A harmonia social deve reinar entre todas as raças

Mulheres negras livres com seus filhos e criadas num passeio – Agostino Brunias (1764). Coleção Brooklyn Museum, Nova York.

Para nossa época marcada pela insistência no igualitarismo, desejado pelo comunismo e o socialismo, ressaltamos um admirável exemplo histórico de amor às desigualdades sociais

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020

Um modelo de vida para os negros norte-americanos e de qualquer país, como também para todas as pessoas de qualquer raça, é Pierre Toussaint, ex-escravo cuja grandeza de alma e vida íntegra de católico exemplar tornou-o um Bem-aventurado da Santa Igreja.

Nascido em 1766 na bela ilha caribenha de São Domingos (antiga colônia francesa, atual Haiti), passou a maior parte de sua vida em Nova York, onde faleceu em odor de santidade aos 87 anos. Suas relíquias podem ser veneradas na cripta da catedral novaiorquina de Saint Patrick.

Exemplo de abnegação, gentileza, amor à hierarquia social, despretensão, caridade, humildade, fidelidade e dedicação aos patrões por amor de Deus, a vida de Pierre Toussaint foi uma verdadeira epopeia, e pode ser vista hoje como uma magistral pregação contra o igualitarismo comunista. São estas algumas das qualidades de alma mais detestadas pelos movimentos anarquistas que se autoproclamam “antirracistas”, como o atual Black Lives Matter (vidas de negros são importantes), fundado em 2013 com o pretexto de proteger vidas de negros e a igualdade racial. Seus membros vêm promovendo nos EUA violentos protestos e uma virulenta revolta, empenhados numa luta racial de negros contra brancos.

Em nome da raça negra, e alegando uma inexistente ou inexpressiva opressão policial do racismo, o BLM é coadjuvado por outros movimentos revoltosos. Incluem como meta uma rebelião mundial no sentido da “Revolução Cultural”, contra as tradições de todo o mundo civilizado. Nos Estados Unidos em particular, estão agindo para precipitar essa poderosa nação numa luta fratricida; e, em meio a uma convulsão social, favorecer o advento de um governo de esquerda. Rebeliões semelhantes veem ocorrendo em algumas nações latino-americanas, preponderantemente no Chile, com anarquistas profanando e queimando igrejas e imagens sacras em manifestações de visceral ódio a Deus e à Civilização.

Não abordaremos tais movimentos e protestos anarquistas, sobre os quais Catolicismo já publicou em sua edição de agosto passado o amplo e esclarecedor artigo “Vandalismo revolucionário movido pelo ódio à Civilização”. Na presente matéria, queremos destacar a admirável e virtuosa vida de Pierre Toussaint. Ela merece ser bem conhecida e difundida como valioso ponto de referência do bem, especialmente nestes dias em que os mencionados protestos anarquistas vandalizam diversas cidades americanas.

Reproduzimos a seguir o prefácio de Plinio Corrêa de Oliveira para a excelente biografia Memória de Pierre Toussaint, publicada por Hannah Sawyer Lee nos Estados Unidos em 1992. No final, acrescentamos alguns comentários de Dr. Plinio sobre o charme da raça negra.

Da redação de Catolicismo

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Pierre Toussaint — grande e nobre caráter de um negro católico

O Mercado do Linho, Ilha de São Domingos – Agostino Brunias, 1775. Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza (Madri).

Em nosso continente, as lutas raciais têm trazido discórdias e divisões lamentáveis. O magnífico exemplo do venerável Pierre Toussaint contribui para mitigar desavenças e desconfianças mútuas entre as raças, e consolidar assim a concórdia entre todos.

  • Plinio Corrêa de Oliveira

A figura de Pierre Toussaint teve em outros tempos merecida notoriedade em Nova York, onde exerceu sucessivamente as profissões de cabeleireiro de senhoras e agente de colocação para empregadas domésticas. Com o curso das gerações, foi ofuscada na memória dos nova-iorquinos, mas os exemplos de vida que ele deixou merecem ser lembrados. Dão margem a profundas reflexões morais e sociais para todos os tempos, altamente oportunas em nossos dias.

