
- Paulo Henrique Américo de Araújo
- Fonte: Revista Catolicismo, Nº 901, Janeiro/2026
Em julho do ano passado, o comentarista Carlos Andreazza publicou em “O Estado de S. Paulo” um interessante artigo com o título: “Ninguém tira o pé”[i]. Ele aponta vários pontos de choque no cenário nacional, e como seus atores principais em ambos os lados não desejam recuar um passo em favor do adversário. De fato, nos tempos de crise em que vivemos, há no Brasil dois polos delineados: os que desejam preservar e desenvolver os fundamentos da civilização cristã no Brasil; e os que, negando essas raízes fundamentais, procuram extirpá-las.
Muitos atores desse confronto não têm presente esse fundo de quadro religioso-ideológico na direção de suas ações. Devemos apontá-lo claramente, no entanto, para não nos embaraçarmos na picuinha político-partidária que inunda o noticiário, e que dificulta entendermos o rumo dos acontecimentos.
O que está em jogo vai muito além das brigas e fofocas políticas. Segundo constatou Plinio Corrêa de Oliveira, o Brasil da superfície, sobre o qual incidem os holofotes da grande mídia, detém hoje muito do Poder estatal, esquerdista, rancoroso e nervoso. E o outro Brasil, “que é e quer continuar sendo autenticamente brasileiro, em legítima continuidade com seu passado, e cujos passos se orientam na linha dessa continuidade”[ii].
Ao analisaros episódios principais da contenda que se desenrolou no Brasil de 2025, devemos ter em vista esse panorama maior, que em última análise envolve a glória de Deus e a salvação das almas.
Perseguições e conflitos internos
Um dos pontos mais relevantes desse embate de forças está na insistência da esquerda em desqualificar os que se encontram no outro lado do espectro político e ideológico — denominados em conjunto direitistas, conservadores — que seguem os rumos da tradição e civilização cristã. Contra a figura mais visada desse bloco, o ex-presidente Jair Bolsonaro, desencadearam-se em 2025 os últimos lances do furioso revide esquerdista, provocando desconcertos e perplexidades no brasileiro médio, pacato, geralmente oposto à “perseguição policialesca”. Constituem as camadas mais profundas da nação, e as pesquisas os apresentam como a maioria da população[iii].
A citação judicial de Bolsonaro foi recebida no leito de um hospital, depois houve o decreto de sua prisão domiciliar, chegando em novembro à sentença de condenação e trânsito em julgado. Crimes alegados: “tentativa de golpe” e “subversão das instituições democráticas”. O recado é velado, mas bem percebido pelo “povinho comum”, conservador e cristão: Calem-se vocês da direita, senão vai ser esta a vingança que lhes preparamos! Não recuaremos até silenciá-los completamente!
A fúria contra Bolsonaro dirige-se, na verdade, contra um imenso veio da opinião brasileira. Não se reduz à perseguição de apenas um indivíduo, mas sim àqueles que possuem determinada mentalidade e modos de ser, reflexos de nossas raízes cristãs.
Assim, os raios da vingança política caíram também sobre quem deveria permanecer ignorada: a agora famosa “Débora do batom”. Condenada a 17 anos de prisão, esta mãe de dois filhos tornou-se representante expressiva daquela faixa de opinião conservadora, “imolada” em nome da “defesa da democracia”. O contra-ataque da esquerda, portanto, atinge desde ex-presidente até uma cabeleireira! Aplicando o artigo de Carlos Andreazza: Ela não tira o pé!
Qual o motivo dessa perseguição? Exatamente aquilo que ela representa: o conservadorismo, Deus e a moral. Até o Partido da Causa Operária criticou a condenação da cabeleireira[iv].
Os grandes da “esquerda light” se recusam a levar em conta a indignação que se acentua no Brasil profundo, e pode a qualquer momento explodir. Vão se somando no cenário nacional as críticas ao protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), e em particular à atuação do Ministro Alexandre de Moraes. O “Estado de S. Paulo” qualificou o quadro de “marcha da insensatez”[v]. O ex-ministro Marco Aurélio afirmou que “o STF vive extravagância”[vi]. Na mesma linha, o Ministro André Mendonça criticou o ativismo da Corte[vii]. A divergência do Ministro Luiz Fux contra a condenação dos “golpistasdo 8 de janeiro” apenas acrescentou mais sombras e dúvidas no julgamento.
