Um novo pontificado ainda à sombra do anterior?

  • José Antonio Ureta
  • Fonte: Revista Catolicismo, Nº 901, Janeiro/2026

Em artigo recente para o portal Religión Digital, José Manuel Vidal comparou os Papas Francisco e Leão XIV a um furacão e a uma garoa. A imagem é feliz, ao menos quanto ao impulso inicial que cada um deu ao pontificado já no primeiro ano.

O Papa Francisco marcou o terreno desde o primeiro momento. Não apenas com gestos de impacto: recusar o Palácio Apostólico; viajar a Lampedusa para encontrar imigrantes ilegais; e lançar ao mundo a frase sobre os homossexuais, que se tornaria a assinatura de seu pontificado: “Quem sou eu para julgar?”.

Também tomou decisões estruturantes. Um mês após sua eleição, já criava um grupo de cardeais para estudar a reforma da Cúria; em junho e julho, instituía comissões para revisar a administração econômica do Vaticano; no fim do verão, nomeava o futuro Cardeal Pietro Parolin Secretário de Estado; em setembro, colocava o Arcebispo Beniamino Stella à frente da Congregação para o Clero, e o Arcebispo Lorenzo Baldisseri no Secretariado do Sínodo, ambos substituindo perfis conservadores e elevados ao cardinalato pouco depois; e, logo a seguir, no início de outubro, convocava a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo para a Família, com a clara intenção de abrir caminho à plena integração sacramental dos divorciados recasados, proposta defendida pelo cardeal ultraprogressista Walter Kasper, que ele já havia posto ao seu lado e elogiado publicamente desde o seu primeiro Angelus.

Parecia consciente de que precisava correr para impor a “mudança de paradigma” e moldar a Igreja logo de saída, antes que a resistência se consolidasse. No fim, porém, apesar da extensão das rupturas que promoveu, não conseguiu completar sua agenda reformista e acabou provocando uma frente de oposição ampla, dividindo e polarizando a Igreja como nunca.

Nada semelhante está ocorrendo com Leão XIV. O turbilhão ‘bergogliano’, que ao final exauria até os colaboradores mais próximos, deu lugar à garoa ‘prevostiana’, capaz de acalmar os ânimos, embora ainda sem dar um rumo próprio ao novo pontificado. Nos pontos decisivos reina a continuidade com o anterior; o que muda é sobretudo o estilo mais sóbrio, mais religioso, mais atento ao decoro, que deve cercar o ocupante do Trono de Pedro.

Há quem espere que Leão XIV finalmente saia da sombra de Francisco e comece a imprimir seu próprio brilho após o Consistório de cardeais, marcado para 7 e 8 de janeiro. Este é também o anseio desta folha, após um ano marcado, para os católicos de orientação tradicional, por uma mistura de esperanças e frustrações, cuja síntese apresentamos a seguir. Limitamo-nos aqui à mudança de pontificado, deixando de lado evoluções relevantes no mundo católico (como a intensificação da perseguição aos cristãos), porque a direção indicada por Roma exerce influência decisiva também sobre as realidades mais locais.

Cerimônia pública de bênção de “casais” do mesmo sexo é realizada por padres, ditos católicos, em frente da Catedral de Colônia, na Alemanha

Últimos estertores de uma revolução abortada

Quando o Papa Francisco recusou os dois pedidos centrais do Sínodo da Amazônia (ordenar homens casados e criar um ministério feminino análogo ao diaconato), o historiador Massimo Faggioli concluiu que o pontificado perdera o ímpeto. Para evitar essa interpretação, lançou-se ao Sínodo mundial sobre a sinodalidade, esperando obter dos “fiéis de base” o apoio às reformas progressistas. Mas a 2ª sessão sinodal de 2024, em Roma, terminou com um documento que nada avançava nos temas mais polêmicos (celibato sacerdotal, diaconato feminino, democratização e acolhimento da homossexualidade), sobretudo porque ele já retirara das discussões esses assuntos e os remetera a comissões paralelas.

Temendo um retrocesso após sua morte, convocou em dezembro um consistório extraordinário, criando 21 cardeais progressistas para influenciar o futuro Conclave. Na virada do ano, reforçou seu legado com medidas inéditas: nomeou a Irmã Simone Brambilla prefeita do Dicastério para a Vida Consagrada, embora o cargo exija jurisdição reservada aos clérigos (esta contradição foi driblada ao colocar um cardeal como seu pro-prefeito). Em seguida designou a Irmã Raffaelli Petrini para chefiar a Governadoria do Estado do Vaticano, depois de alterar a Lei Fundamental que reservava a função aos cardeais. Pouco antes havia aplicado pessoalmente outra inovação de cunho feminista, ao incluir 23 mulheres vindas dos quatro cantos do mundo como Leitoras, numa celebração em São Pedro.