Malefícios da Revolução Francesa invadem a América

A época em que Toussaint viveu (1766-1853) foi sacudida por violentos acontecimentos internacionais. A Revolução Francesa, fundamentalmente ateia e merecidamente qualificada como precursora do comunismo, estourou em 1789 na França, no reinado do apático e indolente Luís XVI. Propagou-se de forma violenta em todo território francês, e a partir daí contagiou vários países da Europa, com danosa repercussão também na América e em todo o mundo.

Em 1794, quando cessou a terrível fase do Terror, muitos esperavam que o Velho Continente voltasse à sua tranquilidade anterior. Não foi o que aconteceu. A Revolução deixou de atuar direta e destrutivamente no plano material dos fatos, mas nem por isso deixou de existir e de se propagar no campo ideológico. Com efeito, os regimes sucessivos do Diretório (1795), do Consulado (1799) e do Império (1804-1815) foram apenas formas metamorfoseadas da mesma Revolução Francesa. Inspiraram-se nos mesmos princípios errôneos e empenhavam-se no mesmo desejo de pregar os seus erros a todo o mundo. Quando Napoleão, proclamando-se imperador dos franceses, coroou a si próprio na igreja de Notre-Dame em Paris (1804), seu regime “monárquico” desprovido de autenticidade não passava de uma metamorfose a mais na Revolução Francesa.

Deturpação da liberdade, igualdade e fraternidade

A ordem de coisas que Napoleão impôs à França, pacífica na aparência, foi de fato a consolidação das modificações subversivas que os revolucionários de 1789 haviam introduzido no país. Dirigindo guerras de conquista por toda a Europa, que se estenderam de Lisboa até Moscou, produzindo abalos de Estocolmo a Nápoles, o Imperador impunha por toda parte leis revolucionárias, que subvertiam a ordem antiga em nome dos princípios de liberdade, igualdade, fraternidade. Princípios esses que, entendidos à maneira dos revolucionários franceses, eram precursores do comunismo. Por essa razão, foram eles severamente condenados pelo Papa Pio VI no Consistório Secreto de 17 de junho de 1793, confirmando as palavras da Encíclica Inscrutabile Divinæ Sapientiæ, de 25 de dezembro de 1775:

Estes perfidíssimos filósofos acometem isto ainda: dissolvem todos aqueles vínculos pelos quais os homens se unem entre si e aos seus superiores e se mantêm no cumprimento do dever. E vão clamando e proclamando até à náusea que o homem nasce livre e não está sujeito ao império de ninguém; e que, por conseguinte, a sociedade não passa de um conjunto de homens estúpidos, cuja imbecilidade se prosterna diante dos sacerdotes (pelos quais são enganados) e diante dos reis (pelos quais são oprimidos); de tal sorte que a concórdia entre o sacerdócio e o império outra coisa não é que uma monstruosa conspiração contra a inata liberdade do homem”(Encíclica Inscrutabile Divinæ Sapientiæ).

“A esta falsa e mentirosa palavra Liberdade, esses jactanciosos patrões do gênero humano atrelaram outra palavra igualmente falaz, a Igualdade. Isto é, como se entre os homens que se reuniram em sociedade civil – pelo fato de estarem sujeitos a disposições de ânimo variadas e se moverem de modo diverso e incerto, cada um segundo o impulso de seu desejo – não devesse haver alguém que, pela autoridade e pela força, prevaleça, obrigue e governe, bem como que chame aos deveres os que se conduzem de modo desregrado, a fim de que a própria sociedade, pelo ímpeto tão temerário e contraditório de incontáveis paixões, não caia na anarquia e se dissolva completamente; à semelhança do que se passa com a harmonia, que se compõe da conformidade de muitos sons; e que, se não consiste numa adequada combinação de cordas e vozes, esvai-se em ruídos desordenados e completamente dissonantes (Pii VI Pont. Max. Acta, Typis S. Congreg. De Propaganda Fide, Roma, 1871, vol. II, pp. 26-27).