O ambiente de contenda parece inevitável. Mas ninguém arreda o pé!

Os conflitos patentes entre os Poderes da República evidenciam a crise de instituições a partir da promulgação da Constituição de 88, prevista pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Chegar-se-á assim a um desacerto gravíssimo entre o Brasil de superfície e o Brasil profundo, o Brasil constitucional e o Brasil real”[viii].
Alguém dirá que os entreveros protagonizados pelos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, durante todo o ano, configuram contingências normais da democracia. O palco iluminado onde atuam os grandes do Poder esconde um tanto os movimentos e sentimentos dos bastidores, isto é, da população em geral. Contudo, as divergências se mostram a tal ponto constantes — a propósito de tudo e de nada! — que parecemos caminhar para a ruptura. Sem recuos de parte a parte.
A Câmara dos Deputados impôs derrota humilhante ao governo, quando este tentou aumentar o IOF. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, logo anunciou o contra-ataque: o bloqueio de até R$ 10 bilhões em emendas parlamentares[ix]. Ninguém quer ceder terreno: Toma lá, dá cá.
Enquanto os membros do Legislativo duelavam com os do Executivo, a cúpula do Judiciário buscava ajuda no Governo Federal diante da pressão sobre a anistia dos envolvidos nos atos de “8 de janeiro”. Vera Magalhães escreveu no “O Globo”: “Os ministros do STF estão incomodados de carregar todas as pedras enquanto o governo se omite”[x].
Integrantes do Legislativo também se voltaram contra o STF. Os pedidos de impeachment a Ministros da Corte se multiplicaram durante todo o ano, apesar de nenhum ter avançado. O Supremo sentiu a pressão, a ponto de o Ministro Gilmar Mendes decidir — em voto passível de revisão pelo colegiado — que apenas a Procuradoria Geral da União tem legitimidade para propor o impeachment contra Ministros do STF[xi]. O revide veio horas depois! A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal sentiu as dores do Senado e aprovou, de forma rápida e silenciosa, a redação final de um projeto que limita poderes do STF[xii]. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, afirmou que a medida de Gilmar Mendes representava grave ofensa à separação dos poderes[xiii]. A cantilena continua… causando irritação! Mas ninguém arreda o pé!
O STF suscitou dúvidas sobre prerrogativas do Legislativo quando ameaçou prender o Deputado Hélio Lopes (PL-RJ). O parlamentar fazia protesto pacífico na Praça dos Três Poderes, em Brasília, mas foi obrigado a se retirar, por ordem do Ministro Alexandre de Morais[xiv].
Segundo o articulista Pablo Ortellado, o Supremo vai assumindo uma postura de “democracia militante” contra todos aqueles que supostamente questionam a democracia. O problema, de acordo com o jornalista, é que “aplicar as ideias da democracia militante traz desafios. Se a democracia está internamente ameaçada, é porque está em crise, deixou de ter legitimidade para setores importantes da sociedade”[xv].
A situação reflete bem o alerta do Prof. Plinio naobra já citada: “Empilhar os fatores de incompreensão e de indignação uns sobre os outros”[xvi].
Em meio aos ruídos da briga entre os Poderes, em 3 de agosto o descontentamento de boa parte da população veio à tona nas manifestações pela anistia, ocorridas em 37 cidades. Os gritos de “fora Lula e fora Moraes” ecoaram no público, repercutindo a voz de parlamentares presentes nos atos[xvii].
Já no fim do ano, o Congresso Nacional derrubou os vetos de Lula sobre a Lei de Licenciamento Ambiental, patenteando ainda mais o conflito das instituições[xviii]. Os ecologistas radicais amargaram mais uma derrota. A direita do “agronegócio” cantou vitória. Ninguém arreda o pé!
Disparates e desânimo

Alguns disseram que foi apenas um mal-entendido, ou fake-news, mas o que transpareceu para o público era que o governo Lula taxaria as transações feitas via PIX. Tratava-se, na verdade, de medida da Receita Federal para monitoramento nesse tipo de transação. Protesto geral nas redes sociais! E o governo teve de sair com esclarecimentos, dizendo que não era nada daquilo[xix]. As redes sociais é que teriam criado a confusão!