Essas iniciativas progressistas tiveram seu contraponto em medidas simultâneas contra realidades conservadoras: a renúncia forçada de Dom Dominique Rey, cuja diocese era um foco de vitalidade e de apostolado em moldes clássicos, com abertura para o mundo tradicionalista; a dissolução do Sodalício de Vida Cristiana, um movimento conservador peruano danificado pelos abusos de seu fundador; visita apostólica ao Instituto do Verbo Encarnado, presente nos cinco continentes, e particularmente em zonas perigosas para os católicos.

Enquanto isso, defensores do diaconato feminino, da “inclusão radical” dos homossexuais e da imigração irrestrita foram promovidos, como o cardeal Robert McElroy, transferido de San Diego para Washington no exato momento em que Donald Trump assumia a presidência dos EUA.

Um último livro autobiográfico para a posteridade

Na primeira autobiografia publicada por um Papa, sob o título Esperança – A autobiografia, o Papa Francisco reuniu com a colaboração de Carlo Musso depoimentos concedidos entre 2019 e 2024. A obra deveria ser divulgada apenas como legado póstumo, mas o Jubileu de 2025 o levou a antecipar seu lançamento. Mais que um relato de vida, trata-se de uma síntese dos pontos centrais do pontificado, apresentando a trajetória de Jorge Mario Bergoglio como símbolo da “esperança”, tema escolhido por ele para o Jubileu.

O livro foi recebido com entusiasmo pelo ‘lobby’ pró-homossexual, sobretudo após o Papa afirmar, evocando a hostilidade dirigida à Fiducia Supplicans: “É estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que explora as pessoas (e isso é um pecado grave) ou com alguém que polui nossa casa comum, enquanto há um escândalo público se o papa abençoa uma mulher divorciada ou um homossexual”.

Doença e morte do Papa Francisco

Apesar da declaração tranquilizadora do cardeal Blase Cupich no início do ano (“O Papa Francisco está fisicamente bem, mentalmente lúcido e espiritualmente muito forte”), desde muito sua saúde estava fragilizada. A infecção pulmonar de março de 2023 se tornara crônica, e ele nunca se cuidou devidamente: não tinha médico pessoal, ignorava orientações clínicas e tornara-se visivelmente irritadiço, desfazendo a imagem do “papa simpático”. Em fevereiro de 2025 sua condição agravou-se rapidamente: internação por infecção respiratória, evolução para pneumonia dupla, bronquiectasia e bronquite asmática; um bronco-espasmo severo em 28 de fevereiro quase lhe tirou a vida. Após 38 dias de hospital, recebeu alta com recomendação de dois meses de isolamento.

Ele ignorou as instruções e retomou audiências. Mesmo debilitado, Francisco reapareceu em público em 6 de abril e manteve compromissos na Semana Santa, por vezes aparentando desorientação. Em 10 de abril, surgiu de forma inesperada na Basílica de São Pedro, em cadeira de rodas, sem veste clerical, usando camiseta branca de mangas compridas, calças pretas, cobertor nos ombros e cânulas de oxigênio. Talvez uma tentativa de mostrar recuperação e desmentir rumores de renúncia, agravados por boatos sobre mudanças nas regras da sede vacante, que o Cardeal Gianfranco Ghirlanda precisou negar oficialmente. A repercussão foi desastrosa. Aldo Maria Valli, que se recusou a publicar a imagem, comentou: “No momento em que se torna Pedro, não pode pisotear essa dignidade. João Paulo II esteve doente por muito tempo, mas nunca apareceu em público sem salvaguardar a dignidade de Pedro”.

Apenas algumas horas após as celebrações pascais, às 9h45 de 21 de abril, a sala de imprensa convocou uma transmissão extraordinária. Pelos semblantes dos quatro prelados, percebeu-se imediatamente qual seria o anúncio: o Papa Francisco havia morrido.

Balanço negativo de um pontificado desastroso

Dom Georg Gänswein, ex-Prefeito da Casa Pontifícia.

Entre os primeiros a deplorar o falecimento do Papa Francisco esteve a Gran Loggia d’Italia, para a qual sua obra “se caracterizou por uma profunda ressonância com os princípios da Maçonaria”, sobretudo pela “encíclica Fratelli tutti [que] representa um manifesto” dos valores de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Também significativa foi a homenagem de Marianne Duddy-Burke, diretora executiva da Dignity USA, que escreveu na The Advocate: “Durante o pontificado de Francisco, as pessoas LGBTQ+, nossas preocupações, necessidades e dons passaram a fazer parte da corrente principal da Igreja. Este é o legado duradouro de Francisco para nossa comunidade.”

Em contraste, diversos nomes destacados do mundo católico sublinharam aspectos negativos dos 12 anos do primeiro papa jesuíta. Para o Prof. Roberto de Mattei, a característica mais revolucionária de seu pontificado foi a sucessão de palavras e ações que transformaram a percepção pública do Primado de Pedro, secularizando-o e enfraquecendo-o: “O Papa Francisco substituiu o simbolismo sagrado por um simbolismo midiático. Alguns dizem que ‘humanizou’ o Papado, mas na realidade ele o banalizou e secularizou. A instituição do Papado é o que foi degradado por esses e inúmeros outros gestos”.

