
Plinio Maria Solimeo
Com o avanço da técnica hoje já se pode acompanhar pela ultrassonografia o desenvolvimento de um feto ao longo de uma gravidez. O que possibilita saber-se não só o sexo da criança por nascer, mas se ela apresenta alguma anomalia como a síndrome de Down. Se isso ocorre, os médicos normalmente (e criminosamente) aconselham à gestante a abortar.
Por isso hoje, na Europa, cerca de 90% das gestações com diagnósticos de síndrome de Down são interrompidas. Ou seja, abortadas. Sendo que na Islândia, na Dinamarca e no Reino Unido essas taxas muitas vezes ultrapassam esses 90% dos casos diagnosticados. Nos Estados Unidos a taxa de interrupção após o diagnóstico é de cerca de 75%, mas varia de 61% a 93% dependendo da população pesquisada.
Por que uma maioria de pais prefere o aborto do feto com Down?
Alguém poderia perguntar: “Por que a maioria dos pais prefere assassinar a criança por nascer com síndrome de Down a ter um filho com essa síndrome?”
Não é difícil responder: A criança nascida com essa síndrome, na maioria dos casos, apresenta deficiência intelectual, atrasos no desenvolvimento e características físicas específicas, atraso também no desenvolvimento cognitivo e da fala, e exige estimulação precoce e apoio pedagógico. Além do que sua aparência não é de todo agradável.
Ora, perguntamos: se o aborto de um feto normal já é um pecado “que clama aos céus e pede a Deus por vingança” por ser um “homicídio voluntário”, o que não dizer desse homicídio perpetrado sobre um feto que, pela vontade divina, apresenta essa síndrome?
Uma feliz exceção: um casal de Piracicaba
Entretanto, há mães que se negam a matar o filho que está em suas entranhas com um aborto voluntário por ter síndrome de Down, aceitando todas as consequências que daí poderão advir.
Tal foi o caso do religioso casal Lopes, de Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. Quando a esposa, Tássia, pela ultrassonografia soube que seu bebê nasceria com síndrome de Down, apesar do conselho dos médicos para que abortasse, tanto ela quanto o esposo, confiando em Deus, se recusaram a isso e resolveram continuar a gestação até o fim prontos para o que desse e viesse.
E assim, para alegria dos pais, há 11 anos nasceu Miguel portando como previsto a síndrome de Down. Apesar de que, desde o nascimento o menino enfrentasse severas complicações, isso não o impediu de viver e crescer até os 11 anos cheio de alegria.
Coroinha com síndrome de Down
Tássia começou a levar Miguel desde pequeno à igreja que frequentava, Santa Rosa de Lima em Piracicaba. Esta paróquia foi criada em janeiro de 2011 por Dom Fernando Mason, hoje bispo emérito, desmembrando-se da de Sant’Anna. Santa Rosa tornou-se então para muitos dos seus paroquianos, segundo o comentário de Roberta Bissolli, o “lugar onde sentimos a presença de Deus, minha casa [e o] melhor lugar [para se estar”].
Nessa tão acolhedora igreja Miguel foi muito bem recebido pelos paroquianos.
Acontece que, apesar de suas limitações por causa da síndrome, desde muito cedo ele manifestou o desejo de ser coroinha.
Para atendê-lo foi preciso que a paróquia fizesse alguns ajustes, treinando seus catequistas de acordo com as necessidades de Miguel. Tássia acompanhou todo o processo, e a coordenadora da catequese, Jaci, também se esmerou em ampara-lo.
Desse modo Miguel pôde realizar seu sonho, e hoje ajuda à Missa, ajoelhando-se, rezando e com a patena na hora da Comunhão. Sua presença se tornou uma parte familiar e cheia de alegria nas celebrações da paróquia.
O valor do bom exemplo
Da. Tássia diz que uma amiguinha de Miguel [cujo nome ela não dá por discrição] não ia habitualmente à igreja. Mas sabendo que ele era coroinha, suplicou à mãe que com ela passasse a frequentá-la. Diz Da. Tássia: “Agora ela [a menina] ajuda na hora da coleta, e sua mãe se tornou catequista”.
O que prova como o bom exemplo sempre atrai. Pois, diz Da. Tássia, “com o tempo a presença de Miguel na paróquia encorajou outras famílias a retornar a ela. Algumas pessoas perguntam mesmo quando é que ele estará ajudando a Missa para assim também a assistirem”.
Para as mães que esperam que seus filhos se engajem mais na vida paroquial, Da. Tássia aconselha: “Isso começa em casa. E quando você vai à igreja, esteja pronta a ajudar. A empatia deve vir dos dois lados: necessitamos acolher as pessoas, mas também ajudar a preparar o caminho”.
Como parte desse esforço, ela criou um formulário intitulado “Quem Sou Eu?”, que entrega aos catequistas. O formulário explica como seu filho aprende e se comunica, para ajudar a melhor o entender a fim de acompanhá-lo melhor na catequese .