O recém-falecido analista J. R. Guzzo pensou de modo diferente. Afirmou que presenciávamos “a morte e o enterro de qualquer credibilidade que o poder público possa ter no Brasil de hoje. Ninguém acredita mais em Lula, Janja, Haddad etc., nem leva a sério nada que venha do governo — é esse o drama”[xx]. Um bom resumo de como parcela ponderável dos brasileiros enxerga a atual liderança lulo-petista. E o ano transcorreu com essa descrença generalizada.
Em matéria de política externa, os disparates se somaram uns aos outros, seguidas de perplexidade no público. Estranhamente, Lula pediu ajuda ao ditador da China, Xi Jinping, para intervir na rede TikTok no Brasil. A “narrativa” é a seguinte: a plataforma é utilizada pela “direita” para espalhar “desinformações” contra o governo[xxi].
Tudo isso veio a lume justamente quando se discutia no STF o Marco Civil da Internet. A Corte acabou por definir a inconstitucionalidade parcial do art. 19 da Lei. Vozes da esquerda aplaudiram, mas houve críticas do outro lado: a decisão abala a liberdade de expressão no Brasil[xxii].
A Câmara dos Deputados emitiu moção de repúdio após Lula ter-se encontrado com Putin e outros 18 ditadores em Moscou, por ocasião da celebração do “Dia da Vitória”. O Deputado Zucco (PL-RS) afirmou que o encontro “agride frontalmente os princípios da política externa brasileira, como a prevalência dos direitos humanos e a defesa da paz”[xxiii].
Ao mesmo tempo que Lula abraçava ditadores na Rússia, criaram-se confrontos inéditos com o Presidente dos Estados Unidos. Os tarifaços impostos pelo governo de Donald Trump ocuparam os noticiários durante meses. As pesadas taxas americanas serviram bem a Lula para se “tomar de brio” como defensor do País. No fim, a inconstância do líder norte-americano e os encontros com Lula fizeram recuar as tarifas. E o petista ficou com a imagem de “amigo” de Trump. Nem todos acreditaram!
A intervenção de Alexandre de Moraes em questões internas nos Estados Unidos desencadeou os efeitos da “Lei Magnitsky” contra o Ministro. A expressão entrou com recorrência irritante na imprensa nacional, bem como os discursosde “soberania ameaçada”, por parte da esquerda.
O que se passa no fundo da mentalidade da população do Brasil real diante de tudo isso? Cansaço, apatia, indiferença. E aí as forças da Revolução tiram proveito. Com a algazarra midiática que lhe é própria, a esquerda foi às ruas em setembro para protestar contra a “anistia” e a chamada “PEC da Blindagem”, propostas lançadas por alguns parlamentares para protegê-los contra ações judiciais. O assunto pesou mal para a ala direitista do Congresso, que diante do público ficava como gente “inatingível” pela Justiça em casos eventuais de corrupção. Ponto para a esquerda!
Aprovação e desaprovação

Segundo pesquisas, durante todo o ano o prestígio de Lula foi de gangorra, numa espécie de sobe e desce. No feriado de 1º de maio, o mandatário petista fugiu do público para evitar o vexame ocorrido na mesma data em 2024[xxiv].
Até meados de 2025, diversos veículos da mídia (“O Estado de S. Paulo”, “Valor” e “Unisinos”) reconheciam a desaprovação crescente ao governo. A revista “Exame” repercutiu, em fins de junho de 2025, a pesquisa constatando que a aprovação de Lula caíra para 23,9%, a pior desde o início do governo[xxv]. Em outubro o “Estado” apontou que a imagem de Lula tinha melhorado, em razão daquilo que foi classificado de “haraquiri da direita”[xxvi].
Justamente na época dessa alegada “ascensão” de Lula, ocorreu a “Operação Contenção” no Rio de Janeiro. A eficiente ação da polícia terminou com a morte de 117 envolvidos com o tráfico de drogas e com o Comando Vermelho. A população aplaudiu uníssona. De acordo com a agência Quaest, “67% dos brasileiros aprovam a mega operação no Rio e avaliam que não houve exagero da polícia”[xxvii]. Lula deu um “tiro no pé”, criticando a operação: “Houve uma matança”, disse em entrevista[xxviii].