Dom Georg Gänswein, ex-Prefeito da Casa Pontifícia, lamentou seu estilo autoritário: “A confusão dos últimos anos precisa ser superada. As instituições da Igreja não são uma lepra nem uma ameaça ao Papa. Percebo certo alívio generalizado. A era da arbitrariedade acabou”.

Outros analistas apontaram contradições internas do pontificado. O historiador Giovanni Maria Gian, ex-diretor do Osservatore Romano, destacou que o Papa Francisco “tem sido um papa contraditório, disse coisas muito diferentes, levando o absolutismo papal ao extremo”. Quanto aos abusos, acrescentou: “Por um lado ele abraçou o legado de Bento XVI, mas por outro lado houve casos como o [do abusador jesuíta Pe. Marko] Rupnick, o que demonstra que o Papa Francisco não tem sido consistente”.

Balanço doutrinário de um pontificado de ruptura

Numa palestra em Cambridge, intitulada “A Revolução da Misericórdia do Papa Francisco: Amoris Laetitia como um Novo Paradigma da Catolicidade”, o Cardeal Blaise Cupich afirmou que dita exortação inaugurou um “novo paradigma” na compreensão e no exercício do ministério eclesial, sobretudo na pastoral familiar. Nesse modelo, o acompanhamento misericordioso substitui a apresentação de um “conjunto abstrato de verdades”, constituindo uma mudança profunda — até “revolucionária” — pela qual a práxis pastoral orienta o desenvolvimento doutrinal, reinterpretando o matrimônio à luz da experiência dos casais e da misericórdia divina, erigida à condição de chave hermenêutica do estilo de catolicidade proposto por Francisco.

Com efeito, a misericórdia foi o núcleo do pontificado do Papa jesuíta, apresentada como centro de sua teologia e de suas reformas. Essa ênfase, porém, reduziu unilateralmente Jesus Cristo a símbolo de compaixão e inclusão, obscurecendo sua pregação da Verdade que cura por meio de uma conversão dos corações. A misericórdia é descrita como inteiramente gratuita, sem sublinhar a necessidade da resposta humana — em contraste com o ensinamento agostiniano “Quem te criou sem ti, não te salvará sem ti” — e, de outro lado, dá prioridade ao atendimento de misérias materiais, enquanto o pecado, ruptura com Deus, quase desaparece de sua pregação. Essa misericórdia unilateral tornou-se ainda princípio ecumênico, em nome de uma fraternidade comum a outras religiões, deslocando o cristianismo de “Verdade que salva” para mero espaço de “diálogo voltado à paz”.

A prioridade na missão da Igreja deixou de ser a salvação eterna para tornar-se a transformação socioeconômica e cultural da humanidade. Assim a doutrina perdeu estabilidade, convertendo-se em inspiração flexível: Francisco repetia que a doutrina não deve ser “pedras a serem atiradas” da cátedra sobre os pecadores. Essa caricatura da misericórdia encontrou seu ápice na Fiducia Supplicans, que legitimou bênçãos supostamente não rituais de pseudo-casais do mesmo sexo.

Dom Athanasius Schneider

Interpelado por dois conjuntos sucessivos de dubia — relativos aos documentos Amoris Laetitia e Fiducia Supplicans —, o Papa Francisco evitou responder, pois isso evidenciaria que pontos centrais de sua doutrina se afastam do Magistério perene. Após o primeiro dubium, 62 acadêmicos publicaram uma Correctio filialis de erroribus propagatis, evocando uma suspeita de heresia em sete questões capitais, como: a negação de que a graça seja sempre suficiente para evitar o pecado grave; a suposta liceidade de violar conscientemente uma lei divina; e a afirmação de que a lei divina e natural não proíbe absolutamente certos atos objetivamente graves.

Para dissipar a confusão criada por esses textos e outras atitudes chocantes, Dom Athanasius Schneider publicou uma Profissão de Fé, reafirmando que não se pode ensinar que todas as religiões sejam caminhos para Deus; nem que sua diversidade seja vontade do Criador, em contraste com o texto conjunto católico-muçulmano assinado em Abu Dhabi com o reitor da Universidade do Cairo, assim como as declarações que fez em Cingapura.

Foi Francisco um Papa realmente popular?

Nenhum pontífice recebeu tanta condescendência da mídia e dos “grandes” deste mundo quanto o Papa Francisco, cuja agenda revolucionária foi amplamente apoiada, apesar de escândalos como a proteção ao bispo argentino Gustavo Zanchetta e ao sacerdote artista Marko Rupnik. Esse respaldo assegurou-lhe o apoio da esquerda laica e da minoria progressista da Igreja, mas não conquistou a maioria dos católicos, especialmente os mais praticantes.

