
15 de agosto — Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem, levada por Anjos em corpo e alma ao Céu
- Paulo Roberto Campos
Há festas da Igreja que nos falam sobretudo de um acontecimento. A Assunção de Nossa Senhora, porém, nos fala de um acontecimento e, ao mesmo tempo, de uma presença.
Maria Santíssima foi elevada ao Céu em corpo e alma. A Igreja ensina que, terminada sua peregrinação terrestre, Ela foi glorificada por Deus e introduzida na bem-aventurança celeste. Plinio Corrêa de Oliveira, em uma conferência pronunciada precisamente no dia 15 de agosto de 1975, convida-nos a contemplar esse mistério sob um aspecto particularmente tocante: Nossa Senhora partiu, mas deixou na Igreja um perfume que atravessaria os séculos.
Uma primeira consideração dessa sua conferência é a diferença entre a Ascensão de Nosso Senhor e a Assunção de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo sobe ao Céu por seu próprio poder; Ela, criatura perfeitíssima, é elevada pelo poder de Deus. Daí a própria diferença dos termos: Ascensão para Nosso Senhor, Assunção para Nossa Senhora.
Mas há algo ainda mais profundo: Nossa Senhora, concebida sem pecado original e Mãe de Deus, poderia ter sido preservada da morte. Entretanto, quis assemelhar-se inteiramente ao seu Divino Filho. Se Ele desejou passar pela morte, Ela também desejou passar por esse misterioso limiar. E sua morte foi inteiramente incomum.
É por isso que a tradição fala da “Dormitio Beatae Mariae Virginis” (Dormição da Virgem Maria). Não se trata de negar a realidade da morte, mas de indicar sua particular suavidade e a proximidade imediata de sua glorificação. Maria morreu; sua alma separou-se de seu corpo. Mas essa morte foi como uma dormição, seguida pela ressurreição e pela gloriosa Assunção.

Há aqui uma lição extraordinária para nós.
A morte, consequência do pecado original, é naturalmente uma ruptura dolorosa. Mas Nosso Senhor transformou a própria morte em porta de entrada para a vida eterna. E Nossa Senhora, associando-se ao sacrifício de Cristo, quis também passar por essa porta.
Talvez seja este um dos pontos mais originais e mais consoladores da meditação do Prof. Plinio na referida conferência.
Ele sugere que, quando chegar para nós a hora da morte, procuremos unir nossa morte à morte de Nossa Senhora e, por meio d´Ela, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim como o verdadeiro devoto de Maria procura chegar a Jesus por meio d’Ela durante toda a vida, também na hora suprema pode pedir que sua morte seja oferecida em união com a morte de sua Mãe Santíssima.
É uma perspectiva profundamente católica. Não se trata de amar a morte por si mesma. A morte é um terrível efeito do pecado. Mas, em Cristo, ela pode adquirir outro significado: pode tornar-se sacrifício, entrega, reparação e passagem para a glória.
Por isso, diante da morte, o católico não perde a esperança e pode dizer interiormente a Nossa Senhora: “Assim como Vós quisestes entregar-Vos inteiramente a Deus, ajudai-me a entregar-me também. Uni a minha morte à vossa e, por meio da vossa morte, à morte infinitamente preciosa de Nosso Senhor”.
A morte deixa então de ser simplesmente o momento em que tudo termina. Torna-se o momento em que começa a verdadeira vida.
Mas é na contemplação da Assunção propriamente dita que surge a nota mais delicada aparece na conferência.
Nossa Senhora sobe ao Céu. Os Apóstolos e os discípulos maravilhados contemplam sua partida. Aquele contato terrestre com Ela termina. Seus olhos já não poderão vê-La como antes. A Mãe que os acompanhara, que os consolara, que lhes comunicara sua presença, desaparece de seus horizontes terrenos.
Poderia parecer que, a partir desse momento, tudo seria apenas saudade. Mas não. É justamente aqui que o Prof. Plinio coloca uma de suas ideias mais belas: uma alma verdadeiramente católica pode continuar presente depois de sua partida através do “perfume” que deixa atrás de si. E isso se realizou de modo incomparável em Nossa Senhora.
Ela já não estava diante dos olhos dos Apóstolos. Mas estava, de certo modo, ainda mais presente em suas almas.