Um negro católico dotado de grande e nobre caráter

A tarefa desse hábil cabeleireiro junto às senhoras da alta sociedade não se limitava aos cabelos. Durante o serviço, conversavam sobre vários assuntos, e em tudo ele respondia com acerto, fazia comentários judiciosos, e muitas passaram a tomá-lo como conselheiro.

A França era então senhora das ilhas Martinica, Guadalupe e São Domingos (atual Haiti). Essas possessões caribenhas, então prósperas e tranquilas, sofreram a fundo os abalos da Revolução Francesa. Os escravos e colonos se levantaram contra os seus senhores e patrões, com o intuito de suprimir a classe deles, da mesma forma como na metrópole fora supressa a nobreza.

Entre as famílias prósperas de São Domingos figurava a de Jean Bérard du Pithon; e entre os escravos desta, Pierre Toussaint. Era um negro de apenas 21 anos, quando os abalos da Revolução levaram a família Pithon a refugiar-se em Nova York, e para lá ele a seguiu. Começa então a sua história exemplar.

Num primeiro momento, essa família pertencente à nobreza viveu folgadamente em Nova York, com as economias que levara consigo. Nisso agiram como muitos dos emigrados franceses que partiram para o Exterior, depois da queda da Bastilha (1789), levando as quantias à sua disposição. Tinham a esperança de que a revolução demoraria pouco. Também a família Bérard du Pithon esperava voltar prontamente a São Domingos, julgando que a revolução seria efêmera. Uns e outros se enganaram; e, esgotados os recursos financeiros, viram-se forçados a reduzir consideravelmente o nível de sua representação social, sentindo-se na contingência de subsistir por meio de empregos incompatíveis com sua condição.

A “mão da Providência” por meio de Pierre Toussaint

Foi nessa triste conjuntura que, após 11 anos de um feliz consórcio, faleceu em 1791 o Sr. Jean Bérard. A aristocrática viúva Marie Elisabeth Bossard Roudanes, com saúde precária, teve que enfrentar sozinha as novas condições adversas. Mas a mão da Providência velava por ela.

A “mão da Providência” é uma formosa metáfora, para designar o desvelo com que Deus acompanha a existência de suas criaturas e as socorre. Habitualmente a iconografia a representa como uma mão benfazeja e branca, mas no caso concreto desta viúva branca a “mão da Providência” era a do negro Pierre Toussaint.

Esse modesto escravo poderia facilmente esquivar-se do jugo dessa família. Pelo contrário, procedeu em relação a ela com uma dedicação e uma delicadeza de sentimentos que poucos filhos têm até mesmo em relação à própria mãe. Seguindo um programa abnegado, cujo cumprimento levou até o fim, ele deliberou trabalhar para que sua senhora não perdesse em nada as condições sociais e o conforto de vida correspondentes à educação que recebera.

Nova York era ainda uma cidade pequena, mas já rica, e ele se habilitou a exercer ali o ofício de cabeleireiro das senhoras da alta sociedade. Imaginoso e dotado de bom gosto, inventava formas variadas de penteado, muito do agrado das suas opulentas clientes, e estas lhe pagavam a bom preço o serviço. Em pouco tempo tornou-se disputado pelas senhoras ricas de Nova York, obtendo assim os recursos necessários para manter sua ama.

Com muita habilidade, Toussaint conseguiu ocultar de sua senhora a fonte dos recursos com que ela vivia. E o fazia sem mentir, pois era muito veraz. Católico fervoroso, diariamente assistia à Santa Missa e evitava qualquer ação que transgredisse os Mandamentos da Lei de Deus. Era visto matinalmente na Igreja de São Pedro (Rua Barclay), onde rezava o seu rosário, e só depois disto começava suas atividades profissionais.

Dedicação e responsabilidades que aumentam

Com as condições criadas por Toussaint, lentamente se foi restabelecendo também a saúde da Sra. Bérard, e ela pôde reabrir seus salões. Depois da sua faina diária, à noite ele se transformava espontaneamente em copeiro. Eximiamente trajado, com maneiras muito gentis e agradáveis, servia todos os convidados.

