Edward Elgar, inglês compositor de Pompa e Circunstância, era católico convicto

  • Plinio Maria Solimeo

A Inglaterra talvez seja hoje o único país do mundo que ama e cultiva suas tradições milenárias e as realiza com toda pompa e esplendor. Basta assistir ao filme da coroação da Rainha Elizabeth e, mais recentemente, à de seu filho Charles, para constatar que lá ainda perduram ritos e cerimônias oriundas às vezes desde a Renascença, apesar de todos os apelos da modernidade.

Esse amor à continuidade e à tradição muito influenciou naquele país os mais destacados artistas de cada época, fazendo surgir verdadeiros gênios nos vários campos da arte. Para falar só em músicos célebres, na Inglaterra da Renascença surgiu compositor e organista William Byrd (1540-1623) [foto ao lado] que, mesmo sendo católico convicto e praticante, por causa de sua genialidade nunca foi molestado pela ímpia Rainha Isabel I. Byrd escreveu para quase todos os instrumentos e sua música muito influenciou a época em que viveu.

         Dando um salto para chegar até quase nossos dias, em meados do século XIX e na segunda trintena do século XX, nesse país tão bem dotado artisticamente apareceu outro gênio musical: Sir Edward William Elgar (1857-1934) [foto ao lado] que, com sua mais conhecida obra, Marchas de Pompa e Circunstância, composta em 1901, adquiriu fama mundial.

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Católico convicto

Edward Elgar, filho de um afinador de pianos e organista na igreja católica em Worcester High Street, tendo passado sua infância e parte da adolescência rodeado de música e instrumentos musicais na loja do pai em sua cidade, com esse background musical na cabeça, aos 16 anos ouviu o apelo da música e nela se enveredou. Com o tempo, depois de ler muito livros sobre composição musical, de ter assistido com muita atenção a concertos e apresentações musicais e estudado partituras de obras de músicos famosos, progrediu tanto na parte teórica e prática da música que, sem precisar passar por conservatórios, se tornou um verdadeiro autodidata. Isso lhe permitiu depois compor uma gama muito variada de obras, algumas das quais tiveram repercussão mundial.

Para se familiarizar mais com os instrumentos musicais, resolveu aprender a tocar piano e violino. E dominará tão bem o segundo que, em 1932, comporá um Concerto para violino. Para gravá-lo, recorreu a um jovem e talentoso violinista, Yehudi Menuhin, quem, apesar de que na época ter apenas 16 anos, já prometia se tornar o virtuoso de fama mundial desse instrumento.

Casamento na Igreja Católica

         Bem antes de Edwardse tornar famoso, em maio de 1889 ele se casou aos 29 anos com Caroline Alice Roberts, sua antiga aluna de piano, filha do Major-General Sir Henry Gee Roberts, oficial do Exército. Esse casamento se realizou apesar da oposição de duas tias da noiva, as quais alegavam que Caroline era oito anos mais velha que o noivo, que este era de uma extração bem mais baixa que a dela, e, sobretudo, era católico e ela anglicana. Não fazendo caso dessas objeções, Caroline se casou e o fez numa Igreja Católica. Entretanto, permaneceu anglicana até a morte. 

 Os Elgars passaram a residir em Londres, por ser o centro da vida musical inglesa. Após algum tempo, constataram que não podiam subsistir apenas com o trabalho de compositor de Edward, que então lhe rendia muito pouco. Por isso ele teve que retomar as aulas particulares de música.

Em 1890 sua esposa deu à luz à única filha do casal, Carice Irene, que se casará em 1922 com Samuel Henry Blake, não constando que tenham tido posteridade. 

Contudo, Edward continuava compondo e algumas de suas obras chegaram a ter moderado sucesso. Mas aos poucos, durante a década de 1890, ele foi adquirindo uma sólida reputação como compositor, especialmente por causa de suas obras vocais para os festivais das Midland. Embora seu sucesso fosse ainda relativo, foi o suficiente para ele conseguir um lugar como editor musical.