São eloquentes os dados divulgados pela Casa Pontifícia dois dias após o funeral: a participação dos fiéis em eventos papais despencou durante o pontificado. Em 2013, mais de 7,3 milhões de pessoas foram a Roma para vê-lo; em 2014 o número caiu para 5,9 milhões; e em 2015, para 3,2 milhões. Após um breve respiro em 2016, a queda continuou até 2019, quando ficou abaixo de 2,5 milhões. Depois da pandemia, retomou esse nível reduzido. Em 2024, só 1,6 milhão em audiências, liturgias e Angelus — quase 6 milhões a menos do que no início do pontificado, revelando forte perda de interesse do rebanho por seu estilo pastoral.

Esse afastamento refletiu-se dramaticamente nas finanças do Vaticano, com queda acentuada de doadores e do volume das doações. Antes de ser hospitalizado, Francisco reuniu cardeais para tentar impor cortes na Cúria e buscar empréstimos externos, o que levou à criação de uma Comissão de Donativos para a Santa Sé. Ela acaba de ser dissolvida pelo novo Papa, em parte porque os católicos — especialmente as grandes fundações leigas norte-americanas — voltaram a contribuir generosamente para o Óbolo de São Pedro.

Cerimoniais durante a sede vacante atraem atenção do público

Apesar das análises da mídia anticatólica que anunciavam o declínio irreversível da Igreja — queda da prática religiosa, vocações em baixa, crise financeira e divisões agravadas pelo “populismo modernizante” do Papa Francisco —, os acontecimentos após sua morte mostraram que as brasas ainda ardem sob as cinzas. A presença de mais de 100 chefes de Estado, 1.500 jornalistas e a atenção mundial ao Conclave mostraram uma vez mais que Igreja Católica continua sendo o centro do mundo. Como observou José Andrés Rojo no El País: “Qualquer profano que se assome a este processo fica deslumbrado pelos protocolos. Os líderes da nova ordem foram correndo ao Vaticano, não por suas homilias, mas por seus esplêndidos cerimoniais”.

Previa-se um Conclave longo, pela dificuldade de encontrar um candidato que reunisse os 2/3 necessários em um colégio geograficamente heterogêneo, profundamente dividido entre os partidários da “mudança de paradigma” bergogliana e a minoria dos que viam nessas aberturas ao mundo uma traição ao Evangelho. Seria uma divisão tão séria, que alguns chegaram a falar em possível cisma.

Contra todas as expectativas, porém, o Conclave encerrou-se em apenas quatro escrutínios: no terceiro, o Cardeal Robert Vincent Prevost quase atingira a maioria qualificada. A eleição de um religioso nascido nos Estados Unidos frustrou os bookmakers, os defensores da continuidade bergogliana e da desocidentalização da Igreja. Aparentemente movidos pela prudência, pelo desejo de reunificar uma Igreja polarizada e de oferecer liderança num mundo instável, os cardeais escolheram uma figura pouco conhecida, mas que correspondia ao ideal delineado pelo Cardeal Timothy Dolan: alguém “com o vigor de João Paulo II, a capacidade intelectual de Bento e o coração do Papa Francisco”.

Os primeiros gestos de Leão XIV causaram excelente impressão, ao unir solenidade tradicional e profundidade espiritual.

Mudança de estilo que agrada à maioria silenciosa

Os primeiros gestos de Leão XIV causaram excelente impressão, ao unir solenidade tradicional e profundidade espiritual. Sua aparição no balcão — com mozzetta, estola bordada e um discurso centrado em Jesus Cristo, com uma invocação final a Nossa Senhora — foi vista como o retorno à dignidade pontifícia e à continuidade com a Tradição. Seu primeiro sermão na Capela Sixtina, denunciando o “ateísmo prático” e a visão mundana de Jesus, reforçou a sensação de que a Igreja recuperava gravidade e direção.

A mudança de estilo também impressionou: a projetada volta ao Palácio Apostólico, as férias em Castel Gandolfo e o restabelecimento de gestos tradicionais — do latim e do gregoriano à procissão de Corpus Christi pelas ruas de Roma — foram percebidos como sinais de apreço pela solenidade e pelas devoções tradicionais. A aceitação benevolente das honras devidas ao Papa reforçou essa impressão, bem como o entusiasmo de instituições como a Ordem de Malta, cujos membros retomaram seus esplêndidos uniformes ao se apresentarem para a primeira audiência.O editor Eric Sammons sintetizou esse sentimento no artigo “A importância de um verniz”: “Um papa que pratica publicamente a fé de maneira tradicional é algo bom de qualquer forma, mesmo que seja só uma aparência”. Pois, como explicou, “práticas como [a missa] ad orientem e a Comunhão na boca ensinam os fiéis a abraçar os ensinamentos da Igreja”. O mesmo ocorre com o ministério petrino exercido dignamente.

Cardeal Raymond Burke celebra missa pontifical tradicional no altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro.

