SANTO ATANÁSIO DE ALEXANDRIA

Pai da Ortodoxia, Doutor da Igreja, terror dos hereges. Sua festa litúrgica é celebrada no dia 2 de maio

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  • Plinio Maria Solimeo

“O século IV, a idade de ouro da literatura cristã, nos oferece em seus umbrais a figura gigantesca de Atanásio de Alexandria, o homem cujo gênio contribuiu para o engrandecimento da Igreja muito mais que a benevolência imperial de Constantino. Seu nome vai indissoluvelmente unido ao triunfo do Símbolo de Niceia” — que ainda hoje rezamos[i].

         “Poucos homens foram tão odiados e ao mesmo tempo tão amados durante sua vida pela defesa que fizeram de sua fé como nosso santo. Foram implacáveis com ele os arianos, seus inimigos jurados, como abnegados e fiéis seus amigos; de modo que a história de sua vida tão agitada, tão combatida, e tão fecunda, vem a ser a história mesmo do nosso Credo católico”[ii].

“Atanásio foi o maior líder da fé católica que a Igreja tenha jamais conhecido no tema da Encarnação; e, durante sua vida, ganhou o título característico de Pai da Ortodoxia, pelo qual se tem distinguido desde então”[iii].

         “Há nome mais ilustre que o de Santo Atanásio entre os seguidores da Palavra da verdade, que Jesus trouxe à terra? Não é este nome símbolo do valor indomável na defesa do depósito sagrado, da firmeza do herói face às mais terríveis provas da ciência, do gênio, da eloquência, de tudo o que pode representar o ideal de santidade de um Pastor unido à doutrina do intérprete das coisas divinas? Atanásio viveu para o Filho de Deus; sua causa foi a de Atanásio. Quem estava com Atanásio, estava com o Verbo eterno, e quem maldizia o Verbo eterno maldizia Atanásio.”[iv]        

         É esse grande Santo que comemoramos no dia 2 deste mês.

Arianismo: vômito do inferno

Gravura de Santo Atanásio sendo perseguido

         Deus nosso Senhor permitiu que houvesse várias heresias logo no início da Igreja, para que, ao refutá-las, os teólogos fossem explicitando a verdade católica e estabelecendo os fundamentos básicos sobre os quais se firmasse a verdadeira doutrina.

         Uma das que mais dano causou à Igreja, a partir do século III, foi o arianismo, seita infernal, pelo apoio que encontrou até mesmo entre muitos bispos e imperadores.

         Na segunda metade do século III, Melécio, bispo de Lycopolis, rompeu com São Pedro de Alexandria, num cisma que dividiu o patriarcado, por ter discordado da indulgência do santo ao receber de volta à Igreja cristãos arrependidos que, por fraqueza, haviam oferecido incenso aos ídolos para evitar a morte.

         Ario, homem intrigante, habilidoso, persuasivo, vindo da Líbia, juntou-se aos cismáticos. Elevado ao sacerdócio pelo primeiro sucessor de São Pedro, ambicioso e buscando preeminência, começou a pregar uma nova doutrina. Santo Alexandre, novo Patriarca de Alexandria, a condenou como herética, pois negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

         “Jamais, talvez, nenhum chefe de heresia possui em mais alto grau que Ario as qualidades próprias para esse maldito e funesto papel. Instruído nas letras e na filosofia dos gregos, dotado de uma rara fineza de dialética e de linguagem, ele conseguia dar ao erro o aspecto e o atrativo da verdade. Seu exterior ajudava à sedução. De uma idade já avançada, ele juntava à vantagem de um alto porte, a dignidade do ancião. Seu orgulho se disfarçava sob uma simples vestimenta, sob um olhar modesto, recolhido, mortificado, que lhe dava um falso ar de santidade, e ao qual ele sabia aliar um trato gracioso e um tom doce e insinuante.”[v] Isso lhe abriu a porta dos grandes e poderosos do mundo. Eusébio de Cesareia lhe concedeu asilo e o protegeu. Eusébio, da Nicomédia, tornou-se seu mais forte defensor. Por isso sua heresia estendeu-se séculos afora, provocando grande mal à Igreja.

