UCRÂNIA: história de uma Igreja mártir (1/3)

Catedral de São Jorge em Lviv

Devido ao tema que volta a ter suma atualidade, reproduzimos matéria redigida originalmente em 1977, publicada na Revista da TFP americana “Cruzade” e também no site
https://www.atfp.it/notizie/305-chiesa/2190-ucraina-storia-di-una-chiesa-martire.

A tradução é do portal português “Dies Irae”:
https://www.diesirae.pt/2022/03/ucrania-historia-de-uma-igreja-martir-13.html

A 23 de Dezembro de 1595, acompanhado pela Corte Pontifícia, pelo Corpo Diplomático e pelos trinta e três cardeais presentes em Roma, o Papa Clemente VIII dirigiu-se à Sala de Constantino do Palácio Apostólico para acolher a definitiva reunião dos fiéis ucranianos com a Igreja Católica Romana. No dia seguinte, os bispos uniatas[1] participaram nas celebrações de Natal na Basílica de São Pedro. Alguns meses mais tarde, a 10 de Outubro de 1596, na Igreja de São Nicolau, em Brest, a união foi sancionada pelo Metropolita de Kiev-Aliche, que tinha jurisdição sobre toda a Ucrânia e a Bielorrússia.

As origens da Rússia católica          

Os contactos entre Roma e os ucranianos eram antigos. Olga, Grã-Princesa de Kiev, tinha sido baptizada, em Constantinopla, em 955. O seu neto, Vladimir, o Grande, Príncipe de Novogárdia, Grão-Príncipe de Kiev e Chefe da Rússia de Kiev, também se converteu à fé católica romana em 988 e quis manter relações estreitas com o Papado, apesar da oposição dos gregos. Hoje em dia, ambos são venerados como santos.        

Em 1075, pouco depois do Cisma do Oriente, o Grão-Príncipe Iziaslau I tornou-se o primeiro “Rei da Rus”, com o apoio de Henrique IV, Imperador do Sacro Império, e do Papa S. Gregório VII, que lhe enviou uma coroa. Mais tarde, em meados do século XIII, os príncipes ucranianos Daniel e Vasylko recorreram à Santa Sé para obter apoio contra as invasões tártaras. Em resposta, a Santa Sé proclamou uma cruzada contra os tártaros, que, no entanto, não se chegou a concretizar. Porém, o Papa enviou missionários, alguns dos quais foram até à corte do Grão-Cã. Apesar do facto de o Oriente já ter caído no cisma, aquela que ficaria conhecida como Ucrânia insistia em manter relações com Roma.    

Em 1253, o legado pontifício coroou Danilo da Galícia, também conhecido como “Daniel da Rus”, como primeiro Rei da Ruténia. Lemos na acta da coroação: «Coroamos-te com a coroa de Deus, da Santa Igreja Católica, dos Santos Apóstolos, de São Pedro e do Papa Inocêncio». Todos estes factos apontavam para a reunião da Igreja ucraniana com Roma, desejada por muitos, como testemunhava um bispo ucraniano que participou, em 1245, no Concílio de Lyon.   

Infelizmente, o Cisma do Ocidente e o subsequente declínio do Papado atrasaram este processo. A união de Brest viria a realizar-se só em 1596. Em 1646, houve uma segunda união, a de Uzhhorod, envolvendo principalmente o clero da região dos Cárpatos. Embora sob a protecção do Sacro Império Romano, o clero ucraniano foi autorizado a conservar intacta a liturgia bizantina. Assim, formaram-se as dioceses católicas bizantinas de Uzhorod e de Mukachevo.     

A perseguição cismática      

Os líderes do chamado cisma ortodoxo, especialmente os de Constantinopla, desencadearam uma verdadeira perseguição contra qualquer tentativa de se reunirem com Roma. O seu ódio centrou-se na figura do grande São Josafat, Arcebispo de Polock. Rezando dia e noite com espírito de mortificação e de penitência, dedicou a sua vida a converter os cismáticos. Depois de escapar a várias emboscadas, foi por fim morto em Vitebsk, na Bielorrússia, a 12 de Novembro de 1623. Cravado de balas, com o crânio esmagado com um machado, foi atirado para o rio Duína. As crónicas relatam que o seu corpo, resplandecente de luz, flutuou até à superfície e foi recuperado pelos fiéis. Foi beatificado pelo Papa Urbano VIII e canonizado, em 1867, por Pio IX. Após um período em Viena, os seus restos mortais foram trasladados para a Basílica de São Pedro, no Vaticano, onde ainda repousam.        