A esperança de mudança aumentou com declarações de tom tradicional — exortações à coerência dos políticos, defesa da família e crítica à idolatria da terra — e com gestos como permitir uma missa pontifical tradicional, celebrada pelo Cardeal Raymond Burke no altar da Cátedra na Basílica de São Pedro; e, como anunciado pelo Núncio em Londres, por encorajar dispensas para manter a liturgia tradicional nas paróquias, contrariando Traditionis Custodes.

Densas sombras no quadro…

A boa impressão inicial começou a obscurecer-se quando Leão XIV adotou gestos e decisões que pareciam prolongar a agenda revolucionária do pontificado anterior. Não eram apenas referências protocolares, mas escolhas concretas que levaram alguns a perguntar se ele se via como sucessor de Pedro ou de seu antecessor imediato.

Entre os primeiros sinais inquietantes estiveram as audiências com a Irmã Lúcia Caram, freira argentina pró-aborto, e o jesuíta norte-americano James Martin, promotor da aceitação da homossexualidade na Igreja. Pouco depois, pela entrada triunfal de centenas de militantes pró-homossexuais pela Porta Jubilar, com uma grande cruz arco-íris, além de sua afirmação em entrevista de que, “por enquanto”, não haveria mudança doutrinal sobre a homossexualidade.

A preocupação motivou os discípulos de Plinio Corrêa de Oliveira a publicar uma “Súplica filial e apreensiva”, pedindo reafirmação da doutrina e a revogação da nota Fiducia Supplicans e da interpretação oficial heterodoxa de Amoris Laetitia.

A inquietação cresceu com decisões difíceis de conciliar com o estilo conservador inicial: a nomeação, para a Academia Pontifícia das Artes, de uma curadora de exposições pornográficas; a escolha de um militante homossexual, “casado” e “pai” por adoção, para o restaurante do Borgo Laudato Si, em Castel Gandolfo, Na defesa da vida, sombras ainda mais densas: o novo presidente da Pontifícia Academia para a Vida defendeu uma lei de eutanásia em nome do consenso pluralista, e o próprio Leão XIV apoiou o arcebispo de Chicago por homenagear o senador mais pró-aborto dos EUA, proibido de comungar em sua diocese de origem.

No plano social, o novo Papa retomou sob seu nome o documento Dilexi te, sobre a pobreza, iniciado no pontificado anterior.Um analista espanhol progressista celebrou a continuidade: “Tem cheiro de Francisco, tem sabor de Francisco, é Francisco”. Embora essa seja uma avaliação um tanto exagerada (o texto contém ênfases mais tradicionais, como a caridade e a esmola), permanece evidente a forte linha de continuidade com o enfoque populista de Jorge Mario Bergoglio.

O escândalo da manutenção do acordo secreto com a China

Xi Jinping reiterou que, para o Partido Comunista Chinês, “sinização” significa “orientar ativamente as religiões para que se adaptem à sociedade socialista”.

Um dos sinais mais desconcertantes de continuidade foi a permanência até hoje do Cardeal Pietro Parolin à frente da Secretaria de Estado, apesar de ser o principal promotor do acordo secreto com o regime chinês sobre a nomeação de bispos; e de sua pertinácia em renová-lo, ainda sob Francisco, mesmo após ficar evidente que as autoridades do Partido Comunista não respeitam nem mesmo o que teria sido pactuado.

Durante a sede vacante, dois atos unilaterais expuseram essa violação. Em 28 de abril, o padre Wu Jianlin, vigário-geral de Xangai, foi eleito bispo auxiliar por uma assembleia de sacerdotes locais; no dia seguinte o padre Li Jianlin foi nomeado bispo de Xinxiang, embora essa diocese já possua um bispo legitimado por Roma. Ambos, como todos os prelados reconhecidos oficialmente na China, devem jurar fidelidade à Constituição, aderir à “sinização” do catolicismo e colaborar com a “construção socialista” e o “renascimento nacional”.

Recentemente Xi Jinping reiterou que, para o Partido Comunista Chinês, “sinização” significa “orientar ativamente as religiões para que se adaptem à sociedade socialista”. Isso não é opcional: doutrinas, regras, estruturas de governo, rituais e costumes religiosos devem refletir as “características chinesas” e atender às “exigências da época”.

Além de reconhecer esses bispos nomeados unilateralmente, Leão XIV fez algo ainda mais grave: decidiu aprovar a supressão feita pelo regime chinês das dioceses de Xuanhua e Xiwanzi — estabelecidas por Pio XII em 1946 — para criar a nova diocese de Zhangjiakou. A reconfiguração, que reproduz a divisão administrativa do Estado chinês, tem sido criticada por equivaler a uma legitimação eclesiástica de estruturas criadas pelo Partido Comunista e por reforçar o controle político sobre a vida da Igreja.