Entrementes, o refugiado francês Gabriel Nicolas, hábil músico cujo talento lhe proporcionara vida abastada, obteve a mão da viúva Bérard, que se tornou assim Sra. Nicolas. Aliviada por algum tempo com o novo casamento, o infortúnio voltou a visitá-la. Em decorrência de uma abstrusa legislação, vários teatros novaiorquinos foram fechados, com o que desapareceu a principal fonte de recursos do marido. Fiel à sua senhora, no entanto, Toussaint estendeu a ele o seu amparo.

A tarefa desse hábil cabeleireiro junto às senhoras da alta sociedade não se limitava aos cabelos. Durante o serviço, conversavam sobre vários assuntos, e em tudo ele respondia com acerto, fazia comentários judiciosos, e muitas passaram a tomá-lo como conselheiro, pedindo-lhe a opinião sobre problemas pessoais delicados. Algumas chegavam a ir à residência dele quando, surpreendidas por algum problema novo, precisavam receber com urgência uma solução judiciosa. Desse modo ele exercia uma influência harmonizante e benfazeja.

Riqueza de sentimentos na vida de Toussaint

Toussaint e sua esposa Juliette Noel

A riqueza de sentimentos de Toussaint chega quase ao inimaginável, e a seguir veremos mais alguns exemplos.

O trabalho possibilitava-lhe acumular recursos, e poderia adquirir com eles sua própria liberdade. No entanto, sempre modelar na sua abnegação, preferiu continuar na condição de escravo e comprar a liberdade da própria irmã, que com ele viera de São Domingos. Só adquiriu a liberdade muito depois, em 1807, aos 41 anos. Em julho daquele ano a Sra. Nicolas, pouco antes de morrer, fez questão de, em comum acordo com o esposo, conceder-lhe a alforria.

Uma parte da família Bérard se tinha dispersado na Europa, com a Revolução Francesa. Depois, quando cessou o Terror e os emigrados começaram a voltar, Toussaint envidou esforços para saber se esses entes queridos sobreviviam, onde e como. Seu contentamento foi enorme quando, por meio de uma senhora francesa de passagem por Nova York, a quem ele fora atender, tomou conhecimento de que Aurora Bérard, irmã de seu antigo senhor e sua madrinha de batismo, não havia morrido, como supunha, mas vivia em Paris. Ela lhe escreveu uma primeira carta, tão logo soube suas notícias, e ele respondeu enviando-lhe junto uma dúzia de lenços de Madras, altamente apreciados pelas damas francesas da época. Foi longa a correspondência dele com a madrinha, e só cessou com a morte desta em 1834. O primogênito do casal Bérard, que também vivia em Paris, foi objeto dos desvelos epistolares de Toussaint.

Mas a vida de todos os homens é sacudida por tufões, que não faltaram na existência de Toussaint. Um deles foi uma brusca mudança na moda dos penteados femininos, que se tornaram muito mais simples, dispensando os seus serviços profissionais. Isto poderia ter representado para Toussaint uma completa derrocada. Contudo, muito habilidoso e jeitoso, ele não se deixou abater. Criou logo um escritório de empregos para domésticas. E a sua influência pessoal era tão grande, que as candidatas a empregos e as casas à procura de empregadas afluíram em torno dele. Com este novo trabalho, que exerceu com o mesmo primor dedicado ao primeiro, prosseguiu mantendo a si mesmo e à sua ama. Mesmo prestando ainda seus serviços ao Sr. Nicolas, manteve também o seu próprio lar, pois se casou em 1811 e foi marido exemplar. A morte da esposa em 1851, dois anos antes dele, foi um golpe do qual nunca se refez inteiramente. A partir dessa ocasião sua saúde começou a decair.

O amor às desigualdades sociais rejeita o marxismo igualitário

Toussaint l’Ouverture, chefe revolucionário do Haiti na época em que Pierre Toussaint ainda era escravo.

