
- Plinio Maria Solimeo
Para o comum dos brasileiros ouvir falar da Vandéia, na França, pode não significar nada. Porém, para aqueles que têm uma certa cultura histórica, Vandéia evoca uma epopeia na qual nobres e camponeses católicos lutaram contra a satânica Revolução Francesa em defesa do Altar e do Trono.
Como será de utilidade para os primeiros e um “aide-mémoire” para os segundos, daremos sucintamente alguns dados sobre essa Revolução que marcou para sempre a História da Humanidade.
A Revolução Francesa foi um período entre 1789 e 1799 de intensa agitação política e social insufladas por agitadores anônimos e líderes carismáticos, muitas vezes ligados a lojas maçônicas, com o intuito de destruir na França o que ainda restava da Civilização Cristã hierárquica e sacral — Igreja, Monarquia e restos de sociedade ainda feudal (80% de sua economia era agrícola) — para instalar um regime ateu, nivelador, igualitário, sob o comando de um Poder Público que, suspensa toda a ordem jurídica, dispõe a seu talante de todos os direitos.

Em nome dos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entendidos num sentido inteiramente revolucionário, a Revolução proscreveu a Igreja Católica, derrubou a monarquia, executou o rei, a rainha e muitos nobres, e aboliu privilégios e títulos nobiliárquicos vigentes havia séculos.
No período conhecido como Terror, uma ambígua “lei dos suspeitos” permitia prender qualquer pessoa com base numa simples denúncia anônima. Desse modo milhares delas de todos os níveis sociais, sobretudo sacerdotes e membros da nobreza, foram aprisionadas e executadas sumariamente sem julgamento na guilhotina ou massacradas selvagemente por energúmenos que invadiam as prisões. Estima-se que mais de 500 mil pessoas foram executadas na guilhotina ou morreram afogadas nos célebres “afogamentos de Nantes”.
Em sua política de descristianizar o povo, numerosas igrejas, incluindo a catedral de Notre Dame, em Paris, foram rebatizadas como “Templos da Razão” em que, nas festas cívicas uma mulher de má vida encarnava a deusa Razão que, sobre um altar, recebia homenagens dos “sans culottes” revolucionários. Contudo, como isso encontrou muita resistência da população católica, foi substituído pelo culto de um “Ser Supremo” vago e panteísta.

Levanta-se a Vandéia
Quando os revolucionários atacaram o Altar e o Trono, em diversas regiões da França muitos se levantaram em armas para defende-los, sobretudo na Vandéia.
O Cardeal africano Sarah assim descreve o sucedido:

“Quando a Revolução quis privar os vandeanos de seus sacerdotes [e de seu rei], todo um povo se sublevou. Diante dos canhões, estes pobres só tinham seus bastões! Frente aos fuzis, só possuíam foices! Frente ao ódio das colunas infernais, só apresentavam seu rosário, sua oração e o Sagrado Coração bordado em seu peito! […] Com seu sacrifício, [os vandeanos] impediram que a ideologia se erigisse em mestra. Graças a eles, a Revolução teve que tirar a máscara e revelar seu rosto de ódio à Deus e à fé”[i].
A população da Vandéia era fortemente católica devido à pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), que promoveu de modo particular o culto mariano e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus na região, tornando-se esse adorável Coração, como disse o Cardal Sarah, o símbolo posteriormente usado pelo vandeanos insurgentes em seus peitos.
A reação temerária e inteiramente desproporcional desse punhado de nobres e camponeses, suscitou um ódio verdadeiramente satânico nos revolucionários.
O historiador Jean Marc Bastière assim descreve no “Figaro Magazine” a reação de alguns desses energúmenos e a sua sanha na implacável perseguição que deslanchavam contra os insurgentes da Vandéia:
“Destruam a Vandéia!” (Barrère, julho de 1793); “A Vandéia deverá ser um cemitério nacional” (Turreau); “Serão todos exterminados” (Carrier); “Essa é uma gente maldita” (Lequinio). De fato, diz o historiador, “a população vandeana foi objeto de um inaudito empenho de extermínio. Prisões, campos de prisioneiros a céu aberto e barcos-prisões afundados tornaram-se leitos mortuários. No afã de acelerar os processos, recorria-se à guilhotina, aos fuzilamentos em massa e aos afogamentos. Mulheres e meninos não escaparam à carnificina. Os próprios revolucionários relataram as piores atrocidades. Do total de uma população calculada em 815.000 pessoas, a incursão republicana na Vandéia matou 117.000 habitantes — decorrência de uma “chacina populacional” cujos métodos inspirariam, no século XX, figuras como Lenine e Pol Pot”[ii].
Les Sables-d’Ollone – uma exceção na Vandéia
A Vandéia, que faz parte da região Pays de la Loire, é formada por vários Departamentos, tendo La Roche-sur-Yon como capital, e duas subprefeituras, Les Sables-d’Ollone e Fontenay-le-Comte. É de Les Sables-d’Olonne que vamos nos ocupar.
Durante o levante de quase toda a Vandéia contra a Revolução, Les Sables-d’Ollone foi uma exceção. Essa cidade marítima não se aliou aos insurgentes, mas aos revolucionários, liderados por uma elite burguesa formada de negociantes e armadores dedicados ao comércio e à pesca. Pensando somente em seus interesses sobretudo econômicos e por um desejo de receber benesses do Poder Central, a ele se submeteram traindo seus conterrâneos.
Atacada duas vezes pelos vandeanos, Les Sables-d’Ollone pediu socorro às tropas republicanas estacionadas na cidade.
Na cidade foi instalada uma guilhotina na qual dezenas de opositores do regime foram executadas. E a principal igreja de Les Sables-d’Ollone, dedicada a Nossa Senhora do Bom Porto, foi transformada em templo da “deusa Razão”.
É evidente que nem toda a população de Les Sables compartilhava as ideias revolucionárias. Quase metade de seus habitantes, como diz uma carta de 1782 escrita por um contemporâneo, “sem amar a nova ordem de coisas, no entanto a ela se submeteu com tranquilidade e sem murmúrio”.