A lembrança de seu olhar, de sua pureza, de sua bondade, de sua dignidade, de sua serenidade e de sua incomparável união com Deus deveria permanecer para sempre na Igreja.
E assim aconteceu. Ao longo dos séculos, povos inteiros aprenderam a pronunciar seu nome com ternura. Reis e camponeses, sábios e simples, religiosos e mães de família, mártires e contemplativos encontraram em Maria uma luz, uma consolação e um modelo.
E esse perfume não se extinguiu. É Nossa Senhora! Há algo de profundamente expressivo na observação do Prof. Plinio de que, quando se fala verdadeiramente d´Ela, muitas vezes as palavras parecem insuficientes. Há realidades que podem ser explicadas; outras precisam ser contempladas.
Falar de Maria é tocar numa realidade que ultrapassa nossas fórmulas. Ela é a Imaculada Conceição! É a Mãe de Deus! É a Virgem Santíssima! É a Rainha dos Anjos e dos Santos! É a Mãe espiritual de todos nós! É Aquela que esteve junto à Cruz e que agora reina junto ao Filho no Céu!
Por isso, depois de tudo quanto se possa dizer, permanece uma espécie de silêncio cheio de significado: é Nossa Senhora! Essa expressão, aparentemente tão simples, contém algo como um universo.
Na parte final de sua conferência, o Prof. Plinio faz uma consideração particularmente apropriada para nossa época: já que não podemos contemplar com nossos olhos terrenos a fisionomia de Nossa Senhora, as suas imagens podem ser, de certo modo, uma ponte entre Ela e nós. Não adoramos a imagem. A imagem nos conduz à Pessoa representada.
Quando olhamos uma boa imagem de Nossa Senhora, procuramos algo mais do que uma bela obra de arte. Procuramos imaginar sua alma, sua pureza, sua bondade, sua majestade, sua maternidade.
É como se aquela representação nos dissesse: “Ela existiu; Ela vive; Ela está no Céu; e é para Ela que voltamos o nosso olhar.”
A imagem torna-se, assim, uma lembrança visível daquela presença que a Assunção tornou invisível aos nossos olhos.
A Assunção não é, portanto, simplesmente a despedida de Nossa Senhora da Terra. É a inauguração de uma forma nova e ainda mais profunda de presença. Antes, Maria estava fisicamente junto dos Apóstolos. Agora, está espiritualmente junto a todos nós.
Antes, poucos podiam aproximar-se d’Ela. Depois da Assunção, todos os homens podemos recorrer à sua maternidade. Antes, sua presença estava limitada a um lugar. Agora, seu “perfume” se espalhou pelo mundo inteiro. E esse perfume continua chegando até nós.
Talvez seja esta a graça mais apropriada a pedir nesta grandiosa festa do dia 15 de agosto: que Nossa Senhora impregne em nossas almas algo de seu perfume. Que depois de convivermos com Ela pela oração, pelo Rosário, pela meditação e pela frequência aos Sacramentos, alguma coisa d´Ela permaneça em nosso modo de pensar, de falar, de agir e de enfrentar as dificuldades.
Que aqueles que convivem conosco possam encontrar, não nossa própria personalidade, mas alguma coisa que lhes recorde Nossa Senhora. Que sejamos, por assim dizer, portadores de seu perfume.
E quando chegar a hora de nossa partida, possamos também deixar atrás de nós — embora de modo infinitamente menor — alguma lembrança de fidelidade, de pureza, de coragem e de amor a Deus. Porque a verdadeira morte católica não é simplesmente desaparecer. É partir deixando para trás uma lembrança que conduz a Deus.
Nossa Senhora partiu há tantos séculos. Entretanto, sua presença nunca foi tão grande. Ela está no Céu em corpo e alma, gloriosa junto de seu Divino Filho. E, ao mesmo tempo, continua maternalmente próxima daqueles que invocam a Medianeira Universal de Todas as Graças.
A Igreja inteira está impregnada desse perfume. Um perfume que não se dissipa. Um perfume que atravessa os séculos. O perfume de Nossa Senhora!
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Obs: A conferência original é bem mais longa e interessante. Para este breve artigo, selecionei apenas alguns pontos. A íntegra pode ser lida por meio do seguinte link: O perfume da Assunção de Nossa Senhora