         O crescimento e o tumulto da nova heresia preocuparam o imperador Constantino, que enviou o mais venerado prelado da época, Ósio de Córdoba, a Alexandria, para tentar fazer cessar a epidemia. Este, estando com Santo Atanásio, reconheceu logo sua ortodoxia e a má-fé e o erro de Ario. Por isso aconselhou o Imperador a convocar um concílio em Niceia, para condenar a nova heresia. Nesse concílio foi composto o Credo de Nicéia, que alguns heresiarcas assinaram à força e outros, recusando-se a fazê-lo, foram exilados.

         Foi aí, na grande assembleia, que um pequeno grande homem, secretário de Santo Alexandre, se fez notar pelo fogo de suas palavras, eloquência e amor à ortodoxia católica. Era ele Atanásio.

Sepultura de São Zacarias e de Santo Atanásio, em Veneza

Moldador dos acontecimentos

         “Atanásio era uma dessas raras personalidades que deriva incomparavelmente mais de seus próprios dons naturais de intelecto do que da aleatoriedade da descendência ou dos que o rodeiam. Sua carreira quase personifica uma crise na história da Cristandade, e pode-se dizer dele que mais deu forma aos acontecimentos em que tomou parte do que foi moldado por eles.”[vi]

         De estatura abaixo da média (pelo que foi objeto de debique do apóstata Juliano), segundo seus biógrafos era de compleição magra, mas forte e enérgico. Tinha uma inteligência aguda, rápida intuição, era bondoso, acolhedor, afável, agradável na conversação, mas alerta e afiado no debate.

         A História não guardou o nome de seus pais. Pela alta formação intelectual que ele demonstra ainda jovem, julga-se que pertencia à classe mais elevada.

         Ainda adolescente foi notado e apreciado por Santo Alexandre, que o tomou sob sua proteção e, com o tempo, o fez seu secretário. No Concílio de Niceia ainda não recebera a ordenação. Mas, cinco meses depois, ao falecer, Santo Alexandre o designou como seu sucessor na sé de Alexandria. Atanásio tinha apenas 30 anos de idade.

         Triste herança recebeu o jovem bispo. Durante seus primeiros anos de episcopado, os melecianos e arianos se juntaram para tumultuar o povo e lançar o espírito de revolta, de que se alimentam as heresias. Pois o arianismo, se bem que tivesse um suposto fundamento religioso, era mais um partido político de agitadores, como muitos movimentos da esquerda católica de hoje. Não havia calúnia, difamação, ardil que não inventassem contra Atanásio para minar sua autoridade.

         O imperador Constantino, perdendo sua mãe Santa Helena, ficou sob a influência de sua irmã Constância, conquistada pela heresia. A pedido dela, fez voltar do exílio os hereges exilados em Niceia, enquanto perseguia os católicos ortodoxos.

         Apenas voltado do exílio, Eusébio de Nicomédia convoca um concílio em Cesareia, sede do outro Eusébio ariano, para condenar Santo Atanásio. Este é intimado a comparecer em Tiro, para onde o concílio havia sido transferido. para responder às acusações que havia contra ele.

         Fizeram entrar uma mulher que, cabelos desgrenhados, em grandes gritos acusa o santo de ter abusado dela. Um dos padres de Atanásio, percebendo o jogo, levanta-se e vai até a impostora exclamando: “Como! Então, é a mim que imputas esse crime?!”. Ela, que não conhecia Atanásio, replicou: “Sim, é a ti. Eu bem te reconheço”. Houve uma gargalhada geral e a miserável fugiu cheia de confusão.

         Mas isso não desarmou os impostores. Mostrando uma mão já meio ressequida, afirmaram que era de um tal Arsênio, que há tempos desaparecera, e certamente fora esquartejado por Atanásio para efeitos de magia. Atanásio faz entrar na sala o próprio Arsênio, que descobriu na solidão do deserto, e, mostrando-o, disse aos acusadores: “Vejam Arsênio, com suas duas mãos. Como o Criador só nos deu duas, que meus adversários expliquem de onde tiraram essa terceira.” Os hereges, confundidos, salvaram-se provocando verdadeiro tumulto e suspendendo a sessão.

