
Caminho caótico para um mundo multipolar
- John Horvat
- Fonte: Revista Catolicismo, Nº 901, Janeiro/2026
Ao analisarmos os principais eventos políticos mundiais em 2025, deparamo-nos com um cenário confuso e perturbador para os que se dedicam a defender a civilização cristã. Tanta coisa mudou, que já não se consegue observar os padrões e a lógica aos quais estamos acostumados.
Colocaremos o foco em um tema central que se destaca entre os demais, ou seja, a crescente fragmentação geopolítica da sociedade. Essa tendência nos ajudará a compreender melhor o que aconteceu em 2025 e a nos preparar para o que virá depois. Igualmente nos facilitará a percepção de que estamos assistindo a um colapso dramático das instituições, e também de práticas e regras que asseguravam a ordem pós-Segunda Guerra Mundial.
Um dos efeitos dessas transformações é o aumento da polarização, que vem criando divisões irreconciliáveis. Outro é que está se desfazendo a formidável unidade no establishment liberal do Ocidente, enquanto um novo estado de coisas indefinido vai se estabelecendo. Assim, veremos como essa tendência específica dominou as notícias mundiais em 2025.
Para compreender melhor o ano que findou, precisamos de um prisma mediante o qual interpretar os acontecimentos. O livro Revolução e Contra-Revolução, do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, será o nosso prisma.
Revolução e Contra-Revolução
De acordo com a lógica desse importante livro, a história moderna é uma luta entre duas forças: os inimigos da Igreja e da Cristandade (a Revolução) e aqueles que defendem a civilização cristã (a Contra-Revolução). Essa Revolução (com R maiúsculo) é a força unificadora de um vasto ataque ao Cristianismo, que vem se desenvolvendo desde a Idade Média. É um processo que leva o mundo a fases cada vez maiores de revolta contra a ordem cristã.
Assim, examinaremos a atuação das forças da Revolução e da Contra-Revolução em 2025. Discutiremos a fragmentação política do ano dentro de um processo revolucionário, para entender como chegamos ao estado atual e para onde ele pode estar sendo encaminhado.

Como chegamos à situação atual
A atual etapa do processo revolucionário começa com o triunfo da ordem liberal pós-Segunda Guerra Mundial, que dominou a economia, a política e a cultura. Essa estrutura criou um establishment liberal baseado no Estado de Direito, nos mercados livres e na liberdade política.
Essa fase “clássica” do liberalismo produziu uma prosperidade estável, porém frenética; uma noção distorcida de liberdade; e um consenso relativista sobre como manter a verdadeira ordem. No entanto, o liberalismo também possui elementos autodestrutivos. Particularmente notável é sua tolerância a comportamentos imorais, sob o pretexto de uma liberdade pessoal distorcida. Essa tolerância se mostra hostil à Igreja e corrosiva para a sociedade liberal.
A revolução sexual dos anos 1960 deu origem a uma forma mais revolucionária de liberalismo, promovida por aqueles que defendem uma liberação radical das paixões desenfreadas. Esses novos revolucionários questionam todas as certezas, restrições e regras. Assim, por exemplo, o movimento “transgênero” coloca em dúvida a noção de identidade (masculina ou feminina) e ataca os que ousam pensar o contrário.
Os eventos de 2025 refletem um violento choque dentro do liberalismo, entre os que desejam preservar a ordem liberal clássica e os que pretendem levar os princípios liberais às suas consequências extremas, vislumbrando uma sociedade woke sem limites.
Ataques ao antigo establishment liberal
Em 2025 o establishment liberal clássico e a ordem mundial correspondente sofreram ataques sem precedentes, tanto da direita quanto da esquerda. Uma grande mudança está acontecendo, e pode ser percebida pelo colapso do consenso de convivência pacífica devido à crescente insatisfação com o sistema atual. O Ocidente enquanto um todo coeso se desmantela, e por toda parte vemos a política de ruptura desafiando antigas premissas.
O aspecto fundamental dessa mudança é sua natureza disruptiva. Na verdade, o que mais importa é a própria ideia de ruptura das regras e dos protocolos estabelecidos, que resulta em governos desconcertantemente caóticos, uma proliferação de ações destrutivas e o desmoronamento de alianças seculares.
