Comunismo e anticomunismo em uma hora decisiva da História

Lula da Silva e Hugo Chávez, visitam o canteiro de obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Com Chávez o bolivarianismo tornou-se uma religião civil, fundada no culto carismático do líder, na hostilidade aos Estados Unidos e na promessa de redenção social confiada ao Estado revolucionário. [Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr].
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  • Roberto de Mattei

Os momentos decisivos da História — aqueles em que civilizações entram em colapso e renascem — são sempre caracterizados por divisões e polarizações religiosas, culturais e sociais. No entanto, para aqueles que tomam como ponto de referência a obra De Civitate Dei (A Cidade de Deus), de Santo Agostinho, a raiz e a chave para a interpretação de cada problema reside na teologia da história, que nos permite ir além de uma leitura puramente contingente dos acontecimentos.

Nessa perspectiva, as crises não são simplesmente produto de fatores econômicos ou institucionais, e sim reflexo de uma tensão mais profunda entre diferentes visões da humanidade e do mundo.

Após o colapso da União Soviética em 1991, o Ocidente proclamou a morte do comunismo como se fosse um evento fisiológico e definitivo. Como consequência, o que sumiu rapidamentee se dissipou foi o anticomunismo. Não sumiu o comunismo, que apenas afundou como um rio cárstico, que desaparece da vista para ressurgir mais tarde com maior vigor.

Foi nesse contexto que em 1990, por iniciativa de Fidel Castro e Luiz Inácio Lula da Silva, foi fundado no Brasil o Foro de São Paulo — uma organização subversiva concebida para analisar a “crise do socialismo” após a queda do Muro de Berlim e reorganizar a esquerda internacional em uma nova plataforma ideológica. Fidel Castro reconheceu no coronel Hugo Chávez, presidente da Venezuela desde 2000, um verdadeiro “filho espiritual”, capaz de encarnar uma nova síntese de marxismo, nacionalismo e mito revolucionário.

Chávez se apresentou como o guardião do espírito de Simón Bolívar, reinterpretando a utopia do libertador em uma vertente socialista e anti-imperialista. O bolivarianismo tornou-se assim uma religião civil, fundada no culto carismático do líder, na hostilidade aos Estados Unidos e na promessa de redenção social confiada ao Estado revolucionário.

Após a morte de Chávez em 2013, seu legado foi assumido por Nicolás Maduro, que radicalizou seus aspectos ideológicos, transformando a Venezuela em um laboratório de socialismo pós-moderno, sustentado por forte repressão interna e pela manipulação sistemática de informações e resultados eleitorais.

Vladimir Putin, presidente da Federação desde 2000, reviveu o mito da “Grande Rússia”, propondo uma nova síntese entre o stalinismo e o passado czarista, resgatado como símbolo de uma missão imperial.

Durante os mesmos anos, na Rússia, oficiais da KGB, que haviam supervisionado a dissolução da União Soviética, mantiveram o controle do poder político, militar e econômico essencial do país. Vladimir Putin, presidente da Federação desde 2000, reviveu o mito da “Grande Rússia”, propondo uma nova síntese entre o stalinismo e o passado czarista, resgatado como símbolo de uma missão imperial.

A invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022 fez parte desse projeto, que visava não apenas a conquista de Donbass, mas também a russificação de todo o país, transformando-o em um estado vassalo como Belarus.

Na China, o Partido Comunista liderou a transição para um neocomunismo pragmático, que combinava um controle político rígido com a abertura econômica ao mercado ocidental. A entrada na OMC em 2001 consolidou essa estratégia: o comunismo renunciou à autarquia econômica, mas não ao seu monopólio ideológico e repressivo do poder. Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista e presidente da República Popular da China, apresenta-se como um defensor consistente dos princípios do maoísmo e do marxismo-leninismo.

Paralelamente, no início dos anos 2000, o marxismo islâmico emergiu no cenário internacional. Adotou no plano operacional as técnicas terroristas do leninismo; e no plano cultural, as estratégias do ‘gramscismo’, visando à desestabilização interna do Ocidente antes mesmo de sua conquista militar.

