
Evaristo de Miranda
É fácil estar presente na vida de um filho. Difícil é saber retirar-se. Há pai tão presente na vida do filho a ponto de negar-lhe autonomia. Decide por ele. Define seu futuro, estudos e carreiras. Decide deixar-lhe de herança seu negócio, loja ou posto de gasolina. Até sugere com quem deveria se casar ou não. Há pais onipresentes e dominadores na vida dos filhos. Depois de mortos, ainda os perseguem com suas exigências incorporadas na mente dos filhos. Ser amado implica em atender os desejos paternos? O filho segue, inconscientemente, atendendo seu pai, anos e anos após sua morte.
Filhos não vieram ao mundo apenas para satisfazer sonhos e desejos paternos. O brilho do pai não pode projetar uma sombra sobre o filho. Ao pai cabe retirar-se para a sombra, enquanto o filho emerge na luz.
Retirar-se da vida do filho não significa abandonar. É deixá-lo encontrar-se e ir para si. Não é apenas nunca fazer por ele o que ele pode fazer sozinho, coisa em si já difícil. Retirar-se é dar espaço ao outro em sua própria vida. Exige intuição, maturidade, desapego, contemplação e atenção. Foi assim com José, um carpinteiro da Galileia.
O esposo de Maria foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário. Esteve ao lado de Maria no parto, organizou a fuga para o Egito, cuidou da família durante o exílio e conduziu o retorno à Palestina. E diante do crescimento e da vida própria do filho soube se retirar. Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e numa discrição tão sutis, ele desaparece até dos textos evangélicos. Esse pai soube retirar-se diante da autonomia da vida e face às dimensões únicas de seu filho Jesus e de sua esposa. Contraiu-se para dar espaço ao Outro. Abdicou da posse implícita na paternidade: paradigma para a Igreja, paradoxo para os não crentes. Nesse abdicar da propriedade, da posse e do poder implícitos na paternidade — sobre os quais a psicologia moderna já se debruçou tanto — José se revela um homem extremamente centrado em sua essência. Exemplo de pai e esposo.
Na tradição judaica, José poderia denunciar Maria e expô-la publicamente. O evangelho o apresenta como vir justus, homem justo. Não desejando sua desgraça, resolve deixá-la secretamente (Mt 1,19). Essa decisão, ele não levará adiante. Ao sonhar, entende: o que nela foi gerado é obra do Espírito Santo (Mt 1,20). Manteve com sua mulher, até na dúvida e no conflito, uma relação com o feminino particularmente radical e de serviço.
Quem, ao acordar, todo santo dia, lembra seus sonhos, psicologicamente, é nota 10. É raro. Quem além de recordar, interpreta o significado e entende a mensagem de cada um de seus sonhos, é nota 100. Dificílimo interpretar os próprios sonhos. Se além de recordar, analisar e entender, a pessoa age em conformidade com seus sonhos, muda sua vida e seu viver, então é nota 1.000. Como José. Um homem com quem Deus só falava por sonhos!
Deus fala com José em pelo menos quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22), segundo Mateus. José vive atento, em harmonia e diálogo com seu eu profundo. Essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus sonhos diz muito sobre sua alma, sua interioridade e seu equilíbrio psicológico. Em hebraico, Iossef significa “Deus acrescentará”.
José foi resgatado de forma polissêmica pela Igreja e movimentos religiosos por séculos. Como pai me permito uma leitura da condição vivida por José e pelos homens, pais. Suas atitudes, descritas no evangelho, são próximas de muitos aspectos da condição paterna e a interpelam.
No catolicismo, São José é o Padroeiro da Boa Morte. Ele teria morrido antes de Jesus e Maria. Provavelmente, morreu tendo os dois em sua cabeceira. Difícil imaginar morte em melhor companhia, tendo de um lado Jesus e do outro Maria, fisicamente. Daí a Boa Morte. Para além dessa imagem piedosa, José é mesmo o Padroeiro da Boa Morte, dada a sua vida de desapego. Morre bem quem está desapegado de tudo não destinado à eternidade. Está pronto para partir, livre de qualquer amarra. O desapego de São José na paternidade, no matrimônio e até da condição de personagem bíblico faz dele um exemplo de caminho para a boa morte. Educar um filho para a autonomia também é preparar-se para a própria finitude. Ao retirar-se da vida do filho, o pai aprende a retirar-se da própria vida. A boa morte, de certa forma, os filhos também anunciam e ajudam os pais, docemente e em família, a aceitar, como parte da plenitude da Vida.