Sinodalidade, o suposto antídoto para a polarização

A sinodalidade tornou-se um dos pontos em que mais se espera uma definição clara de Leão XIV. Desde os anos 1940, uma “democratização” da Igreja era apontada por Plinio Corrêa de Oliveira como um risco, cuja intenção seria dissolver a autoridade divinamente instituída da Hierarquia, em favor de um protagonismo laical incompatível com a estrutura tradicional. Sob o Papa Francisco essa tendência ganhou expressão na imagem da “pirâmide invertida”, em que bispos e padres deveriam “escutar” os desejos das bases, sobretudo das periferias, moldando depois a pastoral e até a doutrina segundo tais aspirações. A sinodalidade, ampla e imprecisa, seria assim o instrumento para substituir a orientação dos pastores pelos “anseios do povo”.

Quando estava ainda internado na clínica Gemelli, o Papa Francisco convocou uma Assembleia Eclesial para 2028, nos moldes do encontro latino-americano de 2021, em que os bispos foram reduzidos a minoria perante leigos. O Sínodo dos Bispos vai, dessa forma, desembocar numa estrutura majoritariamente laical, sem precedentes no Direito Canônico.

É justamente nesse terreno que muitos católicos aguardam uma palavra firme do novo Papa. Porém, no livro-entrevista com Elise Ann Allen Leão XIV mostrou-se alinhado à hermenêutica bergogliana: o medo de que a sinodalidade “tire a autoridade” dos bispos revelaria uma compreensão equivocada da própria autoridade. O objetivo seria promover uma Igreja menos centrada na “hierarquia institucional”, e mais em “nós juntos” — uma experiência de comunhão apta a funcionar como “antídoto” para as polarizações modernas. Com a expectativa de que, caminhando e discernindo juntos “o que Deus está nos dizendo hoje”, a Igreja encontrará respostas para seus desafios.

A reação foi imediata. Aldo Maria Valli advertiu que uma sinodalidade sem magistério e sem autoridade episcopal transforma a Igreja “numa democracia liberal transposta para a ordem sobrenatural”, em que toda opinião, mesmo errada, “tem a oportunidade de caminhar ao lado da verdade”.

O silêncio de Leão XIV sobre o calendário da próxima Assembleia Eclesial tornou-se motivo de apreensão. O Cardeal Joseph Zen, por exemplo, denunciou a possibilidade de uma metamorfose do Synodus Episcoporum em organismo híbrido, que conduziria a Igreja ao destino da Comunhão Anglicana, fragmentada após décadas de concessões ao espírito do mundo. Daí sua pergunta, cada vez mais repetida: “A Igreja Católica não está cometendo suicídio?”

Ambiguidade calculada?

Segundo José Manuel Vidal, o novo pontifi cado estaria marcado por uma “ambiguidade calculada”, na qual cada gesto e nomeação visa avançar sem rupturas visíveis.

No intento de superar a polarização interna e de reconstruir uma unidade fictícia baseada num consenso frágil entre posições contraditórias, a Santa Sé de Leão XIV tem adotado uma postura de equilibrista em temas especialmente sensíveis, entre os quais a reivindicação do diaconato feminino, que ganhou enorme projeção no pontificado anterior.

Produziu frustração generalizada a recente divulgação dos trabalhos da segunda comissão criada pelo Papa falecido. Progressistas e feministas lamentaram ter sido mantida a negativa para a ordenação de mulheres, enquanto os defensores da doutrina tradicional criticaram a repetição da fórmula de sempre: o tema “precisa ser mais estudado”, em vez de afirmar claramente e de forma definitiva, à maneira de João Paulo II, que a exclusividade masculina do sacramento da ordem em seu grau inferior também é irreformável. Não surpreende que a agência dos bispos alemães tenha sintetizado: “Entre o não e o sim: o diaconato feminino permanece no limbo”.

A mesma ambivalência reaparece em outras frentes, como na relação com o Caminho Sinodal Alemão. Daí o diagnóstico de José Manuel Vidal: o novo pontificado estaria marcado por uma “ambiguidade calculada”, na qual cada gesto e nomeação visa avançar sem rupturas visíveis. Segundo ele, Leão XIV já fez mais de 90 nomeações em poucos meses, evitando mudanças bruscas; em questões doutrinárias ou morais, não fechou portas definitivamente nem abriu todas elas. Recuperou símbolos “clássicos” do Papado, mas preservou as reformas magisteriais e sociais, permitindo interpretações divergentes. Por isso “os mais conservadores o veem como um restaurador; e os renovadores percebem uma continuidade com o aggiornamento da ‘Igreja em movimento’”.

A dificuldade dessa interpretação é equiparar dois polos essencialmente distintos: de um lado, os que desejam modificar a doutrina num sentido herético; de outro, os que defendem a perenidade do depósito da fé. Tratar ambos como extremos simétricos, que exigem um ponto médio de consenso, subestima o fato decisivo: dentro e fora do Vaticano há grupos heréticos exercendo forte pressão sobre o Papa. E cresce o temor de que Leão XIV, em nome de uma unidade aparente, acabe aceitando compromissos que fragilizem a integridade doutrinária. Mas a que custo?

