
Evaristo de Miranda
Dogmas e Fake News imperam nos comentários climáticos. Boatos alarmistas em redes sociais exageram impactos do El Niño em 2026. “Analistas” previram eventos absurdos como neve no interior paulista, ventos de 150 km por hora varrendo o Sudeste, ciclones bomba explodindo como em Hiroshima e um apocalipse climático inevitável. O El Niño é citado em relatórios de bancos, justifica a inflação, atrasos no trânsito e até não ver a sogra no domingo.
Toda variação interanual do clima beneficia determinadas atividades agrícolas e desfavorece outras. Não existe clima absolutamente ruim ou ótimo para a produção agrícola moderna. Os impactos na produção dessas flutuações climáticas dependem, sobretudo, do nível de tecnologia e capitalização dos agricultores.
O fenômeno real, o ENOS (El Niño-Oscilação Sul), é monitorado por órgãos oficiais. O catastrofismo climático ignora dados científicos e a complexidade real da atmosfera. O ENOS é um grande sistema natural do planeta. Ele une oceano e atmosfera. Mudança de temperatura da superfície no Oceano Pacífico Equatorial, se a atmosfera se conectar, altera os ventos. O El Niño é apenas uma parte desse sistema complexo, quando as águas ficam mais quentes, acima do normal.
Como acontece regularmente, há El Niño. Induzido por razões diferentes das observadas em outras ocorrências, como, por exemplo, por ondas internas geradas por terremotos oceânicos. Seus efeitos são regionais, probabilísticos e não autorizam as fantasias apocalípticas disseminadas nas redes. Existem critérios técnicos para classificar a intensidade do El Niño. Expressões jornalísticas como “Super El Niño” são rótulos informais, sem classificação técnica nas escalas tradicionais.
As previsões dos institutos sérios são ponderadas. Apontam para riscos cuja probabilidade de ocorrência não significa certeza de intensidade máxima. Histórias sobre frio atípico extremo, ventos devastadores ou neve em regiões tropicais não possuem base em nenhum modelo meteorológico confiável.
Neste início de agosto, o inverno real apresenta contrastes regionais: mais chuvas (e ventos) no Sul e parte do Sudeste e Centro-Oeste. No Norte e Nordeste há probabilidade de redução das chuvas e episódios de seca. Com variações territoriais.
Com o El Niño, tempo bom para as culturas de inverno (trigo, canola, carinata, aveia-branca e cevada), com desenvolvimento majoritariamente adequado no Sul e Sudeste. Muitos cultivos avançam na floração e enchimento dos grãos. A cevada, por exemplo, mantém crescimento normal, com áreas em perfilhamento e início da elongação do colmo. A condição fitossanitária segue satisfatória, com o uso adequado de defensivos. As lavouras destinadas à indústria cervejeira apresentam bom estande e crescimento, sem sintomas de doenças.
Mais nuvens reduzem a luminosidade, chuvas frequentes perturbam o trabalho dos polinizadores, ampliam riscos fitossanitários e exigem monitoramento de doenças foliares. O manejo leva a aplicações preventivas de fungicidas. A umidade pode limitar as operações no campo. Os produtores têm recursos tecnológicos para lidar com isso. Não há relatos de problemas fitossanitários relevantes.
Com mais água armazenada nos solos, as pastagens vão bem, obrigado. Um inverno com maior umidade e menos geadas ajuda a manter os pastos verdes e produtivos por mais tempo. E favorece o desenvolvimento inicial de espécies forrageiras de inverno, como aveia e azevém, em áreas específicas. O excesso de chuva combinado ao pisoteio do gado pode compactar o solo e prejudicar a perenidade do capim. Pecuaristas sabem lidar com esse risco. Em pleno agosto, segue um festival de fotossíntese. O Boletim de Monitoramento Agrícola, divulgado pela CONAB, mostra os índices de vegetação fotossinteticamente ativa acima da média histórica e do registrado no ciclo passado. Sobre isso, o catastrofismo climático não tem nada a dizer.