Ascensão do populismo

A manifestação mais importante dessa ruptura em 2025 foi a ascensão do populismo, tanto à esquerda quanto à direita. O retorno de Donald Trump à presidência dos EUA deu enorme impulso a essa tendência mundial. Muitas das eleições ocorridas no ano passado refletiram o descontentamento dos eleitores, alimentando a ascensão do populismo.
Podemos observar a mesma ruptura onde quer que o populismo tenha surgido, particularmente na Europa e na América Latina. À esquerda, a vitória de Zohran Mamdani para prefeito da cidade de Nova York representa uma versão socialista da política populista.
Os EUA e os realinhamentos globais
Também pudemos observar em 2025 novos realinhamentos globais que vêm transformando o mundo. Nações como a China e a Rússia têm se aproveitado ao mesmo tempo das rupturas e dos ressentimentos que elas geram, oferecendo alternativas antiocidentais. Uma manifestação clara desse realinhamento é a desestruturação das relações comerciais do pós-guerra, cuidadosamente desenvolvidas ao longo de décadas, com o retorno do protecionismo e das guerras comerciais.
O passo mais importante nesse sentido foi a guerra tarifária dos Estados Unidos com quase todas as nações. Essa medida reconfigurou as cadeias de suprimentos globais. Em alguns momentos as tarifas alienaram amigos e aliados, e até demonstraram simpatia por algumas potências hostis (como a Rússia).
Algumas nações estão recorrendo a alternativas políticas antiocidentais. Por exemplo, a ascensão dos países do chamado BRICS, que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e outros, desafia diretamente os Estados Unidos e a Europa. De fato, as ações consistentes e calculadas da China têm oferecido acordos a algumas nações que se sentem vitimadas pelo realinhamento populista agressivo.
Laços militares enfraquecidos
O alinhamento anterior havia fortalecido as alianças militares vigentes desde a Segunda Guerra Mundial. Contudo, a OTAN e outros pactos de defesa ocidentais foram significativamente enfraquecidos, à medida que uma abordagem mais nacionalista se consolidou. Mais uma vez os Estados Unidos são o ator mais ativo nesse jogo. Aliados na Europa, Ásia e Oriente Médio buscam parcerias alternativas, fortalecendo suas defesas nacionais e diversificando suas relações internacionais.
Enquanto isso, a sinistra aliança entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte se fortaleceu em 2025, criando um mundo muito menos estável.
O efeito concreto desses laços enfraquecidos é a exacerbação de conflitos. As guerras na Ucrânia e em Gaza continuaram criando novas divisões nesse Ocidente realinhado. Os esforços diplomáticos ponderados, que caracterizaram os tratados anteriores, foram substituídos por acordos assinados às pressas, que deixaram detalhes essenciais sem solução.
Combatendo a agenda woke

Esse realinhamento disruptivo teve também um efeito positivo, enfraquecendo os acordos que vinculavam as nações a causas de esquerda, ecológicas e woke. Os Estados Unidos, por exemplo, retiraram-se de compromissos climáticos globais, como o Acordo de Paris.
De fato, as nações ficaram mais livres para se oporem à imigração, ao alarmismo ecológico, à ideologia woke e ao transgenerismo, devido a essa nova perspectiva nacionalista. Em 2025 os mandatos de diversidade, equidade e inclusão (DEI), que antes exerciam grande influência nos negócios, foram derrotados em todos os lugares.
Essa ruptura tem sido particularmente eficaz em derrubar modelos políticos e governos de esquerda clássicos. As eleições de 2025 resultaram na derrota de candidatos de esquerda na Bolívia e no Chile. Eles se juntam à Argentina e ao Paraguai, que já têm governos conservadores. As futuras eleições na Colômbia e no Peru devem tender à direita, à medida que a América do Sul rejeita os modelos de esquerda.
Apesar desses benefícios que enfraquecem a esquerda, a falta de uma estrutura familiar entre as nações cria atritos e tensões entre os blocos de nações recém-formados, preparando o terreno para uma nova configuração global.
