Santa Rosa de Viterbo, Virgem

Portadora de grave moléstia que deveria tirar-lhe a vida logo ao nascer, viveu, no entanto, 18 anos favorecida por graças místicas e dom dos milagres, dedicando-se também à pregação. Sua festividade é celebrada no dia 6 de março.

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  • Plinio Maria Solimeo

A vida desta santa tão incomum, à falta de dados oficiais e bem comprovados, baseia-se sobretudo nas Positio feitas para seus processos de canonização que não chegaram ao fim, as Vita Primi e a Vita Seconda, e em biografias de autores fidedignos que, por sua vez, se baseiam em antigas tradições que infelizmente não apresentam dados oficiais que comprovem os fatos narrados.

Vivendo por milagre

Santa Rosa nasceu numa data incerta do ano de 1234 na cidade de Viterbo, então uma comuna contestada dos Estados Pontifícios. Seus pais eram pobres camponeses ou, como afirmam outros, acomodados agricultores.

Um fato muito documentado em sua vida foi ter a menina nascido com uma doença raríssima, que deveria ter-lhe causado a morte em idade neonatal. Isto foi revelado durante o exame canônico que uma equipe, liderada por um professor da Faculdade de Medicina da Universidade G.D’Annuncio, fez em 1995 quando analisava o corpo incorrupto da santa. Essa doença, “Agnesia Total do Esterno”, provocava uma má formação da parede torácica que deixava o coração e os grandes vasos desprotegidos e cobertos de pele, e rarissimamente uma pessoa com essa doença chegaria aos 18-20 anos de idade. Entretanto, embora condenada a morrer muito cedo, Rosa conviveu com a doença, chegando aos 18 anos de idade.1

Aos quatro anos, primeiro milagre

Desde pequena, a vida de Rosafoi palmilhada com fenômenos místicos, como o de prever o futuro e operar milagres.

Assim, segundo a tradição, com apenas três anos de idade, ela transformava pães em odoríficas rosas.

Contudo, seu primeiro milagre tornado público, ocorreu quando tinha apenas quatro anos de idade, e foi operado em favor de sua falecida tia materna. Achando-se a menina ao lado do caixão em que jazia a defunta, movida por inspiração sobrenatural, chamou a tia pelo nome. Esta então ressuscitou no mesmo instante, em meio a todos os que estavam no funeral.

Como sua mãe trabalhava com as Irmãs Clarissas do mosteiro da cidade, desde muito cedo a pequena Rosa recebeu a influência da espiritualidade franciscana.

Aos sete anos ela já se devotava à oração e aseveras penitências.Com isso sua saúde declinou, e ela passou a ser acometida por violentas febres. Aos dez anos foi milagrosamente curada pela Santíssima Virgem, que lhe ordenou então que ingressasse na Ordem Franciscana e pregasse a penitência nas vias públicas.

Rosa queria se consagrar a Deus no Convento de Santa Maria das Rosas. Porém, as freiras a recusaram por ela não poder pagar o dote para sua entrada. A santa então lhes disse: “A donzela que repelis hoje, há de ser por vós aceita um dia com alegria, e a guardareis preciosamente.”E predisse que isso se daria depois de sua morte.

Em 1921 o corpo incorrupto da Santa foi levado em procissão para o Santuário de Santa Rosa (Mosteiro das Clarissas) em Viterbo, onde repousa até hoje.

Sua vida pública

         Rosa então fez-se terciária franciscana, passando a vestir o hábito composto de uma simples túnica com uma corda na cintura.Cumprindo o mandato da Virgem de pregar, começou a sair pelas ruas de Viterbo alçando um crucifixo, conclamando o povo a pedir perdão por seus pecados e a fazer penitência.

         A multidão que atraía era imensa. Durante suas pregações, muitas vezes ocorriam fatos milagrosos, como o de ela levitar, o que foi comprovado por milhares de pessoas, tendo a notícia corrido por toda a Itália. Esse milagre foi ocasião para a conversão de muitos pecadores empedernidos.

         Como em suas pregações Rosa insistisse na fidelidade ao Papa contra as pretensões do Imperador Frederico II, muitas vezes o povo, comovido por suas palavras, para mostrar sua adesão ao Sumo Pontífice, interrompiam-na e bradavam: “Viva a Igreja! Viva o Papa! Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Luta entre altar e trono

Com efeito, o século XIII, em que viveu Santa Rosa, foi muito conturbado na Itália devido às guerras que o imperador do Sacro Império Romano-Germânico,Frederico II, movia contra o Papado para apoderar-se dos Estados Pontifícios. Apesar de excomungado duas vezes, no entanto ele liderou a Sexta Cruzada. Esta, através de negociações com o sultão do Egito, al-Kamil, resultou na entrega de Jerusalém, Nazaré, Belém e Jaffa para o controle cristão por meio de um tratado de 10 anos concedendo, porém, livre culto para os muçulmanos no Monte do Templo.

Mais tarde, o Papa Inocêncio IV o destituiu no Concílio de Lião, e Gregório IX chegou a chamá-lo de Anticristo.

         Nessa luta entre o altar e trono,os partidários do Papa eram chamados Guelfos, e osdo Imperador, Gibelinos.

Ocorreu então que Frederico II invadiu a Toscana e entrou triunfalmente em Foligno e Viterbo, de onde pretendia partir para a conquista de Roma. Mas o cerco foi em vão, e ele teve que voltar para o sul da Itália.