Não obstante a variável e difícil situação política, a Igreja Católica Ucraniana continuou a desenvolver-se. Escreve o historiador Valentyn Yakovych Moroz: «A Igreja uniata penetrou no corpo vivo da espiritualidade ucraniana até adquirir um carácter nacional», espalhando-se, assim, por todo o País.   

Um tesouro da alma ucraniana é, sem dúvida, a devoção a Nossa Senhora. Os especialistas em espiritualidade católica oriental atestam o facto de que a devoção a Maria Santíssima tem uma particular importância na Ucrânia. Foi mesmo declarado: «A Mariologia e a devoção mariana atingiram na Ucrânia um ápice não superado em nenhuma outra parte do mundo»[2].   

A perseguição contra o catolicismo na Ucrânia continuou com os czares da dinastia Romanov, que transferiram a capital de Kiev para Moscovo e, depois, para São Petersburgo. A perseguição intensificou-se sob Pedro I, provocando milhares de vítimas. Pedro era chamado “Martelo da Igreja Católica Ucraniana” e gabava-se de ter matado dois sacerdotes da Ordem de São Basílio com as próprias mãos. Em 1721, ordenou a liquidação da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Pouco depois, com a força militar, Catarina II forçou oito dos doze milhões de católicos ucranianos a juntarem-se à igreja ortodoxa russa. As expedições militares contra a Ucrânia, como a de 1826 por Nicolau I, tornaram-se um elemento da política externa russa. Em 1839, a Sé Metropolitana de Kiev e as Eparquias da Bielorrússia e da Ucrânia foram suprimidas. Mais uma vez, houve milhares de mártires e de confessores da fé entre os sacerdotes e os leigos que resistiam. Em 1875, Alexandre II suprimiu a Diocese de Kholm, a última diocese greco-católica ainda existente no Império Russo[3].    

Durante a Primeira Guerra Mundial, as tropas russas invadiram a Ucrânia ocidental e “aboliram” a União de Brest. Também puseram o Conde Andrei Sheptytsky, Metropolita de Kiev-Aliche, na prisão. Com a retirada dos russos em 1915, o prelado pôde regressar à sua Sé[4]. O pior, porém, ainda estava para vir. Em 1917, tomou o poder na Rússia o pior inimigo da Civilização Cristã: o comunismo.       

O período comunista

A partir deste momento, o destino do catolicismo na Ucrânia entrelaçou-se com a história do comunismo, e também com a da Ostpolitik vaticana, adquirindo, assim, um significado universal.

No final da Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia ocidental, com a sua grande população católica, passou a estar sob o controlo da Polónia. Aí a situação permaneceu tranquila. Do sector oriental, sob o domínio da Rússia comunista, porém, começaram a chegar notícias terríveis: estava em curso um drama humanitário. Depois da derrota dos Russos Brancos na guerra civil, o Estado bolchevique tinha iniciado uma campanha de extermínio dos anticomunistas. Começou também o processo de colectivização das propriedades rurais. Face à resistência dos pequenos proprietários ucranianos, Moscovo enviou o Exército Vermelho para confiscar a produção agrícola e as cabeças de gado, deixando a população na impossibilidade de se alimentar. Seguiu-se uma fome – totalmente induzida, uma vez que as culturas eram abundantes, mas foram ipso facto confiscadas e levadas embora – que provocou a morte de dezenas de milhares de pessoas. Em Kherson, por exemplo, morreu 85% da população[5]. Ao fazê-lo, Lenine pretendia apagar qualquer ligação à propriedade privada, o “pecado original” segundo a ideologia marxista. No início dos anos trinta, as necessidades políticas do comunismo levaram Estaline a provocar uma nova fome artificial, indescritivelmente pior do que a precedente. O número de mortos foi calculado em mais de sete milhões. Aldeias inteiras desapareceram e a Ucrânia encheu-se de campos de concentração. Foi um dos mais terríveis holocaustos da história, conhecido hoje como Holodomor (assassinato em massa por fome)[6].

