
- Paulo Henrique Américo de Araújo
Era um ensolarado fim de tarde quando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira passou pela cidade de Corumbá de Goiás, no último mês de janeiro. Conserva-se ali a pitoresca arquitetura colonial do século XVIII, especialmente exibida na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. É costume dos caravanistas visitarem as igrejas enquanto a campanha vai percorrendo as ruas. Então, junto com eles, entrei na singela matriz [Foto].

No meio da quietude que dominava o recinto, os fiéis que ali se encontravam nos olharam com certa inquietação. “Quem são esses que vêm nos perturbar?”, provavelmente pensaram. Sua atenção tinha sido momentaneamente desviada do Santíssimo Sacramento, exposto para a adoração num magnífico ostensório dourado. Logo, porém, tranquilizaram-se, pois perceberam que também viéramos para rezar e adorar o Divino Redentor na Eucaristia.
A cena de fiéis adoradores do Santíssimo não é rara nas incontáveis igrejas visitadas pelos caravanistas por todas as partes do Brasil. Será isso mais um reflexo do chamado “ressurgimento católico”? Talvez sim. Se somos verdadeiros católicos, devemos nos regozijar com o incremento da devoção ao Sacramento do altar, fundamento de nossa santa Religião.
Mas há gente que pensa de modo diverso. Sim, há (falsos) católicos por aí reclamando dessa tendência. Curiosamente, a indignação dos críticos prova o crescimento da devoção a Jesus velado na Santa Hóstia.
Libertários marxistas infiltrados na Santa Igreja

Guillermo Jesús Kowalski, teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca, em recente artigo para o site Religión Digital, escancara sua “inconformidade” com esses católicos que passam horas e horas “apenas rezando”![1] Com o título sugestivo “O sequestro do Santíssimo Sacramento”, o autor inverte toda a história. Para ele, a adoração à Eucaristia, inserida no movimento de “incremento da fé”, na verdade se revela como “regressão espiritual”.
Afirma o dito teólogo que os crentes que sublinham o dogma da Presença Real de Cristo na Eucaristia, com suas adorações frequentes, acabam por utilizá-lo “indiscriminadamente, superficialmente e para servir a uma espiritualidade privatizada que pouco tem a ver com o Evangelho”.
Não é difícil prever para onde caminha o raciocínio do articulista: a velha e decrépita teologia da libertação, que insiste, à náusea, na práxis, na ação concreta pela realização do “Reino”. Nessas categorias marxistas disfarçadas de religião, a ênfase na adoração ao Santíssimo se torna quase perda de tempo.
Ressalto o seguinte trecho no qual o Sr. Kowalski ousa trazer em sua defesa o belíssimo hino à Eucaristia, composto por São Tomás de Aquino:
“Recordemos o Adoro Te Devote: ‘At hic latet simul et humanitas’; ‘Mas aqui também se esconde a Humanidade’, não apenas Deus, não apenas a Transcendência, mas a humanidade encarnada e em solidariedade com todos os seres humanos. Especialmente aqueles que são tratados ‘desumanamente’, os crucificados do mundo, associados pelo Senhor à Cruz.”
Assim, passar tanto tempo diante do Senhor Sacramentado significaria focalizar demais a divindade de Cristo, afastando sua “humanidade”. E qual o resultado, segundo o mesmo articulista? O abandono da “evangelização” (libertária, bem entendido) e uma prática religiosa “socialmente irrelevante”.
Vai ao cúmulo de dizer que os adoradores assim formam um “grupo social privilegiado”. Preste atenção, leitor: aqui vem uma das maiores incoerências da teologia da libertação. Se o pobre (no sentido financeiro da palavra) está ali diante do Santíssimo, na sua prece filial e sem revolta, esse pobre também é um “privilegiado social”![2] Ele “adora intensamente, mas se compromete pouco!”. Adora, segundo o teólogo, um “Deus que não se interessa pelos pobres”.
Os libertários marxistas infiltrados na Santa Igreja desprezam esse “pobre não engajado”. Continua o articulista:
“Assim se cria uma religião que não questiona a realidade, não desafia estruturas injustas e não incomoda ninguém. Uma religião perfeitamente compatível com a vida confortável daqueles que frequentam esses encontros, uma religião que se esquece de um mundo ferido por injustiças sistêmicas.”
Sentindo talvez que suas palavras poderiam causar estranheza a ouvidos pios, o teólogo vem com justificativas vazias e desvios incoerentes para sua desacreditada “teologia” e faz-se de vítima. Os adoradores do Santíssimo, contra os quais ele despeja sua fúria, “tendem a descartar aqueles que falam de justiça social, desigualdade ou pobreza estrutural como suspeitos de ‘comunismo’ ou ‘teologia da libertação’”.
Note-se que, para o articulista, tal “teologia” nunca teria sido condenada pela Igreja. Mas ficou nos devendo, ao menos no artigo em tela, as provas dessa sua alegação.[3]
Seguindo a lógica deletéria do Sr. Kowalski, grandes obras de devoção eucarística como a da adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento, criada por São Pedro Julião Eymard, seriam perda de tempo! As seculares Ordens religiosas dedicadas apenas à oração e à vida interior seriam infantilidades. A vida de Santa Terezinha do Menino Jesus teria sido inútil.
Talvez o teólogo tente escapar dessas conclusões funestas, afirmando que ele se referia apenas aos leigos, fiéis católicos que se dedicam à adoração insistente à Eucaristia. Será válida a possível escapatória?