Entretanto, em janeiro de 1250, Viterbo tomou partido por ele, revoltando-se contra o Papa.

Rosa, no entanto, se postou vigorosamente ao lado do Sumo Pontífice. Por isso, ela e sua família foram exiladas, refugiando-se em Soriano nel Cimino. Lá, no dia 5 de dezembro do mesmo ano de 1250, ela predisse a repentina morte do Imperador, profecia que se realizou no dia 13 de dezembro.

Com a restauração do poder papal em Viterbo no ano seguinte (1251), com a vitória dos Guelfos sobre as tropas do Imperador, a santa e sua família puderamretornar à cidade natal. Mas antes operou outro milagre, dando a visão a uma adolescente cega de nascença.

No caminho de volta do exílio, Rosa passou por Vitorchiano, cujos habitantes tinham sido pervertidos por uma famosa bruxa. Consta então que ela, para converter esse povo infiel, ficou durante três horas nas chamas de uma fogueira sem sofrer o menor dano. O milagre foi tão incontestável, que não só a população, mas também a feiticeira se converteu.

Vida post-mortem da santa

Coração incorrupto da Santa

Os poucos anos de vida que lhe restavam, asanta os passou no quarto (como uma cela de convento) que tinha na casa dos pais, onde morreu no dia 6 de março de 1252.

Seu corpo foi sepultado em terra nua no cemitério de Poggio. Seu processo de canonização foi aberto nesse mesmo ano por Inocêncio IV, e seu corpo foi encontrado incorrupto.

Inocêncio IV, tendo em vista as contínuas demonstrações de afeto e devoção dos viterbenses para com sua concidadã, em 4 de setembro de 1258 ordenou a transladação de seu corpo para o convento das Irmãs Clarissas. Assim se cumpria a profecia da santa. Depois dessa cerimônia,esse convento passou a chamar-se Convento de Santa Rosa.

Inocêncio IV quis que o translado das preciosas relíquias fosse feito em solene procissão pelas ruas da cidade. Ele mesmo presidiu a cerimônia, sendo o corpo de Rosa carregado por quatro cardeais seguidos da corte papal, autoridades, e da população em festa.

A partir de então, Viterbo passou a celebrar sua santa com três dias de festa, começando no dia 4 de setembro. Foi preferida esta data à de 6 de março, dia de sua morte.

Essas comemorações começavam sempre com uma procissão solene pelas ruas da cidade e de seu centro histórico. O enorme dossel que cobria as relíquias de Rosa era uma estrutura de madeira e tecidos que, todos os anos, tornava-se cada vez mais espetacular. Esse dossel ficou conhecido como “Máquina de Santa Rosa”, e de tal maneira essa comemoração ficou célebre, que recentemente foi incluída pela UNESCO no patrimônio mundial da humanidade.

         Durante a Idade Média, a “doce primavera da fé”, era tal a devoção a Santa Rosa de Viterbo, que seu corpo ficava exposto a fim de ser visto diretamente pela população, sendo permitido então aos devotos beijar-lhe as mãos.

Corpo incorrupto de Santa Rosa

Processos de canonização

Inocêncio IV foi o primeiro a iniciar um processo de canonização de Rosa, pouco depois de sua morte. Mas faleceu antes de promulgá-lo, e o processo não chegou a seu termo.

Seu sucessor, Alexandre IV eleito em 1254, ordenou que houvesse mais uma exumação do corpo de Rosa. Este foi encontrado ainda em perfeito estado de conservação, como se a santa tivesse acabado de morrer.

Os Papas Eugênio IV e Calisto III continuaram o processo, que ficou pronto em 1457. Porém, mais uma vez, com a morte de Calisto III, o decreto também não foi promulgado.

Por tudo isso, curiosamente, a canonização de Rosa nunca chegou a termo dentro dos trâmites exigidos. Porém, ela foi como que canonizada quando a Igreja mandou inseri-la como Santa no Martirológio Romano. O que foi confirmado por sucessivos pontífices em diversos documentos. 

Em setembro de 1929, o Papa Pio XI declarou Santa Rosa de Viterbo padroeira da Juventude Feminina da Ação Católica Italiana. No Brasil, ela é a Padroeira dos Jovens Franciscanos Seculares. Santa Rosa de Viterbo é festejada atualmente no dia de sua morte, 6 de março.

A devoção à santa chegou ao Brasil, onde uma cidade do interior de São Paulo tomou seu nome.

Nos anos de 1921, 1962 e 1995, seu corpo incorrupto foi sujeito a um reconhecimento canônico.

No ano de 1921, por ordem do Papa Pio XI, foi feito reconhecimento interno do corpo da santa, quando se constatou o ótimo estado de órgãos, particularmente o coração que, íntegro, mas reduzido em tamanho, foi extraído e posto num relicário doado pelo mesmo Pontífice.

Já vimos que no reconhecimento canônico de 1995 foi constatado que Rosa sofria de severa moléstia, a qual deveria ter-lhe causado a morte pouco depois de nascer.2

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Notas:

1. Cfr. https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_de_Viterbo

2. Outras obras utilizadas:

https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/03/06/s–rosa-de-viterbo–virgem-franciscana.html

https://franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/santa-rosa-de-viterbo/#gsc.tab=0

https://santo.cancaonova.com/santo/santa-rosa-de-viterbo/

https://www.santiebeati.it/dettaglio/34450