Para onde vamos?
Assim, a promoção da fragmentação política representa um passo adiante no processo revolucionário, uma vez que essa ruptura favorece mais a incerteza e a desordem. A Revolução progride com essas tendências, porque seu objetivo é maior do que apenas um realinhamento de antigas alianças.
Vimos igualmente no ano findo passos significativos rumo ao desmantelamento do Ocidente e seus respectivos fundamentos cristãos. Em seu lugar está se formando o que muitos líderes (incluindo o Secretário de Estado americano Marco Rubio) chamam de mundo “multipolar”, abraçando uma nova narrativa pós-moderna.
O que é um mundo multipolar?
A ascensão de um mundo multipolar representa uma reconfiguração do mundo pós-moderno, afastando-se das estruturas econômicas e políticas tradicionais lideradas pelo Ocidente, em direção a um sistema com múltiplos polos de influência e ideologias. Os “polos” mais radicais clamam pela derrubada do Ocidente.
O novo modelo não se baseia mais em princípios universais como o Estado de Direito, que todas as nações devem respeitar, mas em uma fragmentação de valores dos “estados civilizatórios”, liderados pelos EUA, UE, China, Rússia, Islã, África e América Latina.
Tal movimento é revolucionário na perspectiva da obra Revolução e Contra-Revolução, do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que defende a ordem cristã. Essa nova visão de mundo sustenta que não existe verdade nem moral objetivas. Tudo é determinado pelos estados civilizatórios — sejam eles comunistas, islâmicos, seculares ou outros.
Um dos principais defensores dessa visão é Aleksandr Dugin, um conselheiro próximo de Vladimir Putin, da Rússia. Ele a denomina revolução, considerando-a maior que a Revolução Comunista de 1917.

Colocando 2025 em perspectiva
Houve muitos outros acontecimentos dignos de nota ao longo do ano passado. No entanto, todos ocorrem em meio a um turbilhão de desordem desconcertante. Em nossa visão política de 2025, buscamos colocar em perspectiva as mudanças radicais que ocorrem ao nosso redor, enquadrando-as como uma grande mudança de paradigma.
De fato, devemos ver a perturbação de instituições e procedimentos como algo além de acontecimentos aleatórios. Essas novas mudanças atingem o mundo ocidental como o conhecemos e ameaçam seus fundamentos cristãos, que tanto beneficiaram o mundo.
Essas rupturas tomarem a forma de grandes realinhamentos, em 2025, e estão abalando o cenário mundial, minando certezas e práticas estabelecidas. Embora esses processos possam também erradicar valores liberais woke prejudiciais, não apontam para um retorno à ordem cristã. Surgindo em torno desses processos estão os esforços de nações como a China, que minam o Ocidente e instalam ideologias de esquerda como modelos principais.
Na verdade, este mundo “multipolar” baseia-se num processo com objetivos misteriosos, ocultos e relativistas, muito distantes da civilização cristã que buscamos.
Enfrentando o futuro
Esse plano para um mundo multipolar está repleto de complicações e contradições. A natureza disruptiva e desordenada da fragmentação política contraria seu objetivo. Além disso, resquícios de boa ordem representam obstáculos à implementação dessa revolução.
Muitos conservadores continuaram em 2025 a se opor ao desmantelamento do Ocidente. Outros lutaram na guerra cultural em defesa da moral cristã. A crescente polarização pode forçar os conservadores a definir suas posições, afirmar a verdade e reconhecer códigos morais universais.
A batalha está longe de terminar. Além disso, não devemos limitar nossos horizontes às batalhas políticas, pois a esfera espiritual exerce enorme influência na história das nações. O número recorde de conversões à fé católica, em 2025, demonstra a ação de Deus nas almas, tornando todas as coisas possíveis. Todas essas ações espirituais têm implicações no campo político e podem ser grandes obstáculos contra-revolucionários que se opõem à imposição desse mundo novo multipolar.
2025 foi um ano desafiador para todos que defendem a tradição. Ao entrarmos em 2026, devemos confiar em Deus e na Virgem Maria, a fim de nos darem força e discernimento para prosseguir na luta contra-revolucionária.