a irmã estiverem nus e carecerem do alimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos’ porém não lhes derdes com que satisfazer a necessidade do seu corpo, que proveito lhes viria? Assim também a fé, se não tem obras, por si só é morta” (2, 14-17).

Mais adiante acrescenta:

“Queres saber, homem insensato, como é estéril a fé sem obras? Não foi Abraão, nosso pai, justificado pelas obras quando ofereceu sobre o altar Isaac, seu filho? Vês como a fé cooperava com as suas obras e como pelas obras se fez perfeita a fé? E cumpriu-se a Escritura que diz: ‘Mas Abraão creu em Deus e foi-lhe isso abonado como justiça, e ele foi chamado amigo de Deus’. Vede, pois, como pelas obras, e não só pela fé somente, o homem se justifica” (2, 20-24).  E  “Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também é morta a fé sem as obras”  (id.26).

Descrição da Extrema Unção ou Unção dos Enfermos

Em sua Epístola, São Tiago descreve explicitamente o Sacramento da Unção dos Enfermos dizendo:

“Está alguém entre vós enfermo? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente; o Senhor o levantará e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (5, 14-15).

         Segundo a Igreja desse modo o apóstolo só deu a conhecer um rito estabelecido pelo próprio Redentor que prescreveu seu uso, como diz o Concílio de Trento, citado pelo Catecismo da Igreja Católica[ii]:

“Esta santa unção dos enfermos foi instituída por Cristo nosso Senhor como sacramento do Novo Testamento, verdadeira e propriamente dito, insinuado por São Marcos (120-Cf. Mc 6, 13.), mas recomendado aos fiéis e promulgado por São Tiago, apóstolo e irmão do Senhor”.

         “Segundo fala o Concílio Tridentino da Unção dos Enfermos: indica, segundo a Teologia da Escola, a matéria do Sacramento (unção com óleo), a forma (oração da fé, unida à unção), o sacerdote como ministro, o enfermo como sujeito, os efeitos no alívio e na remissão dos pecados. ‘Pela santa Unção dos Enfermos e a oração dos sacerdotes, toda a Igreja encomenda os doentes ao Senhor, que sofreu e foi glorificado, para que os alivie e salve, e exorta-os a se unirem livremente à paixão e morte de Cristo e a contribuírem deste modo para o bem do Povo de Deus” (LG, 11) in Pe. Matos Soares, p. 1327, nota 15).

         Finalmente, para não nos alongar, São Tiago trata secundariamente de outros pontos também importantes.

         Entre outros o “irmão do Senhor” insiste no controle da língua, que parece que era um tema muito candente para ele, dizendo que:

“Se alguém não peca por palavra, é varão perfeito. […] Todo gênero de feras, de aves, de répteis […] é domável […] mas a língua nenhum homem é capaz de domá-la, é um mal irrequieto, e está cheia de veneno mortífero” (3, 1, 7-8).

         Por isso insiste que a chaga mais grave é a dos “fiéis não praticantes” (2, 12-26) . Uma falsa piedade, uma religião vã (1, 26) prova-se pela falta do “refreio à língua” (3, 1-12).

“Culmina a epístola em sete vigorosas exortações que, em parte, quanto à veemência passional, se assemelham aos discursos dos Profetas do Antigo Testamento que flagelam o esquecimento de Deus e a justiça social, mas que também animam pela esperança na vinda do Senhor e a confiança na força da oração” (Frei Pereira de Castro, op. Cit.).


[i] Cfr. Dr. Frei Mateus Hoepers, O.F. M., Novo Testamento, Editora Vozes, Petrópolis.

[ii]Catecismo da Igreja Católica,

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1420-1532_po.html