O chamado radicalismo islâmico representa uma contaminação da “filosofia do Alcorão” com a prática revolucionária marxista importada do Ocidente. A imigração em massa permanece uma das armas preferidas dessa estratégia, que na Itália encontrou uma de suas expressões mais recentes e marcantes nas violentas manifestações de rua anti-Israel.

Como negar a disseminação dos erros comunistas pelo mundo após o colapso da União Soviética? A força do neocomunismo, em suas diversas formas, não reside mais na promessa de um futuro radiante garantido pelas leis da história, mas em sua capacidade de interpretar e explorar as crises de um Ocidente em busca de sua identidade.

Nessa perspectiva, duas visões de mundo estão cada vez mais em conflito hoje, moldando uma verdadeira alternativa da civilização. De um lado estão aqueles que consideram o comunismo um fenômeno relegado à história; e identificam os Estados Unidos como o arqui-inimigo de nossa época, a personificação de um Ocidente considerado intrinsecamente depravado e a causa de todo o mal.

Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista e presidente da República Popular da China, apresenta-se como um defensor consistente dos princípios do maoísmo e do marxismo-leninismo.

Para essas pessoas, os “amigos” não são mais definidos por princípios compartilhados de verdade ou ordem moral, mas exclusivamente por sua oposição à América e à Europa. Assim, toda simpatia e admiração se dirigem a uma frente heterogênea, porém convergente, que abrange a Rússia, a China, o mundo islâmico radical, os hipernacionalismos de direita e de esquerda e os movimentos antiocidentais de todas as latitudes. Qualquer força que contribua para o enfraquecimento do Ocidente é absolvida ou justificada, independentemente de sua natureza totalitária ou abertamente anticristã.

De outro lado estão aqueles que acreditam na possibilidade de um renascimento cristão da Europa e do Ocidente. Estes não negam a profunda crise moral das sociedades ocidentais, mas rejeitam a ideia de que a solução resida em sua destruição ou subjugação a potências hostis. Nessa perspectiva, os Estados Unidos são vistos como uma presença historicamente necessária para garantir o espaço político, cultural e militar dentro do qual o renascimento ainda seja possível.

Para os defensores do Ocidente, o principal inimigo da civilização cristã continua sendo o comunismo, em suas muitas metamorfoses contemporâneas. Um comunismo que já não se apresenta com os símbolos explícitos do século XX, mas que age como um método de dissolução cultural, uma técnica para a conquista do poder e uma negação sistemática de toda ordem natural e transcendente.

Contra essa força proteiforme está em curso uma guerra híbrida, colocando os Estados Unidos e a Europa, apesar de todas as suas limitações, contra um eixo que engloba aqueles que lutam contra a ordem ocidental. Por muitos anos a Venezuela, liderada por Nicolás Maduro, esteve alinhada a essa galáxia agressiva ao lado da Rússia e da China. Esse contexto explica a divergência radical de opiniões a respeito da intervenção dos Estados Unidos, cujo objetivo era atingir a liderança venezuelana.

Alguns a criticaram duramente, denunciando-a como uma violação do direito internacional e considerando toda iniciativa americana como mera expressão de imperialismo; outros, porém, regozijaram-se com a eliminação de uma figura que, além de arruinar seu próprio país, reduzindo-o à fome e ao exílio em massa, utilizou todas as armas, inclusive o narcotráfico, para destruir a ordem natural e cristã das duas Américas.

Essa polarização entre duas famílias de almas não é um fenômeno secundário, e está destinada a piorar à medida que se intensifique a guerra híbrida em curso, pois atinge o nível mais profundo do juízo histórico e moral. Em última análise, a linha divisória reside na aceitação ou rejeição de uma teologia da história.

De um lado estão os que interpretam os eventos segundo categorias exclusivamente imanentistas, reduzindo tudo a relações de poder, interesses econômicos e dinâmicas geopolíticas. Do outro lado,os que interpretam a crise do nosso tempo à luz de uma visão sobrenatural da história, conscientes de que, por trás dos conflitos visíveis, trava-se uma verdadeira batalha religiosa. Aqui a profecia de Fátima (ainda não cumprida) continua a ressoar com toda a sua força: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo… Por fim meu Imaculado Coração triunfará”.