A resposta é dada com precisão pelo moralista Tommaso Scandroglio: “A verdade deve estar de um lado da balança, e a unidade do outro. Mas a verdade não pode ser sacrificada em nome da unidade”. Quando a doutrina está em jogo não há espaço para negociação nem para ambiguidade: “a unidade não é um bem maior do que a verdade”. Ainda pior é o silêncio da autoridade, especialmente de quem deve confirmar os irmãos na fé. Scandroglio afirma que o silêncio constitui “consentimento tácito”, “cumplicidade passiva” no mal, uma colaboração material por omissão. São Tomás é contundente e decisivo: “Aquele que tem autoridade e não impede o mal parece consentir nele; e assim se torna participante dele”.

Imensa decepção para os devotos de Maria Santíssima

Nossa Senhora do Bom Conselho.

No dia seguinte à sua eleição, Leão XIV foi a Genazzano venerar o afresco milagroso de Nossa Senhora do Bom Conselho. Apesar de sua formação em ambientes teológicos progressistas, como o seminário de Chicago, esse gesto somado à presença de uma réplica da imagem na missa inaugural do pontificado despertou esperanças de que sua devoção à Boa Conselheira pudesse orientá-lo de maneira a retomar com clareza a Tradição ofuscada a partir do Concílio Vaticano II.

A decepção veio logo com a publicação da Nota teológica Mater Populi Fidelis, assinada pelo Cardeal Víctor Manuel Fernández e referendada pelo Papa. O texto, marcadamente minimalista, reduz Maria a um papel passivo na Redenção, e afirma que sua mediação consiste apenas em predispor as almas a receber diretamente de Deus a graça divina. Daí a conclusão de que é “sempre inoportuno” chamá-la de “Corredentora”; e o título “Medianeira de todas as graças” é desaconselhável, por possuir “limites” que dificultariam sua compreensão.

Alguns bispos, como Dom Antônio Rossi Keller, de Frederico Westfalen, no Rio Grande do Sul (estado cuja padroeira é justamente Nossa Senhora Medianeira), criticaram o documento, lembrando a longa tradição patrística, magisterial e espiritual que sustenta esses títulos. Mas a reação mais forte veio do laicato, que percebeu no texto uma diminuição das prerrogativas concedidas a Maria por sua maternidade divina, e a consequente maternidade espiritual dos membros do Corpo Místico de seu Filho.

A contestação foi tão ampla, que o próprio Cardeal Fernández se viu forçado a declarar à jornalista Diane Montagna que a proibição valeria apenas para textos litúrgicos e documentos oficiais, não para a devoção dos fiéis. A justificativa, porém, pouco amenizou o impacto negativo.

Em declaração publicada em 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, a Comissão Teológica da Associação Mariana Internacional — organismo que conta com três cardeais e cinco bispos em seu Conselho Consultivo — alertou para o efeito desastroso que Mater Populi Fidelis poderá ter sobre a confiança dos fiéis. “Se ensinamentos e títulos anteriormente utilizados pelos papas passam agora a ser considerados ‘inapropriados’ ou ‘inoportunos’, por que os fiéis deveriam confiar no Magistério papal?”— questiona o documento. A Associação manifesta ainda a esperança de que a Nota do Cardeal Fernández seja reavaliada, conduzindo “a uma nova expressão do Magistério sobre essas doutrinas e títulos marianos de importância crucial”, e que se reconheça oficialmente a Santíssima Virgem Maria como Corredentora e Medianeira de todas as graças.

Se Leão XIV deseja de fato pacificar a Igreja e recuperar a confiança dos católicos tradicionais, é difícil entender por que permitiu a publicação de um texto tão marcadamente ligado ao pontificado anterior. A agência Crux, de orientação progressista, observou que o “novo documento sobre a Corredentora abre um ninho de vespas”.

Dói dizê-lo, mas documentos desse teor dificilmente atrairão para o pontificado de Leão XIV as graças de que a Igreja e o Papado tanto necessitam; graças que, queira ou não o prefeito Fernández, Deus costuma derramar por meio da intercessão e mediação de Maria Santíssima.

Multidão de jovens peregrinam no México, na festa de Nossa Senhora de Guadalupe.

Milagre da geração Z: a religião volta a ser tópico em alta

Onde se manifesta claramente a intercessão materna de Maria junto ao seu divino Esposo é no chamado Catholic Revival (ou seja, um Renascimento Católico) no meio social menos esperado: a juventude.

Ao longo do ano foram numerosas e eloquentes as provas dessa inesperada virada cultural e psicológica, que se manifesta pelo crescente interesse por ensinamentos e práticas da Igreja Católica, por grande número de jovens adultos que se convertem e pedem o Batismo. Em países tão diferentes culturalmente, como a França, a Nigéria, o Canadá, a Inglaterra, a Austrália e os Estados Unidos, constatou-se um aumento enorme dos catecúmenos nesses anos pós-Covid. A cada ano se duplica ou até se triplica o número de pedidos para serem instruídos e batizados.