A Alma de todo apostolado
A base da verdadeira “evangelização”, isto é, do apostolado realmente católico, é a vida interior, na qual se destaca o amor e a devoção sincera ao Santíssimo Sacramento do altar. Nunca as horas de piedosa adoração podem ser infrutíferas ou postas em oposição à ação apostólica. Na sua famosa obra A Alma de todo apostolado, Dom Jean-Baptiste Chautard demonstra claramente essa tese. Os católicos leigos que se dedicam assiduamente à oração diante do Santíssimo encontrarão forças renovadas para o apostolado. Apostolado esse conduzido à difusão da doutrina perene da Santa Igreja, à conversão sincera, ao amor à Cruz, ao arrependimento dos pecados, enfim, à defesa da civilização cristã.
Esse tipo de apostolado está muito longe do ridículo e decadente “engajamento social” propalado pelos marxistas disfarçados, os teólogos da libertação. Aliás, esses discípulos de Marx rejeitam em absoluto o verdadeiro apostolado católico.
Poupo o leitor de mais disparates contidos no artigo e concluo com outra consideração.
Em recente visita a Viena, capital da Áustria, presenciei a seguinte cena, que traz consigo uma simbologia expressiva sobre a divergência doutrinária descrita acima [Foto]. Os portais da imponente Igreja de São Carlos Borromeu se abrem. O sacerdote, acompanhado por dois acólitos que tocam sinetas, surge trazendo um grande ostensório, com a hóstia branca no centro. Voltado para a praça diante da igreja, o padre dá a benção com o Santíssimo. Os transeuntes reagem: uns se ajoelham e fazem o sinal da cruz, como eu; outros viram a face com repulsa, e outros ainda, os indiferentes, fingem não perceber o ato. A cena se repete ali, todos os dias ao fim da tarde, desde os tempos dos lockdowns, durante a pandemia do COVID.
Não há como evitar a impressão de um grande Rei que
vem para salvar seu povo e derrotar seus inimigos. O Estandarte do Rei vai
adiante, diz o hino Vexilla Regis[4]. No caso, temos aí
Cristo Sacramentado e triunfante que se apresenta primeiro aos seus adoradores
e também aos seus adversários, dentre os quais possíveis teólogos da libertação.
Jesus-hóstia como que se prontifica para a ação, para o apostolado! É a batalha
do Santíssimo Sacramento que percorre os séculos, reafirma-se nos nossos dias e
durará até o fim dos tempos.
[1]O artigo foi traduzido para o português em: https://www.ihu.unisinos.br/663958-o-sequestro-do-santissimo-sacramento-artigo-de-guillermo-jesus-kowalski
[2] Cfr. Teologia da Libertação: um salva-vidas de chumbo para os pobres, Julio Loredo de Izcue, Editora Petrus, São Paulo, 2016.
[3]De fato, a teologia da libertação de cunho marxista foi condenada pela Igreja no documento Libertatis Nuntius (1984).
[4]O hino é tradicionalmente cantado na liturgia da Sexta-feira Santa, quando o Santíssimo é transportado para o altar.