Primeiros grandes sucessos

Em 1899, aos 42 anos, Edward Elgar compôs seu primeiro grande trabalho orquestral, as Variações Enigma, conjunto de variações com uma só melodia, cada uma dedicada a um membro de sua família ou a amigos, desde sua esposa ao seu editor. Essa obra nunca perdeu a popularidade. Estreada em Londres sob a direção do famoso maestro austro-húngaro Hans Richter, entusiasta admirador do compositor, recebeu o aplauso geral, pelo que ele passou a ser considerado o compositor britânico mais conhecido da época. Este trabalho intitula-se Variations on an Original Theme (Enigma). O enigma está em que, embora haja 13 variações do tema original (‘enigma’), este nunca é ouvido. Especialmente a nona variação, chamada Ninrod, é de mais fácil compreensão. Essa peça se tornou uma das mais famosas e queridas de toda a música clássica.

Em 1900 estreou em Birmingham a versão coral que Edward Elgar fez do poema do Cardeal Newman The Dream of Gerontius. Nesse poema, muito lido na Inglaterra, o Cardeal narra a caminhada de uma alma piedosa desde seu leito de morte ao seu julgamento por Deus e condenação ao Purgatório.

Apesar da desastrosa estreia–porque o Coral era composto de amadores que não conseguiram cantar a música adequadamente e dois dos três solistas cantaram-na desafinadamente, ocorreu também que, com a súbita morte do maestro do coro, ele precisou ser substituído à última hora por William Stockley, músico idoso que não conseguiu dominar a música que ia reger. Tudo isso desgostou muito a Elgar.

Entretanto, depois de sua primeira apresentação em Londres, na catedral católica de Westminster [foto no topo], muitos críticos enxergaram muito além, e a obra se impôs na Grã Bretanha.

Um dos presentes a essa primeira apresentação em Westminster foi o condutor e meste de coro Julio Buths, que reconhecendo o mérito da obra, a verteu para o alemão e fez dela duas bem sucedidas apresentações em Dusseldorg, em 19 de dezembro de 1901 e em maio de 1902, ambas com a presença de Elgar. Tal foi o sucesso, que seu autor foi obrigado a subir 20 vezes ao estrado para receber os aplausos da assistência.

Marchas de Pompa e Circunstância

Em 1901 Elgar compôs sua obra mais conhecida, que lhe granjearia fama mundial: as Marchas de Pompa e Circunstância [Vídeo abaixo].

A chamada Marcha nº 1 em Ré Maior, a mais conhecida do conjunto, foi concluída, juntamente com a Marcha nº 2, naquele mesmo ano. O compositor as dedicou a seu melhor amigo, Alfred Rodewald, que as regeu em sua estreia com a Orquestra da Sociedade de Liverpool em 19 de outubro de 1901.

As duas marchas foram tocadas dois dias depois em um Concerto Promenade no Queen’s Hall, em Londres, regidas pelo maestro Henry Wood, então muito em voga . Elgar sabia que o público adoraria a melodia grandiosa no meio da Marcha nº 1, então dispôs que ela fosse tocada em segundo lugar.

O sucesso foi grande. Henry Wood narra em sua autobiografia que “as pessoas simplesmente se levantaram e gritaram. Tive que tocá-la novamente — com o mesmo resultado; na verdade, elas se recusaram a me deixar continuar com o programa […] apenas para restabelecer a ordem, toquei a marcha uma terceira vez”.

O tema central majestoso da marcha de Elgar foi reutilizado no ano seguinte na Ode da Coroação de Eduardo VII, que deveria ocorrer no dia 26 de junho. Como o futuro rei queria que fosse acrescentada uma letra à música, esta foi escrita pelo ensaísta e poeta A.C. Benson como Land of Hope and Glory. Entretanto, a coroação não se realizou naquele dia, porque o rei precisou ser operado de apendicite, mas somente em 9 de agosto desse ano de 1902, na Abadia de Westminster [foto ao lado]. Eduardo VII reinou até 1910, quando faleceu depois de nove anos de reinado.