Com essa umidade houve redução nas queimadas e incêndios em relação a 2025: 40% até início de agosto no Sul; 17% no Centro-Oeste e 12% no Nordeste (Inpe). Quem não se recorda dos incêndios, até criminosos, ateados em pastagens e canaviais em anos precedentes. Sem fumaça, não há fogo. As queimadas ainda poderão crescer até o final de agosto. Por ora, como sói acontecer em tempos de El Niño, o ar puro campeia. Disso, o alarmismo climático nada comenta.
A produção do milho segunda safra retrata os “efeitos catastróficos” do El Niño e o papel da tecnologia na produção nacional: um novo recorde histórico. O Brasil colherá cerca de 110 milhões de toneladas de milho na segunda safra, mais de três quartos do produzido no país. As três safras projetam mais de 142 milhões de toneladas. O consumo interno cresce (95 milhões de toneladas), reforçado pelo aumento da produção de etanol. As exportações brasileiras de milho devem alcançar 46,5 milhões de toneladas.
No Amazonas e Roraima, o volume de chuvas favoreceu o crescimento da soja e do milho terceira safra. No Mato Grosso, principal produtor, a produtividade está acima das estimativas iniciais, apesar de atrasos pontuais na colheita em razão de chuvas. No Paraná e Mato Grosso do Sul, umidade elevada e temperatura baixa retardaram a secagem natural e a colheita.
Como habitual no inverno tropical, o tempo seco predominou em boa parte do país. No Centro-Oeste, parte do Sudeste, sul do Pará, Rondônia e Matopiba, o tempo seco ajudou o amadurecimento do milho segunda safra e a colheita do algodão. A produção superior a 4 milhões de toneladas de pluma manterá o país entre os maiores produtores e exportadores da fibra.
Nas frutíferas, o inverno é um período estratégico para a realização de podas, manejo fitossanitário e preparo da próxima safra. Com ou sem El Niño, os arboricultores adotam práticas específicas de inverno: podas, remoção de ramos secos e doentes, cobertura e análise de solos, tratamentos preventivos e controle de plantas daninhas. Tudo isso em caquizeiros, pessegueiros, goiabeiras, figueiras, mangueiras, ameixeiras, macieiras etc. Conservam os seus pomares. Mais dias frios favorecem a floração de diversas espécies. A ver como virão as chuvas na primavera.
Em matéria de clima, só há certeza sobre as incertezas. Nenhum ano repete o anterior. Um inverno mais úmido, bom para certos cultivos, desfavorece outros. E vice-versa. Daí o interesse em diversificar as atividades agrícolas. Conhecer e monitorar o clima local e global é ter acesso a informações para planejar e manejar melhor as lavouras e as pastagens diante das incertezas climáticas. Não cabe fatalismo e, ainda menos, terrorismo climático obscurantista.
O verdadeiro risco não está na incerteza climática. Está na incapacidade humana de agir diante dela. Na inação. Não se combate o alarmismo climático com discurso ideológico. E sim com tecnologia agrícola moderna e ampla gama de variedades em cada cultura. Irrigação, mecanização e bioinsumos e diversos insumos da agroindústria podem minimizar os impactos negativos do clima e maximizar seus efeitos positivos. Os agricultores sabem, há milênios: o futuro não está escrito. Ele deve ser inventado pelas ações no presente. Quem sabe faz a hora…
O catastrofismo paralisa. A ação alimenta esperança. A verdadeira catástrofe brasileira — é preciso temer e prevenir a todo custo — não salta aos olhos. É invisível. Está ligada à degradação social, cultural e política da nação. À ausência de projeto nacional da esquerda à direita. Essa situação não pode permanecer para sempre imperceptível, sobretudo no mundo urbano. Cabe às lideranças rurais dar-lhe visibilidade e impedi-la, mediante um esforço de clarividência, cons-ciência e ação. Quis suscipit? Quis vult?