Em 1933, Mons. Sheptytsky, Metropolita de Kiev-Aliche, dirigiu ao mundo um apelo que ficará na história: «Já estamos a ver as consequências do regime comunista: a cada dia que passa a situação torna-se mais assustadora. A visão destes crimes horroriza a natureza humana e gela o sangue. Não sendo capazes de trazer ajuda material aos nossos irmãos e irmãs moribundos, imploramos aos fiéis que assaltem o Céu com orações, jejuns, penitências e obras de misericórdia. Protestemos perante o mundo inteiro contra a perseguição das crianças, dos pobres, dos doentes e dos inocentes. Processemos os perseguidores perante o Tribunal de Deus Omnipotente. O sangue dos camponeses famintos que lavram o solo da Ucrânia clama por vingança aos olhos de Deus. O lamento dos nossos irmãos moribundos chega ao Céu»[7].        

Como resposta sardónica, os comunistas construíram um arco do triunfo em Kirovohrad com as palavras: «Estamos a entrar na primeira fase do comunismo, o socialismo». Em redor do arco jaziam dezenas de cadáveres emaciados: era o preço do socialismo[8]

O perverso pacto nazi-comunista   

Na cidade de Brest, onde em 1856 os uniatas haviam regressado ao seio da Igreja, os soviéticos assinaram, em 1939, um pacto de colaboração com os nazis, conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop. As duas ditaduras tinham acordado a divisão da Polónia. Como resultado, os tanques soviéticos ocuparam a Ucrânia ocidental, a zona com a mais forte presença católica. Prevendo tempos difíceis, o Metropolita Sheptytsky escolheu um brilhante sucessor, Mons. Josyp Slipyj, consagrando-o secretamente Bispo Coadjutor de Lviv com direito à sucessão. Era o dia 21 de Dezembro de 1939. Ao início, os comunistas russos evitaram um confronto frontal com os católicos, por medo do povo, mas começaram a confiscar as propriedades da Igreja e a impor restrições.

Entretanto, excogitaram uma forma para destruir a Igreja Católica, servindo-se da igreja ortodoxa russa de Moscovo (IOR). Desta forma, tentaram dar o aspecto de uma disputa religiosa (católicos gregos versus ortodoxos) àquilo que era, na realidade, uma tentativa política de suprimir a Igreja Católica.   

Desde que Estaline tinha reconstituído a hierarquia da IOR, esta tinha-se tornado um dócil e útil instrumento nas mãos da ditadura soviética. Em 1927, Sérgio, metropolita de Moscovo, tinha redigido uma declaração de obediência ao regime bolchevique. Em 1928, declarou: «As alegrias e as vitórias da União Soviética são também as nossas alegrias e as nossas vitórias». Num livro publicado em 1942, afirmou: «Nunca ninguém foi perseguido na União Soviética por causa da sua religião». Em 1943, Estaline recompensou-o, reconstituindo na sua pessoa o “Patriarcado” de Moscovo, que se tornou uma espécie de Ministério da Religião do regime comunista soviético[9].            

Através de Tradizione, Famiglia, Proprietà (originalmente escrito em 1977)     

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[1] Termo, originalmente pejorativo, que os ortodoxos cismáticos russos utilizam para se referirem aos cristãos orientais que procuraram sempre manter-se unidos à Sé Apostólica [n.d.r.].

[2] Miroslav Labunka e Leonid Rudnytzky, The Ukrainian Catholic Church: 1945-1975, St. Sophia Assoc., Philadelphia, 1976, pp. 120-122.

[3]Ludwig Pastor, Historia de los Papas desde fines de la Edad Media, Gidi S.A., Buenos Aires 1958, vol. XVI, pp. 351-355.

[4] Analecta OSBM, First Victims of Communism, Rome 1950, pp. 2-5.

[5] ABN Magazine, Munique, vol. XXIV, n. 2, Abril de 1973.

[6] Ethnocide of Ukrainians in the USSR, Smoloskyp, Baltimore, 1976. Estudo baseado em The Ukrainian Herald, nn. 7-8, pp. 45-63.

[7] Ibid., pp. 14-16.

[8] Ibid., p. 47.

[9] Ulisse Floridi, S.J., The Role of Ukraine in Recent Soviet-Vatican Diplomacy, Thomas Bird Co., New York 1972, pp. 63-69. Colocamos “Patriarcado” entre aspas porque não criado pela legítima autoridade.