
Evaristo de Miranda
A primavera chegou. O campo desperta. O agricultor madruga. Deus ajuda quem cedo madruga. Esse ditado popular é um dos mais conhecidos da língua portuguesa, muito empregado no meio rural, nos momentos decisivos do plantio e da semeadura. Em seu sentido literal e prático, exalta o valor do trabalho, da disciplina e da iniciativa. Sob uma lente filosófica, ganha outras camadas. Conecta a ação humana aos ciclos da natureza. Essa conexão é mais evidente para quem vive no campo. Menos para quem vive nas cidades.
O ditado evoca a sincronia com os ciclos do cosmos, a Ordem Natural. Metafisicamente, “cedo madruga” não se refere apenas ao horário do relógio. Sugere alinhamento com os ritmos da natureza. O amanhecer representa o nascimento da luz. Um despertar da energia vital. O início das atividades com o Sol pode ser entendido como uma forma de sintonia com o ciclo diário de renovação e criação. A chegada da primavera traz o tempo do plantar.
O ditado também resume a relação entre a vontade humana, sua capacidade de criação e seu livre-arbítrio, e a vontade divina, do Todo, do Universo. Desde pequeno, ouvi essas augustas considerações de meu avô lavrador, oriundo das terras de xisto no alto da bacia do Douro, em Portugal. Deus, a Fonte, o Absoluto, não age de forma paternalista ou arbitrária. A “ajuda” divina se manifesta no movimento do próprio indivíduo.
O estado mental das primeiras horas do dia possui, nessa perspectiva, um peso metafísico. Ao acordar cedo, a mente ainda não foi tomada pelo ruído do cotidiano. Há um abismo entre o despertar no campo e nas casas e apartamentos das grandes cidades. No silêncio da manhã, o subconsciente pode parecer mais receptivo. Quem madruga com propósito e intencionalidade assume primeiro o governo de sua realidade interior, antes de o ambiente externo ditar o ritmo do dia.
Na filosofia grega e na tradição teológica, há duas dimensões do tempo. Chrónos (χρόνος) é o tempo em sua dimensão sucessiva, mensurável, sempre correndo. Kairós (καιρός) é o tempo do momento oportuno, adequado, da ocasião propícia, do instante decisivo. Para o ditado, estar desperto e ativo logo cedo aumenta a possibilidade de encontrar o kairós. Não perder a passagem do cavalo selado diante de cada um. A “ajuda divina” é o encontro da preparação humana com a oportunidade cósmica.
A frase popular não fala de punição para quem dorme até mais tarde. Fala de uma correspondência universal. A Graça Divina encontra espaço no movimento humano. Deus ajuda quem se ajuda. A terra encontra quem a cultiva. A cada um cabe também cultivar sua terra interior. Ser fecundo. A primavera encontra quem está preparado. Deus não planta. Deus não ara. Deus não semeia. O homem planta, ara e semeia. Nestes dias no campo, nas lavouras, a Graça encontra mãos ocupadas. Deveria ser assim em todo o país.
Como na tradição beneditina: Ora et labora. Reza e trabalha.
No agro, Deus ajuda quem cedo madruga.