São Charbel Makhlouf e a Ordem Maronita
Youssef Makhlouf nasceu no dia 8 de maio de 1828 na aldeia de Bigah-Kafra, situada a 1600 metros de altitude, a mais alta do Líbano. Quinto filho de uma família modesta, de fé sólida e piedade sincera que vivia da agricultura, aos três anos perdeu o pai e passou para a tutela do tio paterno, Tanios.
Aos 23 anos decidiu fugir de casa e se apresentar no mosteiro de Nossa Senhora de Mayfouq, da Ordem Maronita, na região de Byblos. Aí começou o noviciado, escolhendo o nome religioso de “Charbel”, em honra do santo do mesmo nome martirizado em Edessa no ano 107 de nossa era.
A Ordem Maronita de rito siríaco ocidental remonta a São Maron, no século VI. É a única das Igrejas de rito oriental que sempre esteve em comunhão com Roma. Sua Sé Patriarcal fica em Bkerké, no Líbano.

Além de São Maron e São Charbel, os maronitas têm outros santos canonizados ou beatificados, como Santa Rafga Pietra Choboq e São Nimatullah Kassab-Al-Hardini.
Em 1853, aos 25 anos de idade, Charbel pronunciou seus votos solenes e foi enviado para o mosteiro de São Cipriano, em Batroun, onde funcionava na época o Seminário Teológico da Ordem Libanesa Maronita. Aí foi aluno do futuro São Nimatullah Kassab Al-Hardini, tanto em teologia, quanto em santidade. Sempre dos primeiros alunos, após seis anos de estudos teológicos, Pe. Charbel foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1859 em Bekerké, sede patriarcal maronita.
Charbel Makhlouf voltou então para o mosteiro de São Maron de Annaya, onde deveria permanecer até o fim de sua vida. Lá ele exercia com muita edificação o múnus sacerdotal, encarregando-se também, por humildade, dos trabalhos manuais da comunidade. Logo começaram rumores de milagres operados por ele que, por brevidade, omitimos.
Depois de 16 anos de vida em comum, ele foi para o eremitério de São Pedro e São Paulo, pertencente ao próprio mosteiro, que se situava a 1.400 m de altura. Lá viveu 23 anos praticando uma obediência quase legendária, uma castidade angélica que transparecia em todo seu ser, uma pobreza na qual imitou os maiores Santos da Igreja e em contínua oração, entregou sua angélica alma a Deus no dia 24 de dezembro, vigília de Natal do ano 1898. Sua festividade litúrgica é celebrada nos dias 24 de julho.
Muitos milagres ocorreram por sua intercessão depois de sua morte. Limitamo-nos a descrever um que o Papa Pio XII descreveu no seu processo de beatificação:
“Após a sua morte, ocorre este extraordinário sinal deixado por Deus: seu corpo transpira sangue há já 79 anos, sempre que se lhe toca, e todos os que, doentes, tocam com um pedaço de pano suas vestes constantemente úmidas de sangue, alcançam alívio em suas doenças e não poucos até se veem curados”[iii].
Somente entre 22 de abril de 1950 e 25 de junho de 1955, foram registradas nos anais do Convento São Maron, 237 curas, muitas constatadas e confirmadas por médicos[iv]. Por isso Annaya ficou conhecida como a “Lourdes do Oriente”.