Primeiro Concílio de Niceia (325) – Giovanni Guerra (1544-1618). Biblioteca Vaticana, Salone Sistino

Cinco vezes exilado por amor à ortodoxia

         Com calúnias e outros artifícios, os hereges, que gozavam do prestígio do poder imperial, conseguiram que o santo fosse exilado cinco vezes!

O primeiro exílio, em Treveris, durou cinco anos e meio, terminando em 337, quando, com a morte de Constantino, seu filho do mesmo nome chamou Atanásio para ocupar novamente sua Sé. No ano anterior, Ario, sentindo-se mal quando era levado em triunfo pelos seus partidários, teve que retirar-se a um lugar escuso, onde morrera com as entranhas nas mãos.

 Entretanto, morto o heresiarca, não morreu a heresia, que em 340 conseguiu impor um bispo herege em Alexandria, tendo Atanásio que fugir para o exílio em Roma. Foi bem acolhido pelo Papa, que condenou o intruso.

 Atanásio passou três anos em Roma, onde introduziu os monges do Oriente. Publicou aí grandes obras contra os hereges arianos. Em 343 foi exilado para a Gália.

         A década de 346 a 356 foi o período de ouro para Atanásio na Sé de Alexandria. Pôde dedicar-se inteiramente ao ministério episcopal, instruindo o clero e o povo, dedicando-se aos necessitados e favorecendo a vida monástica. Sobretudo fortaleceu na fé os católicos fiéis.

         Em um novo concílio em Milão, em 356, os arianos obtiveram que Santo Atanásio fosse mais uma vez exilado. Ele retirou-se então para o deserto do alto Egito, levando uma vida de anacoreta durante os seis anos seguintes, vivendo com os monges e dedicando-se a seus escritos.

Com a subida de Juliano, o Apóstata, ao trono, em 362 Atanásio pôde voltar a Alexandria. Mas, pouco depois, ciumento do prestígio do santo, o ímpio Imperador mandou exilá-lo de novo.

         Com a subida de Juliano, o Apóstata, ao trono, em 362 Atanásio pôde voltar a Alexandria. Mas, pouco depois, ciumento do prestígio do santo, o ímpio Imperador mandou exilá-lo de novo. Não foi por muito tempo, pois Juliano faleceu no ano seguinte, depois de ter tentado restaurar no Império o paganismo. O novo imperador, Joviano, anulou o exílio de Atanásio, que voltou mais uma vez a Alexandria.

Tendo a boa vontade do novo Imperador, o patriarca pensava desta vez poder dedicar-se inteiramente às suas ovelhas. Joviano, entretanto, faleceu no ano seguinte, e Atanásio foi mais uma vez exilado. Conta-se que foi aí que ele ficou escondido durante quatro meses no túmulo de seu pai.

         O povo de Alexandria não podia passar sem seu pastor. Recorreu então a Valente, irmão do Imperador ariano Valentiniano, e obteve que Atanásio pudesse voltar em paz à sua igreja.

         Assim, depois de uma vida tão tumultuada e de tantos perigos, Santo Atanásio, como ressalta o Breviário Romano, “morreu em paz em seu leito” no dia 18 de janeiro do ano de 373. Havia governado, com intervalos, durante 46 anos, a igreja de Alexandria.

         “‘No caráter de Atanásio — disse Bossuet — tudo é grande. Toda sua vida é a revelação de uma energia prodigiosa, que só encontramos em épocas decisivas. Indiscutivelmente sua grandeza como homem o coloca na primeira linha dos caracteres mais admiráveis que produziu o gênero humano. Como escritor e doutor, pôde ser chamado o grande iluminador e coluna fundamental da Igreja”[vii].


[i] Fr. Justo Pérez de Urbel, OSB, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, 3ª. edição, vol. II, p.253.

[ii] Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo III, p. 21.

[iii] Cornelius Clifford, Translated by David Joyce, The Catholic Encyclopedia, Volume I, Copyright © 1907, Robert Appleton Company. Online Edition Copyright © 1999 by Kevin Knight.

[iv] D. Próspero Guéranger, El Año Litúrgico, Ediciones Aldecoa, Burgos, 1956, tomo III, p. 758.

[v] Les Petits Bollandistes, p. 239.

[vi] The Catholic Encyclopedia, Online Edition.

[vii] Fr. Justo Pérez de Urbel, OSB, p. 267.