Estes fatos são uma verdadeira epopeia de dedicação da alma católica aos familiares e aos patrões. Epopeia realizada de modo tão dedicado, e ao mesmo tempo tão brilhante, que a torna um verdadeiro romance, muito inocente e muito atraente. Mas a vida dele contém muito mais elementos próprios a nos atrair a atenção e servir de tema para altas reflexões de caráter moral. Tudo isto o leitor encontrará, lendo detidamente esta biografia editada pela Western Hemisphere Society, e refletindo sobre o seu significado moral. Sinceramente lhe aconselhamos que o faça.

Apresenta-se também aos nossos olhos uma reflexão capital, que é a antítese fulgurante entre Toussaint e o igualitarismo radical moderno, do qual o comunismo foi uma característica expressão. Tendo nascido na dura condição de escravo, atingido ainda muito jovem pelas labaredas de uma revolução social que o incitava a revoltar-se contra seus donos, ele teria tido fáceis meios para se libertar desse jugo. Bastar-lhe-ia ter aderido ao movimento revolucionário, chefiado com êxito por um homônimo seu, Toussaint l’Ouverture. Foi este uma prefigura do tão censurável Fidel Castro, que conduziu a revolução social e política em Cuba até os últimos extremos. Depois de décadas de uma cruel ditadura, ainda mantém na miséria e sob os ferros de cativeiro a população da Ilha [este texto é de 1992], outrora evangelizada pelo grande Santo Antônio Maria Claret e merecidamente qualificada, por suas belezas naturais, como a Pérola das Antilhas.

O comunismo é ateu, mas Toussaint era modelo de homem católico e piedoso, fiel a toda a doutrina católica, apostólica, romana, e cumprindo fervorosamente os Mandamentos.

A Revolução comunista é fundamentalmente igualitária e prega o ódio contra todos os superiores, mas Toussaint foi paradigma do homem de espírito hierárquico, amou seus superiores segundo preceitua o IV Mandamento: “Honrar pai e mãe”.

O brado de revolta do comunismo poderia perfeitamente condensar-se na exclamação de revolta de Satanás – “Non serviam” [Não servirei] – mas a vida de Toussaint resume-se nesta atitude digna do inimigo de Satanás, São Miguel Arcanjo: Ele serviu.

Toussaint serviu aos seus familiares, serviu aos seus patrões, serviu aos seus clientes, serviu a todos a quem pôde fazer bem, e o fez larga e generosamente. A quem menos ele serviu foi a si próprio. Seu espírito abnegado e generoso era bem exatamente o contrário do feroz egoísmo que Marx procurou insuflar em cada um de seus seguidores.

As desigualdades sociais, fundamentadas por S. Tomás de Aquino

São Miguel Arcanjo resistiu ao brado de revolta de Satanás e proclamou a santidade e perfeição de um universo fundamentalmente desigual, como é o dos Anjos. ( Virgem do Apocalipse – Miguel Cabrera (1750). Museu Nacional de Arte do México, Cidade do México).

Nesta época, Toussaint se apresenta como um homem que, tendo embora poucas letras, penetrava muito bem o espírito da Igreja Católica: diante das desigualdades sociais, aceitava a doutrina de São Tomás de Aquino; a qual, muito resumidamente, afirma que as desigualdades harmônicas e ponderadas não são um mal. Pelo contrário, são um bem. São uma condição de ordem, nesta Terra como no Céu. O grande Doutor da Igreja ensina que, ao proceder à criação do universo, Deus era necessariamente movido pelo propósito de fazer desse universo um reflexo de suas próprias perfeições. Porém, sendo as perfeições divinas múltiplas e infinitas, seria impossível haver uma só criatura refletindo todas essas perfeições ao mesmo tempo. Por esta razão Ele deu o ser a várias criaturas, cada qual incumbida de refletir aspectos de sua perfeição.

Nas criaturas, as perfeições comportam vários graus, e por meio de perfeições graduadas as criaturas refletem melhor a perfeição absoluta que é Deus. Nessas condições, os homens — e também os Anjos, aliás — foram criados desiguais, pois a desigualdade é uma condição para que possam refletir a perfeição de Deus. Afirma o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, na Suma Teológica:

“Nos seres naturais, vemos que as espécies são ordenadas com graus de perfeição: assim, os compostos são mais perfeitos do que os elementos; as plantas mais perfeitas que os minerais; os animais, mais do que as plantas; os homens, mais que os outros animais; e em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. Sendo, pois, a divina sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo, também será causa da sua desigualdade. Pois não seria perfeito o universo se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade (Suma Teológica I, q. 47, a. 2).