As pesquisas recentes convergem para um dado surpreendente: em diversas regiões do mundo “os jovens adultos estão demonstrando um renovado interesse pela fé, pela prática religiosa e pela vida espiritual, frequentemente superando as gerações anteriores”. A pesquisa internacional “Jovens, Fé e Experiência Religiosa” — com quase 5.000 participantes de oito países — registrou um crescimento consistente da prática religiosa entre pessoas de 18 a 29 anos, incluindo o dado inesperado de que “12% dos jovens católicos dessa faixa de idade frequentam a missa diariamente” (chegando a quase 20% na Espanha). Nos Estados Unidos, um relatório do Barna Group mostra que “a Geração Z e os Millennials agora vão à igreja mais do que os Baby Boomers e a Geração Silenciosa”, participando de atos religiosos em média 1,8 a 1,9 vezes por mês. O estudo revela ainda uma inversão da tendência histórica, com “43% dos homens” frequentando semanalmente, contra “36% das mulheres”.

Fenômeno semelhante aparece no mundo anglófono. Na Irlanda do Norte, uma pesquisa do Instituto Iona aponta que jovens da Geração Z têm fé mais forte que a de seus pais, descrita por especialistas como um “renascimento silencioso”. No Reino Unido, a Sociedade Bíblica identificou, por meio da YouGov, um aumento marcante da religiosidade juvenil: entre 2021 e 2025, a crença em Deus entre os jovens de 18 a 24 anos “quase triplicou”, saltando de 18% para 46%, impulso que tem levado a um crescimento mensurável da frequência à igreja. Em síntese, apesar do ambiente cultural secularizado, múltiplos estudos independentes apontam para “um ressurgimento religioso entre os jovens”, muitas vezes mais intenso do que o observado nas gerações anteriores.

Crescente interesse pela sacralidade dos ritos tradicionais

Ato penitencial de jovens, em Sevilha, Espanha.

Os dados convergem para outro fenômeno marcante: os jovens católicos que retornam à prática religiosa são atraídos justamente pelas expressões mais tradicionais da fé: o estudo do Catecismo e dos grandes autores, as práticas ascéticas da Quaresma, e sobretudo o esplendor da Santa Missa, como era celebrada antes da reforma litúrgica de Paulo VI. Na última Quarta-feira de Cinzas, milhares de jovens franceses fizeram fila para receber as cinzas; e, “sem nenhum respeito humano”, mantiveram o sinal na testa durante todo o dia.

Segundo o sociólogo Yann Raisondu Clesiou, a pressão do ateísmo dominante e do fanatismo religioso muçulmano leva esses jovens a tornar sua fé mais visível, numa “transição minoritária” marcada pela busca de solenidade litúrgica, teologia clássica, verticalidade da autoridade sacerdotal e pela retomada de devoções que muitos consideravam obsoletas. Não surpreende, portanto, que paroquianos mais velhos se inquietem diante do que percebem como “um retrocesso”.

Esse movimento juvenil encontra paralelo no clero mais novo. O maior estudo sobre padres americanos feito em 50 anos mostra que, enquanto mais de 70% dos padres ordenados antes de 1975 se diziam teologicamente progressistas, apenas 8% dos ordenados após 2010 se identificam assim; em contraste, mais de 70% dos padres mais jovens afirmam ser “conservadores/ortodoxos” ou “muito conservadores/ortodoxos”. O apreço pela Missa Tridentina cresce de modo exponencial: era prioridade para apenas 11% dos padres ordenados antes de 1980, saltando para 39% dos ordenados no século XXI. Os jovens sacerdotes também privilegiam a devoção eucarística e mostram menos ênfase que os mais velhos em temas como mudança climática, imigração ou justiça social — um padrão confirmado também por sondagens na França e na Alemanha.

Fátima, a grande esperança

O balanço do ano mostra uma passagem delicada: de um pontificado abertamente revolucionário e convulsivo para outro de aparência mais conservadora, mas ainda marcado por continuidades doutrinárias e pastorais que inquietam muitos fiéis. Essa oscilação entre gestos de restauração e decisões em clara linha progressista pôs novamente à prova a fé, a lucidez e a paciência dos católicos que desejam permanecer firmes no depósito da Fé.

A novidade é que o Espírito Santo parece suscitar sinais de renovação profunda justamente onde menos se esperava: na juventude. As novas gerações estão redescobrindo — com entusiasmo e coragem — aquilo que muitos pensavam ter sido definitivamente abandonado. Essa vitalidade nascente contrasta frontalmente com as ambiguidades dos setores mais elevados da Hierarquia.

Esse panorama confirma de modo impressionante a profecia de Nossa Senhora em Fátima: apesar das crises no mundo e na Igreja, Deus prepara, por meio de sua Mãe Santíssima, caminhos de conversão, purificação e vitória. Cabe-nos manter a confiança e a perseverança, certos de que, após o túnel da prova, despontará o esplendor de seu triunfo. Portanto, de que veremos logo os primeiros albores do Reino de Maria.