Entretanto, Pompa e Circunstância, acompanhada da letra, foi cantada ainda no mês de junho por Clara Butt, famosa contralto dramática e uma das mais populares cantoras inglesas dos anos 90 do século XIX aos 20 do século passado.

 Desde então a melodia passou a ser cantada no Reino Unido sempre com Land of Hope and Glory. Nos Estados Unidos, uma versão instrumental do tema central é tradicionalmente tocada como marcha processional em cerimônias de formatura.

Para ilustração dos leitores, colocamos aqui a letra dessa música em inglês e português:

Inglês Português
Land of Hope and Glory
Mother of the free
How shall we extol thee
Who are born of thee
Wider still and wider
Shall thy bounds be set
God who made thee mighty,
Make thee mightier yet!
God who made thee mighty, Make theemightieryet!
Terra de Esperança e Glória
Mãe dos livres
Como é que vamos te louvar
Quem é nascido de ti
Ainda mais vasto e mais amplo
Teus limites devem ser definidos Deus que te fez poderosa,
Faça-te mais poderosa ainda! Deus que te fez poderosa, Faça-te mais poderosa ainda!

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Em 1908 Sir Edward Elgar compôs sua Sinfonia N. 1. Na época era largamente sabido que ele havia planejado compô-la10 anos antes. Por isso, quando ele finalmente anunciou a sua conclusão, suscitou enorme interesse entre os amantes de música. Essa foi uma de suas duas sinfonias completas. A primeira apresentação coube à Hallé Orchestra, conduzida por Hans Richter em Manchester, no dia 3 de dezembro de 1908. A recepção pela crítica foi entusiástica e a resposta do público semprecedentes. The Musical Times descreveu a obra como “um imediato e fenomenal sucesso”, com 100 apresentações na Inglaterra, Europa e América.

Em 1924 Edward Elgar foi nomeado pelo rei Jorge V “Master of the King’s Music” (Mestre de Música do Rei), e em 1931se tornou baronet, título concedido por patente real, que lhe obteve o tratamento de Sir e à sua esposa o de Lady Elgar.       

Esse é um título nobiliárquico hereditário da baixa nobreza (gentry) “fidalga”, ao contrário da nobreza superior (peerage), que tem assento automático na Câmara dos Lordes.

Preconceitos contra o compositor

         Contudo, apesar da fama e de seu mérito como compositor ter sido reconhecido mundialmente, Sir Edward Elgar se sentia um pouco estranho, tanto musical quanto socialmente. Pois enquanto seus concorrentes podiam gabar-se de formação acadêmica, ele se apresentava como autodidata. Ademais, num país de maioria anglicana, ele era católico. Elgar sentia também que, por suas origens humildes, era visto com certo desdém em certos círculos.

Seja como for, com a chegada da Primeira Guerra Mundial com todas suas consequências, a música de Elgar esteve um pouco fora de moda. Acresce-se a isso que, após ficar viúvo em 1920, ele pouco compôs.

Contudo, algum tempo antes de falecer, teve inspiração para compor seu magnífico e elegíaco Concerto para Violoncelo.

Como essa obra foi composta sob a influência do pós-guerra, responsável por tanta mudança no comportamento humano, o público começou a ter outas aptidões musicais. De maneira que sua primeira exibição foi desastrosa, pois Elgar e os músicos não tiveram o devido tempo ensaiá-la, não adquirindo ela notoriedade.

Isso só viria muito depois de seu falecimento, quando, na década de 1960, ela, pela magistral interpretação da violoncelista Jacqueline du Pré, essa composição teve uma ressurreição, que lhe trouxe um reconhecimento universal. A obra de Edward Elgar se tornou depois disso um best-seller.

O brilhante compositor faleceu no dia 23 de fevereiro de 1934, tendo sido sepultado no cemitério católico de St. Wulstan, em Little Malvern, Worcestershire, ao lado de sua esposa, em um túmulo familiar.