Assim, as criaturas são necessariamente múltiplas. E não apenas múltiplas, mas também necessariamente desiguais. É essa a doutrina do Santo Doutor:

Muitos bens finitos são melhores do que um só, pois eles teriam o que tem este, e ainda mais. Ora, é finita a bondade de toda criatura, pois é deficitária em relação à infinita bondade de Deus. Logo, é mais perfeito o universo havendo muitas criaturas, do que se houvesse um único grau delas. Ao sumo Bem toca fazer o que é melhor. Logo, era-Lhe conveniente fazer muitos graus de criaturas.

“Ademais, a bondade da espécie excede a do indivíduo, como o formal excede o material; logo, mais acrescenta à bondade do universo a multiplicidade das espécies, do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. Por isso, à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos, mas haver diferentes espécies, e por conseguinte, diferentes graus de coisas” (Suma contra os gentios, Livro II, cap. 45).

Profunda e admirável lição para os homens contemporâneos

Sepultura de Pierre Toussaint na cripta da Catedral de São Patrício, em Nova York

Os anjos rebeldes se levantaram contra Deus depois de terem cobiçado a igualdade absoluta, no momento mesmo em que o Criador lhes revelou a Encarnação do Verbo. Ficou então clara para eles a superioridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que além de Deus seria também Homem, uma criatura. Na posição oposta, São Miguel Arcanjo resistiu ao brado de revolta de Satanás e proclamou a santidade e perfeição de um universo fundamentalmente desigual, como é o dos Anjos. Intrinsecamente, portanto, a desigualdade não é um mal. Ela é um bem. E a igualdade absoluta, pelo contrário, é um mal.

Cardeal Spellman coloca placa no túmulo de Pierre Toussaint

Profunda e admirável lição para os homens contemporâneos que, em sua grande maioria, tantas vezes são penetrados pelo espírito da igualdade completa, ainda mesmo quando não a pratiquem em suas ações. E que, tantas e tantas vezes, se revoltam contra aqueles a quem devem amor, respeito e obediência: seus pais, mestres, patrões e demais pessoas constituídas em autoridade nas esferas política, social e econômica.

Bem entendido, essa apologia da desigualdade não importa em elogiar todas as desigualdades, devemos recusar as injustas. No que diz respeito aos direitos inerentes à natureza humana, e que tocam a todo homem como homem, todos são iguais, pois todos são homens. Mas, na medida em que os homens são acidentalmente desiguais, é preciso respeitar essas desigualdades, amá-las e servi-las. Essa é a grande lição que recebemos de Pierre Toussaint, e cuja meditação e imitação recomendamos a todos os leitores da presente obra.

Em nosso continente, em que tantas vezes as lutas raciais têm trazido discórdias e divisões lamentáveis, esse grande exemplo, que ajuda os católicos a reverenciar um negro tão digno de todo o seu respeito e amor, contribui para apagar as discórdias e as desconfianças mútuas entre as raças, e a consolidar assim a concórdia entre todos os americanos.

Em suma, a vida de Toussaint foi um reflexo remoto, mas luminoso, do preceito enunciado por São Pedro, que mandava aos escravos de seu tempo obedecerem aos seus senhores, não só quando dignos de respeito e afeto – como seria o caso da Sra. Bérard – mas até quando têm caráter difícil: “Servi, subditi estote in omni timore dominis, non tantum bonis et modestis, sed etiam dyscolis” (1 Pt 2, 18).

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ENCANTOS DA RAÇA NEGRA

Negros livres, na Ilha de São Domingos, 1770 – Agostino Brunias (1728 – 1796). Coleção Yale Center for British Art, New Haven, Connecticut (EUA).
  • Plinio Corrêa de Oliveira1

A raça negra certamente foi beneficiada pelo fato de missionários católicos exercerem na África seu apostolado e terem convertido à verdadeira Fé muitas pessoas. Também o deslumbramento produzido pela civilização ocidental levou número considerável de africanos a abandonar hábitos milenares censuráveis e adotar estilo de vida menos distante de uma conversão.

