
Padre David Francisquini
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 903, abril/2026
Pergunta — Li recentemente que o Bispo de Compostela, na Espanha, convidou o Pe. Andrés Torres para dar uma palestra em seu Seminário no dia da festa de Santo Tomás de Aquino. Ora, a notícia dizia que esse teólogo é conhecido por afirmar que a Ressurreição não foi um “milagre” nem um fato empírico acessível aos métodos da historia científica, mas uma mera “experiência de fé” subjetiva dos Apóstolos e dos discípulos. Segundo ele, as narrativas do Novo Testamento não deveriam ser tomadas ao pé da letra e uma eventual descoberta do cadáver de Jesus não seria incompatível com a fé católica. O que o senhor acha dessa tese, que parece estar cada vez mais difundida?
Resposta — Agradeço a pergunta, porque a questão proposta não é meramente acadêmica: toca o coração da fé cristã. É infelizmente verdade que hoje está cada vez mais difundida em certos ambientes teológicos a tese de que a Ressurreição foi um acontecimento transcendente e meta-histórico, que se deu num plano metafísico, e que, portanto, se no Sepulcro houvesse instalada uma câmara, ela não teria registrado nada.
Essa posição é absolutamente inaceitável, tanto do ponto de vista teológico quanto histórico. Ela se apresenta como sofisticada, mas repousa na realidade sobre pressupostos filosóficos frágeis, além de reinterpretar seletivamente os dados do Novo Testamento.
É dogma da fé católica que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dos mortos em estado corporal glorificado, para a vida eterna. É o que a Igreja professa explicitamente no Credo: “Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras”. Segundo o ensinamento dogmático, o Verbo reuniu novamente, numa única natureza humana, as duas partes de sua santíssima humanidade — o Corpo e a Alma — que haviam sido separadas pela morte na Cruz, permanecendo, contudo, ambas sempre unidas à sua divindade durante o repouso no Sepulcro. Ao mesmo tempo em que as reuniu, Ele as glorificou, inaugurando assim a condição gloriosa e imortal do seu corpo ressuscitado.
A fé pascal dos discípulos teve, portanto, um fundamento histórico real — eles viram e tocaram o Ressuscitado —, mas não se reduziu a uma experiência puramente natural: foi uma graça concedida em relação a um fato sobrenatural, e não a um simples objeto de experiência sensível comum. Com efeito, Jesus havia anunciado a sua Ressurreição não apenas de modo genérico, mas explicitamente “no terceiro dia” (Mt 12,40; 20,19; Mc 8,31; 9,30; 10,34; 15,29; Lc 13,32; 18,33; Jo 2,19; 16,16-22).
Os Apóstolos constataram o cumprimento dessas profecias tanto pelas aparições quanto pelo sepulcro vazio, cuja realidade foi reconhecida até pelos próprios judeus, ainda que procurassem dissimulá-la (Mt 28,11-15). Nas aparições, os discípulos tiveram uma experiência repetida, visível e palpável do Senhor que vivia de uma vida nova — basta recordar o episódio de São Tomé.
Não eram exaltados nem crédulos ingênuos, mas homens realistas, inicialmente céticos e pessimistas, que não haviam compreendido as profecias, tinham abandonado uma causa que julgavam perdida e retomado o seu modo de vida anterior. Foram, de fato, lentos para crer; contudo, os acontecimentos da Páscoa, e mais ainda os de Pentecostes, os transformaram completamente. Apesar das ameaças, passaram a pregar com coragem o Crucificado e o Ressuscitado, diante de judeus e pagãos, a ponto de fazer desses acontecimentos o próprio fundamento do cristianismo: “Se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé” (1Cor 15,17).

Falácias dos que afirmam que a Ressurreição não é um fato empírico
Os teólogos racionalistas que defendem a posição referida pelo consulente costumam em geral apoiar seus argumentos em quatro grandes linhas.
O primeiro argumento é o caráter transcendente do evento pascal. Segundo eles, a Ressurreição pertence à ordem do mistério divino e, portanto, não pode ser reduzida a um acontecimento verificável nos moldes da história empírica. Argumenta-se que a ação de Deus que glorifica Cristo ultrapassa radicalmente as categorias da observação histórica. Assim, falar de “provas empíricas” da Ressurreição seria uma inadequação metodológica, pois a fé não nasce da constatação científica, mas do testemunho e da Revelação. (Com efeito, a Ressurreição não é um fenômeno natural repetível nem um objeto de experimentação. Ela é, por essência, um ato soberano de Deus, mas nem por isso deixa de ser um fato real).
