
- Paulo Henrique Américo de Araújo
Convido o leitor a acompanhar-me numa visita ao chamado relicário da América: o pequeno e magnífico Equador. Percorramos juntos as ruas estreitas e pitorescas do centro histórico da capital, Quito. A algumas quadras atrás da imponente igreja de São Francisco, deparamo-nos com a singela igreja de São Roque, quase esquecida em meio a tantos outros santuários famosos da cidade. Mas não a ignoremos, entremos… Ali, num altar à esquerda da nave central há uma pintura da Mãe de Deus, ao mesmo tempo tão pequena e magnífica como o próprio país que a abriga. Nossos olhos se erguem com encanto ao contemplarmos Nossa Senhora “La Borradora”, isto é, “aquela que apaga”.
Ajoelhamos e rezamos a Ave-Maria diante da belíssima figura da Virgem que nos sorri. Ela mostra o braço direito estendido com o rosário na mão e traz no esquerdo seu Filho Divino que curiosamente inclina-se para o lado, segurando um cordão. Mais abaixo, São Domingos e São Francisco em atitude de oração, completam a cena. Uma exclamação quase instintiva nos vêm aos lábios: “Não é ela muito parecida com a milagrosa pintura de Nossa Senhora de Las Lajas, na Colômbia?* Será uma cópia dela?” Um simpático equatoriano que se encontrava ali, ao pé do altar, ouve nossas interrogações e nos conta a seguinte história.
Dizem que Frei Pedro Bedón, dominicano, nascido no final do século XVI, é o autor do quadro da “Borradora” de Quito. Se é verdadeira a autoria, temos um problema: o frade teria pintado a imagem equatoriana por volta de 1610, porém a aparição de Nossa Senhora de Las Lajas se deu em 1754, mais de um século depois! Sabemos que a imagem colombiana é milagrosa, cravada na rocha [vide Catolicismo, fevereiro/2001, p. 48]. Será que Nossa Senhora quis “pintar” sua imagem de Las Lajas na Colômbia “copiando” os mesmos traços da já existente Virgem “Borradora” de Quito? Ou simplesmente há um equívoco sobre a autoria atribuída a Frei Bedón? E “La Borradora” é uma pintura posterior, copiada de “Las Lajas”?

onde se encontra o altar
da Virgem “Borradora”
Ficamos perplexos ao ouvir nosso gentil narrador chegar a esse impasse. Ele não podia, nem tinha a intenção de dar solução para o caso. Mas convidou-nos a deixar de lado o problema histórico e voltarmos a atenção aos fatos que tornarama pintura de Nossa Senhora “La Borradora” tão venerada ali.
A mudançada Virgem do Rosário (título original) para “aquela que apaga” ocorreu ainda nos tempos da América colonial. Em 1628, um indígena foi acusado de assassinato. O pobre homem negou insistentemente a responsabilidade pelo crime, mas os juízes o condenaram à morte. Na capela da prisão em Quito encontrava-se uma pintura da Virgem do Rosário, a quem o índio pediu intercessão para livrá-lo daquela aflição.
Na manhã da execução, ele foi escoltado por guardas à praça onde o cadafalso já tinha sido erguido. Mas a Boníssima Senhora atendeu-lhe o pedido de socorro de forma inesperada e engenhosa: quando o notário estava prestes a ler a sentença e prosseguir para sua execução, descobriu que os documentos que deveriam ter as assinaturas dos juízes estavam em branco. A pena de morte foi suspensa e o juiz marcou uma nova data para a conclusão do processo.

Mais uma vez os magistrados assinaram os papéis, novamente o suposto criminoso foi amarrado e — ah! surpresa — novamente as assinaturas tinham se apagado. Atônitos, os espectadores atribuíram o fenômeno a uma demonstração do poder daquela Virgem do Rosário, que passou a ser chamada de “La Borradora”, “aquela que apaga”. Tais eventos estão pintados numa cena localizada abaixo do quadro da “Borradora” [foto].
O índio foi libertado e em agradecimento, pediu para cuidar da capela de Nossa Senhora localizada na prisão. Após sua morte, ele foi enterrado aos pés “d’Aquela que apaga”. Histórias populares mencionam que, até o final do século XIX, o crânio do índio devoto ainda podia ser visto em frente à imagem da Virgem.

Em 1895 o quadro foi trasladado para a igreja de São Roque, no centro de Quito. Para lá acorrem todos os dias os devotos necessitados a implorar para que se “apaguem” certos documentos judiciais pelos quais poderiam acabar na prisão! Existem inúmeros testemunhos de como Ela tem ajudado os que lhe pedem soluções em julgamentos ou processos judiciais. Segundo os devotos, não há dúvida, Nossa Senhora é a melhor advogada do mundo!
Ouvimos atentos e admirados o fim da história contada pelo equatoriano. Ajoelhamos mais uma vez diante da bela imagem da Mãe de Deus e pedimos que Ela nos perdoe e “apague” os nossos pecados diante de seu Divino Filho. Sim! Mesmo que não tenhamos sentenças judiciais contra nós, ainda temos que pedir a Ela que nos salve, pois é por Ela que nos chegam todas as graças de Deus, sobretudo aquelas que nos livram da condenação eterna, e que, por fim, nos conduzem ao Paraíso.
Deixamos a igreja de São Roque encantados com esta magnífica manifestação da bondade maternal de Maria. Então nos despedimos, caro leitor. Prometo rezar por ti à Virgem “que apaga nossos pecados” e peço que faça o mesmo por mim.
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Referências:
* Referimo-nos a Nossa Senhora de Las Lajas como estando hoje no território da Colômbia. Mas no século XVIII, a região onde se deu a aparição fazia parte do atual território equatoriano.
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026