O encanto da tulipa negra

Poder-se-ia fazer poeticamente a seguinte pergunta: no conjunto das flores que Deus criou, pode-se conceber uma flor preta? Que relação ela teria com as harmonias do universo?

Alguns pequenos fatos ocorridos em minha vida, mas com significado simbólico, ilustram o encanto que se pode discernir na cor preta e na raça negra.

Certa vez, passeando de automóvel em Paris, atravessei alguns bairros periféricos e encontrei numa loja, exposto numa vitrine, um vaso com tulipas. O bonito e pitoresco vaso — com aquela nota picante que só os franceses sabem dar — continha uma tulipa negra, e em torno dela tulipas de vermelho cor de sangue, de amarelo próximo a dourado e brancas. O conjunto formava uma policromia em que a cor preta era a nota firme, dando encanto a todo o resto. Isso fez-me lembrar da raça negra.

Um “livro” africano com encadernação francesa

Não posso me esquecer também da noite que, numa de minhas viagens à Europa, tive de passar em Dakar (capital do Senegal), devido à escala do avião. Minha grande recompensa foi ver os negros. Dakar é uma grande cidade. Sob influência da França, modelou-se muito, sem deixar de ser uma grande cidade negra.

Fui visitar um parque, ao lado de companheiros de viagem. Observando certo movimento repentino das pessoas, percebi que uma celebridade estava chegando. Realmente, uma mocinha preta como ébano, de uns 18 a 20 anos, portanto na flor de sua juventude, vinha cercada por um grupo de outros negros. Correspondia ao que poderia ser uma filha ou sobrinha do Bem-aventurado Pierre Toussaint.

Estava vestida de tal modo, que espero nunca me esquecer. Um cor-de-rosa muito mimoso, muito leve, com panejamentos abundantes e um turbante da mesma cor. Portava também miçangas com vidros coloridos, que ela sacudia – um modo indireto de chamar a atenção. Era um “livro” africano com encadernação francesa…

A moça tinha aprendido maintien (atitude ereta do tronco e da cabeça). Seus modos não eram altivos, mas dignos e distintos, com desembaraço. Seu modo de sorrir afável, mas mantendo distância, pareceu-me bem moralizado. Em torno de si, mantinha uma atmosfera de gracejo leve e inocente, como uma brisa vinda do mar.

Prestei atenção nos outros negros que estavam andando por ali. Eram altos, bem constituídos e com fisionomia séria. Portavam na cabeça um chapeuzinho em forma de cone truncado, chamado fez. Eram de um vermelho escuro, alguns deles ostentando no alto um pompom preto.

Os senegaleses usavam duas peças de roupa: túnicas de cores diferentes, muito discretas, que iam do alto do pescoço até as plantas dos pés; e por cima delas uma espécie de colete sem mangas, como cobertura para o tronco, que não era fechada na frente e tinha aberturas bem grandes para deixar passar os braços. Toda essa indumentária comunicava-lhes uma atitude evocando um tanto a de um professor catedrático de uma grande universidade, como também a de janízaros.2

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Isto posto, e aproximando essas imagens de muitas outras semelhantes que admirei ao longo da vida, o que podemos concluir sobre a raça negra? Em certas circunstâncias e ocasiões ela manifesta grande capacidade de expressão. Não é tanto a expressão da palavra, mas sim do porte, do movimento, do gesto, do riso e da compenetração, que lhe dá um poder próprio a causar inveja a muitos povos brancos. Eu seria tentado a dizer que causaria inveja a todos, mas excetuo de boa vontade os que queiram se excetuar.

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  1. Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 31 de maio de 1991. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.
  2. Corpos de infantaria regular do exército turco, que constituíam a guarda dos sultões. Foram criados pelo Vizir Halil Pacha durante o reinado do Sultão otomano Murat (13l9-1389).