O segundo argumento é dizer que acreditar literalmente nos relatos de contato físico com o Ressuscitado — tocar, ver as chagas, comer com Ele — equivaleria a imaginar uma simples reanimação biológica, semelhante ao retorno à vida terrena. Ora, a fé cristã sempre afirmou que Cristo ressuscitou em estado glorioso, não retornando à condição mortal anterior. Logo, insistir na materialidade das aparições seria, segundo essa tese, um empobrecimento teológico do mistério.
O terceiro argumento é de caráter crítico-literário. Afirma-se que os Evangelhos são textos teológicos, não reportagens jornalísticas modernas. As narrativas pascais, portanto, deveriam ser lidas como formulações de fé da comunidade primitiva, expressando a convicção de que Jesus vive em Deus, e não necessariamente como descrições literais de encontros físicos. As diferenças que se encontram entre os diferentes relatos (locais, sequências, detalhes) seriam um indício de elaboração teológica progressiva, não de registro estritamente factual.
Finalmente, é arguida uma hipótese psicológica e existencial: as “aparições” poderiam ser compreendidas como experiências transformadoras de fé dos discípulos após a morte traumática de Jesus. Não se trataria de fraude deliberada, mas de vivências espirituais intensas que foram posteriormente expressas em linguagem narrativa concreta. Nesse sentido, “ver o Ressuscitado” significaria experimentar interiormente sua presença viva, e não necessariamente percebê-lo com os sentidos corporais.
Na aparência, são alegações muito fortes. Mas quando são examinadas de perto, suas limitações se tornam evidentes.
Refutação das falácias
O primeiro grande problema da tese não-empírica é que ela entra em choque direto com aquilo que dizem claramente os próprios textos. O Novo Testamento não apresenta a Ressurreição como uma mera intuição espiritual, mas como um acontecimento testemunhado, não apenas por uns poucos, mas por muitos.
São Paulo conta que Cristo “apareceu a Cefas e, em seguida, aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já morreram)” (1 Cor. 5-6). Além do mais, a linguagem dos Evangelhos é insistente ao fornecer detalhes — ver, ouvir, tocar, comer juntos — que não são acidentais, mas fundamentam a pregação apostólica.
Se a intenção dos autores fosse transmitir apenas uma convicção interior de fé, seria desnecessário insistir na corporeidade do Ressuscitado. A ênfase repetida na tangibilidade não é ingênua; é apologética. Ela responde precisamente à suspeita de que os discípulos teriam visto apenas um fantasma ou tido uma experiência subjetiva.
A objeção de que uma Ressurreição corporal implicaria mera reanimação do cadáver revela um grave erro conceitual. A tradição cristã distingue claramente entre ressuscitação (como a de Lázaro) e Ressurreição gloriosa. O corpo de Cristo é o mesmo, mas transformado: não mais sujeito à corrupção, às limitações espaciais ordinárias ou à morte. Portanto, afirmar que os discípulos puderam ver e tocar o Ressuscitado não O reduz a um cadáver revivificado; antes, confirma que a identidade pessoal de Jesus permaneceu, ainda que transfigurada. Negar a corporeidade para preservar a transcendência equivale a criar um falso dilema.
A hipótese de experiências interiores enfrenta dificuldades históricas sérias. Em primeiro lugar, como já dissemos, os relatos não descrevem discípulos predispostos a visões entusiásticas, mas homens incrédulos, temerosos e desorientados. Em segundo lugar, as aparições são múltiplas, variadas e, em vários casos, coletivas. Em terceiro lugar, produzem uma transformação radical: do medo ao testemunho público, até o martírio. Explicar tal conjunto apenas por processos psicológicos exige suposições mais complexas do que aceitar a realidade objetiva das experiências relatadas.
Mesmo quando se admite que a Ressurreição transcende a verificação científica, permanece o fato de que a fé pascal surgiu em um contexto histórico concreto, com um túmulo conhecido e uma mensagem proclamada publicamente em Jerusalém. A pregação apostólica não dizia apenas “Jesus vive em nosso coração”, mas “Deus o ressuscitou”.
Essa formulação aponta para um evento real, não meramente simbólico. Se a Ressurreição fosse apenas uma experiência subjetiva, seria difícil explicar por que a pregação se centrou tão fortemente em um acontecimento objetivo e por que os opositores não simplesmente exibiram o corpo.
