DE DEUS NÃO SE ZOMBA

Igreja de Santa Maria, em Stuttgart

Representação inusual do Nascimento de Jesus no último Natal provoca onda de protestos

Jorge Saidl

Frankfurt – Durante a Missa do Galo, transmitida ao vivo pela emissora pública ARD diretamente da Igreja de Santa Maria, em Stuttgart, na Alemanha, uma representação incomum do Menino Jesus chamou atenção e gerou forte repercussão no país e além fronteiras, continuando o debate a repercutir.

Sobre um monte de palha, Jesus é representado não como um menino, mas por uma mulher adulta nua ou sumariamente vestida envolta em papel molhado e translúcido, em posição fetal, lembrando um saco amniótico, e iluminada por luz vermelha. Uma bolha de aparência viscosa que se movia e pulsava. Sobre a artista que fez o papel de Jesus, o jornal Eßlinger Zeitung em outra ocasião a descreveu como uma pessoa que “explora padrões sexistas no mundo da arte”. E  no portal da Akademie der Bildenden Künste Stuttgart se encontra um comentário de que suasobras se distinguem por uma estética deliberadamente exagerada e “sexy” que reflete o olhar voyeurístico sobre a artista mulher e desconstrói criticamente as representações estereotipadas da feminilidade [para não faltarmo-nos com o devido respeito, não publicaremos as fotos dessa inominável blasfemia].

Usuários das redes sociais compararam a figura com um “alien”, um feto gigante, um monstro viscoso ou até uma cena satânica. “Isso é a Igreja católica ou um ritual pagão?”, perguntavam muitos.

O tabloide alemão Bild intitulou a obra de “Schleim-Jesus, que o jornal britânico The Guardian traduziu como “Slime Jesus”. o que em português corresponde mais ou menos a “Jesus gosmento”(!)

Klaus Nopper, administrador distrital de Stuttgart, chegou a interpretá-la como uma expressão de uma guerra cultural de esquerda: “Isso é repugnante! A história do Natal está sendo instrumentalizada aqui em nome do politicamente correto”, declarou ele ao diário Bild. A tradição milenar nos apresenta o Verbo feito Menino, luminoso e adorável, que atrai pastores e reis. Não um ser informe e viscoso que provoca náuseas, alguém comentou nas redes sociais.

O padre Zvonko Tolic, pároco da Comunidade Croata de Stuttgart, em carta aberta publicada na imprensa comenta:

“O que, juntamente com a Vigília Pascal, é uma das noites mais sagradas do ano litúrgico, foi apresentado de uma forma caracterizada por encenação provocativa, insinuações sexuais e elementos que só podem ser percebidos como blasfemos. Tudo isso sob o pretexto de suposta expressão artística.”

E continua o sacerdote:

“De uma perspectiva teológica, o Natal é a celebração da Encarnação de Deus. ‘E o Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1,14). Este mistério exige reverência. A liturgia não é um campo de provas estéticas nem uma tela de projeção para mensagens pessoais, mas sim um serviço à Fé de toda a Igreja.”

No último dia 10, fiéis da região de Stuttgart (fotos: Crédito de Nicelia Herczeg) se reuniram junto à igreja de Santa Maria para um ato de reparação. Enfrentando o clima invernal, adverso rezaram por mais de uma hora o Rosário inteiro entremeado com cânticos.

Após quase três semanas de silêncio, a diocese de Rottenburg-Stuttgart publicou um comunicado no qual reconhece o dano causado. E admite outras irregularidades litúrgicas durante a celebração. Recusou-se, porém, a assumir a responsabilidade, explicando que o “Serviço de Radiodifusão Católica” da Igreja, na emissora SWR, foi responsável pela concepção e transmissão. Afirma que o bispo Klaus Krämer e a direção diocesana revisaram a reação pública e admitiram que “sensibilidades religiosas foram ofendidas”.

O mal que o comunicado admite como mais grave é o fato de as “sensibilidades religiosas” terem sido ofendidas Quiseram se referir às “sensibilidades” humanas, evidentemente. Porém, a respeito da “sensibilidade Divina”, nenhuma palavra. É bom lembrar a este respeito as palavras do Apóstolo São Paulo aos Gálatas: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba. Porque aquilo que o homem semear, isto também colherá” (Gal 6,7).