Relíquia de São Charbel Makhlouf na Vandéia
Qual, enfim, a relação entre Vandéia e São Charbel?
O site francês Breizh-info[v], no dia 14 de maio deste ano trouxe um artigo com o seguinte título: “Vandéia: uma relíquia de São Charbel inaugurada em Sables-d’Ollone, forte vínculo com os maronitas do Líbano”.
Sim, foi essa cidade de Les-Sables-d’Ollone que durante a Revolução se tornou um bastião revolucionário que, pouco mais de 200 anos depois, recebeu a relíquia do maior taumaturgo do século XX, São Charbel Mackhlouf!
Pois, comenta Breizh-info:
“Em 10 de maio de 2026, a igreja Notre-Dame-de-Bon-Port [Foto acima], em Les Sables d’Olonne, recebeu uma relíquia de São Charbel. Isso torna a região da Vandéia, e mais especificamente a Diocese de Luçon, a única a estabelecer um vínculo tão forte com os cristãos do Oriente, e particularmente com os maronitas libaneses”.
Qual é esse vínculo que liga Sables-d’Ollone com o Líbano? Explica o mesmo site:
“Desde 2022, sob o impulso da deputada Véronique Besse e com o apoio da Diocese de Luçon, existe a Associação de Solidariedade Vandéia-Líbano […] para manter laços com um país devastado pela guerra durante 50 anos, frequentemente noticiado devido ao conflito entre as Forças de Defesa de Israel e o Hezbollah”.
Embora não haja igreja maronita permanente em Sables d’Ollone, a comunidade maronita esteve na Vandéia por iniciativa da Obra do Oriente, que enviou a essa região uma delegação de cerca de 20 jovens libaneses do coro estudantil maronita de Toulouse que, no dia 8 de maio deu um concerto de hinos à Virgem Maria, cantados em árabe libanês, na igreja de Notre-Dame em La Roche-sur-Yon. E que, no dia 9 participou da missa no rito maronita na catedral de Luçon “pela paz no Líbano”. À noite, na mesma catedral, o coro de jovens deu um concerto que foi complementado peças de órgão do compositor libanês Nadji Hakim, naturalizado francês.
Finalmente, ao término da missa do Domingo da Páscoa, a paróquia de Les Sables d’Olonne, na presença da delegação maronita e do pároco, Padre Tanios Bteich, inaugurou na presença de uma delegação maronita, uma capela dedicada aos Cristãos do Oriente dentro da igreja Notre-Dame-de-Bon-Port, onde foi instalada uma relíquia de São Charbel, selando um vínculo espiritual entre o Líbano e a Vandéia.
“A transmissão ao vivo pelo canal libanês Télé Lumière permitiu que o povo libanês visse que muitos moradores da Vandéia ofereceram seu apoio moral durante esse período difícil”, conclui Breizh-info.
Para terminar, um fato digno de nota sobre a Diocese de Luçon — que teve como bispo o famoso Cardeal de Richelieu — que abrange toda a Vandéia e à qual Les Sables-de-l’Ollone pertencia durante a Revolução Francesa e continua pertencendo ainda hoje, durante a Revolução Francesa seu bispo legítimo, Carlos Isidoro de Mercy, recusou-se a jurar a cismática Constituição Civil do Clero em 1790, “porque violava a própria essência da religião católica em muitos pontos”. Tornando-se assim um bispo “refratário”, teve que fugir para o exílio, e sua sé foi declarada vacante.
[i]Cardeal Sarah, falando aos responsáveis pelo parque temático de Puy du Fou que, em um “son et lumière”, revivem a epopéia vandeana. http://www.religionenlibertad.com/sarah-denuncia-las-columnas-infernales-terrorismo-del-pensamiento-contra-58706.htm
[ii] “A face oculta da Revolução Francesa”, Le Figaro Magazine, 09/02/08
[iii]Pe. José Leite, S.J., Santos de cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo III, pp. 480-481.
[iv]Cfr. Mansour Challita, Charbel, Milagres no século XX, ACIGI, São Paulo, p. 53.
[v]https://www.breizh-info.com/2026/05/14/260022/vendee-une-relique-de-saint-charbel-inauguree-aux-sables-dolonne-lien-fort-avec-les-maronites-du-liban/