Há também uma anomalia metodológica grave: muitas leituras críticas aplicam um ceticismo extremo apenas aos elementos milagrosos, enquanto aceitam sem dificuldade outros fatos históricos antigos baseados em fontes menos numerosas ou menos próximas dos eventos. Isso revela que, frequentemente, a recusa da historicidade da Ressurreição não nasce de critérios históricos neutros, mas de preconceitos racionalistas.

Um esclarecimento necessário
É óbvio que a Ressurreição não é um fato empírico no sentido de um fenômeno observável por qualquer pessoa em condições controladas, como se faz num laboratório. Mas isso não significa que seja destituída de dimensão histórica ou sensorial. Ela é um evento histórico singular, testemunhado por pessoas concretas, ainda que transcendente em sua natureza.
Negar qualquer acessibilidade histórica ao evento equivale, na prática, a deslocá-lo para o puro simbolismo. E isso tem consequências graves: se a Ressurreição não envolve uma intervenção real de Deus na História, o Cristianismo deixa de ser a proclamação do principal acontecimento da Redenção — Vida, Paixão, Morte e Ressurreição do Filho de Deus — e torna-se apenas uma interpretação mítica da morte de um profeta.
Consequências teológicas de uma Ressurreição “não literal”
Assim sendo, a gravidade da negação sobe de patamar, porque a questão deixa de ser apenas exegética e passa a ter consequências dogmáticas enormes. Se as aparições de Nosso Senhor relatadas nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos não envolveram encontros reais com Jesus Cristo vivo, então:
— a continuidade entre o Jesus histórico e o Ressuscitado torna-se ambígua;
— a Encarnação perde sua culminação histórica concreta;
— a Redenção pelo sofrimento corporal, até a última gota do Preciosíssimo Sangue, é enfraquecida;
— a esperança na ressurreição dos corpos perde seu fundamento exemplar.
Além disso, a espiritualização excessiva da Ressurreição aproxima perigosamente a teologia católica de concepções gnósticas, nas quais a salvação é puramente espiritual e o corpo tem relevância secundária.

Avaliação final da tese heterodoxa
Sob o pretexto pastoral de tornar a fé “aceitável” ao homem moderno, as teses heterodoxas pagam um preço altíssimo: a diluição até a negação prática de um acontecimento central do Cristianismo. Em vez de proteger o mistério da Ressurreição, acabam por esvaziá-lo. Sob o pretexto de evitar o “biologismo”, caem no puro simbolismo. Em vez de aprofundar a fé, a tornam ambígua.
A Ressurreição, tal como testemunhada pela tradição apostólica, não é uma simples reanimação biológica nem uma metáfora religiosa. É um milagre real, histórico e transcendente: o mesmo Jesus que foi crucificado entrou em uma vida gloriosa, mantendo sua identidade pessoal e corporal, ainda que transformada.
Negar sua dimensão objetiva sob o pretexto de salvaguardar sua transcendência é um erro teológico grave: Deus age realmente na História, e não apenas na interioridade subjetiva dos crentes, como pretende o teólogo objeto da pergunta e não poucos dos seus colegas que ensinam aberta ou veladamente as mesmas heresias modernistas em seminários e faculdades.
Essas teorias devem, portanto, ser rejeitadas — não por apego a um suposto “literalismo exegético” desinformado, mas por fidelidade ao núcleo da pregação apostólica, ao testemunho constante dos primeiros cristãos e à notável coerência histórica dos relatos pascais. Rejeitam-se, sobretudo, por adesão respeitosa e filial à integridade da doutrina da Ressurreição, tal como a Tradição a transmitiu, com continuidade e clareza, de geração em geração.
Um sucedâneo de fé pascal sem Ressurreição real pode soar mais aceitável à sensibilidade racionalista moderna, mas deixa de ser a fé apostólica necessária à salvação, inseparável do Batismo.
Peçamos, enfim, ao Imaculado Coração de Maria — que, como diz a sua ladainha, exultou na Ressurreição de seu Filho — a graça de uma fé firme e inabalável neste mistério central da nossa Religião. E que essa fé seja acompanhada por uma esperança sólida: a de que, após o fim do mundo e já revestidos de imortalidade, possamos contemplar e adorar eternamente Aquele que, tendo verdadeiramente ressuscitado, venceu a morte para sempre.