Para acrescentar mais furos na imagem abalada do presidente, no fim do ano veio a vergonhosa COP30. Gastança desenfreada, problemas logísticos, reclamações de altas personalidades, e até um incêndio! No mega encontro internacional, o que era para dar errado, deu errado. E o que era para dar certo…deu errado! O documento final da COP30, lacônico e sem rumo, chancelou o fracasso do ambientalismo descabelado e ilusório[xxix]. Lula, Marina Silva e o governo do PT levaram a culpa. No final do ano a impopularidade do governo ia ladeira abaixo[xxx].
Alguns prelados progressistas insistem em bradar contra os “crimes ambientais” e ignoram as aspirações do “povinho católico fiel”: piedade, oração, sacramentos. Esse distanciamento patenteou-se na declaração de D. Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB, durante a 40ª Assembleia do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM). Ele reclamou da “pastoral de conservação”, centrada nos sacramentos, e do risco do retrocesso democrático[xxxi].
O que fez a CNBB, quando o Ministro do STF Luís Roberto Barroso deu voto favorável à descriminalização do aborto? Saiu com uma nota de repúdio em defesa da “dignidade humana”. Muito mais eficaz teria sido se a declaração frisasse a questão moral, os Mandamentos da Lei de Deus e a gravidade do pecado[xxxii]. Palavras brandas e expressões de fundo laicista não farão recuar os pró-aborto, os inimigos da civilização cristã e os inimigos internos da Igreja.
Perspectivas e alertas
Um intrigante relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) veio a público em dezembro. O documento alerta para a quebra da confiança nas instituições oficiais e provável ruptura para as próximas eleições, algo como um novo “8 de janeiro”[xxxiii]. Se nos dois polos antagônicos “ninguém tira o pé”, virá o choque violento. O fato é que a esquerda tem-se mostrado vingativa, e aí está a razão da ruptura.
Nesse sentido, as seguintes palavras de Plinio Corrêa de Oliveira se mostram extremamente atuais para o atual quadro de conflito no Brasil: “Se a esquerda for açodada na efetivação das reivindicações ‘populares’ e niveladoras com que subiu ao poder; se se mostrar abespinhada e ácida ao receber as críticas da oposição; se for persecutória através do mesquinho casuísmo legislativo, da picuinha administrativa ou da devastação policialesca dos adversários, o Brasil se sentirá frustrado na sua apetência de um regime ‘bon enfant’, de uma vida distendida e despreocupada. Num primeiro momento se distanciará da esquerda. Depois ficará ressentido. E, por fim, furioso. A esquerda terá perdido a partida da popularidade”[xxxiv].
Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do
Brasil, nos conduza em meio aos embates e perseguições que os revolucionários ousam
ainda perpetrar contra as raízes cristãs desta Terra de Santa Cruz.
[ii]“Projeto de Constituição angustia o País”, Parte IV, Proposta da TFP
[iii]Gazeta do Povo, 17 de outubro, 2025
[iv]Gazeta do Povo, 24 de abril, 2025
[vii]Gazeta do Povo, 4 de junho, 2025
[viii]Ibidem, “Projeto de Constituição”
[xi]O Globo, 3 de dezembro, 2025
[xii]Veja, 4 de dezembro, 2025
[xiii]O Globo, 3 de dezembro, 2025
[xv]O Globo, 19 de julho, 2025
[xvi]Ibidem, “Projeto de Constituição”
[xvii]Gazeta do Povo, 2 de agosto, 2025
[xviii]Senado Federal, 27 de novembro, 2025
[xix]OESP, 15 de janeiro, 2025
[xxiii]Gazeta do Povo, 12 de maio, 2025
[xxvi]OESP, 24 de outubro, 2025
[xxvii]G1, 12 de novembro, 2025
[xxviii]CNN, 14 de novembro, 2025
[xxix]Gazeta do Povo, 2 de dezembro, 2025
[xxx]Carta Capital, 2 de dezembro, 2025
[xxxi]ACI Digital, 30 de maio, 2025
[xxxii]CNN, 21 de outubro, 2025
[xxxiii]DCM, 4 de dezembro, 2025
[xxxiv]“Cuidado com os pacatos”, Folha de S. Paulo, 14 de dezembro, 1982